Vigilância e segurança: uma reflexão sobre as consequências do uso da tecnologia



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Piquenique na estrada, vigilância e segurança: uma reflexão sobre as consequências do uso da tecnologia

Estela Carielli de Castro

George Orwell, em seu aclamado 1984, denunciou os horrores da(s) ditadura(s), apresentando a figura do Big Brother que, mesmo sem as pessoas saberem ao menos se ele realmente existia, estava sempre lá, vigilante; Aldous Huxley viveu o sistema fordista em seu ápice, considerado um divisor de águas para a sociedade, e como resultado se pergunta, em Admirável mundo novo, quais as consequências de abraçar a tecnologia e a modernidade de maneira desenfreada; Ievguêni Zamiátin, em Nós, obra que serviu de inspiração para Orwell e Huxley, também traz uma sociedade na qual as casas são de vidro, evidenciando um estado de vigilância constante. Mas o que todos esses autores têm em comum? Em suas tentativas de apresentar um futuro, costumam fazer uma dura crítica ao presente ao qual essas obras foram concebidas. E isso ocorre também em Piquenique na estrada, obra dos irmãos Strugatsky, sendo essa obra o objeto de análise deste ensaio, cujo objetivo é utilizá-la para refletir e traçar um paralelo com o Vigilância líquida, de Zygmunt Bauman, trazendo a discussão sobre o uso da tecnologia e suas consequências.

Para isso, torna-se necessário, a princípio, contextualizar a obra dos irmãos Strugatsky. Piquenique na estrada foi publicado, no Brasil, apenas em 2017, pela Editora Aleph, mas a publicação russa e na língua inglesa ocorreu em 1977. Ou seja, o livro foi publicado 31 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial e em meio a Guerra Fria, na qual Estados Unidos e Rússia, ainda União Soviética nesse período, entravam em conflito, sendo a construção de armas nucleares um dos pontos buscados pelas duas nações, além da corrida pelo desenvolvimento tecnológico. Em meio a esse contexto é que Piquenique na estrada é criado, e isso vai ser importante para compreender algumas das críticas que os irmãos Strugatsky realizaram.

Assim, essa obra traz a história de uma cidade, Harmont, onde, sem muitas explicações, ocorre uma invasão alienígena. Sem se comunicarem com os terráqueos, os extraterrestres estavam apenas de passagem, mas, logo após saírem, os locais por onde estiveram são isolados; chamados de zonas, torna-se proibida a entrada nesses lugares. No entanto, há os stalkers, pessoas que invadem esses lugares e trazem os artefatos que aparentam ser valiosos para serem vendidos. O leitor, então, acompanha a história de um desses stalkers, Redrick Schuhart, em dois momentos: o primeiro quando ele ainda é solteiro e assistente do Instituto Internacional das Culturas Extraterrestres de Harmont, responsável por estudar essas zonas, mas com bastante dificuldades, já que o avanço tecnológico dos alienígenas está além da compreensão dos seres humanos; e o segundo quando ele já está casado, mas desempregado, vivendo apenas como stalker. A história é divida em 5 partes: a primeira, uma pequena introdução, traz uma entrevista fictícia ao Dr. Valentin Pilman, um físico ganhador do prêmio Nobel, saído da cidade de Harmont, na qual se aborda, de maneira geral, sobre a zona, sobre o dia da Visitação (quando os alienígenas passaram pela cidade) e sobre os stalkers; na segunda parte, é apresentado o Redrick Schuhart, ou Red, e esse capítulo é o único narrado em 1ª pessoa, pelo próprio Red, que conta uma das suas idas a Zona, apresentando ao leitor o que há de fantástico, mistério e perigo nesse lugar; na terceira parte, temos um salto de 5 anos na história de Red, não mais agora contada por ele mesmo, mas por um narrador-observador. Red agora está desempregado, mas continua sendo um dos poucos stalkers existentes, mesmo sua mulher não gostando que ele vá para as Zonas. O casal tem uma filha, que eles chamam de Monstrinha, porque ela sofreu os efeitos da Visitação. Não há muitas informações sobre o que ela realmente é, mas o que se compreende é a criança é uma parte extraterrestre e uma parte terráquea. As pessoas, na narrativa, afirmam que isso acontece como uma maldição por Red ser stalker, mas a verdade é que, como tantas coisas nessa cidade, não se sabe realmente qual a causa disso.

