Universidade federal do estado do rio de janeiro



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rapper,  eu  cantava  rap  com  ela...  Então  eu  imaginei,  Afrolady  pode  dar  aula  de 
música, pode ensinar os caras a cantarem rap e esses caras que vão fazer a oficina de 
rap,  eles  vão  ser  os  nossos  guias  porque  eles  vão  cantar  a  história  do  morro  e  os 
grafiteiros vão fazer oficina e esses grafiteiros vão ser os ilustradores da história do 
morro. O pessoal que faz jornalismo vai ser o pessoal que vai catalisar a história para 
dar  conteúdo  pro  rap  e  pro  graffiti.  Então  eu  imaginei  que  tudo  isso  poderia  se 
conectar e funcionar junto, apresentei pra galera e a Kátia pegou esse bolo de papel, 
levou pra casa e transformou isso num plano estratégico.
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Kátia  então  procurou  apoio  da  Secretaria  de  Cultura  e  outras  instituições 
governamentais, porém não obteve respostas positivas. Talvez a ideia fosse muito ousada para 
o período. Ela retornou para o grupo e disse que não havia conseguido ajuda. Foi então, que 
segundo ela, Aline Afrolady teria dito que eles teriam que criar uma instituição deles mesmos, 
teriam que “arregaçar as mangas”. Os moradores pediram auxílio para montar a instituição e 
Kátia não conseguiu ser remunerada pelo PAC, pois ele não aceitava medição de hora nisso e 
                                                           
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 Entrevista concedida por SILVA, Sidney. Depoimento [dezembro, 2014]. Entrevistadora: Fernanda Rodrigues. 
Rio de Janeiro, 2014. 1 arquivo.mp3 (14min).   
 
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  Entrevista  concedida  por  LOUREIRO,  Kátia  Afonso  Silva.  Depoimento  [novembro,  2014].  Entrevistadora: 
Fernanda Rodrigues. Rio de Janeiro, 2014. 1 arquivo.mp3 (1h 9min). 
 
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  Entrevista  concedida  por  SILVA,  Carlos  Ezquivel  Gomes  da.  Depoimento  [outubro,  2014].  Entrevistadora: 
Fernanda Rodrigues. Rio de Janeiro, 2014. 1 arquivo.mp3 (56min).  


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ela  colocou  toda  a  situação  para  sua  equipe  de  trabalho.  Acabou,  posteriormente,  se 
desvinculando da empresa, se auto aposentou para se dedicar ao MUF como voluntária, pois 
não deu conta de levar as duas coisas juntas. Ela acredita que devia a ela essa experiência e 
ficou sete anos na instituição. Aponta que este é o tempo de “enraizar”, pois em territórios que 
estiveram anos sob o domínio do tráfico armado, com uma desconstrução cruel da identidade 
coletiva,  não  se  faz  nada  em  menos  de  dois  ou  três  anos.  É  necessário  transformar  a 
desconfiança em vontade de fazer acontecer e os próprios empreendedores do MUF, pessoas 
que viveram anos nas estratégias de sobrevivência e que carregam consigo a cicatriz da exclusão 
social, precisavam perceber que aquele era um projeto que ia dar certo. Kátia ainda aponta que 
para Acme a ideia desde o início era ser um movimento, pois ele constrói suas estratégias na 
impermanência. Porém,  ela acredita que é importante lutar pela permanência, pois esta seria 
uma luta por uma posição na sociedade
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.  
O  MUF  é  um  museu  de  território  (a  céu  aberto)  e  comunitário.  É  o  primeiro  museu 
territorial integral do Brasil e é utilizado pelos moradores como uma ferramenta para o registro 
de memórias e desenvolvimento local. Nas palavras de Kátia Loureiro, ele “tem como missão 
comunicar todo o valor, toda a cultura, toda tradição, toda memória que está estabelecida dentro 
daquele território que ele representa”
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. Em consonância com esta qualificação para o museu, 
Mário Chagas argumenta que: 
 
As  experiências  de  museus  comunitários  valorizam  as  pessoas,  valorizam  as 
comunidades, valorizam o desenvolvimento local sustentável. Têm um outro foco. Os 
acervos  são  importantes,  mas  eles  são  um  pretexto  para  o  desenvolvimento 
comunitário.  Os  espaços,  os  edifícios  onde  os  museus  se  instalam  podem  ser 
importantes,  mas,  continuam  sendo  pretexto  para  o  desenvolvimento  comunitário. 
Todos esses elementos: as coleções, os acervos, o patrimônio, o local, tudo passa a ser 
uma estratégia a favor do desenvolvimento social daquela  comunidade. (CHAGAS 
apud MORAES, 2011, p. 45) 
 
