Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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Margaridas:  uma  liderança  local,  municipal,  na  minha  região,  depois  do  meu 

estado, depois nacional, mas a marcha foi a chave de uma visibilidade pessoal e 

coletiva.  Pessoal,  porque  eu  tenho  muito  reconhecimento  dentro  do  movimento 

sindical da Contag, fora do movimento sindical da Contag, nas centrais sindicais e 

na sociedade. O governo brasileiro me conhece, conhece a nossa agenda, então a 

Marcha foi a chave, principalmente, a segunda Marcha que eu coordenei [refere-se 

                                                 

144


 Os elementos mencionados foram abordados por Adriana Vianna (2011), a partir da leitura de Luc Boltanski, 

2000 [1990]. 

145

Como ressalta Bourdieu (1984, p. 49): “Il est à peu près aussi vrai de dire que c'est le porte-parole qui fait le 



groupe.  C'est  parce  que  le  représentant  existe,  parce  qu'il  représente  (action  symbolique),  que  le  groupe 

représenté, symbolisé, existe et qu'il fait exister e retour son représentant comme représentant d'un groupe. 

 



189 

 

à  Marcha  de  2011]. A  primeira  [  2007]  eu  tava  chegando,  foi  o  meu  momento 



pessoal de me colocar. Aqui foi o meu passaporte, o meu teste pessoal da minha 

capacidade, condição política de conduzir (idem, 2013). 

Observando o desempenho de Carmen como coordenadora da Marcha, passei a 

perceber que, tanto o lugar ocupado quanto quem o ocupa é parte importante do processo de 

produção  das  mulheres  do  campo  e  da  floresta  como  sujeitos  políticos,  que  merecem  ser 

vistas e reconhecidas pela sociedade, e vistas e ouvidas pelo Estado.  

De  um  modo  geral,  procurei  apresentar  aqui  os  grupos  e/ou  indivíduos  mais 

diretamente envolvidos nas definições do campo conformado pela Marcha das Margaridas. 

Trata-se de atores sociais em fluxo que estabelecem relações interativas, conforme maior ou 

menor  interesse  e  mobilização.  Ao  fazê-lo,  evidenciei  alguns  aspectos  que  permitem 

compreender a dinâmica interna da Marcha, o que inclui a forma como essas relações são 

estabelecidas tanto entre aqueles atores que fazem parte da sua coordenação ampliada, e estão 

mais diretamente envolvidos nos seus processos decisórios (Contag, CNMTR e entidades 

parceiras);  quanto  entre  esses  atores  e  outros  que,  conquanto  não  sejam  participantes  da 

coordenação, desempenham um papel importante para as tomadas de decisão que ocorrem 

em seu interior (apoiadores e patrocinadores). 

Os espaços de interação entre os atores membros da Coordenação Ampliada são 

as chamadas “reuniões da Marcha”, espaço privilegiado para ampliar a compreensão da sua 

dinâmica interna.  

 

3.1.4.5 As “reuniões da Marcha” 

“Reuniões  da  Marcha”,  era  assim  que  as  pessoas,  geralmente,  se  referiam  às 

reuniões da Coordenação Ampliada, preparatórias da Marcha. Não que esse fosse o único 

espaço que se discutisse questões referentes à Marcha, mas talvez para distinguir das reuniões 

da  Comissão  Nacional  de  Mulheres  Trabalhadoras  Rurais  (CNMTR),  das  quais  só 

participavam mulheres representantes estaduais das secretarias de mulheres das  Federações 

de  Trabalhadores/as  na  Agricultura.  As  reuniões  da  CNMTR  fazem  parte  da  agenda  da 

Secretaria de Mulheres Rurais da Contag, mas, desde o ano que antecedeu a Marcha, elas se 



190 

 

voltaram  para  questões  relativas  à  sua  preparação,  particularmente,  às  questões  político- 



organizativas no âmbito do movimento sindical. Muitas das questões levadas à reunião da 

Coordenação Ampliada já haviam sido previamente discutidas e acordadas nas reuniões da 

CNMTR, que geralmente antecediam as reuniões do Conselho Deliberativo da Contag

146


.  

