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III Parte: A escolha das narrativas de memória e seus aspectos fundamentais - família – infância – escola



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1.3 III Parte: A escolha das narrativas de memória e seus aspectos fundamentais - família – infância – escola

Nesta terceira parte, em parceria com os estudantes, realizamos a escolha das narrativas de memórias deles, que tratavam em suas escritas sobre assuntos diversos, mas com ênfase em temas geradores em torno da família, da infância e da escola, que abordarei aqui como uma introdução, situando a importância de tais assuntos para as crianças.

É no contexto familiar que recebemos nossas primeiras influências e conhecimentos e, por vezes, encontramos o apoio necessário, uns nos outros, para nossa subsistência e formação sociocultural. Portanto, a família, segundo (BOCK, 2002, p. 249):
Do ponto de vista do indivíduo e da cultura, é um grupo tão importante que, na sua ausência, dizemos que a criança ou o adolescente precisam de uma ‘família substituta’ ou devem ser abrigados em uma instituição que cumpra as funções materna e paterna, isto é, as funções de cuidado e de transmissão dos valores e normas culturais – condição para posterior participação na coletividade.

Pode-se observar uma diversidade de configurações familiares que a cultura das relações humanas vem produzindo, possibilitando a partilha e a cooperação entre os membros que a compõem, aliviando dificuldades e sacrifícios cotidianos. Podem existir várias relações, conhecimentos e diferentes práticas de vida, em que a criança encontra pontos de referência, motivação e, assim, formas de constituir sua identidade. Nesses contextos, a família é “matriz da trajetória social e da relação com essa trajetória, suas estratégias de transmissão de saberes, crenças e valores colocam-se como motivo de contendas e determinações” (LIMA, 2009, p. 83).

Nesse percurso das constituições das narrativas de memórias dos estudantes, foi visível a associação entre família-infância-escola, apresentando uma interconectividade em relação aos saberes adquiridos nas práticas sociais e aqueles aprendidos no espaço escolar, mas tendo como suporte as memórias, o ambiente familiar e os objetos que reportam intimidades familiares.

Nesse sentido (HALBWACHS, 1990, p. 157) cita que: “Nossa casa, nossos móveis e a maneira como são arrumados, todo o arranjo das peças em que vivemos, nos lembram nossa família e os amigos que vemos com frequência nesse contexto”.

Todas as interações acontecem por meio do uso de diferentes linguagens como elementos que permitem ao indivíduo agir e ter consciência das coisas. E, neste contexto, várias emoções são expostas, desejos, sonhos, fantasias, expectativas são expressas cotidianamente e dão sentido à vida. O homem, portanto, se define com todos os seus sentidos, que lhe permitem se sensibilizar, humanizar, considerando não apenas os cinco sentidos, mas os sentidos espirituais, como o amor, vontade, dentre outros, que lhe propiciam se expressar cotidianamente e buscar ser um indivíduo melhor a cada dia Bock (2002).

A criança aprende a compreensão pelos direitos e deveres se, em primeira instância, no contexto familiar, isso lhe é propiciado. É nesse ambiente que acontecem os primeiros aprendizados, os primeiros cuidados para seu crescimento e desenvolvimento físico, psíquico e social. Segundo Bock (2002), entre todos os grupos humanos, a família é a que desempenha um papel primordial na transmissão de cultura, portanto, ela reproduz, em seu contexto, a cultura que a criança internalizará e reproduzirá em sua vida diária. Dessa forma, um hábito cultural somente pode ser analisado a partir do sistema a que o indivíduo pertence Laraia, (1986).

Quando os estudantes narravam suas memórias de vida, eles se expressavam de diversas maneiras, demonstrando a compreensão do seu próprio texto, indo ao encontro de lembranças que percorriam o ato da fala, revelando tudo que perpassa o contexto da realidade vivenciada por eles e construindo sua intersubjetividade a partir dos conteúdos sociais e afetivos presentes numa realidade complexa e instável em que as palavras lhes remetem sobre a poética da infância.

A realidade apresentada por eles diz sobre paisagens, gestos, atos, palavras, imagens, ou seja, representa conhecimentos culturais presentes nas práticas de letramento. Portanto, o outro necessita “chegar a ser palavra”, iniciar-se num contexto verbal e semântico possível para se revelar. É preciso restaurar o espaço do sentido, devolvendo ao indivíduo o seu discurso e autoria da sua palavra e o lugar do seu desejo no confronto com a realidade. Quando os estudantes narram suas memórias, expressam através de suas lembranças a compreensão de mundo, constituindo seu texto, sua verdade, deixando revelar algo que se encontrava escondido, assim as lembranças podem ser comparadas a um filme.

Por isso, a escola deve ser associada ao contexto social, valorizar experiências, vivências reais, promover um diálogo entre os conhecimentos e ampliá-los, tornando-os significativo para os envolvidos no processo de aprendizagem. Considera-se que, através dos conhecimentos, que são narrativas de memória, o homem pode transformar a história vivida, modificá-la em seu contexto social, enfatizando que os conhecimentos são meras histórias repassadas e transformadas, na tecedura da memória, de tempos em tempos e transmitidas de geração para geração.

Procurei viabilizar no contexto educacional, em que estávamos inseridos, uma conexão entre corpo e espiritualidade/indivíduo e sociedade. Instiguei os estudantes à procurarem pelos conhecimentos de outras culturas e de valores. Através da escola, pode-se “humanizar” a educação, superando valores tradicionais especializados na mera transmissão de conteúdos para um ensino que considere a espiritualidade, “a consciência humana, na atitude atual do homem com relação ao mundo e à sua compreensão de si mesmo e de seu lugar na ordem global da existência” (CAPRA, 2014, p. 367).

Foi no contexto da E. M. J. L. B., a partir de todos os exercícios realizados, buscando as constituições das narrativas de memórias, que ocorreram múltiplas discussões pertinentes a questões e conflitos de ordem social e cultural. Mantivemos, dessa maneira, uma rede social de relações, em diversos espaços e tempos, ou seja, na verdade, buscamos compreender que nós pertencemos ao universo, e essa experiência de pertencer pode tornar a nossa vida profundamente significativa, pois estamos conectados com toda a natureza Capra (2014) e assim surgem envolvimentos que possibilitam ações que constituem nossas lembranças, aprendizados e sua transmissão a outros de nossa espécie. “As redes sociais são, antes de tudo, redes de comunicação que envolvem a linguagem simbólica, restrições culturais, relações de poder e assim por diante” (CAPRA, 2014, p. 378).

Nessa perspectiva, quando os estudantes relataram suas memórias, apresentaram características por vezes fragmentadas, distorcidas, mas demonstraram estados passados de consciência, enfatizando a capacidade humana de armazenar informações para uso posterior. Manifestaram diversas realidades, verdades constituídas de acordo com a realidade individual, mantendo uma relação com o passado e com o presente sendo construído. Narrativas que possibilitaram perceber sentimentos de identidade e pertencimento.

Seguem abaixo algumas das narrativas de memórias de vida dos estudantes do 5º ano “A” do ensino fundamental:




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