Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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6.1 A viagem… 

O dia da viagem é aguardado com muita ansiedade, um misto de medo, insegurança 

e  expectativa,  principalmente  para  as  pessoas  que  nunca  tinham  vivido  aquela 

experiência.  Acompanhadas  de  seus  familiares,  as  pessoas  chegam  até  o  local 

combinado para a saída dos ônibus. Depositam suas bagagens no chão e não são 

poucas  –    enquanto  aguardam  a  liberação  dos  ônibus,  encostados,  de  portas 

fechadas, no acostamento à beira do asfalto. Pequenos grupos se formam, tabulam 

conversas.  Uns/umas  perguntam  pelos  outros/as:  “Fulana  não  vem?  Desisitiu? 

Cadê Sicrana?” Crianças correm. Ouvem-se risadas, reclamações, recomendações, 

amenidades  e  a  busca  de  informações:  “É  quanto  tempo  de  viagem?  Vai  parar 

onde?” Eu apenas observo. Sinto-me um pouco fora do lugar. Circulo de um lado 

a outro, tentando registrar tudo por meio de fotos. Em torno do motorista, outro 

grupo, são as coordenadoras dos ônibus. É preciso conferir a documentação de cada 

um/a com a listagem enviada à empresa contratada para o transporte: “O RG não 

bate!; “Chama fulana que o RG não bate; “Não trouxe o RG? Mas então não pode 

embarcar.”; “Não, se fulana não veio, você não vai poder ir no seu lugar.” E lá se 

ia o tempo que se ia, afastando-se do horário inicialmente marcado para a saída dos 

ônibus (eram dois). O sol, ainda alto quando cheguei, já começa a desaparecer no 

horizonte. Enfim, os ônibus foram liberados! Foi dado início ao embarque. Já no 

ônibus, escuta-se um tumulto:  um  homem  havia  sido atropelado ao atravessar a 

rua. As pessoas correm para socorrê-lo. Aguarda-se a ambulância. Finda a tarde, 

cai  a  noite  e  nós  dentro  do  ônibus  esperando. Algumas  pessoas  já  demonstram 

impaciência  com  a  demora,  e  eu  me  incluo  entre  elas. Acho  que também  estou 

ansiosa! (Diário de Campo, 2011). 

O trecho acima foi resgatado das minhas anotações do Diário de Campo. Sim, 

eu  estava  ansiosa.  Havia  depositado  uma  certa  expectativa  nesta  viagem,  não  só  na 

viagem como na marcha em si. Seguir de ônibus, junto com as mulheres, foi uma opção 

minha.  Poderia  ter  ido  direto  para  Brasília,  acompanhar  os  últimos  preparativos  para 

recepcioná-las  e  aguardar  de  lá  a  chegada  das  caravanas.  Confesso  que  esta  foi  uma 

decisão  difícil!  Mas  a  expectativa  das  mulheres,  captada  através  das  narrativas, 

entrevistas,  conversas  pulsava  em  mim,  e  eu  queria  viver  junto  com  elas  cada  pedaço 



317 

 

daquela experiência, que havia de tal forma me afetado, e olhar “de perto e de dentro”, 



buscando  captar  as  suas  próprias  expectativas  e  perspectivas  ao  olhar  a  Marcha  ou  “o 

ponto de vista da nativa” para me apropriar da expressão malinowskiana. Eu havia sido 

atingida e estava disposta a mergulhar nessa empreitada.  

A forma como as mulheres se referiam ao percurso, desde a hora que saíam dos 

seus municípios, me impulsionou a fazer a viagem por terra. Franck Michel (2004, p. 19), na 

introdução  do  livro  Désirs  d’Ailleurs  -  Essai  d’Anthropologie  des  Voyages  diz  algo 

interessante:  “Le  voyage  commence  là  où  s’arrêtent  nos  certitudes.  Le  voyage,  c’est 

réapprendre  à  douter,  à  penser,  à  contester.  En  abolissant  les  frontières  de  l’inconnu,  le 

voyage, c’est oser défier la banalité du quotidian”. 