Carmen  dizia  que  era  estratégico  fazer  as  reuniões  da  Comissão  nesses 

momentos,  porque  oportunizava  a  participação  das  mulheres  nos  espaços  de  decisão  da 

Contag,  uma  vez  que,  ao  intervir  conjuntamente  nesses  espaços,  elas  fortaleciam  suas 

propostas. Questões como o estabelecimento de metas em termos de público (quantidade de 

mulheres presentes em Brasília para participar da Marcha), quantidades de dias previstos para 

realização da Marcha (um ou dois dias?) e a previsão de recursos financeiros que uma ação 

como essa demandava, tudo isso precisava passar pela aprovação do Conselho Deliberativo. 

Em uma das reuniões da CNMTR, uma dessas que antecedeu a do Conselho Deliberativo, 

Carmen disse algo assim: 

Eu sei que o nosso desafio  é grande,  mas sei também que, quando as  mulheres 

querem, elas fazem, elas conseguem. Se vocês me disserem que nós vamos trazer 

cem mil mulheres pra Brasília, eu vou lá [ na reunião do Conselho Deliberativo] e 

digo que nós vamos trazer cem mil mulheres, mas eu não vou bancar isso sozinha. 

É isso mesmo? A nossa meta é cem mil mulheres?  

Diante da assertiva, a meta foi reiterada e Carmen a defendeu no Conselho. 

Mas, voltando às “reuniões da Marcha”... 

As decisões sobre como se dará a construção da Marcha são tomadas em reuniões 

que, de certa forma, são incorporadas como uma de suas ações. As reuniões consolidam um 

espaço  de  sociabilidade  próprio  da  Marcha,  que  promove  a  consolidação  de  uma rede  de 

relações entre as organizações que compõem a Coordenação Ampliada e que ultrapassam a 

estrutura  formal  da  Contag. Todas  as  reuniões  ocorreram  no  Centro  de  Estudos  Sindicais 

                                                 

146


 O Conselho Deliberativo “é a segunda instância de decisão do MSTTR, composto por diretores/as da CONTAG 

e das Federações de Trabalhadores/as na Agricultura. Tem por finalidade apreciar e deliberar sobre as pautas 

apresentadas  pela  diretoria  da  CONTAG,  dentre  as  quais  a  aprovação  da  prestação  de  contas,  previsão 

orçamentária e plano de ação do MSTTR” (http://www.contag.org.br/) 

 



191 

 

(CESIR), um local anexo à sede da Contag, onde, normalmente, são sediadas as atividades 



de formação, seminários, plenárias, reuniões e, enfim, encontros promovidos pelo MSTTR. 

As  reuniões  são  sempre  coordenadas  pela  secretária  de  mulheres  rurais  da 

Contag, que conta com uma equipe de assesoras composta de três pessoas responsáveis 

pela preparação das reuniões, que inclui a organização do espaço, a disponibilização de 

materias  que  serão  utilizados  (datashow,  preparação  de  slides,  fotocópias  de  textos, 

relatórios,  documentos  etc.)  e  o  registro  da  reunião.  A  preparação  inclui  também  o 

estabelecimento  de  contato  com  as  participantes  convidadas.  A  maior  parte  da 

comunicação entre a coordenação ampliada se dá por e-mail e, complementarmente, por 

telefone. A alguns dias que antecedem as reuniões, é enviado por correio eletrônico uma 

circular  que  comunica  a  realização  da  reunião e convida  as  organizações a  se  fazerem 

presentes. O deslocamento para a participação nessas reuniões é financiado pela Contag, 

que também garante a estadia e a alimentação nos dias em que ocorrem as reuniões. Aliás, 

a  Contag  fornece  a  estrutura  formal  de  organização  interna  da  Marcha  como  sede, 

telefone,  computador,  gráfica  etc.,  e  também  assessoria,  que,  inclusive,  auxilia  na 

elaboração de projetos em busca de financiamentos. 

