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Devaneios, logo na primeira caminhada, datada de 1776, esta remota esperança nas 

gerações posteriores, se dissipa por completo, como podemos evidenciar na passagem a 

seguir: 



 

Poucos dias se passaram e novas reflexões me confirmaram como estava 

errado em contar com a volta do público, mesmo numa outra época, visto que ele 

é conduzido, no que me diz respeito, por guias que se renovam continuamente 

nas corporações de que me têm aversão. Os indivíduos morrem, mas os corpos 

coletivos não morrem. (ROUSSEAU, 1986, p. 25) 

 

A partir de então ele resigna-se e passa a não mais temer, a nem mesmo esperar a 



reação dos homens, e, assim, sente-se impassível a ponto de equiparar-se a Deus. Pretende 

ocupar-se apenas consigo mesmo. Então, fixará pela escrita as felicidades que extraiu da 

vida em solidão junto à natureza, para que, no futuro, próximo à velhice, ela faça com que 

ele reviva o sentimento agradável de escrevê-las. Fazendo renascer o tempo  passado, 

ampliando portanto o tempo de sua existência, ressurgiria, pois, o outro (que já foi um dia) 

em si mesmo. 

O hábito de projetar-se para dentro de si mesmo atenuou aos poucos a sensação das 

lembranças amargas, constituindo portanto um excelente recurso para a evasão da dor. 

  

Esse recurso do qual me lembrei demasiadamente tarde, se tornou tão fecundo 



que em breve bastou para me compensar de tudo. O hábito de entrar em mim 

mesmo me fez perder enfim o sentimento e quase a lembrança de meus males; 

aprendi assim, por minha própria experiência, que a fonte da verdadeira 

felicidade está em nós e que não depende dos homens tornar verdadeiramente 

infeliz aquele que sabe ser feliz. (ROUSSEAU, 1986, p. 31) 

 

Esse sentir-se bem com a solidão, essa felicidade de estar em companhia da 



natureza, como refúgio da intemporalidade, típica do escritor romântico, inaugura em 

Rousseau um traço que perduraria em autores da modernidade.  




Nessa perspectiva é que estabelecemos a diferenciação do tema da solidão em 

Rousseau, como recurso na busca da essência do ser, como algo positivo, e no conto de 

Lygia Fagundes Telles, uma solidão que se reverte por completo em negatividade.  

O desafio solitário de Rousseau demonstra de maneira bem clara a referência à 

solidão como escapismo. Na sua observação da vida, Rousseau concluiu que as paixões, a 

escassez dos momentos prazerosos e a agitação dos objetos que estão ao redor do homem 

não lhe permitem reconhecer este “sentimento da existência”, estado de verdadeira 

felicidade, no qual não necessitamos de nada exterior a nós mesmos, e nem mesmo o tempo 

é capaz de interferir, neste momento, afirma ele, “bastamo-nos a nós mesmos como Deus”. 

Como podemos ver na passagem destacada a seguir: 

 

O sentimento da existência, despojado de qualquer outro apego é por si mesmo 



um sentimento precioso de contentamento e de paz, que sozinho bastaria para 

tornar esta existência cara e doce a quem soubesse afastar de si todas as 

impressões sensuais e terrenas que vêm continuamente nos afastar dela e 

perturbar, na terra, sua suavidade. (ROUSSEAU, 1986, p. 77.)   

 

Esta subjetividade que se pretende independente, que foi expurgada da sociedade 



como uma doença contagiosa, encontra nesta solidão, na aversão pela vida ativa, as 

compensações que o destino dos homens não lhe poderia trazer. Somente através da 

experiência solitária, da descida ao inferno da própria intimidade, livre de todas as paixões 

terrenas que a vida social proporciona, o sujeito é capaz de ver-se e de lançar-se nesta busca 

pela virtude. Na impossibilidade de ser Deus, recusa tudo o que é prejudicial a esse espírito.  

Fugir da sociedade é uma saída para a virtude, pois é preferível fugir a odiar a humanidade. 

