V. 2, n. 1, p. 7-11, jan./jun. 2009 a narrativa como invenção da personagem



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v. 2, n. 1, p. 7-11, jan./jun. 2009 

 

A narrativa como invenção da personagem



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Universidade de Lisboa

Acendo a estória, me apago a mim.

No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz. 

Sou chamado de Kindzu.

 

                              



 (TS, p. 14)

Na  nota  de  abertura  ao  seu  primeiro  livro,  Vozes 



anoitecidas, Mia Couto refere: “Estas estórias desador- 

meceram  em  mim  sempre  a  partir  de  qualquer  coisa 

acontecida de verdade mas que me foi contada como se 

tivesse ocorrido na outra margem do mundo. Na travessia 

dessa fronteira de sombra escutei vozes que vazaram o sol. 

Outras  foram  asas  no  meu  voo  de  escrever. A  umas  e 

outras dedico este desejo de contar e de inventar”.

A  memória  evocada,  mais  do  que  um  elemento 

individual  é  transformada  em  Memória  Ancestral 

(memória de muitas vozes e muitos tempos), através da 

qual o autor (e as vozes nele amalgamadas) procura dar  

palavra aos entes que a figuram. 

A  insistência  sobre  a  Memória  e  a  Voz  dá  ao 

enunciador um estatuto específico, que o torna sujeito e 

símbolo de uma cultura. Esta particularidade, que faz das 

obras de Mia Couto, uma espécie de alegorias nacionais

formula uma co-enunciação: um público geral (com a 

intenção de o fazer descobrir uma cultura) e um público 



moçambicano (a quem se devolve, recriada, a Memória 

e a Voz).

A  defesa  e  ilustração  cultural,  característica  de 

muitas  das  obras  pós-coloniais,  de  que  é  exemplar  o 

caso  de  Mia  Couto,  foi  inspirada  e  legitimada  pela 

investigação antropológica. A articulação da criação com 

a antropologia (quase com o aspecto de uma arqueologia) 

transforma  as  obras  literárias  num  dispositivo  poético 

de mistura da Memória, situada entre Mito e História, 

que tem por horizonte a fundação de uma comunidade. 

Apesar de ser necessário avaliar as teorias antropológicas, 

tendo em conta a sua relação com o colonialismo, este 

dispositivo  poético,  que  recorre  à  Memória  e  a  uma 

Origem mítica, como elemento de reflexão sobre o devir 

cultural do presente, é uma das constantes das literaturas 

africanas e, muito especialmente, do autor moçambicano, 

Mia Couto. 




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