Ao todo, aconteceram sete reuniões, duas no ano de 2010 e as outras cinco em 

2011; a última foi realizada após a Marcha, com o objetivo de avaliá-la. Normalmente, nessas 

reuniões, participavam, além da representante da Secretaria de Mulheres Rurais da Contag, 

as representantes das coordenações regionais da Contag (Regional Nordeste e Regional Sul), 

uma  representante  das  federações  de  cada  região  do  país  (representantes  regionais  da 

CNMTR)  e  as  “organizações  parceiras”.  Digo  “normalmente”  porque,  em  duas  dessas 

reuniões, na primeira e na última

147

, mais especificamente, houve a participação de toda a 



Comissão  Nacional  das  Mulheres  Trabalhadoras  Rurais  (CNMTR).  A  participação  das 

                                                 

147

  A  primeira  reunião  foi  o  primeiro  momento  em  que  ocorreu  o  encontro  formal  entre  a  Comissão  e  as 



“organizações parceiras”. Esse aspecto foi ressaltado como importante para a construção da Marcha 2011. Nessa 

reunião, foi realizada uma reflexão sobre o que é ser parceira da Marcha das Margaridas e, às organizações 

parceiras  presentes,  foi  demandado  que  expusessem  as  suas  expectativas  em  relação  à  Marcha  e  aos 

compromissos que pretendiam assumir. Portanto, foi uma reunião em que se selou, formalmente, as relações de 

parceria. A última reunião com a participação de toda a CNMTR foi feita após a Marcha, com o objetivo de 

avaliá-la. 




192 

 

mulheres diretoras das demais secretarias da Confederação, quando ocorriam, era de forma 



pontual, em alguns momentos específicos.  

Nessas  reuniões,  o  arranjo  espacial  favorecia  uma  proximidade  maior  entre  a 

coordenação  e  as  demais  participantes. Todas  se  acomodavam  nas  cadeiras  dispostas  em 

forma de círculo, sem demarcar, pois, um espaço hierarquizado. Entretanto, a maneira como 

as participantes se distribuíam nesse círculo resultava numa proximidade maior entre aquelas 

que  tinham  mais  afinidades  entre  si,  pelo  que  era  possível  verificar  um  movimento  de 

identificação e de diferenciação.  

Em cada reunião, era apresentada uma proposta de pauta pensada pela diretora 

da Secretaria de Mulheres, em conjunto com a sua assessoria, e submetida à apreciação das 

demais  participantes,  que  poderiam  propor  algum  outro  ponto  complementar  ou  pedir 

esclarecimento, de modo que a pauta da reunião fosse decidida coletivamente. Normalmente, 

isso era feito de forma muito tranquila e aberta, havendo sempre consenso em relação à pauta 

proposta. 

Nesse  espaço,  as  mulheres  ligadas  ao  mundo  sindical  tornavam  públicos  os 

problemas  enfrentados  para  organizar  a  Marcha  nas  localidades  nas  quais  direta,  ou 

indiretamente,  atuavam.  Elas  também  trazem  para  aquele  espaço  as  demandas,  as 

dificuldades  e  adversidades  enfrentadas  pelas  companheiras  as  quais  representam, 

caracterizando-se muitas vezes como falas de “desabafo”, quando elas publicizam um drama 

pesooal vivido localmente (COMERFORD, 1999).  

As discussões em torno do lema, da pauta dos eixos e dos temas que envolvem a 

Marcha acabavam tornando aquele lugar também um lugar de aprendizado, de “formação”. 

Uma  das  dirigentes  sindicais  que  compõem  a  Coordenação  Ampliada  me  disse  que  as 

discussões que ocorriam nessas reuniões a ajudou a fazer “as discussões com as mulheres da 

base” e ressaltou, nesse sentido, a contribuição das “organizações parceiras” no subsídio a 

essas  discussões,  especialmente,  no  trato  de  temas  como  violência  contra  a  mulher  e  a 

legalização do aborto, e concluiu : “Quando você tem as parcerias, elas te ajudam a fazer essa 




193 

 

discussão, e isso é muito bom”. Na continuação da conversa, percebi que “ajudar” tinha o 



significado de “fundamentar”, “conscientizar” acerca do problema. Os temas citados fazem 

parte da agenda feminista; no caso desses e de outros que também compõem tal agenda, a 

participação e as intervenções das organizações feministas, parceiras da Marcha, contribuem 

para embasar e construir argumentos em torno de temas polêmicos.  

