Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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campo  e  da  floresta  como  posição  assumida,  vinculada  ao  lugar  onde  essas  mulheres  se 

situam. Assim, busco compreender o processo de articulação entre as diferentes posições de 

sujeito. Nesse sentido, vale destacar que o uso da nomeação Mulher do campo e da floresta 

é  algo  recente.  Até  a  Marcha  de  2003,  as  mulheres  eram  nomeadas  como  mulheres 

trabalhadoras rurais. Assim, a partir da 3ª ação, a Marcha muda a categoria de referência ao 

seu sujeito político. A mudança foi uma reivindicação das mulheres extrativistas, que não se 

viam ali representadas, uma mudança acolhida sem maiores embates. Mesmo representando 

a Contag, a Comissão Nacional de Mulheres Trabalhadoras Rurais, no âmbito da Marcha, 

não reivindica a legitimidade da categoria “trabalhadoras rurais”, nem investe na criação de 

meios e espaços para reproduzi-la. Mulher do Campo e da Floresta é, portanto, uma categoria 

que  busca  unificar  as  diferentes  situações  experienciadas  pelas  mulheres,  apesar  de  ser 

comum a coexistência de diversas maneiras de denominação dos vários sujeitos políticos que 

se inserem na Marcha e constituem o seu sujeito político. 

Como  sublinha  Laclau  (1986,  p.  43-44),  para  entender  a  dinâmica  dos 

movimentos políticos contemporâneos, é sumamente importante entender os agentes sociais 

no interior de suas lutas como “uma pluralidade, dependente das diversas posições do sujeito 

por meio das quais é constituído dentro de diferentes formações discursivas. E entender que 

não  há  uma  relação  a  priori,  necessária,  entre  os  discursos  que  constroem  suas  diferentes 

posições  de  sujeito”,  embora  isso  não  signifique  que  inexistam  “esforços  constantes 

para  estabelecer  entre  elas  conexões  variáveis  e  historicamente  contingentes”,  conexões 

denominadas de “articulação”. 

10

 



Laclau & Mouffe (1987, p. 177) chamam de discurso, a totalidade estruturada 

que resulta da prática articulatória. Quando articuladas no discurso, as posições diferencias 

                                                 

10

 Para Laclau e Mouffe (1987, p. 113), o princípio da articulação está “en aceptar tanto la diversidad estructural 



de  las  diversas  relaciones  en  que  los  agentes  sociales  están  inmersos,  como  el  hecho  de  que  el  grado  de 

unificación que pueda existir entre las mismas no es la expresión de una esencia común subyacente, sino la 

resultante de una lucha y construcción políticas”. 



11 

 

são chamadas de momentos, e qualquer diferença que não esteja discursivamente articulada 



é chamada de elemento. Não se trata portanto de categorias fixas, dependendo do contexto, 

elemento pode vir a ser momento e modificar a estrutura do discurso.  

Seguindo essa linha analítica, compreendo a Marcha das Margaridas como uma 

prática  articulatória  que  faz  com  que  diferentes  elementos,  sejam  diferentes  grupos, 

diferentes  movimentos,  diferentes  “bandeiras  de  luta”  passem  a  agir  de  forma  conjunta, 

articulada, configurando-se num momento, estruturando um discurso em torno de um sujeito 

político nomeado  “mulheres do campo e da floresta”. Portanto, tal sujeito resulta  de uma 

articulação entre algumas posições específicas de sujeitos, e essa categoria, que serve para 

nomeá-lo, e em nome do qual se fala é, portanto, criação do próprio movimento engendrado 

pela Marcha. 

Entretanto, o sujeito político que resulta de tal prática articulatória é um sujeito-

em-processo,  em  construção.  Ele  não  pode  ser  definido  como  unidade,  mas  antes  pela 

instabilidade  (BUTLER,  2003;  KRISTEVA,  1977)

11

.  Efeito  de  discursos,  instituições  e 



práticas,  o  sujeito-em-processo,  segundo  Brah  (2011  [1996]),  a  qualquer  momento 

experimenta  a  si  mesmo  como  “unidade”,  desempenha  posições  em  que  está  situado  e 

investido, e lhes dá significado. Nesse momento, ele parece ser marcado por um senso de 

coerência e continuidade. 

Para essa autora, 

Pensar la formación del sujeto como procesos significa reformular la cuestión de 

la «agencia». El «Yo» y el «nosotros» que actúan no desaparecen, pero lo que sí 

desaparece  es  la  noción  de  que  estas  categorías  son  entidades  ya  existentes, 

unificadas y fijas, en lugar de modalidades de multi-posicionamiento marcadas de 

forma continua por  las prácticas políticas  y culturales del día a día (Brah, 2011 

[1996], p.145). 

