Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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Chiquita  Bacana (adaptação da composição de Caetano Veloso):  Eu sou mulher e  me orgulho de ser/Tô de 

cabeça erguida/E não dou,  meu braço a torcer/Sou mulher Feminista/E quero igualdade/Justiça e muita paz pra 

toda a humanidade! /Eu vivo a vida/Yeh  yeh yeh/Com liberdade Yeh yeh yeh/Se eu quiser, ninguém vai me 

impedir/E a galera toda grita/Yeh yeh yeh /Você pode decidir /Yeh yeh yeh/Ser na sua vida o que bem quiser!!! 



Vai com jeito (adaptação da composição de Braguinha, cantada por Emilinha Borba): Menina não, se esqueça 

não/Que o racismo/É crime e dá prisão! /Se alguém te humilhar/E por racismo te discriminar/Lembre da Lei 

7716/Denunciando/A pena é no xadrez! 

 

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 Nos cadernos de cânticos, além dessas constam também canções políticas e/ou de cunho social, como as do 

próprio Zé Vicente, Gonzaguinha, Luiz Gonzaga, Renato Teixeira e Almir Sater.  

 



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O processo de construção da Marcha permite que as mulheres que nele se envolvam 



adentrem o mundo público transportando seus atributos e signos de mulheres rurais, expressos em 

vivências corpóreas e simbólicas, no movimento do corpo, nos versos declamados, contados, cantados 

e performados na militância como rituais, a partir dos quais elas se enunciam (MOTA, 2008). 

As letras dos cantos e dos poemas produzidos e/ou cantados por essas mulheres 

se traduzem em narrativas que falam para si, ao mesmo tempo em que dizem de si, e que, ao 

serem  expressas,  acabam  sendo  convertidas  em  maneiras  “próprias”  de  “fazer  política”. 

Trata-se de formas discursivas que, originalmente, de natureza “não política”, foi apropriada 

pela  prática  política  dos  movimentos  populares,  especialmente  o movimento  de  mulheres 

rurais (MOTA, 2008, p.201). 

Lila  Abu-Lughod,  em  seu  livro  Veiled  Sentiments  (1986),  observou  como  as 

mulheres beduínas utilizavam-se de poemas para expressar sentimentos especiais, e tratou 

esse modo de expressão como um discurso considerado não simplesmente como uma forma 

linguística, como na distinção entre atos de fala formalizados e cotidianos, mas também no 

sentido utilizado por Foucault (1987), ou seja, para significar um conjunto de enunciados 

verbais  e  não  verbais,  vinculados  a  regras  e  caracterizado  por  regularidades,  que  tanto 

constroem, quanto são modeladas pela realidade social e pessoal (ABU-LUGHOD, 1986, p. 

186).  Nesse  sentido,  a  emoção  é  utilizada  como  um  discurso,  e  sua  análise  inserida  nas 

preocupações com a “micropolítica”, ou seja, com o trabalho realizado pelas emoções na vida 

pública. Um pouco dessa perspectiva tem orientado o meu olhar para os versos produzidos 

pelas mulheres. 

Em tempos de Marcha, as mulheres envolvidas com a sua causa encontram 

aí  um  ambiente  particularmente  estimulante  para  expressar   seus  pensamentos  e 

sentimentos pelos poemas. O próprio envolvimento no cotidiano da Marcha favorece o 

aflorar dos versos. Ora, se ao se expressarem por versos, elas se dizem, e ao dizer, elas 

se fazem. Certa vez, num desses eventos para tratar de assuntos relativos à Marcha, no 

intervalo para o almoço, estava eu a prosear com uma das participantes sobre o que  era 

ser uma “margarida”. Ela então pediu que eu a esperasse, e foi até o seu dormitório; na 



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volta, me apresentou um caderno de poesias, publicado pelo MMTR -NE, cujos poemas 



haviam sido elaborados pelas próprias mulheres do movimento. O poema intitulava-se 

Canção pra Margarida, de autoria desconhecida. (Cf. p. 53). Os versos seus se referem 

à líder sindical Margarida Maria Alves, paraibana, assassinada na porta da sua casa em 1983. 

Eu  perguntei  à  minha  interlocutora,  então,  o  que  nesses  versos  falava  sobre  ser  uma 

“margarida”,  e  ela  me  disse  que  “margaridas”  são  todas  as  mulheres  que  lutam; que  têm 

coragem pra lutar; que sofrem, são oprimidas, mas que são movidas pelo sonho de construir 

uma sociedade menos  desigual

.   

O nome Margarida tem um significado simbólico fundamental, que é capitalizado 



no campo político, e remete à ideia de força, coragem, luta e sofrimento. Essas ideias, que 

irão  justificar  na  arena  política  a  reivindicação  das  mulheres  do  campo  e  da  floresta  por 

direitos,  estão  presentes  tantos  nos  “discursos  políticos”  propriamente  ditos,  quanto  nos 

cantos  e  nas  poesias,  evocando  emoções  cujas  expressões  são  utilizadas  como  forma  de 

denúncia, mas também para encorajar e animar o movimento (GOULD, 2001, p. 135).  

O poema abaixo pode ilustrar o que  digo. De autoria de uma jovem dirigente 

sindical do município de Bodocó/PE, Lourisvanda de Sousa, ele é dirigido às “margaridas” 

e busca, através dos seus versos, incentivá-las, motivá-las e estimulá-las a permanecerem na 

luta ou a vir fazer parte dela, ao mesmo tempo em que expressa o sentido de nela estar.  




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