Como as discussões são o meio pelo qual se toma decisões, se debate, se confronta 

ideias  e  se  aprende,  a  possibilidade  de  emitir  opiniões,  de  defender  proposições,  de  pedir 

esclarecimentos ou de contrapôr ideias se dá pela fala. Nas reuniões, apesar do “direito à fala” 

ser garantido, o uso desse recurso se dá de forma diferenciada entre as participantes. Aliás, são 

sempre as mesmas pessoas as que mais falam. Entretanto, é um espaço de produção da fala. 

Tudo isso torna esse espaço também um local de partilha. Não foi à toa que uma das 

companheiras  de  Nezinha,  também  quebradeira  de  coco,  ao  incentivá-la  a  participar  dessas 

reuniões, lhe disse: “Vai, que aí tu vai começar a falar, vai conhecer pessoas diferentes.” 

Em  todas  essas  reuniões,  há  alguém  que  registra  as  discussões,  a  chamada 

“relatora”, que, posteriormente, envia o relatório de reunião para todas as participantes da 

coordenação  ampliada  e  para  as  mulheres  da  Comissão  Nacional  de  Mulheres 

Trabalhadoras Rurais. O registro ajuda a orientar “a repassar as informações e discussões 

às  demais  companheiras  que  não  participam  dessas  reuniões  e  que  atuam  nos  estados, 

municípios,  comunidades”,  ou  seja,  permite  que  as  discussões  sejam  “reapropriadas  em 

outros contextos, de modo a dar origem a um processo de discussão mais amplo e contínuo” 

como  salienta  Comeford  (1999,  p.  49),  ao  analisar  as  reuniões  realizadas  no  âmbito  de 

organizações  de  trabalhadores  rurais,

148


  de  modo  a  permitir  uma  certa  extensão  das 

discussões feitas para outras instâncias dos movimentos e/ou organizações. O registro ajuda 

também a manter um processo de reapropriação das decisões tomadas e  dos  pontos  que 

ficaram pendentes entre uma reunião e outra.  

                                                 

148


 Comerford (1999) fez um excelente trabalho etnográfico sobre essas reuniões. A leitura do seu texto orientou o 

meu olhar no acompanhamento das reuniões da Marcha. 




194 

 

As  reuniões,  convocadas  pela  Secretaria  de  Mulheres  da  Contag,  eram 



coordenadas por Carmen Foro, que abria os trabalhos dando as boas-vindas às participantes, 

agradecendo  a  presença  de  todas  e  explicando  os  objetivos  e  finalidade  da  reunião.  Na 

sequência, era comum uma rodada de apresentação das participantes. Algumas vezes, mas 

nem  sempre, era  pensada  pela  assessoria  ou  por alguma  outra  integrante  da  Coordenação 

Ampliada, quase sempre as dirigentes sindicais, o que se chama “dinâmica de abertura”, uma 

forma  lúdica  de  promover  a  integração  do  grupo,  de  fazer  com  que  as  participantes  se 

conheçam, se descontraiam, muitas vezes utilizando cantos e brincadeiras de roda. 

Não eram reuniões breves. Normalmente, tinham a duração de dois dias, e uma 

delas chegou a se estender por três dias. Essas reuniões eram marcadas por momentos, etapas 

que a estruturavam. Inicialmente, a coordenadora dava as boas-vindas às participantes. Em 

seguida,  havia  uma  breve  apresentação,  principalmente,  quando  havia  ali  alguém  ainda 

desconhecido da maioria do grupo. Na primeira reunião, essa apresentação foi realizada por 

meio  de  uma  dinâmica  de  grupo  que  também  buscava  levantar  os  compromissos  e  as 

expectativas das participantes em relação à Marcha das Margaridas. Após este momento, a 

coordenadora  resgatava  os  objetivos  da  reunião  e  apresentava  a  sua  proposta  de  pauta, 

submetendo-a  à  apreciação  das  participantes,  que  poderiam  propor  a  inclusão  de  outros 

pontos ou pedir esclarecimentos sobre pontos propostos.  

