Universidade federal do estado do rio de janeiro



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CONSIDERAÇÕES FINAIS  
 
 
Percorrer os becos e vielas, visualizar as cores, sentir os cheiros e os gostos de Pavão, 
Pavãozinho e Cantagalo foram experiências vivenciadas por mim no território museal que me 
instigaram, “afetaram” e proporcionaram muitas reflexões. Como foi apresentado, o Museu de 
Favela, um museu territorial e comunitário, surgiu em um contexto onde a conjuntura política 
do país  passava por mudanças,  com  a implantação de novas políticas públicas que vieram  a 
facilitar  sua  implementação  e  consolidação.  Em  especial,  ressalta-se  que  havia  uma  política 
voltada para o setor museológico, a Política Nacional de Museus.  
Foram  explicitadas  neste  estudo  algumas  iniciativas  de  memória  social  que  surgiram 
antes  do  MUF  e  percebeu-se  que  outras  apareceram  depois  de  sua  criação.  Por  pautar  seu 
trabalho nas bases teóricas da Museologia Social, que o diferenciam de um museu tradicional, 
o  MUF  tem  sido  procurado  por  pessoas  que  querem  compreender  o  seu  “Jeito  MUF  de 
musealizar” e também tem influenciado a criação de iniciativas similares.  
 
Como foi visto, um dos resultados do seu “Jeito de musealizar” é o Circuito Casas-Tela, 
um circuito de graffiti que pretende apresentar a memória coletiva dos moradores de Pavão, 
Pavãozinho e Cantagalo, um território complexo. O graffiti, manifestação urbana que foi por 
muito  tempo  marginalizada,  hoje  vem  sendo  mais  aceito  pela  sociedade  e  adentra  novos 
espaços,  como  museus  e  galerias,  é  utilizado  em  projetos  de  revitalização  e  até  mesmo  em 
decorações no interior de casas e lojas e em produtos diversificados como estampas de roupas. 
Foram demonstrados diversos casos no decorrer do estudo sobre a expansão desta arte urbana. 
Além  disso, sua aceitação também  pode ser percebida através  de leis  e decretos  como  a  Lei 
Federal nº 12.408 que descriminaliza o ato de grafitar e o decreto GrafiteRio que visa estreitar 
o diálogo com os artistas e estabelecer critérios para a prática na cidade do Rio de Janeiro. 
Outros  circuitos  de  graffiti  em  favelas  foram  criados  após  o  do  MUF,  os  já  citados 
Caminho do Grafite 1 e Caminho do Grafite Oeste, no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa e 
a galeria a céu aberto do Cerro-Corá, no entorno do Corcovado, ambos na cidade do Rio de 
Janeiro. Que essa pesquisa sirva de estímulo para a realização de estudos destes novos circuitos, 
buscando  compreender:  como  foram  feitos;  como  se  deram  as  relações  dos  artistas  com  os 
moradores das comunidades, tanto do ponto de vista da memória social, quanto da geração de 
renda para a população local; e também sobre o interesse da manutenção das pinturas em graffiti 
ao longo do tempo. 
graffiti, com seu caráter contestador, seria uma forma de expressão artística que se 
enquadraria  na  proposta  do  MUF,  uma  vez  que  ele  próprio  protesta  e  reivindica  o  direito  à 


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memória  das  favelas.  Porém,  a  confecção  e  a  manutenção  do  graffiti  das  Casas-Tela  são 
atravessadas  por  diversos  conflitos  e  tensões  entre  os  atores  sociais  envolvidos:  moradores, 
artistas, visitantes, turistas e membros do museu. Já houve telas apagadas, há discordância em 
relação ao conteúdo de memória de algumas delas, alguns moradores fazem intervenções em 
suas casas e comprometem as pinturas, o graffiti, interpretado como uma forma de letramento
convida ao diálogo e crianças também intervém nas obras.   
 
O  graffiti  do  MUF,  por  ser  portador  de  memória,  passou  a  ser  valorizado  como  um 
patrimônio da comunidade. Por tudo isso, o MUF tem buscado dar uma resposta que dialogue 
com os interesses e anseios da comunidade e que, ao mesmo tempo, contribua com uma nova 
perspectiva para  a arte urbana. É estimulante pensar que para o MUF o  graffiti, comumente 
considerado fugaz, possa e deva ser restaurado. Este processo de restauro  -  ainda que tenha 
tido momentos de tensão e todo restauro é tenso - mostrou-se importante para os atores sociais 
nele  envolvidos  pelos  diversos  motivos  que  foram  elencados  ao  longo  da  pesquisa.  Destaco 
alguns: preservação e valorização da memória coletiva das comunidades; valorização da arte 
de rua; valorização do graffiti e do artista-grafiteiro; zelo pelo acervo; oportunidade dos artistas 
retornarem  ao  local  e  entrarem  novamente  em  contato  com  as  pessoas;  acesso  à  cultura; 
oportunidade  de  trabalho  para  as  pessoas  que  trabalham  na  restauração;  embelezamento  do 
local; o graffiti seria interpretado como um contraponto à pichação; e melhoria da fachada para 
moradores que não teriam condições de fazer obra. 
Todo o processo de leituras e observações me fez refletir ainda mais sobre o MUF. Ao 
se pensar nos mecanismos de registro, réplica e projeto apresentados por Mariana Estellita Silva 
(2013),  percebo  diversas  possibilidades  para  o  acervo  da  instituição.  A  restauração  pode  ser 
feita  sempre  que  possível,  porém  não  é  necessário  se  prender  a  ela.  Existem  também  outras 
possibilidades,  como  por  exemplo,  a  existência  de  Casas-Tela  fixas  e  temporárias  (pinturas 
mudam). A proposta de Casas-Tela temporárias partiria do pressuposto de que a obra de arte 
pode  ser  experimentada,  por  se  dar  no  tempo  vivenciado.  A  experiência  do  público  com  as 
Casas-Tela seria a própria obra de arte. Como foi analisado, apesar de Walter Benjamin nos 
dizer que a narração está em declínio, ela está viva no MUF. A narração estaria vinculada à 
experiência e esta à interação. Este museu de expressão territorial propicia diversas experiências 
ao  seu  público  que  certamente  serão  narradas,  passadas  à  frente.  Lembro  aqui  também  que 
Mariana  Estellita  Silva  (2013)  diz  que  as  obras  de  arte  contemporâneas  precisam  ser 
vivenciadas para que haja a produção de sentido. 