Desafiar  o  cotidiano  e  experimentar  as  incertezas  são  aspectos  dos  quais  se 

reveste a fala de algumas das minha interlocutoras quando, durante as entrevistas, eu fazia 

menção ou perguntava algo em relação à viagem até Brasília. 

[...] O pessoal pensa que a gente vai pra Brasília, é um passeio, mas não é! A gente 

vai arriscar a vida no caminho [...]. Realmente, a gente vai muito feliz por que a 

gente tá atrás dos nossos objetivos, dos objetivos das nossas companheiras, mas 

arriscamos a vida, deixamos nossa família em casa, nossos filhos, nossos maridos 

e vai atrás daquele objetivo, mas sabendo que está entregando a vida da gente na 

mão de Deus, não sabe nem se a gente volta com os pés da gente, que é um risco 

muito grande (Tonilda, STTR Massapê/CE, 2011). 

A decisão de ir a Brasília implica preparar a viagem e, quando este é o assunto, 

logo vem a preocupação com a alimentação e a saúde, muito recorrente nas falas: 

E ai elas correm atrás pra trazer alguma coisa dentro do ônibus, de alimentação, 

vão  na  prefeitura,  nos  mercados,  nas  padarias,  pra  trazer  alguma  coisa  de 

alimentação,  refrigerante,  pão,  alimentação  pra  se  alimentar  dentro  do  ônibus, 

porque  são  quase  30  horas  de  viagem  (Mercedes,  Secretaria  de  Mulheres 

Trabalhadoras Rurais – FETAEP, 2011). 

Nós temos que ter recursos pra alimentar essas mulheres no percurso da viagem (Maria 

Pereira, dirigente sindical, STTR de Mirandiba/PE, integrante do MMTR-SC, 2011). 

Pra nós é importante manter uma viagem, se alimentando decentemente ( Josivânia, 

dirigente sindical, STTR de Belmonte/PE, integrante do MMTR-SC, 2011). 

 



318 

 

A dificuldade é a questão financeira, as pessoas perguntam como é que eu vou, o 



que é que a gente vai comer no caminho. A gente mata uma galinha, vai no mercado 

pede uma ajuda. Da outra vez a gente pediu ao prefeito a nossa alimentação e ele 

deu. (Maria Jucá, integrante do MMTR-SC, 2011). 

Tudo  elas  vendem  para  ter  o  recurso  da  alimentação  pra  vir.  A  gente  já  vai 

conversando as questões do gasto: “Olha, a gente tem a viagem de ida, que você 

vai passar três dias de viagem e, em todas essas viagens, você paga até pra entrar 

no  banheiro,  então  você  tem  que  ter  um  trocadinho.Você  não  pode  ir  daqui  só 

contando que vai levar cem reais, porque cem reais pra ida e pra vinda não dá, você 

tem que levar um dinheirinho a mais”. “Às vezes você está lá e a fila está muito 

grande e você não tem como esperar pra almoçar e você precisa comprar uma coisa 

pra merendar, às vezes você adoece, o remédio seu não está, você precisa comprar 

algum  outro”,  a  gente  vai  conversando  tudo  isso  na  mobilização  (Adriana, 

Secretaria de Mulheres Trabalhadoras Rurais-Fetaema, 2011). 

Viajar implica também deixar o lugar de segurança, do conhecido, do familiar e 

ir  a  um  outro,  que,  para  muitas,  é  um  lugar  desconhecido  e  de  descoberta. A  viagem,  o 

deslocamento  físico,  além  de  cansativo,  as  afasta  do  lugar  íntimo  de  proximidade,  e  a 

possibilidade de não voltar é, muitas vezes, tomada pelo medo: 

As mulheres vivem o medo de enfrentamento lá na própria família, de deixar, que 

é mais de oito dias de viagem, então elas pensam ter que deixar tudo aqui pra poder 

ir  pra  lá  pra  Brasília  (Bena,  dirigente  sindical,  coordenadora  da  Regional 

Tocantina/PA, 2011). 

A questão do medo da viagem, são dois dias com duas noites viajando, elas pensam 

logo  isso,  deixar  os  filhos,  porque  muitas  vezes  não  tem  nem  quem  fique,  né? 

Vontade mesmo elas tem, mas assim elas pensam em todas essas coisas (Lucilene, 

Secretaria de Mulheres STTR Ibiapina/CE, 2011). 

Crio meus três filhos sozinha. Não é sozinha, porque tenho a ajuda do meu pai e da 

minha mãe que moram próximo de mim. Por exemplo, pra mim fazer uma viagem 

dessa, tem a minha mãe que cuida deles enquanto eu saio (Nezinha, representante 

do MICQB na Coordenação Ampliada da Marcha das Margaridas, 2013). 

Eu tinha medo de viajar de ônibus, era muito distante, e não quis ir (Lúcia, MMTR-

NE, 2013). 

Em 2007 aconteceu um acidente com o pessoal do Piauí, que morreu Santinha e o 

motorista. Foi muito triste! A gente aqui foi em paz e voltou, mas o que a gente viu 

foi muito triste... (Maria Jucá, integrante do MMTR-SC, 2011). 

O fato de, na Marcha de 2007, ter ocorrido um acidente envolvendo dois ônibus 

dos estados do Piauí e Ceará, com vítimas fatais, aumentou o sentimento de insegurança, de 

que, ao viajar, corre-se o risco de ir e não voltar. Esse fato é sempre mencionado! 



319 

 

Há também o  “medo” de ficar pelo caminho, de se perder, de ser deixada em 



algum  ponto  de  parada,  principalmente,  entre  as  mulheres  idosas  que  estão  saindo  pela 

primeira vez do seu local de moradia. Lembro de relatos de mulheres que só saíam do ônibus 

se fossem acompanhadas, normalmente, e de preferência com a coordenadora do grupo

196


Sim, porque cada ônibus tinha uma coordenadora, alguém já designada enquanto tal desde a 

preparação  da  viagem.  São  as  coordenadoras  que,  na  saída  do  ônibus,  conferem  a 

documentação,  faz  a  mediação  do  diálogo  entre  o  grupo  e  o  motorista,  mantém  o  grupo 

informado, são acionadas quando ocorre algum problema, seja ele de conflitos entre o próprio 

grupo ou mesmo casos de doença. Enfim, ela é a pessoa a quem se deve recorrer em qualquer 

situação inusitada que possa ocorrer. 

“Viver  é  arriscoso”  diz  Riobaldo,  personagem  de  Guimarães  Rosa.  Viajar 

também! Diriam essas mulheres viajantes. Ainda assim, muitas delas repetem a viagem na 

Marcha seguinte, sempre que podem. A rotina durante o caminho só é quebrada quando o 

ônibus para. Percebi, nesses momentos, uma certa sensação de euforia. Não era algo fácil 

reunir todas/os novamente.  

No caminho, quando a gente vinha [...]. Porque o Maranhão, a gente vem por duas rotas, ele vem 

por Imperatriz e vem por Barra do Corda , e a gente se junta em Estreito, que é a última cidade 

do Maranhão, já saindo por Tocantins. Lá é que você vê o tanto de gente que vem, o tanto de 

ônibus que chega, porque se juntam os dois lados do Maranhão. Uma turma chegou cedo, outra 

chegou mais atrás, porque o ônibus quebrou, tem todas essas coisas, uma turma ficou esperando, 

e aquela confusão... Um liga: “Vamos embora, a gente não vai ficar mais esperando, a gente está 

muito tempo parado”, uma confusão! A gente tem que estar ali, paciente, ajudando, tem que ter 

calma. A gente trouxe 23 ônibus e três micro-ônibus e, quando chegou, não tinha mais onde 

ônibus estacionar, e a gente fica olhando, criança chora, um diz que está com fome, outro quer ir 

tomar banho, um voltou pro ônibus, aí você vê o tamanho da coisa que você está dentro daquilo 

dali, e tem que ter resposta pra tudo, até quando a gente caminha, uma turma vai na frente, uma 

turma que eu digo é assim: uma turma da direção vai no ônibus da frente, outra vai no ônibus do 

meio, outras vão nos últimos ônibus, pra gente poder acompanhar tudo; e fica falando de um para 

os outros no telefone, uma confusão, telefone funciona, telefone não funciona, mas, enfim, é 

muito bom! (Adriana, secretária  de Mulheres Trabalhadoras Rurais da Fetaema, 2011). 

 

                                                 



196

 

Foi enviado



 

para cada Federação e organização parceira um Manual de Orientações com todas as orientações 

necessárias e mapas de localização.

 

 



   

 



320 

 

As falas, de um modo geral, relacionavam a viagem a uma decisão que envolvia 



riscos, separação e um propósito. Elas mencionavam também as dificuldades objetivas que, 

possivelmente, poderiam se deparar no trajeto: acidentes, fome, doenças. Tudo isso, de certa 

forma, engrandecia aquelas que decidiam embarcar, pois havia nelas uma disposição para 

enfrentar as adversidades que ora se apresentassem. O perigo era algo inerente à viagem, 

imprimindo-lhe características de algo “heroico”.  

Tudo isso a mim me pareceu se assemelhar a uma certa ideia de peregrinação, 

uma  jornada  que,  motivada  pela  devoção,  implica  em  deixar  a  casa  rumo  a  um  lugar  de 

chegada (um lugar sagrado) e os hábitos cotidianos para cumprir um desígnio maior, estando 

relacionada, ainda, ao sofrimento e à sensação de estranheza. A viagem, assim como uma 

peregrinação,  designa  “um  caminho  a  percorrer”  e  se  caracteriza  por  ser  uma  ação  não 

habitual,  contrastiva  com  a  vida  cotidiana  e,  portanto,  extraordinária. Ambas  apresentam 

qualidades  de  um  estado  transitório,  um  “estado  de  passagem”.  Assim,  passei  a  olhar  o 

deslocamento das viajantes como uma espécie de rito de separação, fase inicial dos ritos de 

passagem (TURNER,  2008 [1974]). 

Constituídos por três fases: separaçãomargem ou límen e reagregação, os ritos 

de  passagem  consoante  modelo  definido  por  Arnold  Van  Gennep  (1960)  e  mais  tarde 

desenvolvido por Victor Turner (1974) se referem a "ritos que acompanham toda mudança de 

lugar, estado, posicão social de idade" (TURNER, 1974, p. 116). Na fase inicial dos ritos de 

passagem, conforme modelo, se dá a separação do indivíduo da sociedade de pertença. Já a 

fase  liminar  corresponde  a  um  período  intermediário  onde  o  sujeito  ritual  adentra  uma 

dimensão desconhecida, vive a ambiguidade de experimentar um “domínio cultural que tem 

pouco,  ou  quase  nenhum, dos  atributos do  passado ou  do estado

197

  futuro”. E, por  fim,  na 



terceira fase, reagregação, consuma-se a passagem, e o “sujeito ritual, seja ele individual ou 

                                                 

197

 TURNER (1974, p. 116) chama de “estado” uma “condicão estável ou recorrente, culturalmente reconhecida”. 



 

 



321 

 

coletivo, permanence num estado de relativa estabilidade mais uma vez” (TURNER 1974, p. 



117), voltando à realidade cotidiana nutrido da força ritualística. Estas fases não sugerem algo 

estanque, que possa ser analisado numa perspectiva ciclica evolutiva, mas um processo. 

A perspectiva processual de Turner (1974) para análise dos rituais me oferecia a 

possibilidade de olhar para a Marcha como uma experiência ritual, da qual a viagem é uma 

parte. Experiência pela qual é possível resgatar a dimensão do vivido.  

No  artigo  Dewey,  Dilthey,  and  drama:  an  essay  in  the  Anthropology  of 






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