Weslania evangelista de jesus


O leitor: apreciando leituras e narrando memórias de vida - uma arte de contar e recontar novas histórias



Baixar 3.86 Mb.
Página12/86
Encontro20.06.2021
Tamanho3.86 Mb.
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   86

O leitor: apreciando leituras e narrando memórias de vida - uma arte de contar e recontar novas histórias

Com o apoio da equipe gestora e pedagógica da E. M. J. L. B., que demonstrou interesse pelo desenvolvimento do estudo e assinou os respectivos termos de autorização para a sua realização, nos dias 24 e 25 de janeiro de 2019, busquei me encontrar com os responsáveis pelos estudantes da turma do 5º ano “A”. Nesse encontro expliquei aspectos relevantes sobre a pesquisa, como o horário em que aconteceria e que seu desenvolvimento não acarretaria nenhum custo financeiro aos responsáveis, bem como aos participantes, apresentei ainda alguns possíveis benefícios e possíveis riscos, considerando tudo como descrito nos termos TCLE e TALE.

Para a realização deste estudo qualitativo, obtive dezessete assinaturas, tanto dos responsáveis, quanto dos estudantes. Reitero que todos os estudantes da turma participaram dos exercícios propostos, pelo fato de a pesquisa em campo acontecer no período de aula, mas, para análise dos dados do estudo, por questões éticas, foram consideradas apenas as atividades dos autorizados.

Um dos primeiros desafios encontrados no decorrer da pesquisa foi envolver a turma com a leitura, de maneira descontraída e divertida, para que pudessem de fato apreciá-la, sem a obrigatoriedade de “ter que ler”, o que era uma queixa constante dos estudantes e os desestimulava. Pretendia que se sentissem envolvidos com livros, jornais, revistas em quadrinhos, dentre outros textos, de maneira a desenvolver o prazer pela leitura.

Anos atrás, como cita Oliveira (2012), os livros eram considerados objetos preciosos, mas poucos tinham acesso a eles, e com o passar dos anos foram transformados em produto de consumo e, em nome desse fenômeno, a formação de leitores passou a ser preocupação de várias áreas sociais e consequentemente uma reivindicação da sociedade.

Em cooperação com os estudantes da turma do 5º ano “A”, foram desenvolvidos momentos voltados à apreciação de diversas leituras, a fim de compreenderem e se apropriarem de conhecimentos científicos e culturais. O contato com as diversas leituras possibilitou aos participantes a imersão em outros contextos culturais, outras linguagens, permeando o mundo imaginário e aproximando-os de suas histórias reais, constituindo-se num exercício amplo, complexo e significativo em torno das provocações para que se lembrassem e sentissem o desejo de apresentar suas narrativas de memórias de vida, considerando que, quando há a interação, a lembrança emerge de maneira natural.

Ler é um ato político, e durante a leitura o leitor vai dando existência ao texto, acaba, por vezes, vivenciando o personagem, sua história e emoções, compreendendo assim as ações realizadas por ele, podendo perceber que os contextos das histórias e os personagens são diferentes, colaborando para a constituição e entendimento do princípio de diversidade e de democracia. Nesse contexto Machado (2001) afirma que as várias leituras, as muitas conversas com os amigos, que não sejam iguais à gente, contribuem para uma vida mais democrática e, portanto, significativa.

As leituras realizadas em sala de aula funcionaram como objetos ou como também é conhecido por diversos autores, na condição de objetos-suporte, a fim de constituir lembranças do participante rememorador. Ou seja, os textos, ao serem apreciados, dialogados com o coletivo da turma, eram associados às suas vivências, permitindo a eles recordarem lembranças vividas e posteriormente discuti-las. Conforme pondera Oliveira (2012, p. 104), “os objetos exteriores, ao afetarem as nossas sensações, evocam-nos lembranças que não são apenas nossas, mas que se relacionam com os outros que nos rodeiam”.

Aqui as leituras tiveram a funcionalidade de objetos-suporte, com a intencionalidade de que, ao ler, cada um desse um significado que se aproximasse de alguma memória vivida, pintando com seu discurso a estética de leitor, dando uma tonalidade diferente à leitura.