Na  pauta  da  reunião,  era  sempre  previsto  um  primeiro  momento  para  os 

“informes”,  no  qual  a  coordenadora  informava  a  respeito  de  questões  ralacionadas  à 

preparação da Marcha. Posteriormente, ela passava a palavra às participantes para que elas 

também informassem o andamento da preparação da Marcha nos seus estados e/ou no seu 

espaço  de  atuação,  momento  este  em  que  elas  descreviam  as  ações  que  estavam 

desenvolvendo, o que já haviam conquistado e as dificuldades que estavam enfrentando. Na 

sequência,  passava-se  à  discussão  em  relação  aos  pontos/temas  estabelecidos  na  pauta. 

Nesses momentos, abria-se o espaço para todas que quisessem fazer uso da palavra, seguindo 

a ordem de inscrição, que era observada pela coordenadora da reunião. Por intermédio das 

falas,  as  participantes  opinavam,  explicitavam  seus  pontos  de  vista,  expressavam  suas 

dúvidas, reiteravam ou não o que já havia sido dito, discordavam, de modo que, como bem 




195 

 

observou Comeford (1999, p. 52) se referindo a esses momentos da reunião: “[...] as decisões 



tomadas fossem representativas da opinião das participantes e/ou que as discussões feitas 

fossem bem compreendidas por todas em todas as suas implicações”. 

À medida que cada ponto do tema da pauta era discutido, a coordenadora fazia 

anotações  para,  no  final,  propor  uma  síntese  da  discussão  já  com  uma  proposta  de 

encaminhamento;  a  seguir,  passava-se  ao  próximo  ponto  da  pauta.  No  final  da  reunião, 

reapresentava-se um síntese do que fora discutido, as decisões tomadas, os pontos pendentes, 

o  que  caberia  a  cada  uma  fazer,  “quem  se  responsabilizaria  pelo  quê”.  E,  para  encerrar, 

Carmen agradecia sempre a presença de todas e proferia algumas palavras engrandecendo a 

coragem daquelas mulheres, reafirmando o compromisso assumido, incentivando a luta, a 

organização e o trabalho. E, em meio a abraços de despedida, as reuniões acabavam  

Nessas  reuniões,  não  havia  um  momento  para  avaliação  propriamente  dita, 

porque cada uma era a continuidade da outra, formando cadeias, de modo que uma reunião 

sempre apontava a pauta da próxima, ficando a cargo da coordenação e de sua assesoria a sua 

preparação.  Um  mesmo  ponto  de  pauta  permanecia  por  várias  reuniões,  até  decisões  em 

relação à questão colocada por ele fosse tomada. Nessas reuniões, foram tomadas decisões 

em  relação  ao  lema  da  Marcha  (consígnia),  aos  eixos  temáticos  que  estruturaram  sua 

plataforma  política,  e  à  construção  da  pauta  de  reivindicações,  à  elaboração  de  materiais 

escritos  como  panfletos  ou  folhetos  e  caderno  de  textos  para  subsidiar  as  discusões  nas 

localidades. E outras questões relacionadas à caminhada propriamente dita como: tamanho 

das bandeiras, organização das alas, os acessórios, as cores das camisetas. Também nesse 

espaço foram discutidas a construção das ações no 8 de março de 2011 (Dia Internacional da 

Mulher),  a  construção  do  Seminário  Nacional  da  Marcha  das  Margaridas  (temas, 

convidadas/os,  colaboradoras,  organização  e  dinâmica  interna),  o  lançamento  nacional  da 

Marcha; a Mostra da Organização Produtiva das Margaridas. 

Acompanhando essas reuniões, observei que, ainda que haja pontos de tensão ou 

divergências ocasionais, estes, no entanto, não chegam a tomar as proporções de um conflito 

aberto.  Aliás,  dentro  do  campo,  é  possível  perceber  dinâmicas  de  identificação  e 



196 

 

diferenciação, mas tais dinâmicas parecem não produzir rupturas, ainda que influenciem as 



redefinições no seu próprio interior.  

