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 A mobilização nos municípios e comunidades



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5.1 A mobilização nos municípios e comunidades 

 

Ocorrida  a  cada  quatro  anos,  a  Marcha  tem  afirmado  sua  importância  não 

apenas como uma prática política, mas também social. Quando se aproxima o ano da sua 

realização, as mulheres já começam a perguntar: “Ano que vem é ano de Marcha, né?” e 

já começam a se preparar. Ela acaba definindo um momento importante no calendário das 

mulheres. Se há o tempo de política, como fala Palmeira e Heredia (1995), fazendo um 

alusão ao “tempo de festas” , “tempo de Quaresma” próprio do ciclo de festas religiosas, 

há o tempo da Marcha.  

Nesse tempo, nos municípios, ficam mais visíveis vínculos que identifiquei com 

o que Melucci (2001, p. 60) denomina de redes submersas para se referir “à rede de relações 

informais que conectam núcleos de indivíduos e grupos a uma área de participantes mais 

ampla”, e que, estando imersos na vida cotidiana, “requerem um envolvimento pessoal na 

experimentação” (ibidem, p. 61). Trata-se de redes sociais baseadas em códigos culturais e 

solidariedades construídas no cotidiano e que dão sustentação aos “movimentos sociais ao 

longo de fluxos e refluxos de mobilização” (ALVAREZ e ESCOBAR, 2000, p. 34). Na maior 

parte  das  vezes  submersas  na  vida  cotidiana,  elas  se  fazem  visíveis  nos  processos  de 

mobilizações. Os vínculos que sustentam essas redes, no caso da Marcha, se estendem dos 



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municípios às comunidades, passando por sítios e povoados. Um deles são os laços familiares 



e comunitários.  

No  processo  de  mobilização,  a  depender  do  contexto,  amigos/as,  parentes, 

vizinhas,  filho  (as),  etc.  podem  ser  acionados  na  preparação  de  festas  ou  qualquer  outro 

evento, que tenha como finalidade angariar recursos, como vender rifas ou preparar quitutes 

para serem vendidos ou rifados. As pessoas próximas, sejam amigos ou parentes, que detêm 

uma  melhor  condição  financeira  também  são  solicitados  a  fazer  doações  de  alimentos  e 

objetos para serem rifados ou outros tipos de apoio. Aliás, nos municípios se percebe a força 

que esses laços de proximidade têm nas atividades de mobilização, principalmente aquelas 

destinadas a obter recursos financeiros.  

Quando se referia a alguma atividade realizada, não era incomum que as minhas 

interlocutoras  mencionassem  nomes  de  pessoas  se  referindo  a  elas  como  assessoras,  ou 

colaboradoras  ou  apoiadora,  mas  não  à  organização/entidades  as  quais  elas  pertenciam, 

dando  visibilidade  a  um  dos  intricados  feixes  de  relações  que  se  estabelecem  entre  as 

mulheres organizadas nos sindicatos e as organizações locais, para os quais  Doimo (1995) 

cunhou  o  termo  de  “redes  sociais  movimentalistas”,  justamente  para  se  referir  a  essas 

relações interpessoais que “ligam indivíduos a outros indivíduos, envolvendo conexões que 

vão  além  de  grupos  específicos  e  atravessam  transversalmente  instituições  sociais 

particulares” (DOIMO, 1995, p. 44), unindo pessoas inclinadas à participação continuada e 

simultânea  em  sucessivos  movimentos  ou  grupos,  movidas  por  valores  éticos-políticos 

compartilhados.  

A  fala  de  Maria  Pereira,  dirigente  do  sindicato  de  Mirandiba,  Pernambuco,  e 

integrante do MMTR-SC, expressa a imbricação entre as relações pessoas e institucionais, 

ao se referir às parcerias que são acionadas localmente quando do processo de mobilização 

da Marcha: 

As organizações de mulheres daqui trabalham em parceria. Nós temos parceria com 

outras organizações como, por exemplo, o Centro de Educação Comunitária Rural 

(CECOR), que trabalha com a convivência no semiárido, com a questão da água, 

que  aborda  a  cisterna,  com  o  aproveitamento  da  produção  como  a  feira 




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agroecológica, com produtos que não é usado nada de químicos, e agora a questão 



da casa, do “Minha casa, Minha vida”, e tem outras bandeiras de luta lá também. 

