Vilenia venancio porto aguiar somos todas margaridas



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7.2 Ato público 

A caminhada foi coroada com um ato público na Esplanada dos Ministérios, em 

frente ao Congresso Nacional. O primeiro carro de som estacionou, as mulheres começaram 

a  se  aglomerar  na  Praça  dos  Três  Poderes.  Aos  poucos,  os  outros  carros  de  som  se 

aproximavam,  um a  um,  trazendo,  com  eles,  cada  vez  mais  mulheres. A  passos  lentos,  já 

demonstrando  cansaço  pela  longa  caminhada,  chegavam  outras  tantas  acompanhando  as 

últimas  alas,  que,  como  as  anteriores,  se  desfaziam.  As  marchantes,  protagonistas  da 

caminhada, se transformavam agora em público do ato. 

As mulheres espalharam-se pelas imediações, algumas disputando qualquer 

espaço onde porventura houvesse sombra. Algumas se cobriam com bandeiras e com os 

próprios  chapéus,  que  as  simboliza  e  as  protegiam.  Tendo  o  gramado  por  assento, 

muitas,  em silêncio, procuravam refazer as forças, outras se agrupavam em torno dos 

tambores. A  maioria  permanecia  em  pé,  concentrando-se,  junto  com  seus  pares,  em 

frente  ao  carro  de  som,  que  doravante  serviria  de  palanque  para  lideranças  de 

movimentos  sindicais,  de  organizações  feministas  e  de  parlamentares,  pessoas  que 

direta  ou indiretamente  se colocavam ao lado daquelas  mulheres.  Elas  aguardavam o 

início do ato.  

As animadoras, intercalando-se na animação, cumpriam a sua tarefa, encorajando 

com entusiamo as marchantes, tentando concentrar a sua atenção. O Canto das Margaridas, 

intercalado com “vivas” e palavras de ordem, repercutia na multidão. Enquanto se aguardava 

a chegada das outras particiantes, do alto do trio, palavras eram dirigidas à sociedade em 

geral, representada ali pelos olhares curiosos do público, que se aproximava para saber do 

que se tratava aquela aglomeração. Muitas pessoas vieram apenas participar do ato. De cá de 

baixo,  elas  ouviam  as  animadoras  dizerem  por  que  aquelas  mulheres  estavam  ali,  o  que 

queriam,  o  que  significava  a  Marcha,  cujos  temas  eram  sempre  repetidos.  Em  outros 

momentos,  os  “ditos”  eram  direcionados  ao  Congresso  Nacional,  como  se  anunciando  a 

chegada daquelas mulheres.   




400 

 

Lá  no  alto,  o  espaço  que  servia  de  palanque  passava  a  ser  cada  vez  mais 



disputado. Além dos diretores da Contag, havia alguns dos seus assessores, representantes 

de movimentos e organizações parceiras ou apoiadoras da Marcha que lá permaneciam. 

Aos poucos, iam chegando parlamentares, trazendo também a sua assessoria ou algum 

acompanhante. Com exceção destes, para subir no carro de som, era necessário apresentar 

o  crachá  de  identificação,  cujo  portador  poderia  ser  da  equipe  de  organização  ou  da 

imprensa.  Fotógrafos,  jornalistas,  repórters,  cinegrafistas,  todos  esses  também 

disputavam  espaço  no  palanque.  Nas  proximidades  das  escadas  que  davam  acesso  à 

plataforma  superior,  rapidamente  se  estabeleceu  um  tulmuto.  Muitas  pessoas  queriam 

subir e manifestavam o seu desejo utilizando variadas justificativas. Outras desciam para 

que  outros  subissem.  Umas/uns  empurravam  a  fim  de  subir,  outras  (os)  se  esforçavam 

para  descer,  de  modo  que,  em  muitos  momentos,  a  passagem  ficava  completamente 

bloqueada. O pessoal da equipe de organização tentava desobstruir o trânsito impedindo 

a  passagem  ou  liberando-a.  Fundamentalmente,  o  palanque  é  o  lugar  da  palavra 

(CHAVES,  2008),  e,  sendo  assim,  deveria  ser  garantida  a  passagem  de  quem  estava 

legitimamente autorizada(o) a usá-la. 

Passados  alguns  minutos,  as  marchantes  já  acomodadas  e  concentradas, 

inicia-se ao ato propriamente dito. Raimunda Mascena, coordenadora da primeira e da 

segunda Marcha das Margaridas, assumiu a coordenação do ato. Ela procurava mobilizar 

a  atenção  do  público  mantendo-o  entusiasmado  e  também  distribuía  a  concessão  da 

palavra aos oradores. 

Alberto  Broch,  presidente  da  Contag,  procedeu  à  fala  de  abertura,  na  qual 

destacou as  principais  reivindicações  das  mulheres  do  campo,  desde a  democratização 

dos recursos naturais, em defesa do agroextrativismo, da terra, da água e da floresta viva, 

até  a importância  de ter  essas  mulheres  ocupando  espaços  de  poder.  Destacou ainda  o 

poder  de  mobilização,  visto  que  não  se  tratava  apenas  de  entregar  uma  pauta  de 

reivindicações ao governo, mas também de reconhecer a importância do ser feminino para 

o desenvolvimento do país. 



401 

 

Fica uma lição de cidadania e a visibilidade às mulheres do campo, que têm dupla, 



tripla jornadas e produzem a cultura que esse país tem e queremos que preserve. 

Oxalá,  essa  luta  chegue  ao  Congresso  para  que  sejam  aprovadas  medidas 

importantes como a PEC do Trabalho Escravo e a reforma política para que mais 

mulheres possam ter espaço (Alberto Broch, presidente da Contag, 2011).

 

As  representantes  regionais  da  Comissão  Nacional  das  Trabalhadoras  Rurais 



(CNMTR),  na  Coordenação Ampliada  da  Marcha,  também  fizeram  uso  da  palavra.  Elas 

denunciaram a concentração de terra no país – “a maior do mundo, o modelo de produção 

vigente  no  Brasil,  que  favorece  as  grandes  propriedades,  o  latifúndio  e  destrói  o  meio 

ambiente e  envenena  a terra,  a água  e  os  alimentos, com  o  uso  intensivo  de agrotóxico.” 

Denunciaram,  ainda,  os  grandes  projetos,  que  têm  expulsado  as  populações  rurais, 

quilombolas e indígenas de suas terras, provocando um aumento no índice de violência e de 

prostituição.  E  se  posicionaram  em  defesa  da  democratização  da  terra  como  medida 

fundamental para garantir os direitos dos povos do campo e da floresta e um desenvolvimento 






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