Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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companheiras! A rouquidão perceptível revelava a fadiga vocal provocada pelo uso (e abuso) 

da voz durante a caminhada pela manhã. Então, ela pede um pouco mais de paciência, porque 

ela precisa fazer uma fala do coração, e a voz já não ajuda tanto, pois, continua elasó com 

a soma do coração com a razão, a gente consegue fazer as coisas bem feitas. Ela começa 

saudando a presidenta da República: é com muita honra que nós encerramos este ato com a 



presença  da  nossa  presidenta  da  República,  Dilma  Rousseff.  Posso  dizer  que  é  um 

encerramento com chave de ouro

À sua saudação seguiram várias palmas vindas da plateia. 




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Depois,  com  o  corpo  voltado  às  representantes  das  organizações  parceiras  que  estavam 



compondo a mesa, ela diz: Companheiras, para não citar uma a uma, eu quero saudá-las 

como irmãs de lutaMinhas irmãs de luta que aqui estão, minha central sindical, a CUT e 

as outras todas eu saúdo com muito carinho.

 

Após saudar os ministros e ministras presentes, 



ela se dirige a Agnelo Queiroz, primeiramente, e depois, a Alberto Broch:  

Queria aqui abrir um parênteses para falar uma coisa aqui que foi combinada 

no cerimonial. Bom, desde ontem, que a gente quebra algumas regras, aliás, as 

regras foram feitas para serem quebradas, e hoje eu quero agradecer a gentileza 

do governador do DF, que, além de nos receber muito bem nessa capital que é 

nossa,  ele  cedeu  a  mim  o  privilégio  de  falar  antes  da  nossa  presidenta  da 

República. E agradeço também, publicamente, ao Alberto. Sabe esse lugar que 

eu estou sentada, por enquanto? [ela estava sentada ao lado de Dilma] Ele é o 

lugar  do  homem,  presidente  da  Contag,  e  gentilmente  o Alberto  me  cedeu. 

Muito Obrigada, Alberto! (Carmen Foro, secretária de Mulheres Trabalhadoras 

Rurais da Contag, 2011). 

Em seguida, ela se dirige ao público e exalta a coragem das mulheres; a coragem 

de Elizabeth Teixeira e de tantas outras que servem de inspiração. Coragem que nos levou a 

fazer com que uma mulher que foi torturada pela ditadura militar esteja sentada conosco, 

hoje,  como  presidenta  da  República,  a  companheira  Dilma.  O  discurso  de  Carmen  é 

estruturado a partir três níveis de abordagem. No primeiro, ela destaca o esforço empreendido 

pelas mulheres para estar ali, configurando-se, assim, como uma vitória. 

Dito isso, eu queria já passar para falar de três coisas. A primeira coisa a dizer à 

presidenta da República é que nós estamos construindo esse Brasil palmo a palmo, 

todos os dias. Estas mulheres que estão aqui, para chegarem aqui, passaram muito 

sacrifício. A  vida  não  é  fácil  para  nós!  [APLAUSOS]  Nossa  construção,  não tô 

falando só falando da construção de políticas públicas, mas também do processo 

de mobilização, depois de todas as tempestades que nós enfrentamos, posso afirmar 

que estar aqui hoje já é um ato de vitória das mulheres trabalhadoras do campo e 

da floresta [APLAUSOS] (idem, 2011).  

No  segundo  momento  da  sua  fala,  Carmen  fala  do  lema  da  Marcha  como 

expressão de um desejo de sociedade. 

Quero dizer que o tema que nós estamos trazendo, o lema da Marcha, que trata de 

desenvolvimento  sustentável  com  justiça,  autonomia,  igualdade  e  liberdade,  é o 

que está no centro de uma proposta que nós queremos pro país. Nós acreditamos 

que não é possível ter desenvolvimento e ter um país democrático enquanto houver 

mulheres que  vivem  sob a chibata de  muitos homens  […], violentadas todos os 

dias.  Não  é  possível  pensar  em  um  país  desenvolvido  se  nós  continuarmos  a 



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conviver  com  um  Congresso  Nacional  com  92%  de  homens,  e  por  isso  é 



fundamental fazer a Reforma Política. (idem, 2011).  