Pensando nisso, busquei demonstrar aos estudantes que os momentos de leituras não devem ser vistos como um dever, mas como um direito a todos os indivíduos, um direito democrático. Segundo Machado (2001), a leitura só é um dever quando se refere ao acesso, que deve ser garantido de maneira universal, oportunizando a sua apreciação, o contato e o manuseio de diversos livros e gêneros textuais, levando o indivíduo a ampliar seu repertório de leituras e conhecimentos.

Ao trazer e incentivar a apreciação de diversas leituras na sala de aula, foi preciso provocar nos estudantes diversas potencialidades, viabilizando o desenvolvimento de diversos aspectos, como o processo criativo, a imaginação, a oralidade, a leitura, a escrita, estimulando assim aspectos intelectuais e culturais, instigando-os a compreenderem as diferenças entre aquele que aprende a ler, meramente decodificar e codificar, daquele que tão somente lê para sobreviver em uma sociedade letrada – daquele leitor que lê por pura veneração.

Por meio das leituras realizadas, os participantes puderam ter o contato com culturas diferentes da sua, ampliando seus conhecimentos, buscando a valorização de grupos étnicos, culturais e religiosos, conhecendo a complexa realidade de diversos povos. Algumas das leituras selecionadas eram constituídas de textos referentes a memórias dos próprios autores, e histórias de povos que deixaram através do material escrito suas impressões, conhecimentos de seus pares, intersubjetividades que contribuíram significativamente como material didático-pedagógico, viabilizando o entrelaçamento entre os diferentes campos do conhecimento. Conforme cita Machado (2001, p. 25), ler:

Não significa apenas achar uma história divertida ou seguir as peripécias de um enredo empolgante e fácil – além dos prazeres sensoriais que compartimos com outras espécies, existe um prazer puramente humano, o de pensar, decifrar, argumentar, raciocinar, contestar, enfim: unir e confrontar ideias diversas.

Houve leituras diárias em diversos momentos e espaços no contexto escolar, de forma individual e coletiva, que a princípio não foram bem recebidas por todos, mas, com o passar dos dias, pude perceber que a turma de maneira geral começou a se interessar pelas leituras e a participar ativamente. Tal transformação me permitiu observar a complexa realidade em que o coletivo se encontrava e como a instabilidade das relações intersubjetivas colaborou para que ocorresse a mudança.

Vários livros, principalmente os da coleção do PNAIC, foram selecionados para leitura, também foram explorados livros de autoajuda e motivacionais, considerando as necessidades reais dos estudantes que emergiam no cenário a partir das narrativas de memórias, dentre vários outros materiais. As leituras selecionadas tinham como finalidade provocar, desafiar o leitor, no caso, os estudantes, a refletirem acerca de suas práticas de letramento, e emitirem opiniões diversas, construindo momentos de diálogos, que despertassem neles o hábito da leitura. Considero que a participação deles foi constante e significativa.

Pensando na democratização da leitura e no direito que todos têm ao acesso a ela, organizei diversos livros da coleção PNAIC, da própria escola, em um varal na sala de aula do 5º ano “A”, para que os estudantes pudessem manusear e até mesmo levar para suas casas, se possível diariamente, mas sem a obrigatoriedade de ter que levar, e ler para alguém em casa. Percebi que ao realizar o exercício as crianças tinham contato com diferentes leituras, apreciavam com calma o livro, observavam as ilustrações e incentivavam outras pessoas a desenvolverem o hábito da leitura.

Um fato interessante ocorrido durante os exercícios foram as produções escritas, de maneira espontânea, que muitos passaram a realizar a partir das leituras, e sentiam a necessidade de sempre contarem suas histórias produzidas em sala de aula para seus colegas e algumas chamavam a atenção por serem baseadas em fatos reais, como a história abaixo:

A menina rica

Júlia era uma menina muito mimada, queria que seu pai comprasse tudo que queria e seu pai comprava. Sua mãe Katarina era muito brava, Júlia não gostava muito dela.