O fato de a Marcha ser um espaço de atuação da Contag, ao mesmo tempo que é 

um movimento que ultrapassa as suas fronteiras, onde convivem outros movimentos, outras 

organizações,  parece  produzir  uma  dinâmica  própria,  na  qual  o  respeito  às  regras  de 

convivência  e  o  desvio  de  confrontos  abertos  entre  as  organizações  dão  a  tônica,  o  que 

Facchini  (2005)  chama  de  relações  de  “evitação.”

149

  No  processo  que  engendra  essa 



dinâmica, a pessoa que assume a coordenação da Marcha exerce um papel fundamental. 

Até  aqui  tentei  apresentar  a  organização  interna,  as  relações  que 

conformam o campo político e configuram a Marcha das Margaridas; os vínculos entre 

os  atores  envolvidos  e  a  natureza  destas  relações;  as  suas  expectativas,  as  regras 

estabelecidas, os suportes

150


 que elas apresentam para atingir seus objetivos políticos; 

o acesso e o controle dos recursos mobilizados e/ ou disponíveis e a utilização destes 

(recursos)  como  suporte,  procurando  mostrar,  como  assinalam  Swartz,  Turner  & 

Tunder (1994 [1966], p. 105), que esse campo não opera mecanicamente: é antes um 

campo de tensão, com antagonistas inteligentes e determinados, sozinhos e agrupados, 

motivados  pela  ambição,  altruísmo,  interesse  próprio  e  o  desejo  do  bem  público,  e 

que,  em  situações  sucessivas,  estão  ligados  entre  si  pelo  interesse  pessoal  ou 

idealismo, e separados ou opostos pelas mesmas razões. Nessa perspectiva, um campo 

é assim marcado por intencionalidades.  

Mas  o  conceito  de  campo,  em  Swartz,  é  complementado  pelo  de  arena

151

,  um 


espaço sociocultural situado em torno daqueles diretamente envolvidos no campo, mas não 

                                                 

149

 Termo cunhado por Facchini (2005, p. 277), ao analisar o Movimento LGBT. 



150

  Swartz, Turner  & Tuden  (1994 [1966],  p.  106)  definem  suporte  como  “cualquier  cosa  que  contribuya  a  la 

formulación  y/o instrumentación de fines políticos”,  sendo, por exemplo, a  legitimidade um tipo de suporte 

“que deriva no de la fuerza o de su amenaza sino de los valores — formulados, influídos y afectados por fines 

políticos— que tienen los indivíduos”. Os recursos (materiais, humanos, normativos) possuem, a princípio, uma 

natureza não política, mas, ao serem utilizados para fins políticos, tornam-se suportes. 

151

  Para  Swartz,  a  utilidade  do  conceito  de  arena  dependeria  do  seu  foco  de  atenção  teórica  sobre  problemas 



importantes que poderiam não ter ficado tão claros para prosseguir apenas com o conceito de campo (Swartz, 

1966, p. 9).

 



197 

 

diretamente envolvidos nos seus processos definidores (Swartz, 1966, p. 9).  É o caso, por 



exemplo,  de  todas  aquelas  mulheres  as  quais  a  Marcha  representa  e  que,  embora  se 

beneficiem dos direitos conquistados no processo de luta pela reivindicação de direitos, não 

estão, necessariamente, envolvidas nos processos que definem as suas ações. 

Considerando, de um lado, a flexibilidade do campo, que, como já mencionado 

anteriormente, pode se contrair ou se expandir para fora dos seus limites; e do outro lado, o 

espaço  que  lhe  é  imediatamente  adjacente:  a  arena,  poderia  inferir  que  a  Marcha, 

intecionalmente  ou  não,  pode  incorporar  participantes  da  arena  no  processo  político, 

expandindo o seu raio de ação, à medida que redefine os limites da arena.  