A  gente tem  O  MMTR-NE...  Porque  nós temos MMTR  Sertão  Central  e tem  o 

MMTR-NE, que é o Movimento da Mulher Trabalhadora Rural do Nordeste [...]. 

Tem mulheres daqui que é da Casa da Mulher do NE. Por exemplo, Vanete sempre 

foi  da  Casa  da  Mulher  do  NE,  acho  que  desde  a  fundação talvez,  não  sei. Tem 

Núbia Rafaela, que também... Cleonice, Maria. Tem umas mulheres daqui que era, 

que  participava  dessa  organização  e  trabalham  junto  aqui  na  organização  da 

Marcha, por que a Vanete trabalha. Então nós temos a casa da Mulher do NE, tem 

a REDELAC, tem o MMTR-NE, tem o CECOR também, tem as Loucas de Pedra 

Lilás também, que a gente tem uma parceria muito boa, elas trabalham muito com 

a gente questão de formação. Tem o CURUMIM também, o SOS Corpo, que são 

entidades do Recife, não são daqui do Sertão, mas que a gente consegue ter uma 

parceria boa, mas mais na formação. Na mobilização é o MMTR-NE, o CECOR e, 

eu acho, a Casa da Mulher do Nordeste [...]. 

O  Polo

179


  aqui  é  composto  por  3  mulheres  de  cada  município,  essa  é  a 

coordenação

180

. Aí nós temos a Tatá que é um apoio do movimento, que faz a 



contabilidade  de  recursos.  Ela  é  voluntária,  trabalha  no  CECOR,  trabalhou 

muito anos aqui, e aí ela dá o suporte pras mulheres. Ela faz a contabilidade. 

Vanete  e  ela  são  responsáveis  pelos  projetos,  aqueles  projetinhos  para 

conseguir ônibus, para gente atingir. E aí, assim, cada município é responsável 

pelo recurso que é arrecadado no seu município. Tem Antônio Filho que é o 

animador,  grande  parceiro  nosso,  que  é  assessor  da  Fetape,  que  assessora  a 

gente também nesse processo [...]. 

Quem  faz  com  que  isso  aconteça  é  Vanete Almeida,  a  nossa  assessora,  nossa 

colaboradora, ela que faz com que tudo aconteça, por exemplo, tudo isso, discussão 

de Marcha e tudo, a gente discute com ela aqui no Polo (Maria Pereira, dirigente 

sindical, STTR de Mirandiba-PE, integrante do MMTR-SC, 2011). 

Esse emaranhado de vínculos que se estabelecem entre pessoas e organizações 

“expandem o alcance cultural e político dos movimentos para muito além das comunidades 

locais” (ALVAREZ e ESCOBAR,  2000, p. 35)

 

e, ao se propagar, desenham novos lugares e 



alimentam, simultaneamente, ações locais e globais, abrangendo  

[...]  mais  do  que  suas  organizações  e  seus  membros  ativos,  mas  incluindo 

participantes  ocasionais  nos  eventos  e  ações  do  movimento,  simpatizantes  e 

colaboradores  de  ONGs,  partidos  políticos,  universidades,  outras  instituições 

culturais  e  convencionalmente  políticas,  a  Igreja  e  até  o  Estado  que  (ao  menos 

parcialmente) apoia um determinado objetivo do movimento e ajuda a difundir seus 

discursos e demandas dentro e contra as instituições e culturas políticas dominantes 

                                                 

179

 Refere-se ao Polo Sertão Central, um dos dez polos que compõe a divisão territorial feita pela Fetape (Federação 



dos Trabalhadores  da Agricultura  de  Pernambuco  com  base  na  articulação  político-sindical.  O  Polo  Sertão 

Central é constituído por 14 municípios.  

180

 Ela está se referindo à coordenação do MMTR-SC.   



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