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parte dos grafiteiros. 


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quando  falamos  ao  telefone. Assim,  também  o  graffitar  que  se  difundiu  de  forma 
intensa nos centros urbanos significa riscar, documentar, de forma consciente ou não, 
fatos e situações ao longo do tempo. Diz respeito a uma necessidade humana como 
dançar, falar, dormir, comer, etc” (VILLAÇA apud GITAHY, 1999, p. 12 e 13).  
 
A apresentação de alguns conceitos e um breve histórico sobre essa manifestação urbana 
são  necessários  para  a  presente  análise:  o  que  significa,  quais  são  suas  origens,  o  que  a 
diferencia da pichação, como ela tem sido vista pela sociedade, em especial pelos entrevistados 
da pesquisa, como tem sido incorporada ao mercado e até mesmo virado objeto de leis/decretos.  
Além  de  Acme,  alguns  autores  consideram  que  o  graffiti  teria  tido  sua  origem  nas 
pinturas rupestres. O homem das cavernas já possuía linguagem simbólica própria e com terras 
de  diferentes  tonalidades,  sucos  de  plantas,  sangue,  argila,  excrementos  humanos,  ossos 
fossilizados ou calcinados, misturados com água e gordura de animais pintava cervos e bisões. 
Seriam as grutas e cavernas pré-históricas os primeiros museus da humanidade? Hoje com tinta 
spray, encontramos ideias e signos compondo o visual urbano (GITAHY, 1999; ENDO, 2009).  
No Egito, os túmulos dos faraós representaram um momento da pintura mural, porém 
os  traços  eram  mais  elaborados  e  não  espontâneos  como  os  dos  primitivos.  Essa  expressão 
artística  foi  utilizada  desde  o  Extremo  Oriente,  Índia,  China  e  por  todos  os  povos  do 
Mediterrâneo. Os murais encontrados em Pompéia são prova da qualidade da pintura romana. 
Também  haviam  pichações  com  xingamentos,  propaganda  política  e  poesias.  Estes  foram 
preservados pela erupção do vulcão Vesúvio. Os primeiros cristãos pintavam símbolos da Igreja 
nas catacumbas de Roma, local onde se reuniam em segredo (GITAHY, 1999; ENDO, 2009). 
Na  Idade  Média,  alguns  padres  pichavam  os  muros  de  conventos  rivais  para  expor  suas 
ideologias e doutrinas (ENDO, 2009).  
No século  XX,  através  das técnicas  da pintura mural,  pintores  mexicanos  decoravam 
edifícios públicos. Diego Rivera, José Clemente Orozco e David Alfaro Siqueiros executaram 
enormes  murais  convidados  pelo  intelectual  revolucionário  José  Vasconcelos  (GITAHY, 
1999). Os três  artistas são considerados expoentes da arte mural chamada de revolucionária, 
que visava redimir a grandeza da identidade mexicana que havia sido ofuscada pela colonização 
espanhola. Este se configurou como um momento especial da história em que a intervenção nos 
espaços  públicos  teve  uma  clara  intenção  de  produzir  significados  e  sentidos  políticos  na 
população, porém feita por artistas consagrados (RINK; METTRAU, 2011). No ano de 1905, 
Dr.  AIL  (pseudônimo  do  pintor  Bernardo  Carnada)  publicou  um  manifesto  onde  defendia  a 
necessidade de uma arte pública. Após quinze anos, em Barcelona, Siqueiros fez um apelo aos 


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artistas da América proclamando a necessidade de lançarem todos à tarefa de promover uma 
arte capaz de falar às multidões (GITAHY, 1999).  
Nos anos 50, no Brasil, murais decoravam as fachadas dos edifícios narrando temas da 
história e da arte brasileiras.  Um exemplo é o mural  de Di Cavalcanti, com  cerca de quinze 
metros de comprimento, na fachada do Teatro de Cultura Artística, na região central de São 
Paulo (GITAHY, 1999).  
  
