Versidade alemã



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A AUTO-AFIRMAÇÃO DA

UNIVERSIDADE ALEMÃ

(Fribourg, 1933)

Martin Heidegger

Tradutor:

Alexandre Franco de Sá




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Covilhã, 2009



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ICHA


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ÉCNICA


Título:A Auto-Afirmação da Universidade Alemã

Autor: Martin Heidegger

Tradutor: Alexandre Franco de Sá

Colecção: Textos Clássicos de Filosofia

Direcção: José Rosa & Artur Morão

Design da Capa: António Rodrigues Tomé

Composição & Paginação: José Rosa

Universidade da Beira Interior

Covilhã, 2009



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A Auto-Afirmação da



Universidade Alemã

Martin Heidegger

A assunção do reitorado é a obrigação à condução espiritual desta alta

escola. O séquito dos professores e dos alunos só desperta e se fortalece

a partir do enraizamento, verdadeiro e comunitário, na essência da uni-

versidade alemã. Mas esta essência só vem à luz, a um plano elevado

e ao poder, se previamente e de cada vez os próprios guias [Führer]

forem os guiados – guiados pela inexorabilidade deste encargo espiri-

tual que comprime o fado [Schicksal] do povo alemão no cunho da sua

história.

Sabemos deste encargo espiritual? Quer sim, quer não, a pergunta

permanece inalterável: estaremos nós, professorado e estudantado desta

alta escola, enraizados verdadeira e comunitariamente na essência da

universidade alemã? Terá esta essência, para a nossa existência [Da-

sein

], uma força de cunho genuína? Sim, mas só se quisermos esta



essência a partir do fundo. Mas quem poderia aí ter dúvidas? Co-

mummente, vê-se o carácter essencial predominante da universidade

na sua “auto-administração”; esta deve ser mantida. No entanto – será

que também pensámos completamente naquilo que este direito à auto-

administração exige de nós?

Auto-administração quer dizer certamente: pormo-nos a nós mes-

mos a tarefa e determinarmos nós mesmos o caminho e o modo da

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Martin Heidegger

sua efectivação, para nisso sermos nós mesmos aquilo que devemos

ser. Mas saberemos então quem somos nós mesmos, esta corporação

de professores e de alunos da mais alta escola do povo alemão? Pode-

remos

de todo sabê-lo, sem a mais constante e severa auto-meditação



[Selbstbesinnung]?

Nem o conhecimento das condições hodiernas da universidade, nem

sequer a familiaridade com a sua história anterior, garantem já um sa-

ber suficiente da sua essência – é então preciso que, em primeiro, lugar,

circunscrevamos esta essência para o futuro, com clareza e severidade,

que a queiramos em tal auto-limitação e que nos afirmemos a nós mes-

mos em tal querer.

A auto-administração só ganha consistência sobre o fundamento da

auto-meditação. Mas a auto-meditação só acontece na força da auto-

afirmação

da universidade alemã. Será que a realizaremos? E como?

A auto-afirmação da universidade alemã é a vontade originária, co-

munitária da sua essência. A universidade alemã é para nós a alta escola

que, a partir da ciência e através da ciência, leva os guias e os guardiães

do fado do povo alemão à educação e ao cultivo. A vontade da essên-

cia da universidade alemã é a vontade da ciência, enquanto vontade do

encargo histórico espiritual do povo alemão como um povo que se sabe

a si mesmo no seu Estado. A ciência e o fado alemão têm por uma vez

de, no querer essencial, chegar ao poder. E só lá chegarão se, e só se,

nós – professorado e estudantado –, por um lado, expusermos a ciência

à sua mais íntima necessidade [Notwendigkeit] e, por outro lado, nos

radicarmos no fado alemão, na sua mais extrema carência [Not].

Certamente não experimentaremos a essência da ciência, na sua

mais íntima necessidade, enquanto, falando do “novo conceito de ciên-

cia”, conferirmos a uma ciência demasiado hodierna a auto-suficiência

e a ausência de pressupostos. Este acto meramente negador, e que

quase não remonta para além das últimas décadas, torna-se, precisa-

mente por isso, na aparência de um esforço verdadeiro pela essência da

ciência.

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Se quisermos captar a essência da ciência teremos, antes de mais,

de colocar diante dos olhos a pergunta decisiva: será que a ciência deve,

para nós, continuar ainda a ser, ou devemos deixá-la ser arrastada para

um fim repentino? Não é incondicionalmente necessário que a ciência

em geral deva ser. Mas se a ciência deve ser, e se ela deve ser para

nós e através de nós, sob que condição é que ela pode verdadeiramente

permanecer?