No capítulo seguinte, temos a história a partir da perspectiva de Richard G. Noonan, “representante dos fornecedores de equipamento eletrônico na filial do ICE – Instituto Internacional das Culturas Extraterrestres de Harmont”. Nessa parte, há uma conversa pertinente para o leitor entre Noonan e seu colega de trabalho, Valentin. Quando Noonan pergunta a Valentin sobre o que ele achava sobre a Visitação, Valentin responde: “Para mim a Visitação foi, antes de tudo, um evento extraordinário que abriu a possibilidade de pularmos, de uma vez, vários degraus no processo de conhecimento. Algo parecido como uma viagem para um futuro tecnológico” (STRUGÁTSKI; STRUGÁTSKI, 2017, p.204). Mas com o andamento da conversa, é possível perceber que os próprios cientistas e pesquisadores ainda não possuem muita ideia de onde estão pisando. Valentin arremata a conversa falando que acredita que os extraterrestres sequer enxergaram os seres humanos na Visitação; para ele, foi como um piquenique na estrada: você para, deixa o lixo (no caso, a Zona) e segue viagem, sem nem sequer enxergar as formigas em seu caminho. Essa é uma das maiores críticas do livro: talvez o ser humano seja mais insignificante do que se pensa. Mas não apenas em termos de imensidão do universo e existência de outros seres, pois, o último capítulo, novamente sobre Red, contrasta muito bem com o capítulo de Noonan e a conversa dele com o Valentin, já que onde o colega de trabalho de Noonan vê uma viagem para um futuro tecnológico, Red nos apresenta uma realidade catastrófica e miserável no entorno das Zonas; assim como Valentin acredita que os seres humanos são insignificantes para os extraterrestres, as pessoas da cidade de Harmont e das outras cidades afetadas pela Visitação são insignificantes para o resto da humanidade.

Apesar da insignificância humana perante o universo ser uma grande temática dessa obra, é possível levantar outras discussões ao encaramos a Zona e a Visitação como uma metáfora para as guerras (sendo essa uma interpretação possível levando em consideração o contexto em que o livro foi criado), especialmente a Segunda Guerra Mundial, que teve um grande acontecimento na história: o lançamento da bomba atômica. Se pensarmos na Zona como algo grandioso e que não se sabe como se chegou a consequências tão devastadoras, se assemelha a bomba atômica, que também causou uma grande destruição e causou modificações genéticas em gerações posteriores ao lançamento, o que pode ser um paralelo com a Monstrinha, filha de Red, que sofreu as consequências da Visitação, mesmo tendo nascido posteriormente. Além disso, a conversa entre os cientistas, Valentin e Noonan, sobre os avanços proporcionados pela Zona, por conta dos artefatos encontrados, pode ser relacionada a própria Guerra Fria, na qual houve uma corrida armamentista e uma busca por um desenvolvimento tecnológico, sem se pensar muito nas consequências disso para os seres humanos. Assim, após essas considerações, acreditamos que essa pode servir como ponto de partida para refletir sobre algumas das discussões trazidas por Bauman, em Vigilância líquida.

Esse livro é resultado de uma entrevista realizada por David Lyon, sociólogo e diretor do Centro de Estudo de Vigilância, na Universidade do Queen, na qual Bauman responde sobre questões como segurança, vigilância, o uso da tecnologia – especialmente no que concerne aos drones e às redes sociais. Assim como em seus outros livros, Bauman (2014) sempre traz uma ideia de liquidez para seus conceitos (modernidade líquida, amor líquido, vigilância líquida), pois defende uma fluidez presente na sociedade pós-moderna, ou seja, para o autor, as relações são sociais são efêmeras e isso repercute também na própria vigilância, a qual “[...] antes aparentemente sólida e estável, se tornou mais móvel e flexível, infiltrando-se e se espalhando em muitas áreas da vida sobre as quais sua influência era apenas marginal” (LYON, 2014, p.7). Inclusive, Bauman (2014) utiliza como exemplo de “ultrapassado” – pelo menos em alguns aspectos – o próprio 1984, já que o autor argumenta que na modernidade líquida não há mais um Estado vigilante sólido, no qual todos daquela sociedade sabem que estão sendo vigiados, mesmo não sabendo quem é de fato o Big brother, no caso da obra de Orwell. Pelo contrário, na pós-modernidade, a vigilância é algo tão fluido que passa despercebida, e, segundo o autor, acaba por se misturar com o que se entende por segurança. Se, por um lado, vivemos em uma sociedade que levanta muros para se proteger, por outro, confiamos nossos dados a empresas de segurança sem pensar duas vezes. Em nome da segurança, abdicamos da nossa liberdade e da nossa privacidade. É a partir disso que Bauman (2014) afirma que a noção de privado e público se modifica, principalmente com as redes sociais, pois

Tudo que é privado agora é feito potencialmente em público – e está potencialmente disponível para consumo público; e continua sempre disponível, até o fim dos tempos, já que a internet “não pode ser forçada a esquecer” nada registrado em algum de seus inumeráveis servidores (p.20).
Dessa maneira, divulgamos nossos dados, pois sempre acreditamos que isso trará algum benefício. Mas como tudo isso se relaciona com Piquenique na estrada? No capítulo “Ausência, distância e automação”, Bauman e Lyon dialogam sobre o desenvolvimento tecnológico e as consequências dele. Bauman (2014) defende que a busca pela ordem e pela segurança sempre foi uma busca do ser humano e que o período moderno foi o auge dessa busca. Bauman (2014) aponta a Segunda Guerra Mundial como um elemento importante, sendo essa a era da destruição, além de ser um momento intensificador do distanciamento, pois os ataques eram feitos a partir de aviões, sem enxergar os inimigos enquanto pessoas. O autor declara que: “Agora dispomos da tecnologia [...], com a qual podemos agir a distâncias tão enormes (no espaço e no tempo) que




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