Após  a  Segunda  Guerra  Mundial,  houve  uma  popularização  do  aerossol  que  ganhou 
maior  mobilidade.  Em  1968,  com  a  revolta  estudantil  em  Paris,  o  spray  foi  utilizado  para 
protestar  contra  as  instituições  universitárias  e  manifestar  a  liberdade  de  expressão  (ENDO, 
2009).  Sampaio (2006) observa que neste primeiro momento a pintura dos muros era um ato 
político, o graffiti parisiense tinha como principal preocupação o conteúdo e a forma ficava em 
segundo plano.  
O muro de Berlim, construído no início da década de 1960, possuía seu lado ocidental
encabeçado pela democracia capitalista dos Estados Unidos, tomado por pichações e graffiti de 
protesto contra o muro. Já seu lado oriental, era limpo e de pintura intacta sob o controle do 
regime  socialista  da  União  Soviética.  Após  sua  demolição,  os  garranchos  do  lado  ocidental 
figuraram  nas  páginas  da  imprensa  mundial  como  símbolo  da  liberdade  de  expressão 
(GITAHY, 1999; ENDO, 2009).  
Percebe-se  que  a  prática  de  pinturas  em  muros  e  paredes  sofreu  transformações  de 
acordo com o período histórico e com o tipo de tecnologia possível (RINK, METTRAU, 2011). 
Campos  (2010)  observa  que  os  indivíduos  sempre  escreveram,  desenharam  e  pintaram  suas 
paredes, porém houve um declínio desta atividade proveniente da mercantilização da arte nos 
últimos séculos, pois o comércio das obras criou a necessidade de suportes que pudessem ser 
deslocados.  Diante  disso,  as  telas  e  molduras  se  popularizaram,  pois  eram  perfeitas  para  o 
deslocamento.  
Para Gitahy, “Todos esses dados sobre muralismo, junto com a pop art
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, já apontavam 
para a origem do graffiti contemporâneo enquanto expressão artística e humana” (GITAHY, 
1999, p.16). 
Para além da questão histórica que situa a origem do graffiti nas pinturas rupestres, há 
autores que datam seu surgimento em sua versão contemporânea por volta dos anos 70 e 80, 
em Nova York, nos Estados Unidos. O epicentro seria o bairro do Bronx. Os bairros do subúrbio 
                                                           
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 Movimento artístico, dos inícios dos anos 60, que se baseia na reprodução fiel ou deformada, de imagens da 
sociedade de consumo e de massas, de forma não reinterpretada. 


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nova-iorquino  eram  pontos  de  alta  periculosidade,  onde  tráfico  de  drogas,  prostituição  e 
assassinatos  aconteciam  recorrentemente.  Gangues  implementavam  suas  próprias  leis  e 
também faziam o papel da polícia devido a total falta de atenção dada pelos órgãos de segurança 
responsáveis em relação às áreas periféricas. A área de atuação de uma gangue determinava a 
área de proteção para todos que ali viviam sob suas leis. Os anos 70 foram de grandes perdas 
para as camadas populares nos EUA e formaram-se verdadeiros bolsões de pobreza nos bairros 
periféricos,  compostos  em  sua  maioria  por  hispânicos  e  negros.  Os  jovens  destas  áreas  não 
possuíam  grandes  perspectivas  de  mudanças  sociais,  noções  de  identidade  cultural  e  nem 
possibilidades de expressão (SAMPAIO, 2006). Eles começaram a demarcar o que acreditavam 
ser  seus  territórios  no  espaço  externo  da  cidade.  De  início  faziam  inscrições  com  pincéis 
atômicos que se desenvolveram para marcas cada vez mais elaboradas em dimensões muralistas 
(CASCARDO, 2008).  
graffiti seria então uma das vertentes da cultura Hip-Hop, nascida nos Estados Unidos 
nos anos 70, uma forma de arte alternativa, uma contra-cultura
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. O movimento Hip-Hop, de 
base reivindicativa e de protesto aos papéis sociais estabelecidos, surgiu como resposta social 
das  minorias  urbanas  que  se  uniram  em  torno  de  práticas  sociais  de  jovens  negros  e  latino-
americanos  dos  guetos  e  ruas  dos  grandes  centros  urbanos.  Ele  se  constitui  pela  linguagem 
artística da música (RAP – Rhythm and Poetry), cantado pelos Mcs (mestres de cerimônia que 
são apresentadores e cantores dos eventos e festas de Hip-Hop por meio das rimas), da dança 
(Breakdance), dançada pelos  B-boys  e  B-girls  e da arte plástica (Graffiti). Ainda existem  os 



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