No outro dia Júlia vai pra escola, ela é muito boa nas atividades. Ela não tem amigos porque ela é muito chata e exibida. Um dia a diretora chamou ela para conversar, a diretora falou para ela parar de ser exibida. Júlia não gostou muito da ideia, tempo depois Júlia chega na sua casa e sobe para seu quarto, Júlia acaba pensando em sua conversa com a diretora, até que ela parou de se achar exibida.

Todos acharam estranho, mas ela não percebeu e foi falar com a diretora. A diretora falou que era pra ela continuar assim.

Uma semana depois Júlia falou se eles queriam ser amigos dela, eles se assustaram e Júlia ficou muito triste, mas todos perceberam que ela ficou muito triste e gritaram “sim”. Ela deu um pulo de alegria e todos correram para abraçar ela. E eles ficaram melhores amigos até que ela comemorou esse dia tão especial, Júlia fez uma festa e chamou todos os seus amigos, todos eles dançaram, brincaram e tirou bastante fotos. Esse dia foi muito especial pra ela e pro seus amigos. Todos foram pra sua casa e Júlia pediu desculpas pro seu pai e ele ficou muito feliz.

Considero que para a formação do leitor é importante esse estímulo, ler diversas obras, variados textos e depois ter tempo para trocar ideias com os colegas, compartilhando suas escolhas, as impressões que tiveram a respeito das histórias lidas e daquelas produzidas, pois “o autor leitor prevê que o texto que produziu precisa de um leitor que preencha, completamente, construa seus sentidos” (OLIVEIRA, 2012, p. 21). Ou seja, o leitor é também autor, a história do leitor é considerada também a história da leitura. Contudo, a leitura tem poder transformador, há livros que marcam a história do leitor e promovem mudanças singulares na sua maneira de lembrar o passado, de viver o presente e buscar construir novas possibilidades diferentes daquelas já vividas.

As leituras realizadas, os livros lidos, desencadearam o processo rememorativo dos estudantes, deixando isso claro em suas produções textuais, mesmo que se baseassem em seu mundo imaginário, não deixavam de correlacionar com as experiências vividas. Sendo assim, as práticas rememoradas fazem parte das histórias lidas, que também ganharam outras versões, a partir da individualidade de cada narrador e suas experiências de vida, o que para Laraia (1986) é uma oportunidade para o homem de questionar seus próprios hábitos e modificá-los.

Tendo a escola como espaço para práticas de leitura, ela passa a ser responsável pela formação do leitor, mas não a única. Como professora, observadora e participante da pesquisa, me atentei para o ato de observar, pensar e analisar todos os exercícios propostos referentes às leituras e quais seriam realizadas durante o percurso, na tentativa de estimular os estudantes à apreciação de leituras de gêneros diversos.

Nessa perspectiva, busquei instigá-los para que ampliassem o foco acerca de seus hábitos de leitura, visando construir significados para os exercícios, para suas novas leituras, considerando que cada texto ou livro lido poderia representar subjetividades diversas e se interligar, pois cada um, ao ler, trazia à tona também diversos conhecimentos de suas vivências, o que ficou visível nas produções textuais e nos discursos cheios de significados.

Para a ampliação de minhas práticas didáticas em sala de aula, aprofundei o estudo sobre a abordagem sistêmica de ensino, conforme proposta por Vasconcellos (2013), visando compreender os três alicerces que a sustentam, complexidade, instabilidade e intersubjetividade. Para tanto, cuidei para que as atividades primassem pelo envolvimento de todos, a fim de que fosse construída uma rede de relações interconectadas que se entrelaçassem durante o movimento dessas relações.

Pensar sistematicamente é refletir sobre a complexidade, a instabilidade e a intersubjetividade – todos se constituindo em conjunto, e é uma nova proposta paradigmática do pensamento científico que nos permite, como seres humanos – observadores – vivenciarmos a realidade, observando-a e analisando-a. A seguir irei descrever, resumidamente, sobre os três pressupostos que a autora aborda em seus estudos, a fim de explicar melhor o decorrer da trajetória deste estudo.






    1. Compartilhe com seus amigos:
1   ...   8   9   10   11   12   13   14   15   ...   86


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal