Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas


O meu encontro com o tema



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O meu encontro com o tema  

 

A inspiração para esta pesquisa veio de experiências vividas com mulheres por 

meio da pesquisa acadêmica e de outras voltadas à intervenção social. Tendo concluído o 

meu mestrado em Sociologia, passei a desenvolver trabalhos relacionados à formação e à 

pesquisa que envolve populações rurais e, talvez, como resultado de um processo engendrado 

pelo entrelaçar de ações intencionais, mas não planejado ou desejado individualmente, para 

utilizar uma linguagem “norbertiana”, voltei a minha atenção para estudos que tinham como 

foco o desenvolvimento rural. Nessa perspectiva, particularmente, em três momentos, pude 

desenvolver trabalhos com mulheres. O primeiro ocorreu no início dos anos 2000, quando 

fui contratada pelo Projeto Microbacias 2 (Banco Mundial) em Santa Catarina, para realizar 

                                                 

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 Até a Marcha de 2003, as “margaridas” eram identificadas como trabalhadoras rurais. Na Marcha de 2007, 



atendendo  a  uma  reivindicação  das  mulheres  extrativistas,  as  “margaridas”  passam  a  ser  identificadas 

como “mulheres do campo e da floresta”. Trata-se, portanto, de uma categoria identitária negociada. 




 

um estudo sobre a participação das populações rurais nos grupos de animação e associações 



de  desenvolvimento.  O  que  pude  perceber  ali  é  que  a  divisão  sexual  do  trabalho  que  se 

observava na unidade familiar se refletia na constituição dos espaços públicos. Quando eu 

perguntava a alguns técnicos/extensionistas sobre a pouca ou a não participação das mulheres 

nos espaços de decisão das associações, não era incomum ouvi-los dizer que esse era um 

problema cultural, de modo que “o cultural” quase sempre justificava o engessamento das 

relações de gênero, diante do qual pouco se pode fazer. 

Em  2006,  fui  contratada  pela  Sempre Viva  Organização  Feminista  (SOF), 

uma ONG feminista, por meio de um convênio com o Ministério do Desenvolvimento 

Agrário (MDA), para fazer um diagnóstico da dinâmica de implementação das políticas 

públicas formuladas pelo Programa de Promoção da Igualdade de Gênero, Raça e Etnia 

(PPIGRE/MDA) nos estados do Rio Grande do Sul e Santa Catarina, a fim de identificar 

os  limites  e  as  potencialidades  encontradas  no  seu  processo  de  implementação,  bem 

como desenvolver ações que pudessem dinamizá-las. Da mesma forma, observei que a 

participação das mulheres  na elaboração  de  políticas públicas  ou mesmo  no acesso a 

essas políticas refletia a forma como as relações de gênero eram construídas no interior 

da família. 

Em 2008, realizei uma pesquisa que objetivou identificar e analisar as principais 

questões de gênero e geração presentes nas relações sociais e produtivas que se estabeleciam 

entre  os  membros  das  famílias  residentes  nas  comunidades  rurais  envolvidas  no  Projeto 

Microbacias 2, contratante do estudo.

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 Aqui, novamente, observei uma certa ausência das/os 



jovens nos espaços de decisão, refletindo a sua posição de inferioridade na hierarquia social 

no interior das famílias agricultoras, cuja divisão do trabalho se sustenta não apenas numa 

relação de oposição complementar entre os sexos, mas também na hierarquia dos grupos de 

idade, nos quais a/o jovem, particularmente, a jovem mulher, ocupa os degraus mais baixos. 

Normalmente,  o  pai,  chefe  da  família,  concentra  o  poder  de  decidir  sobre  o  futuro  da 

                                                 

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 O resultado dessa pesquisa pode ser encontrado em SCOTT, Parry; CORDEIRO, Rosineide e MENEZES, 



Marilda (Orgs.). Gênero e Geração em Contextos Rurais. Florianópolis: Ed. Mullheres, 2010.  


 

propriedade e de seus integrantes e representa a família nos espaços públicos e/ou espaços 



coletivos. As mulheres, especialmente as mais jovens, quase sempre encontram dificuldades 

de expressar suas opiniões, de fazer valer suas ideias, de bancar, ganhar e barganhar o apoio 

aos seus projetos.  

Os três momentos apontados acima foram fundamentais na minha trajetória como 

pesquisadora, porque me despertou para a problemática de gênero e para a condição da mulher 

no meio rural. Mas foi em novembro de 2008, durante a 4ª Plenária Nacional de Mulheres da 

Confederação  Nacional  dos  Trabalhadores  na  Agricultura  (Contag),  que  ocorreu  o  meu 

primeiro contato com as mulheres trabalhadoras rurais propriamente dito, momento no qual fui 

convidada a participar da mesa de abertura com o tema Conjuntura e cenários para construção 

de um desenvolvimento rural sustentável na perspectiva de gênero. Como integrante da Rede 

de Colaboradores da Escola Nacional de Formação da Contag (Enfoc), já vinha trabalhando 

nos processos formativos com a temática do desenvolvimento rural, e a perspectiva de gênero 

apenas tangenciava minhas abordagens. Entretanto, o debate foi muito rico, não só porque eu 

tinha como debatedoras duas grandes ativistas feministas, Nalu Faria e Sílvia Camurça, mas, 

sobretudo, pela fala das mulheres ali presentes, pelos seus questionamentos, suas histórias, suas 

denúncias. Estavam presentes naquele encontro cerca de 700 mulheres de todos os cantos e 

recantos do país, e então percebi que ali havia força, havia movimento. 

O  Encontro  ocorreu  em  Luziânia/GO,  município  próximo  ao  Distrito 

Federal,  e  eu  retornaria  apenas  no  dia  seguinte,  de  modo  que  pude  acompanhar  e 

observar  os  trabalhos  desenvolvidos  durante  o  resto  do  dia.  Pernoitei  ali  mesmo,  no 

Centro  de Treinamento  Educacional  da  Confederação  Nacional  dos Trabalhadores  na 

Indústria  (CNTI),  local  do  encontro  e  onde  as  mulheres  estavam  alojadas.  Entabulei 

conversa com algumas delas e conheci grandes lideranças como Raimunda Mascena e 

Carmen Foro. A primeira teve papel decisivo na articulação da coordenação da primeira 

Marcha das Margaridas e participou da coordenação da segunda;  Carmem Foro esteve 

à  frente  da  terceira  Marcha.  Foi  ouvindo  seus  relatos  que  percebi  que  a  Marcha  das 

Margaridas era muito mais do que uma ação coletiva protagonizada por mulheres. Havia 

ali, parecia-me, um emaranhado de sentidos e significados a serem desvelados. E o que 



 

se revelava ainda mais intrigante: não era um movimento apenas de trabalhadoras rurais, 



envolvia  outros  segmentos  sociais  de  mulheres  do  campo,  o  que  me  pareceu 

surpreendente,  visto  que  o  corporativismo  ainda  é  uma  marca  muito  forte   da  cultura 

política do movimento sindical “contaguiano”. 

No  ano  seguinte,  precisamente  em  março  de  2009,  fui convidada  a  participar, 

como  observadora  do  10°  Congresso  Nacional  da  Contag,  e  acompanhar  as  calorosas 

discussões e os acirrados debates na Comissão Nacional de Mulheres. Então percebi o quanto 

a  Marcha  se  constituía  num  elemento  unificador  e  articulador  de  mulheres  com 

posicionamentos ideológicos tão díspares, ainda que pertencentes a uma mesma categoria: a 

de  trabalhadoras  rurais.  De  onde  vem  esse  poder  articulatório  da  Marcha?  Quem  é  o  seu 

sujeito político? Como ele se constrói em meio a tantas diferenças? Foram estas indagações 

que me conduziram à elaboração do projeto que apresentei ao Programa de Doutorado em 

Ciências Sociais da UNICAMP.  

A Marcha das Margaridas é hoje uma das maiores manifestações populares que 

ocorrem  no  país  e  que integram  a  agenda  dos  movimentos  sociais  do  campo.  Isso  posto, 

considero que, do ponto de vista acadêmico, a temática proposta traz contribuições ao debate 

sobre  a  participação  política  das  mulheres  rurais,  potencializa  o  avanço  da  reflexividade 

crítica rumo a novas práxis políticas, a novas formas de agir no mundo. Nesse sentido, busco, 

nas experiências da dimensão vivida da participação, inscritas na Marcha das Margaridas, o 

substrato para que tal reflexividade se realize. 

Essas questões são, acima de tudo, desafios teóricos, pois colocam a necessidade 

de  se  produzir  teorias  que  nos  permitam  pensar  os  sujeitos  em  termos  de  pluralidade  e 

diversidade e não apenas de unidades e universais (SCOTT, 1999). É nessa perspectiva que, 

percorrendo a trajetória da Marcha das Margaridas, tomo-a como palco onde as relações se 

estabelecem e em meio às quais os sujeitos se constituem.  






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