                                                 

11

 Para Kristeva (1977), o sujeito é essencialmente movimento. Revisitando a teoria psicanalítica, ela argumenta 



que, no lugar do sujeito “unitário”, se  instala um sujeito-em-processo, no sentido mesmo de processo, de 

movimento, cuja representação é um espaço de mobilidade: “Le sujet unaire qu’a découvert la psychanalyse 

n’est  qu’un  moment,  une  phase  d’arrêt,  disons  une  stase,  excédée  par  le  mouvement  et  menacée  par  lui” 

(KRISTEVA, 1977, p. 56). O conceito é retomado por Butler (2003)quando propõe um sujeito-em-processo 

que é construído no discurso e pelos atos que performa.

 



12 

 

O  momento,  apesar  de  contingente,  acomoda,  dá  uma  ideia  de  unidade,  de 



estabilidade, mas o sujeito político que resulta de tal prática articulatória é um sujeito-em-

processo,  em  construção.  Ele  é  instável  e  contraditório,  mas  experimenta  ou  significa  o 



momento  como  identidade,  e  esta  entendida  como  “ese  proceso  a  traves  del  cual  la 

inestabilidad  y  la  contradiction  del  sujeto-en-proceso  se  significa  como  poseedora  de 

estabilidad y coherencia, como «nucleo» [...]” (BRAH, 2011 [1996], p. 180)

12

; no caso de 



agência  coletiva,  se  anuncia  como  um  “nós”,  conquanto  profundamente  marcada  por 

diferentes posições de sujeito político. 

Se refletirmos sobre o sujeito político nos remete à ideia de um sujeito coletivo, 

de um “nós”, como compreender e interpretar as mulheres em suas singularidades? Afinal, 

ser  uma  “margarida”  corresponde  a  situações  muito  heterogêneas,  e  cada  uma  dessas 

situações  está  relacionada  a  processos  sociais  diferentes,  ainda  que  as  “margaridas”  se 

articulem em torno da categoria “mulher”. 

Considerando, como Brah (2011 [1996], p. 152), a subjetividade

13

 como o modo 



em  que  a  natureza  precária  e  contraditória  do  sujeito-em-processo  se  significa  ou  se 

experimenta como identidade, tomo a Marcha das Margaridas também como um processo 

que concorre para a produção de subjetividades, ao mesmo tempo que é produzida objetiva 

e  subjetivamente.  Ressaltar  a  produção  da  subjetividade  das  “mulheres  em  marcha”  não 

significa  esquecer  o  modo  em  que  sua  condição  está  profundamente  caracterizada  por 

circunstâncias de privação material e simbólica, por processos de dominação e exploração, e 

por dinâmicas específicas de exclusão e estigmatização.  

Oriento o meu olhar sobre a Marcha a partir de uma perspectiva que coloca em 

diálogo  (e  negociação)  atores  de  dimensões  culturais  distintas,  mediante  os  quais  a 

                                                 

12

 Para Brah (2011, [1996]), p. 152), “as identidades estan marcadas por la multiplicidad de posiciones de sujeto 



que  constituyen  al  sujeto.  Por  lo  tanto,  la  identidad  no  es  fija  ni  una;  mas  bien  es  una  multiplicidad  de 

relaciones  en  constante  transformation.  Pero  en  el  curso  de  este  flujo,  las  identidades  asumen  patrones 

espetificos,  como  en  un  caleidoscopio,  al  trasluz  de  conjuntos  particulares  de  circunstancias  personales, 

sociales e historicas”.  

13

 Subjetividade definida como “el espacio donde se desarrollan los procesos que dotan de sentido a nuestra 



relación con el mundo” (ibidem). 


13 

 

construção de categorias identitárias ocorre como “fruto das experiências sociais e processos 



de trocas e interações intersubjetivas entre atores ou grupos sociais” (SCHERER-WARREN, 

1998,  p.  3).  Portanto,  é  necessário  buscar  o  entendimento  dos  contextos  intersticiais  que 

constituem  os  campos  identitários  nas  relações  e  nos  processos  interculturais  que  se 

desenvolvem  no  seu  interior.  Contextos  que  correspondem  ao  que  Bhabha  (2001,  p.  20) 

designa  como  “entre-lugares”,  ou  seja,  “momentos  ou  processos  que  são  produzidos  na 

articulação de diferenças culturais”. Ainda segundo esse mesmo autor, é na emergência dos 

interstícios  que  as  experiências  coletivas  (e  intersubjetivas),  o  interesse  comunitário  ou  o 

valor cultural são negociados. Assim, o espaço conformado pela Marcha das Margaridas pode 

ser percebido também como um “entre-lugar”: um espaço de negociação, contato, interação, 

diálogo e articulação onde diferentes grupos, de natureza político-cultural e social diversa, 

convivem  e  negociam  a  sua  existência;  um  espaço  fronteiriço,  situado  entre  as  várias 

designações de identidades. 