 
Sobre a criação deste novo museu, vale também destacar a fala de Rita de Cássia: 
 
Museu de Favela é um museu de novo conceito, uma nova forma de se musealizar, 
uma  organização  pensada  por  pessoas  que  não  são  da  área  de  museologia.  [...] 
Criamos o museu sem saber que estávamos fazendo, um bando de loucos, né? Que foi 
muito  atacado  por  isso,  porque  achavam  que  em  meio  a  tantos  problemas  na 
comunidade,  a  gente  vinha  falar  de  cultura,  quando  não  existiam  questões  de 
                                                           
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  Entrevista  concedida  por  LOUREIRO,  Kátia  Afonso  Silva.  Depoimento  [novembro,  2014].  Entrevistadora: 
Fernanda Rodrigues. Rio de Janeiro, 2014. 1 arquivo.mp3 (1h 9min). 
 
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  Entrevista  concedida  por  LOUREIRO,  Kátia  Afonso  Silva.  Depoimento  [novembro,  2014].  Entrevistadora: 
Fernanda Rodrigues. Rio de Janeiro, 2014. 1 arquivo.mp3 (1h 9min).
 


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saneamento  básico,  falta  disso,  falta  daquilo,  falta  de  escolas,  de  creches,  falta  de 
postos de saúde e a gente veio falar de cultura e veio falar de museu. Pros moradores 
no início foi surreal, hoje eles percebem que a gente veio para ficar. E viemos para 
contar a história deles e não a nossa.
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Moraes  (2011)  analisa  que  durante  o  PAC,  o  MUF  se  classificava  em  matérias  de 
divulgação e eventos como museu de território e que após este, passou a classificar-se como 
museu comunitário. Salienta que em termos conceituais as duas definições não diferem muito, 
na  verdade,  elas  classificam  em  períodos  diferentes  da  história  museus  com  os  mesmos 
objetivos. No entanto, ao usar os termos “território” e “comunitário”, a diretoria do MUF estaria 
dando a eles um significado peculiar. A população local tinha certa resistência ao museu por 
considerá-lo um “Museu do PAC”, a utilização do termo “comunitário” tem por objetivo então 
desvincular essa imagem criada na comunidade. 
O turismo foi foco dos moradores no início da criação do MUF como pode ser visto em 
seu macro-objetivo: 
 
Transformar o morro em um Monumento Turístico Carioca da História de Formação 
de Favelas, das Origens Culturais do Samba, da Cultura do Migrante Nordestino, da 
Cultura  Negra,  de  Artes  Visuais  e  de  Danças  –  Um  grande  roteiro  de  visitação 
turística  nacional  e  internacional  da  Cidade  do  Rio  de  Janeiro.  (MUSEU  DE 
FAVELA apud MORAES, 2010, p.36).
 
 
Turistas,  jornalistas,  pessoas  de  outros  museus  e  pesquisadores  e  alunos  de  diversas 
universidades brasileiras e estrangeiras o visitam com objetivos diferentes. Há visitantes que 
querem conhecer o Circuito Casas-Tela, outros querem entender um pouco mais sobre o “Jeito 
MUF de musealizar” e fazer assim uma visita técnica à Base 1 do museu e há ainda os que 
querem vivenciar um pouco da cultura de favela em oficinas e apresentações diversas, provando 
da  gastronomia  local,  visitando  projetos  sociais,  dentre  outras  atividades.  Alguns  visitantes 
querem misturar diversos desses elementos. 
 
O Museu de Favela desenvolve um turismo que pensa no morador em primeiro lugar, 
preocupado  com  o  beneficiamento  econômico  da  comunidade  local  e  com  a  preservação  de 
seus  valores,  histórias  e memórias. Pensando nisso, o modelo de gestão de turismo adotado, 
segundo os diretores do museu, é o Turismo de Base Comunitária (TBC):  
 
[...] é aquele desenvolvido pelos próprios moradores de um lugar que passam a ser 
articuladores e os construtores de cadeia produtiva, onde a renda e o lucro ficam na 
comunidade e contribuem para melhorar a qualidade de vida; leva todos a se sentirem 
                                                           
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 Entrevista concedida por PINTO, Rita de Cássia Santos. [setembro, 2014]. Entrevistadora: Fernanda Rodrigues. 
Rio de Janeiro, 2014. 1 arquivo.mp3 (1h 48min).   