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Como foi discutido, registros de vídeos e fotografias podem ser feitos e seriam inclusive 
essenciais  para  obras  efêmeras.  Diante  disso,  poderiam  ser  utilizados  em  exposições  para 
mostrar  as  Casas-Tela.  Vale  lembrar  que  o  museu  já  tem  como  forma  de  registro  o  livro 
“Circuito Casas-Tela: Caminhos de Vida no Museu de Favela”. Mariana Estellita Silva (2013) 
afirma que “[...] quando tratamos de obras que se desenvolvem no tempo, muitas vezes não será 
a obra em si que deverá ser musealizada, mas outros elementos que mantenham sua informação 
preservada” (SILVA, 2013, p.12). Neste sentido, os registros fotográficos, fílmicos ou sonoros 
se aplicam às obras efêmeras, perecíveis ou que de alguma maneira se desenvolvem no tempo. 
Muitas  vezes  o  registro  é  uma  maneira  viável  de  a  obra  ser  difundida  e  alcançar  qualquer 
público, pois nem sempre é possível o contato com a “obra” propriamente dita. Ele é capaz de 
evocar a memória e preservá-la (SILVA, 2013). Ao debater algumas questões sobre graffiti, foi 
abordado também que a fotografia é um meio de prolongamento da sua existência. 
O  dispositivo  projeto  também  pode  ser  levado  em  consideração.  O  Museu  de  Favela 
pode reunir os layouts (como o apresentado na Figura 30) feitos por Acme para a confecção das 
telas  no  projeto  inicial.  Estes  layouts  mantêm  a  ideia  original  que  faz  parte  do  conteúdo  de 
memória das obras de arte. Logo, se a ideia é manter a informação que as telas desejam passar, 
ter esse material reunido é de extrema importância.  
Ao retornar à Mariana Estellita Silva (2013) e Humberto de Carvalho (2009), ressalta-
se que é importante buscar com os artistas relatos do momento em que as obras foram feitas, 
possíveis projetos, layouts, etc. Ao se considerar as Casas-Tela como obras de arte coletiva, o 
mesmo pode ser feito com os moradores. Saber se participaram das obras, se interferiram, o que 
pensam sobre os desenhos, as cores, as interferências das crianças, dentre outras situações. 
As Casas-Tela são consideradas obras de arte coletivas, pois sua construção foi também 
coletiva, o projeto aconteceu, pois, houve a participação de vários atores: moradores, artistas, 
membros  do  MUF,  IBRAM.  Lembro  aqui  que  alguns  autores  consideram  que  a  produção 
artística não se limita à figura do artista, mas que é resultado da ação coordenada dos diversos 
atores sociais (Botelho et al. 2011). 
 
Trocas  de  e-mail  com  os  artistas  também  podem  ser  salvas  como  nos  exemplifica 
Mariana  Estellita  Silva  (2013)  com  o  caso  do  Museu  de  Arte  Moderna  (MAM)  do  Rio  de 
Janeiro. Diante disso, todo material reunido pelo MUF pode ser anexado às fichas catalográficas 
das obras. Este é um cuidado importante que pode vir a evitar conflitos futuros. O ideal é que 
todo o processo seja feito em parceria entre a equipe do museu e o artista e no caso específico 
do MUF, as opiniões dos moradores também são relevantes. Como vimos durante a dissertação, 


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a documentação do acervo é crucial, por isso é importante que se registrem todos os processos, 
pois eles são a parte mais rica do MUF. Como foram feitas as Casas-Tela? Por quem? Como 
foram restauradas? Quando? Os processos também são acervo do museu, talvez o principal.  
Como  Kátia  Loureiro  relatou,  muita coisa já  foi  pensada para o Circuito  Casas-Tela, 
como  o  mapeamento  de  negócios  ao  longo  do  circuito,  a  produção  de  souvenirs  e  outras 
estratégias que dessem resultados econômicos. Ao retornar à noção de “fragmento”, de “site 



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