Só se novamente nos colocarmos sob o poder do início [Anfang] da

nossa existência espiritual-histórica. Este início é a irrupção da filosofia

grega. Aí, o homem ocidental levanta-se pela primeira vez, por força

da sua linguagem, a partir de uma nacionalidade [Volkstum], diante do

ente no seu todo

[Seiendes im Ganzen],perguntando e concebendo-o

enquanto o ente que ele é. Toda a ciência é filosofia, quer ela o saiba

e o queira quer não. Toda a ciência permanece presa a este início da

filosofia. É a partir dele que ela cria a força da sua essência, posto que

ainda permaneça em geral à altura deste início.

Queremos aqui retomar, para a nossa existência, duas propriedades

distintivas da essência grega originária da ciência.

Corria entre os gregos um conto antigo, segundo o qual Prometeu

tinha sido o primeiro fi1ósofo. Ésquilo faz este Prometeu dizer uma

sentença que enuncia a essência do saber:

Tèqnh d> ‚nˆgkhc ‚sjenestèra makrÄ

(Prometeu. 514)

“Mas o saber é de longe mais impotente que a necessidade”. Isto

quer dizer: cada saber acerca das coisas permanece, à partida, entregue

ao super-poder [Übermacht] do fado e nega-se diante dele.

Precisamente por isso, para se negar efectivamente, o saber tem de

desenrolar a sua suprema obstinação, sendo para ela que pela primeira

vez emerge o poder do estar-encoberto [Verborgenheit] do ente. Assim,

o ente abre-se justamente na sua inalterabilidade infundável e empresta

ao saber a sua verdade. Esta sentença acerca da impotência criadora do

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saber é uma palavra dos gregos, nos quais se gostaria de encontrar de-

masiado facilmente o modelo para um saber que puramente se põe a si

mesmo, e que nisso se esquece a si mesmo, o qual nos é referido como

atitude “teorética”. Mas o que é a

jewrÐa para o grego? Diz-se: a con-

sideração [Betrachtung] pura que só à coisa [Sache], na sua plenitude

e exigência, permanece vinculada. Esta conduta de consideração deve

acontecer, aludindo aos gregos, por si mesma. Mas esta alusão não tem

razão. Pois, por um lado, a “teoria” não acontece por si mesma, mas

unicamente na paixão de permanecer próximo do ente enquanto tal e

sob a sua perturbação. Mas, por outro, lado, os gregos combateram pre-

cisamente por conceber e realizar este perguntar de consideração como

um modo da

ânèrgeia, e mesmo como o supremo modo da ânèrgeia, do

“estar-em-obra” do homem. O seu sentido não estava em igualar a pra-

xis à teoria, mas, ao contrário, em compreender a própria teoria corno

a suprema efectivação da prática genuína. A ciência não é, para os gre-

gos, um “bem cultural”, mas o meio mais intimamente determinante de

toda a existência popular-estatal. A ciência também não é para eles o

simples meio de consciencialização daquilo que era inconsciente, mas

o poder que segura e envolve toda a existência.

A ciência é o firmar-se a perguntar no meio do ente no seu todo, o

qual constantemente se encobre. É nisso que este perseverar a agir sabe

acerca da sua impotência diante do fado.

Isto é a essência inicial da ciência. Mas este início não se encon-

tra a já dois séculos e meio de distância? O progresso do agir hu-

mano também não alterou a ciência? Certamente! A interpretação do

mundo teológica-cristã, que veio depois, assim como o posterior pen-

sar técnico-matemático da modernidade, afastou, no que toca ao tempo

e à coisa, a ciência do seu início. Mas, com isso, o próprio início não

está de modo nenhum superado ou mesmo aniquilado. Pois posto que a

ciência grega originária é algo grande, então o início deste algo grande

permanece o seu maior. A essência da ciência não poderia alguma

vez ser esvaziada e desactivada, como o é hoje apesar de todos os re-

sultados e “organizações internacionais”, se a grandeza do início não

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permanecesse ainda. O início ainda é. Ele não se encontra atrás de

nós

como algo que foi há muito, mas está diante de nós. O início passa



antecipadamente, enquanto aquilo que é maior, sobre tudo o que vem

e, deste modo, também já sobre nós.O início invadiu o nosso futuro;

ele encontra-se lá sobre nós, como a ordem longínqua para recuperar

novamente a sua grandeza.

A ciência tornar-se-nos-á na necessidade mais íntima da existência

se e só se nos concertarmos decididamente com esta ordem longínqua

para retomar a grandeza do início. De outro modo, ela permanece um

acidente no qual caímos ou o prazer tranquilo de uma ocupação inócua

para o fomento de um simples progresso de conhecimentos.

