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miosótis, a inocente florzinha azul cultivada como ornamental é vulgarmente conhecida 

como  não-te-esqueças,  não-te-esqueças-de-mim. A partir da inesquecível valsa, movida 

pelo desejo, a protagonista começa uma busca desarvorada pelo seu amado. A etimologia 

da palavra “desejo” demonstra que esta busca só pode levar a um vazio profundo, pois, 

“desiderare” significava, na era clássica, desistir de ver os astros, uma expressão usada para 

falar de ausência de esperança. Na evolução da palavra “desejar” ficou para o português o 

sentido de “almejar, ter vontade de, querer”, como algo positivo.  

No entanto, na opinião de Marilena Chauí, em relação ao desejo amoroso :  

 



Desejo é relação entre seres humanos carentes. Por isso amamos até a loucura e 

odiamos até a morte: nosso ser está em jogo em cada e em todos os afetos. Desejo 

é paixão, diziam os clássicos... No entanto, a marca funda e indelével do desejo é 

o jamais oferecer-nos a garantia de haver sido realizado. (CHAUÍ, 1984, p.159) 

 

A partir desta visão, vemos que, mais do que uma grande paixão, a solidão é o 



grande Leitmotiv da trajetória de Pomba Enamorada. Quanto mais carente e solitária, mais 

propícia às armadilhas do próprio desejo estará uma pessoa. Logo nas primeiras linhas do 

conto, temos uma idéia do perfil de nossa protagonista:  

 

(...) e assim que o coração deu aquele tranco e o olho ficou cheio d’água pensou: 



acho que vou amar ele para sempre.  

Ao ser tirada teve uma tontura, enxugou as mãos molhadas de suor no corpete do 

vestido (fingindo que alisava alguma prega) e de pernas bambas  abriu-lhe os 

braços e o sorriso. (TELLES, 2004, p. 19.) 

 

E assim somos apresentados a essa moça ingênua e solitária do interior paulista 



(coroada num baile do São Paulo Chique), pobre (ajudante de cabeleireira); leitora de 

romances água-com-açúcar; noveleira; e crente, que iremos conhecer melhor no decorrer da 

história.  

 A alegria do Baile da Primavera acaba quando Antenor parte com uma “escurinha 

de frente única”, e a personagem acaba tendo de se desdobrar para encontrar o paradeiro de 

seu amado. Descobre-o trabalhando numa oficina e, ao visitá-lo, é maltratada por ele. A 

partir daí, configura-se o que a Psicanálise chamaria de “par funcional”, isto é, dois opostos 

que se “completam” numa relação; neste caso, um sádico e uma masoquista. Isto fica claro 

porque ela parece não se incomodar com a má recepção por parte do sujeito. Seguirá seu 

desejo obsessivo telefonando diversas vezes para o trabalho dele “somente para ouvir sua 

voz”, pedirá auxílio de um amigo homossexual para deixar recados, acenderá uma vela a 



Deus e outra ao diabo – já que apela a Santo Antônio e a macumbas –, na ânsia desenfreada 

de conquistar seu amor. Como Antenor não se comove, ela começa a escrever cartas de 

amor sob o pseudônimo de Pomba Enamorada, e, mesmo assim, Antenor não se abala, bem 

ao contrário, pede-lhe que o tire da cabeça.  

Assim, a narrativa apresenta uma bifurcação – dois caminhos em direções opostas – 

que supõe uma escolha transcendente. As situações de encontro são todas conflituosas

dramáticas, o que transpõe a ação da personagem para o espaço da experiência psicológica. 

A probabilidade de ser amada é uma ilusão. O ato executado não é possível, isto é, seu 



desejo nunca será realizado, restando apenas a experiência do fracasso. Apesar das 

inegáveis marcas românticas que compõem a personagem e a trama, a sucessão de 

encontros malfadados e “portas-na-cara” e alguns aspectos grotescos e contraditórios em 

sua aparência e gestual, como o sorriso da “princesa” do baile do clube ser “meio de lado” 

para esconder uma falha no canino esquerdo; as doses de vermute que toma pelos “foras” 

que leva e, ainda, a presença de Rôni, um homossexual estereotipado que atua como um 

afetado conselheiro sentimental fazem com que a narrativa adquira um caráter tragicômico.        