E finaliza apresentando pontos que considera fundamentais para se alcançar o 

desenvolvimento almejado, expressando a expectativa projetada na resposta que será dada 

pelo Governo Fedral às proposições apresentadas. 

Finalizo dizendo, companheiras, que nós, mulheres do campo e da floresta, estamos 

construindo  um  diálogo  com  o  Governo  Federal  desde  o  ano  2000  quando  foi 

realizada a 1ª Marcha das Margaridas. E a nossa expectativa, depois que elegemos 

a  primeira  mulher  presidenta,  aumentou.  Não  que  eu  não  reconheça  todos  os 

caminhos  que  nós  trilhamos,  principalmente,  no  periodo  do Presidente  Lula,  as 

conquistas que nós tivemos [APLAUSOS], mas nós vamos construindo esse país 

mobilizando dia a dia, aqui, nos nossos municípios e nos nossos Estados. Portanto, 

têm  algumas  questões  que  nós  não  abrimos  mão  para  que  a  nossa  proposta  de 

desenvolvimento  esteja  totalmente  articulada:  a  reforma  agrária  é  fundamental 

[APLAUSOS],  mais  orçamento  para  o  enfrentamento  à  violência  contra  as 

mulheres. Nós queremos que o Governo Federal seja avalista do crédito para as 

mulheres do campo e da floresta [APLAUSOS]. Nós queremos educação, saúde de 

qualidade, para que nós possamos não ter que ser expulsos do campo para morar 

nas periferias da cidade. Infelizmente, metade dos pobres do Brasil está entre 17% 

da população rural brasileira, e a outra metade está nas periferias das cidades, que 

são os que foram expulsos por conta da ausência do Estado no meio rural brasileiro. 

Portanto, presidenta Dilma, a nossa expectativa é muito alta em relação ao passo 

que nós vamos dar hoje, com o seu anúncio, depois de um processo de diálogo com 

vários ministérios. Nós esperamos que esse seja um passo fundamental para que a 

gente  construa  cidadania  e  vida  digna,  com  autonomia,  justiça,  igualdade  e 

liberdade  para  todas  nós.  Seguiremos  em  marcha  até  que  todas  sejamos  livres! 

(idem, 2011). 

A fala de Carmen revela um “nós” enunciador, um recurso indéxico que, na troca 

comunicativa,  manifesta  o  compartilhamento  de  ideias,  envolvendo  um  projeto  comum, 

evocado  pelo  lema  da  Marcha  e  por  meio  dela  revelado.  De  modo  que,  à  medida  que 

denunciava  as  desigualdades,  a  injustiça  e  a  opressão  sofrida  pelas  mulheres,  propunha 

políticas  de  desenvolvimento  promotoras  da  igualdade,  da  justiça,  da  autonomia  e  da 

liberdade. Aliás, isso era algo recorrentemente repetido nos seus discursos. Carmen apresenta 

uma atitude discursiva de engajamento que dá legitimidade à sua fala, legitimidade  que é 

atestada  pelas  mulheres  com  os  aplausos.  Mediante  a  entonação  da  voz,  as  palavras,  as 

gesticulações, o olhar, o movimento do corpo (que ora se volta à plateia, ora se volta à mesa), 

ela  faz  sentir  o  que  é  significado  naquilo  que  ela  enuncia,  revelando  a  sua  capacidade 

performática.  



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Muito aplaudida, Carmen retoma o seu lugar à mesa, já carregando consigo 



uma cesta com produtos de vários grupos produtivos de mulheres, expostos na Mostra 

das Margaridas, oferece-os à Presidenta como lembrança da Marcha das Margaridas, e 

dela  recebe  um  abraço  carinhoso.  Enquanto  isso,  o  público,  a  um  só  ritmo, 

acompanhando as batidas das mãos, entoava:  Olê, olê, olê, olá, DilmaDilma… / Olê, 






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