Contudo, se nos concertarmos com a ordem longínqua do início,

a ciência terá de se tornar um acontecimento fundamental da nossa

existência espiritual-popular.

E quando a nossa existência mais própria, ela mesma, estiver di-

ante de uma grande transformação, quando for verdade o que disse o

último filósofo alemão que procurou apaixonadamente Deus, Friedrich

Nietzsche – “Deus morreu”; quando tivermos de ser sérios com este

abandono do homem hodierno no meio do ente, o que se passará então

com a ciência?

Então o perseverar dos gregos diante do ente, que inicialmente se

espanta, transforma-se num estar completamente exposto, sem cober-

tura, ao que é encoberto e incerto, isto é, ao digno de ser questionado

[Fragwürdige]. O perguntar já não é então apenas o nível elementar,

ultrapassável pela resposta enquanto saber, mas o próprio perguntar

tornar-se-á na suprema figura do saber. O perguntar desenrola então

a sua força mais própria de abertura daquilo que em todas as coisas é

essencial. O perguntar obriga então à mais extrema simplificação do

olhar sobre aquilo que é incomum.

Tal perguntar quebra o enclausuramento da ciência em disciplinas

espartilhadas, recupera-a a partir da dispersão sem margens nem meta

por campos e zonas singularizados, voltando a pôr a ciência imedi-

atamente a partir da fecundidade e da prosperidade de todas as potên-

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cias formadoras do mundo da existência humana-histórica, como o são:

natureza, história, linguagem; povo, costume, Estado; poetar, pensar,

crer; doença, loucura, morte; direito, economia, técnica.

Se quisermos a essência da ciência no sentido do firmar-se a per-

guntar, sem cobertura, no meio da incerteza do ente no seu todo,

então

esta


vontade da essência alcançará para o nosso povo o seu mundo do

perigo mais íntimo e mais extremo, isto é, o seu mundo verdadeira-

mente espiritual. Pois “espírito” não é nem sagacidade vazia, nem um

jogo de palavras descomprometido, nem o impulso sem margens de

uma desmontagem às mãos do entendimento, nem mesmo a razão uni-

versal, mas o espírito é a resolução originariamente disposta e sapiente

à essência do ser. E o mundo espiritual de um povo não é a super-

estrutura de uma cultura, nem mesmo como o museu para conhecimen-

tos e valores utilizáveis, mas é o poder da mais profunda conservação

das suas forças de terra e de sangue enquanto poder da excitação mais

íntima e do abalo mais vasto da sua existência. Só um mundo espiritual

garante ao povo a grandeza. Pois ele obriga a que a constante decisão

entre a vontade da grandeza e o consentir da queda [Vefall] se torne na

guia de marcha para a marcha que o nosso povo iniciou em direcção à

sua história futura.

Se quisermos esta essência da ciência, então o professorado da uni-

versidade terá de efectivamente avançar para os postos mais exteriores

do perigo da constante incerteza do mundo. Se ele se firmar aí, isto é, se

lhe crescer a partir de lá – na proximidade essencial da perturbação de

todas as coisas – o perguntar comunitário e o dizer comunitariamente

determinado, então tornar-se-á forte o bastante para guiar. Pois o que

no guiar é decisivo não é o simples ir à frente, mas a força de poder ir

só, não por teimosia ou por desejo de dominar, mas por força de uma

determinação que é a mais profunda e de uma obrigação que é a mais

vasta. Tal força vincula ao que é essencial, faz a selecção dos melhores

e desperta o séquito genuíno daqueles que são de uma nova coragem.

Mas não precisamos de primeiro despertar o séquito. O estudantado

alemão está em marcha. E quem ele procura são aqueles guias através

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dos quais ele quer elevar à verdade fundamentada e sapiente a sua de-

terminação própria e pô-la na claridade de uma palavra e de uma obra

que seja indicadora e actuante.

A partir da resolução do estudantado alemão de firmar-se no fado

alemão, na sua carência mais extrema, vem uma vontade da essência

da universidade. Esta vontade é uma vontade verdadeira, na medida

em que o estudantado alemão, através do novo Direito dos Estudantes,

se coloca a si mesmo sob a lei da sua essência e, deste modo, pela pri-

meira vez, circunscreve esta essência. Dar-se a si mesmo a lei é a mais

elevada liberdade. A muito apregoada “liberdade académica” é repudi-

ada da universidade alemã; pois esta liberdade não era genuína, porque

era apenas negadora. Ela significou preponderantemente o descuido, a

casualidade das intenções e impulsos, a desvinculação de tudo o que se

faz. O conceito de liberdade do estudante alemão é reconduzido agora

à sua verdade. A partir dela, desenrola-se futuramente o vínculo e o

serviço do estudantado alemão.