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capazes  de  contribuir,  e  organizar  as  estratégias  do  desenvolvimento  do  turismo. 
(CORIOLANO, 2003, p.14)
 
 
 
 
As  visitas  proporcionadas  pelo  museu  prezam  a  experiência.  Os  visitantes  têm  a 
oportunidade de vivenciar e porque não dizer experimentar, um pouco do cotidiano da favela, 
suas  manifestações  culturais,  sua  paisagem,  dentre  as  diversas  outras  possibilidades.  É  um 
turismo que integra o valor de quem vem de fora com quem está dentro. Durante as visitas, os 
mediadores  culturais  dão  enfoque  à  cultura  de  favela,  arte,  história,  chamam  a  atenção  para 
problemas como o lixo e o abandono do poder público em diversas situações, incluindo aqui 
casos de remoção. Sempre abordam a museologia social e o protagonismo que o MUF possui 
na área com certo orgulho. É comum a fala: “Estávamos fazendo aqui o que foi tratado na Mesa 
de Santiago em 1972 sem saber”.  
Apesar  do  MUF  também  abordar  questões  sociais  importantes,  ele  dá  preferência  a 
mostrar uma favela cultural, sua história, suas lutas e dificuldades de sobrevivência para chegar 
até  os  dias  de  hoje.  Ênfase  nas  tradições,  música,  dança,  esporte,  religiões,  brincadeiras  de 
criança. Os diretores do MUF, dizem ser contra o turismo explorador, como o que utiliza vans 
e jipes e apontam sempre o exemplo da Rocinha. Pode-se perceber a recusa deste turismo já no 
discurso feito por Acme, no evento de assinatura do convênio MUF e UNIRIO realizado em 18 
de junho de 2009: “Nada de turista subindo morro vestido para um safári, aqui não tem bicho! 
Vamos  estudar  turismologia  assim  como  estudamos  museologia  comunitária  para  fazermos 
melhor  o  turismo  nesse  Museu  de  Favela  de  tantas  possibilidades  culturais”  (INFORMUF, 
2009). Desta forma Moraes (2011, p.28) destaca que “O turismo para os diretores do MUF tem 
que ser a pé, os turistas têm que andar na favela, segundo eles, como os moradores andam, e 
com os moradores, conhecendo assim a realidade da favela”. 
 
Freire-Medeiros (2009) frisa que apesar de os passeios feitos de jipe terem se tornado 
um ícone do turismo na Rocinha, apenas três empresas fazem uso deste transporte, a saber: Jeep 
Tour,  Jungle  Tours  e  Rio  Adventure.  As  empresas  dizem  não  haver  fundamento  em  tantas 
críticas, uma vez que o veículo é utilizado para uma percepção mais acurada da paisagem e que 
a ideia de “safári de pobres” não deveria existir (p. 54 e 55). 
 
Velloso,  Pastuk  e Jr. e destacam  o papel  do MUF no processo  de desmistificação da 
imagem das favelas, dizendo: 
 
O MUF faz parte de um grande roteiro de visitação turística que percorre as favelas 
do  Cantagalo  e  do  Pavão-Pavãozinho  tendo  como  missão  desmistificar  a  imagem 
destas como sendo guetos, associadas à violência e à miséria. O museu busca valorizar 
a diversidade cultural dessas  favelas expressa tanto  na  música, na dança,  nas artes, 


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como  nas  biroscas,  nas  pensões  e  nas  edificações,  no  dia  a  dia  dos  moradores  que 
traduzem singularidades diversas: o Cantagalo é diferente do Pavão-Pavãozinho e as 
duas  favelas  guardam  diferenças  internas  revelando  histórias,  práticas  sócias  e 
simbologias específicas. (VELLOSO; PASTUK; JR., 2012, p. 44) 
 
Em minha pesquisa de campo, ao acompanhar guiamentos e conversar com as pessoas
pude perceber que há uma satisfação dos visitantes que fazem as visitações promovidas pelo 
MUF.  O  museu  também  parece  alcançar  seu  objetivo,  uma  vez  que  as  pessoas  passam  a 
reconhecer  às  memórias  daquelas  comunidades  como  parte  integrante  da  cidade  do  Rio  de 
Janeiro. 
 
  
 



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