Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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celestial. Depois decobri tratar-se de uma versão baseada no livro homônimo, publicado na Inglaterra, em 1678, 

pelo pastor batista John Bunyan. O filme era uma espécie de alegoria na qual ensinamentos biblícos eram tirados 

dos eventos narrados, como se fosse uma parábola. Contava a história de um jovem peregrino, chamado Cristão, 

que, após ler um livro apocalíptico, inicia uma peregrinação na terra, carregando um fardo pesado nas costas,  

em busca da Cidade Celestial, o  lugar da salvação. Curiosamente, o filme descreve toda a peregrinação a as 

adversidades  encontratas  durante  a  jornada,  algo  que  poderia  encontrar  correspondência  com  a  Marcha  no 

imaginário dos pentecostais.  

 



323 

 

outra  escapava  de  algumas  falas.  Nesse  sentido,  me  sinto  respaldada  pela  conclusão  de 



Novaes (2001), ao estudar a relação entre trabalhadores rurais, pentencostais e cidadania a 

partir de um estudo de caso realizado em Pernambuco, no município de Santa Maria (1985):

  

[…] “ser crente” significava também incluir a possibilidade de transferir as certezas 



e determinações adquiridas no espaço religioso, sobretudo através de determinadas 

passagens bíblicas para a “busca de direitos” no Sindicato de Trabalhadores Rurais 

que,  naquela  ocasião  –  ali  naquele  município  –,  apresentava-se  como  canal  de 

reivindicação dos agricultores

199

 (NOVAES, 2001, p. 71). 



A viagem me apresentou mais uma marcador de diferença entre as “mulheres do 

campo e da floresta”: a filiação religiosa. Também fez-me sentir a complexidade da qual se 

investe a relação entre política e religião.  

A opção em fazer a viagem por terra até Brasília e os imprevistos ocorridos, 

como o atraso na saída dos ônibus e outros que o sucederam, frustrou a minha expectativa 

de  acompanhar  o  encontro  das  caravanas  de  alguns  estados  do  NE,  no  município  de 

Barreiras /BA, para realização de um ato público. Barreiras foi escolhido por ser um local 

por onde, necessariamente, passariam todos os ônibus vindos da região. Esta parada foi 

proveniente de um acordo feito durante as reuniões de preparação da Marcha em Brasília, 

quando havia sido decidido que, um dia antes da entrada dos ônibus na capital do Distrito 

Federal,  seriam  realizados  atos  no  decorrer  do  trajeto,  para  demarcar  a  passagem  da 

Marcha, como uma forma de anunciá-la e falar para a sociedade o que aquelas mulheres 

iriam fazer em Brasília

200


. A ideia era de que fosse realizado pelo menos um ato político 

por região. O local e a hora de realização dos atos havia sido acordado anteriormente, de 

modo que os horários de saída dos ônibus dos estados foram programados considerando 

o encontro das caravanas no local previamente acordado. Foram realizados atos na Região 

Centro-Oeste, Nordeste e Norte-Nordeste. Embora, como eu mencionei, o nosso ônibus 

                                                 

199

 

A presença da Igreja Evangélica na vida política das populações rurais não é algo recente. De acordo com 



Regina Novaes (2001), vários estudos produzidos nos anos 70 apontavam a presença, nos anos 60, de vários 

crentes como dirigentes das Ligas Camponesas.  A autora ainda discorre sobre os efeitos políticos decorrentes 

da participação das camadas populares em Igrejas Evangélicas. Segundo ela,  “enquanto as CEBs politizavam 

categorias religiosas, no mesmo período e muito mais localizadamente, pentecostais religiogizavam categorias 

políticas e entravam em lutas sociais “em nome de Jesus” (NOVAES, 2001, p. 71). 

200


 Estes atos públicos durante o trajeto já aconteciam desde a primeira Marcha, em 2000. 


324 

 

não tenha chegado a tempo, posteriormente, eu colhi algumas informações sobre como 



haviam sido as ações. 

Na Região Centro-Oeste, o ato ocorreu no dia 16 de agosto, no município de 

Anápolis,  reunindo  cerca  de  2000  mulheres  dos  estados  de  Goiás,  Mato  Grosso,  Mato 

Grosso do Sul e Rondônia, para denunciar a exclusão e a violência contra as mulheres do 

campo e da floresta. Já no município de Estreito, no Maranhão, no dia 15 de agosto, cerca 

de 3 mil mulheres vindas com caravanas provenientes dos estados do Maranhão e do Pará 

fecharam a BR 110 para denunciar os impactos negativos dos grandes projetos na região, a 

violência  da  qual  são  vítimas,  os  conflitos  nas  áreas  quilombolas  e  os  frequentes 

assassinatos  de  lideranças  sindicais,  especialmente,  na  Região  Norte.  E,  por  fim,  em 

Barreiras, às margens do Rio Grande, 10 mil mulheres provenientes dos estados da Bahia, 

Pernambuco,  Rio  Grande  do  Norte,  Ceará,  Paraíba,  Alagoas,  Piauí  e  Sergipe  se 

encontraram, também no dia 15 de agosto, para denunciar a invasão do agronegócio e os 

impactos sociais e ambientais por ele gerado na região.  

Ocorreram,  ainda,  atos  nos  municípios  de  Cristalândia/PI  e  Cristinópolis/SE 

(NE);  Palmas/TO,  com  mulheres  de  municípios  de Tocantins  e Acre  (NO);  Gurupi/TO,  e 

Vilhena/RO,  com  as  mulheres  de  municípios  de  Rondônia  e  do  Acre  (NO);  Barra  do 

Graça/MS (CO). Algumas cidades realizaram atos na saída dos ônibus, como Fortaleza/CE, 

Rio Branco/AC, Manaus/AM (ato no aeroporto), Belém/PA, Castanhal/PA, Marabá/PA e Boa 

Vista  (caminhada  da  Praça  das  Águas  até  o  aeroporto).

201


  Com  ou  sem  atos  públicos,  os 

ônibus começaram a entrar em Brasília desde a madrugada do dia 16 de julho. Já passava do 

meio-dia quando nós, por fim, aportamos no Parque da Cidade, e de longe pude ver o portal 

de entrada da Cidade das Margaridas.  

 

 

 



 

                                                 

201

 As mulheres que chegaram à capital federal por via aérea realizaram um pequeno ato no aeroposto de Brasília. 



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