O primeiro vínculo é o vínculo à comunidade do povo. Ele obriga

a uma participação, que transporta e age em comum, nos esforços, as-

pirações e capacidades de todos os estados e membros do povo. Este

vínculo é de agora em diante solidificado e enraizado na existência es-

tudantil através do serviço de trabalho.

O segundo vínculo é o vínculo à honra e ao destino [Geschick] da

nação no meio dos outros povos. Ele exige a preparação, assegurada no

saber e no poder, e centrada através do cultivo, para a mobilização até

ao último. Este vínculo abrange e penetra futuramente toda a existência

estudantil como serviço militar.

O terceiro vínculo do estudantado é o vínculo ao encargo espiritual

do povo alemão. Este povo actua no seu fado na medida em que coloca

a sua história na manifestação do super-poder de todas as potências for-

madoras de mundo da existência humana, combatendo sempre de novo

pelo seu mundo espiritual. Assim exposto à mais extrema dignidade

de ser questionada [Fragwürdigkeit] da existência própria, este povo

quer ser um povo espiritual. Ele exige de si e para si, nos seus guias

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e guardiães, a mais severa clareza do saber mais elevado, mais vasto e

mais rico. Uma juventude estudantil que, desde cedo, ouse entrar na

virilidade, desfraldando o seu querer sobre o destino futuro da nação,

força-se desde o fundo ao serviço neste saber. Para ela, o serviço do

saber


já não poderá ser o adestramento apático e rápido para uma pro-

fissão “distinta”. É porque o político e o professor, o médico e o juiz,

o pároco e o arquitecto guiam a existência popular-estatal, vigiando-o

e fixando-o solidamente nas suas relações fundamentais às potências

formadoras de mundo do ser humano, que estas profissões e a educa-

ção para elas são da responsabilidade do serviço do saber. O saber não

está ao serviço das profissões, mas ao contrário: as profissões actua-

lizam e administram aquele saber supremo e essencial do povo acerca

de toda a sua existência. Mas este saber não é para nós a tomada de

conhecimento tranquila de essencialidades e valores em si, mas o risco

mais agudo da existência no meio do super-poder do ente. A dignidade

de ser questionado do ser em geral comprime o povo ao trabalho e ao

combate, e comprime-o para dentro do seu Estado aonde pertencem as

profissões.

Os três vínculos – no encargo espiritual, através do povo, ao destino

do Estado – são co-originários à essência alemã. Os três serviços que

resultam daí – serviço de trabalho, serviço militar e serviço do saber –

são igualmente necessários e estão ao mesmo nível.

O saber acerca do povo, agindo em comum, e o saber acerca do

destino do Estado, mantendo-se preparado, só juntamente com o sa-

ber acerca do encargo espiritual, cuja efectivação nos está entregue,

fazem a essência originária e plena da ciência – posto que nos concer-

temos com a ordem longínqua do início da nossa existência espiritual-

histórica.

Esta

ciência é visada quando a essência da universidade alemã for



circunscrita como a alta escola que, a partir da ciência e através da

ciência, leva os guias e os guardiães do fado do povo alemão à educação

e ao cultivo.

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A Auto-Afirmação da Universidade Alemã



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Este


conceito originário da ciência não apenas obriga à “objectivi-

dade” [Sachlichkeit], mas, à partida, à essencialidade e simplicidade do

perguntar no meio do mundo histórico-espiritual do povo. Sim – só a

partir daqui a objectividade se pode verdadeiramente fundamentar, isto

é, encontrar o seu tipo e as suas fronteiras.

Neste sentido, a ciência tem de se tornar no poder que dá a figura

da corporação da universidade alemã. Nisto encontra-se duas coisas:

por um lado, o professorado e o estudantado, cada um no seu modo,

têm de vez de ser agarrados e permanecer agarrados pelo conceito

de ciência. Mas, ao mesmo tempo, este conceito de ciência tem de

intervir de um modo transfigurador nas formas fundamentais dentro das

quais os professores e alunos, respectivamente, agem cientificamente

em comunidade: nas faculdades e nas especialidades.

A faculdade só é faculdade se se desenrolar numa capacidade de

legislação espiritual enraizada na essência da sua ciência, para configu-

rar as potências da existência que aperturbam em direcção ao mundo

espiritual uno do povo.