Dessa  forma,  é  possível  compreender  o  aumento  da  participação  na 

manifestação pública de “mulheres urbanas”, de diferentes categorias como domésticas, 

comerciárias,  funcionárias  públicas,  professoras,  estudantes,  militantes  feministas 

engajadas  em  vários  movimentos  e  organizações  sociais.  Pessoas  que  poderiam  se  

reconhecer  ou  serem  reconhecidas  como  “margaridas”  sem,  no  entanto,  estarem 

diretamente envolvidas nos processos definidores da Marcha ou mesmo envolvidas no 

seu fazer cotidiano, seja por que essas pessoas estabelecem relações com os membros 

do  campo,  seja  por  que  elas  compartilham  com  os  seus  membros  um  repertório  de 

valores,  significados  e  recursos,  ainda  que  eles  nem  todos  sejam  empregados  nos 

processos que constituem o campo (SWARTZ, 1966, p. 9). 

Elas viam... o vídeo

152


 que nós, que eu fiz pra chamar pra Marcha das Margaridas, 

ele  não  foi  visto  somente  pelas  mulheres  rurais, mas  ele  foi  visto  por  mulheres 

urbanas.  E  as  mulheres  urbanas,  as  mulheres  da  Confederação  Nacional  do 

Comércio  me  chamaram  e  falaram  assim:  eu  assisti  seu  vídeo,  chamando  pra 

Marcha, e eu quero ir nessa marcha. Ela se convenceu. (Carmen Foro). 

Outros  atores  ligados  a  Ongs,  universidades,  departamentos  de  pesquisas, 

movimentos, entidades sindicais, ou que mantêm alguma relação com as temáticas trazidas 

pela  Marcha,  desempenham  papéis  importantes  em  determinados  momentos  como 

                                                 

152


 Refere-se ao vídeo institucional produzido pela Secretaria de Mulheres da Contag, fazendo o chamamento para 

que  as  mulheres  participassem  da  Marcha.  O  vídeo,  principalmente,  nos  municípios,  era  utilizado  como 

instrumento de mobilização, e nesse sentido ele é considerado um dos suportes do campo. 



198 

 

seminários,  atividades  formativas,  pesquisas,  ou  em  outras  atividades  propostas  pela 



Marcha, inclusive, na própria manifestação pública, e, na medida em que o fazem (aguardar 

a resposta dela), elas atuam como parte do campo. Normalmente, tratam-se de pessoas e 

organizações convidadas por serem conhecidas de outras experiências de militância, muitas 

delas, inclusive, reconhecidas como “colaboradoras” e que são mobilizadas no campo. A 

mídia também é um dos recursos mobilizados da arena. A Marcha é noticiada em vários 

jornais impressos, em noticiários televisivos e em diversos blogs e sites de organizações 

políticas (partidos políticos, centrais sindicais, movimentos, ongs, orgãos de representação 

como a UNE etc.), na mídia eletrônica em geral, ou na mídia segmentada, como blogs e/ou 

sites feministas. 

campo mantém com a arena uma relação íntima. O próprio Swartz (1966, p. 

15) ressalta que:  

The boundary  between the field and the arena  is not  conceived as necessarily or 

“normally” offering a barrier to the movement of the processes being studied. It is 

simply an empirical reality, discovered  in the course of  investigation and  it  is at 

least  as  likely  to  be  fluid  as  it  is  to  be  permanent.  Similarly,  the  boundary 

between the arena and what lies outside it is a matter for empirical determination 

and it too will vary as the involvements of the members of the field change.

153


 

É  a  capacidade  de  mobilizar  pessoas,  recursos,  valores,  significados,  enfim, 

presentes  na  arena  (mídia,  opinião  pública,  poder  público,  por  exemplo)  que  provoca  a 

expansão do campo. Por outro lado, os recursos e suportes aí utilizados podem estimular a 

mobilização na arena. Nesse sentido, a estrutura oferecida pela Contag (corpo de assessores, 

computadores telefones, jornal eletrônico, programa de rádio

154

, recursos financeiros etc.), a 



sua  legitimidade  e  reconhecimento  político  como  organismo  de  representação  dos 

                                                 

153

 "A fronteira entre o campo e a arena não é concebida como, necessariamente ou "normalmente", oferecendo 



uma  barreira  para  o  movimento  dos  processos  que  estão  sendo  estudados.  É  simplesmente  uma  realidade 

empírica, descoberta no curso da investigação e é, pelo menos, tão provável que seja fluida, quanto permanente. 

