Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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Culture, Thought and Social Action, Tambiah (1985) apresenta o ritual como tendo um 

efeito  agregador,  capaz  de  provocar  o  equilíbrio,  a  união  coletiva  entre  indivíduos  ou 

grupos envolvidos, e o define como: 

Ritual  is  a  culturally  constructed  system  of  symbolic  communication.  It  is 

constituted of patterned and ordered sequences of words and acts, often expressed 

in  multiple  media,  whose  content  and  arrangement  are  characterized  in  varying 

degree by formality (conventionality), stereotypy (rigidity), condensation (fusion), 

and  redundancy  (repetition).  Ritual  action  in  its  constitutive  features  is 

                                                 

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 Assim como Palmeira e Heredia (1995, p. 37) em relação aos comícios, eu também não me preocupo com a 



propriedade ou impropriedade de me referir à marcha como um ritual. Assim como eles, também acredito que 

o fundamental é pensar as relações que se estabelecem entre eventos vividos como excepcionais, como é a 

marcha e o cotidiano ao qual ela se refere. 



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performative in these three senses: in the austinian sense of performative, where in 



saying something  is also doing something as a conventional act;  in the different 

sense of a staged performance that uses multiple media by which the participants 

experience the event intensively; and in the sense of indexical values – I derive this 

concept  from  Peirce  –  being  attached  to  and  inferred  by  actors  during  the 

performance (TAMBIAH, 1985, p. 128)

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Assim, para esse autor, o ritual é uma ação performativa, que apresenta uma 

eficácia,  e  esta  ocorre  em  três  sentidos:  primeiro,  no  sentido  de  que  “dizer  algo”  é 

também  “fazer  algo”;  segundo,  no  sentido  dos  participantes  experimentarem  uma 

performance que utiliza vários meios de comunicação; e , por último, no sentido de que 

valores  durante  a  performance  são  incorporados  pelos  atores.  Portanto,  a  ação  ritual 

transmite significados e cria realidade social. Apresenta, pois, um aspecto performativo 

e criativo. Ainda para o mesmo autor, a eficácia e o caráter performativo da ação ritual 

se  devem  à  combinação  entre  sua  forma  e  o  seu  conteúdo:  “[...]  the  ordering  and  the 

pattern  of  presentation  of  the  ritual  language,  physical  gestures,  and  manipulation  of 

substances is the form of the ritual: form is the arrangement of contents” (TAMBIAH, 

1985, p. 143).

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Quatro aspectos do pensamento de Tambiah (1985) podem ser úteis para analisar 

a  Marcha:  i)  a  ação  ritual  tem  uma  intencionalidade;  ii)  é  construída  para  expressar  e 

comunicar; iii) apresenta-se de forma ordenada e padronizada; iv) permite a integração e a 

continuidade  de  relações  interpessoais.  Contudo,  a  teoria  de  Victor  Turner  me  permite  a 

incorporação do conceito de experiência, algo que sempre me pareceu importante para captar 

os sentidos da Marcha para aquelas que a tecem. 

                                                 

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Ritual  é  um  sistema  culturalmente  construído  de  comunicação  simbólica.  Ele  é  constituído  de 



sequências padronizadas e  ordenadas de  palavras  e  atos,  frequentemente,  expressos  em  múltiplas  mídias, 

cujos  conteúdo  e  arranjo  são  caracterizados  em  grau  variável  por  formalidade  (convencionalidade), 

estereótipo  (rigidez),  condensação  (fusão)  e  redundância  (repetição).  A  ação  ritual  nos  seus 

traços constitutivos é performativa nestes três sentidos: no sentido austiniano de performativo, onde dizer é 

também  fazer  algo  como  um  ato  convencional;  no  sentido  diferente  de  uma  performance  encenada  que 

utiliza vários meios de comunicação através dos quais os participantes experimentam o evento intensamente, 

e no sentido dos valores indexicais. Eu derivo este conceito de Peirce – vinculados ou inferidos pelos atores 

durante a performance [tradução minha]. 

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[...] A ordem e o padrão de apresentação da linguagem ritual, gestos físicos, e a manipulação de substâncias é 



a forma do ritual: a forma é o arranjo de conteúdos"[tradução minha]. 