A especialidade só é especialidade se se colocar de antemão no do-

mínio desta legislação espiritual, derrubando assim os limites da disci-

plina e ultrapassando o mofo e a ausência de genuinidade do adestra-

mento superficial da profissão.

No instante em que as faculdades e as especialidades desencade-

arem as perguntas essenciais e simples da sua ciência, os professores

e os alunos estarão também já envolvidos por aquelas necessidades e

inquietações últimas da existência popular-estatal.

A configuração da essência originária da ciência exige uma tal es-

cala em rigor, responsabilidade e paciência superior que, de certo modo,

diante dela o cumprimento certo ou a alteração solícita dos modos de

procedimento acabados quase não têm importância.

Mas se os gregos precisaram de três séculos apenas para também

trazerem a pergunta sobre o que é o saber ao solo certo e ao caminho

seguro, nós não poderemos certamente achar que o aclaramento e o

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Martin Heidegger

desenrolar-se da essência da universidade alemã suceda no presente ou

no próximo semestre.

Contudo, a partir da essência que se mostrou da ciência, sabemos

certamente uma coisa: que a universidade alemã apenas chegará à fi-

gura e ao poder quando os três serviços – serviço de trabalho, serviço

militar e serviço do saber – se encontrarem em conjunto numa mesma

força de cunho. Isto quer dizer:

A vontade essencial do professorado tem de despertar e de se forta-

lecer para a simplicidade e vastidão do saber acerca da essência da ci-

ência. A vontade essencial do estudantado tem de se forçar à suprema

clareza e cultivo do saber, e a ciência-com [Mitwissenschaft] acerca

do povo e do seu Estado tem de se configurar, de um modo exigente

e determinado, na essência da ciência. Ambas as vontades têm de se

colocar em combate uma contra a outra. Toda a aptidão volitiva e pen-

sante, todas as forças do coração e todas as capacidades do corpo têm

de ser desenroladas através do combate, de ser aumentadas no combate

e de permanecer conservadas enquanto combate.

Escolhemos o combate sapiente dos que perguntam e reconhece-

mos, com Carl von Clausewitz: “Não quero saber da esperança descui-

dada de uma salvação pela mão do acaso”.

Só se o professorado e o estudantado instituírem a sua existência de

um modo mais simples, mais severo e mais generoso do que todos os

outros camaradas do povo [Volksgenossen], a comunidade de combate

dos professores e dos alunos trará a universidade alemã ao estado da

legislação espiritual e, nela, conseguirá os meios da mais rigorosa reu-

nião para o supremo serviço do povo no seu Estado. Toda a condução

tem de conceder ao séquito a força própria. Mas cada seguir traz em

si a resistência. Esta oposição essencial no guiar e no seguir não pode

nem desvanecer-se nem ser extinta.

Só o combate mantém a oposição aberta e implanta, em toda a cor-

poração de professores e alunos, aquela disposição fundamental [Grunds-

timmung

] a partir da qual a auto-afirmação, que a si mesma se delimita,

autoriza a auto-meditação resoluta à genuína auto-administração.

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A Auto-Afirmação da Universidade Alemã



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Queremos a essência da universidade alemã ou não a queremos? É

connosco, se e até onde nos esforçamos pela auto-meditação e auto-

afirmação a partir do fundo, e não apenas de passagem, ou se – na me-

lhor das hipóteses – só alteramos velhas instituições e acrescentamos

novas. Ninguém nos vai impedir de fazê-lo.

Mas também ninguém nos virá perguntar se queremos ou não que-

remos, quando a força espiritual do Ocidente se nega e este rebenta nas

suas articulações, quando a pseudo-cultura moribunda se desmorona

em si e todas as forças escapam na confusão e se deixam sufocar na

loucura.

Tal acontecer ou não acontecer, depende apenas disto: se nós, como

povo histórico-espiritual, ainda e novamente nos queremos a nós mes-

mos ou se já não nos queremos. Cada singular co-decide sobre isso,

também quando e precisamente quando se esquiva diante dessa deci-

são.


Mas nós queremos que o nosso povo cumpra o seu encargo histó-

rico.


Nós queremo-nos a nós mesmos. Pois a nova e a mais nova força

do povo, que passa por cima de nós,já decidiu sobre isso.

Contudo, só compreenderemos totalmente a magnificência e a gran-

deza desta irrupção se transportarmos em nós aquela profunda e vasta

prudência a partir da qual a velha sabedoria grega disse a palavra:

Ta`...megˆla pˆnta âpisfal˜h

“Toda a grandeza está na tormenta. . . ”

(Platão. República, 497 d, 9)



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