Da  mesma  forma,  a  fronteira  entre  a  arena  e  o  que  está  fora  dela  é  uma  questão  para  ser  determinada 

empíricamente e isso também irá variar conforme os envolvimentos dos membros na transformação do campo." 

[ tradução minha] 

154


 A Contag possui um programa de rádio chamado “ A voz da Contag”, que integra a programação radiofônica 

de aproximadamente 100 STTRs. O programa é transmitido semanalmente por centenas de emissoras do país e 

é dirigido para os trabalhadores e as trabalhadoras rurais.  



199 

 

trabalhadores e trabalhadoras rurais, bem como a sua capilaridade



155

 são recursos utilizados 

na Marcha como suportes para atingir os seus objetivos políticos. A produção do cartaz da 

Marcha,  do  panfletão

156

,  do  caderno  de  textos  para  estudos  e  debates,  do  vídeo  de 



chamamento, do spot de rádio, do CD das Margaridas foram custeados pela Contag. Esses 

materiais foram utilizados, ora no processo de mobilização, ora na divulgação, ora ainda para 

subsidiar a discussão e o debate político em torno dos temas da Marcha.  

A Marcha apresenta uma organização interna que diferencia os seus espaços de 

ação,  ao  mesmo  tempo  que  os  articula.  Seu  escopo  territorial  é  amplo  e  envolve  espaços 

situados em escalas distintas, intimamente vinculadas à ação (nacional, estadual, regional, 

municipal). As ações visando à construção da Marcha são estimuladas desde Brasília, onde 

as  decisões  são  tomadas  e  de  onde  partem  as  orientações  e  se  espraiam  até  contextos 

microlocais. Apesar de a nossa análise partir desse lugar, e considerando o escopo territorial 

abrangido  pela  Marcha,  reconhecemos  que  outros  atores,  pessoas  e/ou  organizações  se 

interessam e são envolvidas, ampliando as fronteiras do campo e influenciando o processo 

político. Do mesmo modo, a delimitação da arena se amplia ao incoporar arenas delimitadas 

a  partir  das  relações  que  configuram  o  campo  nos  espaços  locais  (estado,  município, 

comunidade).  

Assim,  por  exemplo,  percebi  que,  nos  municípios,  a  relação  que  as  pessoas 

envolvidas  com  a  Marcha  estabelecia  com  atores  locais  como  o  prefeito,  os  vereadores 

(referidos pelas minhas interlocutoras como poder público local), comerciantes, enfim, todos 

eles membros da arena, ganhava importância quando se tratava de viabilizar a presença de 

um maior ou menor número de mulheres em Brasília durante a manifestação, visto que, por 

meio  do  tipo  de  relação  estabelecida  –  muitas  vezes  relações  de  proximidade  que  se 

estabelecia por afinidades pessoais e que extrapolavam as “questões coletivas” – era possível 

                                                 

155

 A Contag possui na sua estrutura mais de quatro mil sindicatos filiados em todo o país. 



156

 Panfletão foi o nome que as próprias mulheres deram a um material produzido com a finalidade de divulgar a 

Marcha 2011. Ele tinha o formato de um panfleto, mas em um tamanho bastante ampliado, e continha várias 

informações sobre a Marcha, fazendo-o cumprir a função de uma cartilha.  




200 

 

garantir o financiamento para locação de ônibus, a doação de recursos financeiros, de objetos 



para serem sorteados em bingos, rifados etc.  

Apesar de ser importante estar atenta à relação entre campo e arena, percebi que, 

do ponto de vista da construção do sujeito político, é no campo que se estabelece a produção 

de categorias que o define, sem que, necessariamente, se considere o que ocorre na arena

Por  isso  eu  me  debrucei  mais  sobre  a  compreensão  da  dinâmica  interna  da  Marcha  das 

Margaridas, na articulação que a configura, considerando as similaridades e as diferenças na 

constituição do sujeito político. 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

 

 



 

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