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A  noção  de  experiência



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  como  recurso  analítico  possibilita  apreender,  por 

exemplo, o que é para as mulheres ser uma Margarida, que sentido tem para elas estar em 

marcha. Essa dimensão da experiência vivida também as constitui como mulher, e explorar 

os sentidos e significados da Marcha para elas implica considerar o caráter dessa experiência 

vivida: como as mulheres vivem, percebem, significam e são afetadas pela Marcha? 

Ao me deparar com o pensamento de Turner, vi a possibilidade de recuperar 

essa dimensão do vivido na dimensão simbólica da Marcha, recorrendo analiticamente à 

noção de experiência. 

Turner  (1986)  considera  que  a  experiência  tem  qualidades  estruturais 

identificáveis;  trata-se  de  uma  estrutura  processual  complexa,  que  combina  facetas 

interdependentes:  cognitiva,  afetiva  e  volitiva,  e  abrange,  além  dos  sensoriais,  os 

sentimentos e expectativas. Dawsey (2005), analisando a antropologia da experiência em 

Turner, apresenta cinco “momentos” descritos por ele em relação à estrutura processual 

de cada experiência vivida: 

1) Algo acontece ao nível da percepção [...]; 2) imagens de experiências do passado 

são evocadas ou delineadas – de forma aguda; 3) emoções associadas aos eventos 

do  passado  são  revividas;  4)  o  passado  articula-se  ao  presente  numa  “relação 

musical” [...] tornando possível a descoberta e a construção de significados; 5) a 

experiência se completa através de uma forma de “expressão”. Performance – [...] 

– refere-se, justamente, ao momento da expressão. A performance completa uma 

experiência (ibidem p. 164, grifos do autor).  

Depois de delinear tais momentos – o núcleo perceptivo, a evocação de imagens 

do passado, o reavivamento de sentimentos associados, a emergência de significado e valor 

e,  finalmente,  a  expressão  da  experiência  –,  Turner  (1982,  p.  15)  argumenta  que  só  é 

realmente no quinto momento de “expressão” que a unidade estruturada de experiência "pode 

ser dita para se revelar”. 

                                                 

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Essa  dimensão  da  experiência  vivida  também  está  presente  em  Thompson  (1987),  para  quem  é  pela 



experiência que os sujeitos se constituem. 

 



20 

 

Encontro  em  Turner  elementos  para  compreender  a  Marcha  das  Margaridas 



como uma performance. Para ele, entretanto, trata-se de uma performance que se relaciona 

à estrutura social não como algo à parte, uma vez que é parte da experiência vivida, mas 

revelando  essa  estrutura  ainda  com  mais  intensidade.  Dawsey  (2005),  respaldado  em 

Turner, diz que são nos momentos de suspensão das relações cotidianas que é possível ter 

uma percepção mais profunda dos laços que unem as pessoas, de modo que elas voltam a 

sentir-se parte de um mesmo movimento, momento chamado por Turner (

2008, [1974]) 

de

 communitas. A communitas pode ser desenvolvida dentro de um padrão ritual, e fica 



mais clara, ainda segundo Turner (2008 [1974], p. 43), na “liminaridade”, que se refere a 

“quaisquer condições fora das ou nas periferias da vida cotidiana”. Turner se interessa por 

momentos  de  suspensão  de  papéis,  ou  interrupção  do  “teatro  da  vida  cotidiana”.  Em 

instantes de “communitas”, as pessoas podem ver-se frente a frente como membros de um 

mesmo tecido social. A Marcha seria então um desses momentos de suspensão do tempo 

ordinário do cotidiano. 

A  ideia  de  communitas  e  a  de  liminaridade  têm  me  fornecido  pistas 

interessantes  para  compreender  o  momento  ritual  da  Marcha  como  performance,  que 

expressa a experiência vivida pelas mulheres que dela participam, experiência liminar, no 

sentido de Turner. 

Procuro  possibilitar  um  diálogo  entre Tambiah  e Turner,  e  estou  certa  de  que 

seguir as pistas deixadas por esses dois pensadores pode se revelar frutífero para analisar a 

dimensão do pensado e do vivido na Marcha das Margaridas. 

A  partir  das  leituras  mencionadas  e  outras  leituras  de  referência,  analisarei  a 

marcha  em  si,  sua  performance e  sua ação  performativa,  por  intermédio  da  sua  dimensão 

simbólica e da subjetividade produzida na sua execução.  

O  quadro  conceitual  e  teórico  aqui  apresentado  balizará  a  análise  que 

empreenderei logo mais.  



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