A partir desta reflexão, relatada na sétima caminhada de  Os devaneios, Rousseau 

reconhece-se portanto como um inadaptado, incapaz de viver entre os homens: 




 

Então, para não os odiar, foi necessário fugir-lhes; então, refugiando-me na mãe 

comum, procurei em seus braços subtrair-me aos ataques de seus filhos, tornei-

me solitário, ou como dizem misântropo, porque a mais selvagem solidão me 

parece preferível à companhia dos maus, que somente se alimentam de traições e 

ódio. (ROUSSEAU, 1986, p. 96.)  

 

A predileção pela botânica para objeto de estudo e deleite parece estar associada ao 



movimento cíclico da origem, uma vez que faz com que Rousseau retome o tempo da 

transparência, a sua infância, que nada mais é que o tempo da felicidade e da comunicação 

verdadeira e livre, e na renovação da memória é possível ser feliz de novo.  

Para Rousseau, a sinceridade deveria ser o axioma, a premissa universal. Ele queria 

dar ao coração a mesma importância que Descartes deu ao  cogito. Como assinalou Costa 

Lima,   


A Rousseau ainda não ocorre que a vontade de ser sincero pode ser motivada por 

algo a ela anterior; que a vontade de destruir todas as máscaras pode alimentar 

outra máscara. Em suma, que não há um ponto estável, primário, irredutível que 

possamos conquistar e converter em palavras. (...) Não há dúvida que em 

Rousseau encontramos o indivíduo que somos. A impossibilidade de Jean-

Jacques tornar-se a transparência que desejou ser é o destino comum do indivíduo 

moderno. (LIMA, 1986, 295) 

 

Se partimos para o conto de Lygia Fagundes Telles, especialmente para os que 



consideramos mais representativos da solidão, “A ceia”, “A chave”, “As pérolas”, “O moço 

do Saxofone”, “Que se chama solidão” e “Pomba Enamorada ou uma história de amor”, 

vemos que a mesma solidão que é capaz de desvelar a subjetividade é aquela que aponta 

para o caos, para a decadência do ser. Na obra de Lygia, o sujeito é quase que arrastado 

numa série de desencontros que irão empurrá- lo para o inevitável abismo da morte. 



Segundo Ângela Maria Dias, em ensaio sobre a irônica melancolia do tempo na 

obra de Lygia,  

a obsessiva insistência no tema da fugacidade corrosiva e predatória do tempo, 

bem como na implausividade dos caminhos da vida, de um lado, tornam a 

rememoração uma espécie de saída obrigatória para desobstrução da perplexidade 

e do espanto, de outro, esterilizam-na como possibilidade de renovação. Assim, 

não existe a possibilidade de enriquecimento existencial ou da sabedoria trazidos 

pela memória da experiência, já que, ao contrário de ser encarada como a 

aventura solidária entre o homem e a sua circunstância, ela será exercida pela 

ironia do narrador enquanto recuperação distanciada de um enredo como busca 

degradada. (DIAS, 1990, p. 22) 

 

De fato, no universo ficcional de Lygia, o sentimento da passagem do tempo é algo 



degradante. Nessa perspectiva, a narrativa reminiscente funcionará como o revide do 

sujeito ante o inevitável apagamento de sua existência. Como “pão a se dissolver na água” 

(TELLES, 1982, p. 49), à subjetividade só resta este refúgio: o sentimento interior, e a 

liberdade de escrever.  

Se o êxito do relato autobiográfico está justamente na diafaneidade do narrado, no 

grau de autenticidade do discurso, que linguagem seria tão fiel a ponto de transmitir o sabor 

incomparável da experiência pessoal? Rousseau resolveu isso assim: “Terei sempre o estilo 

que me vier”, isto é, sua fórmula deixava implícita uma vontade de ceder à iniciativa da 

linguagem, sua obra se faria como fosse possível, e nisso residiu sua verdade: a linguagem 



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