Nesse  sentido,  recorro  analiticamente  à  noção  de  experiência,  a  fim  de 

compreender o que é para as mulheres, sujeitos da pesquisa, estar na Marcha, fazer e ser parte 

dela; perceber como elas lidam com esse fazer em termos de experiências vividas, que é o 

que  as  constituem  como  sujeitos  –  afinal  os  sujeitos  são  constituídos  pela  experiência 

(SCOTT, 1999); compreender as múltiplas e heterogêneas formas em que elas expressam 

este  ser,  estar,  transitar,  significar;  e  a  maneira  como  elas  são  afetadas  por  essa 

experiência.

14

Afinal,  é  essa  trama  de  relações  e  experiências,  menos  visíveis,  que  tece  a 



Marcha e a torna possível.  

As mulheres, sujeitos da Marcha, a vivem como experiência social concreta. A 

experiência é o vivido, são os acontecimentos, as ações e, ao mesmo tempo, o sentido a elas 

atribuído (THOMPSON, 1981, p. 16). Como aponta De Lauretis (1984, p. 159), 

I should say from the outset that, by experience, I do not mean the mere registering 

of sensory data, or a purely mental (psychological) relation to objects and events, 

or the acquisition of skills and competences by accumulation or repeated exposure. 

I use the term not in the individualistic, idiosyncratic sense of something belonging 

to one exclusively her own even though others might have "similar" experiences; 

                                                 

14

 Sobre experiência na política, ver Quirós, 2010. 




14 

 

but  rather  in  the  general  sense  of  a  process  by  which,  for  all  social  beings, 



subjectivity is constructed. Through that process one places oneself or is placed in 

social reality, and so perceives and comprehends as subjective (referring to, even 

originating in, oneself) those relations – material, economic, and interpersonal – 

which  are  in  fact  social  and,  in  a  larger  perspective,  historical.  The  process  is 

continuous, its achievement unending or daily renewed. For each person, therefore, 

subjectivity  is an ongoing construction,  not a fixed point of departure or arrival 

from which one then interacts with the world. On the contrary, it is the effect of 

that interaction – which I call experience; and thus it is produced not by external 

ideas, values, or material causes, but by one´s personal, subjective, engagement in 

the practices, discourses, and institutions that lend significance (value, meaning, 

and affect) to the events of the world.

15

 



Explorar os sentidos da Marcha pelas mulheres implica restituir, na construção 

do dado, o seu caráter de experiência vivida, o seu fazer em experiência.  

As noções e conceitos até aqui expostos me fornecem o referencial para lidar com 

os temas que envolvem a constituição do sujeito político e as subjetividades. Mas os sujeitos 

aos quais me refiro se encontram situados no espaço conformado pela Marcha das Margaridas 

que, embora não corresponda, necessariamente, às definições de movimentos sociais típicos 

na análise sociológica, é movimento, ou pelo menos, como uma forma de ação, é uma “forma 

movimento”, para tomar de empréstimo o termo cunhado por Marcelo Rosa.

16

 Mais do que 



a  mera  reunião  de  mulheres  reivindicando  direitos,  a  Marcha  é  uma  forma  específica  de 

organização política, constituída por movimentos; compreende uma organização própria e 

aciona  um  determinado  tipo  de  repertório  de  ação  coletiva.  Ela  compreende  regras,  um 

vocabulário  específico  e  elementos  dotados  de  forte  simbolismo  como  lenços,  chapéus, 

bandeiras e outras simbologias específicas, tomados como seus marcos distintivos; configura 

                                                 