O golpe derradeiro sofrido pela protagonista vem com a notícia de que seu amado 

está de casamento marcado. Quando ocorreu o casamento, em vez de chorar, Pomba 

Enamorada  

foi ao crediário Mappin, comprou um licoreiro, escreveu um cartão desejando-lhe 

todas as felicidades do mundo (…) e quando chegou em casa bebeu soda 

(cáustica)”. Após deixar o hospital, cinco quilos mais magra, escreveu-lhe um 

bilhete “contando que quase tinha morrido mas se arrependia do gesto 

tresloucado que lhe causara uma queimadura no queixo e outra na p erna, que ia se 

casar com Gilvan que tinha sido muito bom no tempo em que esteve internada e 

que a perdoasse por tudo o que aconteceu. (TELLES, 2004, p. 24) 

 



O bilhete, recebido numa festa de São João, é desprezado solenemente e picotado 

em muitos pedaços por Antenor na frente das pessoas.   

Pomba Enamorada casa-se mas nunca esquece Antenor. Quando engravida, manda 

para ele uma foto tirada no Cristo Redentor. Anos depois, no “noivado da sua caçula Maria 

Aparecida, só por brincadeira, pediu que uma cigana muito famosa de seu bairro deitasse as 

cartas e lesse seu futuro”. A cigana diz que um homem cujo nome iniciava com A., de 

cabelos grisalhos, costeleta, motorista de ônibus chegará à rodoviária e mudará sua vida por 

completo. Apesar de dizer que tudo era aquilo passado, “que já estava ficando velha demais 

para pensar nessas bobagens”, Pomba Enamorada, já avó – calcula-se, portanto, passados 

uns vinte anos pelo menos –, sabendo que Antenor é motorista de ônibus, no dia marcado, 

veste sua roupa de festa, deixa a neta com a comadre e dirige-se à rodoviária, não sem antes 

dar uma olhadinha no horóscopo do dia, que “não podia ser melhor”.  

Recorrentes referências à “salvação” da protagonista perpassam todo o conto, isto é, 

evocações das mais diversas escapatórias transcendentes para a concretização do seu sonho 

impossível, tais como: Igreja dos Enforcados, Santo Antônio de gesso, galhinho de arruda 

debaixo do travesseiro, o disco  Ave-Maria dos Namorados comprado na liquidação, 

conhecimentos sobre Astrologia, especia lmente sobre o signo de Capricórnio, as simpatias 

feitas e as sugeridas pelas conhecidas, pratinho de doces oferecido para São Cosme e 

Damião num jardim florido, foto no Corcovado, festa de São João, a linha de ônibus onde 

trabalhava Antenor (Piracicaba  –  São Pedro), espécie de “linha direta” para o Céu, 

casamento dele no “religioso”, o nome da filha (Maria Aparecida), e, finalmente, a visita à 

cigana, que culminará no tão esperado “domingo” (dia santo, por excelência), dia em que 

sua vida “mudaria para sempre”, todos esses elementos sugerem uma fé no poder de Deus 

ou de um deus qualquer, já que, na vida, no devir, e, principalmente, no ser humano, não há 




mais esperança. Por mais que a importância da fé e o romantismo sejam latentes no conto, é 

igualmente inegável o tratamento irônico que a autora dá a esses temas. Desde o título, em 

“Pomba Enamorada ou uma história de amor”, percebe-se o viés irônico. Uma história de 

amor não pressupõe abandono, desprezo e rechaço, mas encontro, alegria, reciprocidade e 

acolhimento; os heróis enfrentam obstáculos, mas, cedo ou tarde, alcançam o tão esperado 



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