Venha ver o por do sol Analisaremos a obra Venha ver o PôrdoSol



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Encontro17.03.2020
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Natal na Barca
O narrador-personagem faz um passeio num barco sem querer lembrar por que estava naquela barca com pessoas humildes e de forte calor humano, crentes. “Era uma mulher com uma criança, um velho e eu.” Com essas pessoas, ele aprende ou desperta coisas que até então, não imaginava que existisse a fé: “A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água. – Tão gelada – estranhei, enxugando a mão. – Mas de manhã é quente. Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso.

Sentei-me no banco ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Vi que suas roupas puídas tinham muito caráter, revestida de uma certa dignidade.” “- Seu filho? – É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia consultar um médico hoje mesmo. Ainda ontem ele estava bem, mas de repente piorou. Uma febre, só febre… – Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo, mas o olhar tinha a expressão doce. – Só sei que Deus não vai me abandonar.” “- É o caçula? – É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu o muro, estava brincado de mágico quando de repente avisou, vou voar!? “Como não bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, e ainda via pairar uma sombra sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante.

Intocável.Apatia? Não, não podiam ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos e aquelas mãos enérgicas. Inconselência? Uma obscura irritação me fez sorrir. – A senhora é conformada. – Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou. – Deus – repeti vagamente. – A senhora não acredita em Deus? – Acredito – murmurei. E ao, ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber porque, perturbei-me. Agora entendia. Aí estava o segredo daquela confiança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanha..” “Acordou o dorminhoco! E olha ai, deve estar agora sem nenhuma febre. – Acordou?! Ela teve um sorriso. – Veja… Inclinei-me. A criança abrira os olhos – aqueles olhos que eu vira cerrados. Tão definitivamente. E bocejava, esfregando a mãozinha na face de novo corada. Fiquei olhando sem conseguir falar. – Então, bom Natal! – disse ela, enfiando a sacola.

Encarei-a Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto Resplandecia. Apertei-lhe a mão vigorosa. E acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite. Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim reiniciando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível. Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo: verde e quente. Verde e quente.” (p.21/23/24/25)






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