15

 “Devo dizer desde já que, por ‘experiência’, eu não me refiro ao mero registro de dados sensoriais ou a uma 



relação mental (psicológica) de objetos e eventos, ou ainda à aquisição de habilidades e competências pela 

acumulação ou exposição repetida. Eu uso o termo não no sentido individualista, idiossincrático, de algo que 

pertence exclusivamente a si próprio, embora outros possam ter experiências  ‘similares’, e sim no sentido 

geral,  de  um  processo  pelo  qual  para  todos  os  seres  sociais  a  subjetividade  é  construída.  Mediante  esse 

processo,  alguém  se  coloca  a  si  mesmo,  ou  é  colocado,  na  realidade  social,  e  assim  compreende  como 

subjetivas  essas  relações  –  materiais,  econômicas  e  interpessoais  –  que  são,  de  fato,  sociais  e,  numa 

perspectiva  mais  ampla,  históricas. O processo é contínuo, a sua realização é interminável e diariamente 

renovada. Para cada pessoa, portanto, a subjetividade é uma construção permanente, não um ponto fixo de 

partida ou de chegada a partir do qual, na sequência, interage com o mundo. Pelo contrário, é o efeito dessa 

interação – a qual eu chamo experiência; e, portanto, não é produzido por ideias externas, valores ou causas 

materiais,  mas por algo pessoal, subjetivo, engajado nas práticas, discursos e  instituições que emprestam 

significação (valor, significado e afeto) para os eventos do mundo” [tradução minha].  

16

 “Forma movimento” é a designação usada por Rosa (2009; 2011) para se referir às ocupações de terra como 



formas de ações utilizadas para iniciar processos específicos de conflitos de grupos rurais com o Estado. 


15 

 

uma  linguagem  social,  uma  forma  diferente  de  reivindicar  demandas  sociais  ao  Estado 



(Sigaud, 2000). Essa combinação de aspectos constitui uma forma específica de organização 

política: a Marcha das Margaridas. 

Para compreender a conexão entre eventos e sujeitos, os processos anteriores e 

os  agentes  que  contribuíram  para  o  surgimento  da  Marcha,  me  inspiro  no  conceito  de 

“figuração”  de  Norbert  Elias  (1994),  e  busco,  nas  condições  sociais  que  favoreceram  tal 

figuração,  o  aporte  para  entender  as  mudanças  que  produziram  essa  forma  movimento, 

entender,  enfim,  como  a  Marcha  se  tornou  possível,  como  as  relações  sociais  foram  se 

tecendo de modo a favorecer o seu surgimento. 

Para  pensar  o  processo  de  constituição  dos  sujeitos  políticos  no  espaço 

configurado pela Marcha das Margaridas, irei considerar o conceito de campo e de arena, tal 

como formulados por Swartz (1968). As duas noções, campo e arena, não se confundem com 

um  espaço  físico,  são  espaços  relacionais,  e  assim  leva  em consideração  os  atores  que  os 

constituem e a dinâmica entre eles. O autor demarca esses dois conceitos

17



A field is defined by “the interest and involvement of the participants” in the 

process  being  studied  and  its  contents  include  the  values,  meanings, 

resources,  and  relationships  employed  by these  participants  in  that  process. 

The  contents  and  the  organization,  as  well  as  the  membership,  of  the  field 

change  over time  as  new  participants  become involved;  former  participants 

disengage;  new resources,  rules,  meanings,  or values  are  brought to  bear  or 

old  ones  are  withdraw;  and  relations  within  the  field  change.  Given  the 

fluidity  and  the absence of  any  claim  to  being  all  inclusive,  it  seems  to  me 

that the value of the concept can be increased by defining a social and cultural 

area which is immediately adjacent to the field both in space and in time. […] 

a  social  and  cultural  space  around those  who  are  directly  involved  with the 

field  participants  but  are  not  themselves  directly  involved  in  the  processes 

that that define the field. […] The contents of this second space, which I will 

call  –  with  some  reluctance  –  the  “arena”,  depend  upon  relations  with 

participants  in  the  field,  but  it  includes  more  than  field.   In  addition  to  the 

actors  who  populate  it,  the  arena  also  contains  the  repertory  of  values, 

meanings, and resources these actors possess, together with the relationships 

among  them  and  with  the  member  of  the  field.  Values,  meanings,  and 

                                                 

17

 O conceito de campo de Swartz (1968) guarda muita semelhança com o de Turner (2008[1974],  p. 118), para 



quem  campo  político  se  define  como  “a  totalidade  de  relações  entre  atores  orientados  para  os  mesmos 

prêmios ou valores”, incluindo nas “relações” os “valores, significados e recursos”. Entretanto, em relação 

à noção de arena, o próprio Turner admite fazer uma utilização dela que difere em muito da de Swartz, e faz 

uma crítica a este último. Para Turner, a maneira como Swartz insere a noção de arena sugere que “aqueles 

que são ativos em um campo são inativos ou passivos em sua arena” (TURNER, (2008[1974], p. 120). 


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