Universidade federal do estado do rio de janeiro


 APRESENTAÇÕES: NARRADORES E TERRITÓRIO



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2 APRESENTAÇÕES: NARRADORES E TERRITÓRIO 
 
No  capítulo  anterior  foram  identificados  o  contexto  em  que  surgiu  o  MUF,  as  bases 
teóricas em que se fundamenta e como o trabalho do museu vem refletindo em outras ações.  
Neste capítulo, serão apresentados os narradores, os atores sociais envolvidos no processo de 
conformação institucional, assim como a entrada em campo e o estabelecimento das relações 
que  permitiram  a  execução  da  pesquisa.  Estão  presentes  aqui  alguns  conflitos  e  tensões  que 
ocorrem  no  Museu  de  Favela,  que  serão  posteriormente  aprofundados.  Em  seguida,  será 
apresentado o território museal, ou seja, as favelas Pavão, Pavãozinho e Cantagalo. Parte-se do 
pressuposto que são comunidades distintas, cada uma com suas particularidades, e compreendê-
las é importante para a caracterização do museu analisado. 
 
2.1 NARRADORES DE MEMÓRIAS E TENSÕES NO MUF 
 
A  narrativa  parece  estar  viva  no  Museu  de  Favela.  Em  1936,  no  entanto,  Walter 
Benjamin, filósofo, sociólogo e crítico literário, em seu ensaio “O narrador: considerações sobre 
a obra de Nikolai Leskov”, indicava que:  
 
a  arte  de  narrar  está  em  vias  de  extinção.  São  cada  vez  mais  raras  as  pessoas  que 
sabem  narrar  devidamente.  Quando  se  pede  num  grupo  que  alguém  narre  alguma 
coisa, o embaraço se generaliza. É como se estivéssemos privados de uma faculdade 
que  nos  parecia  segura  e  inalienável:  a  faculdade  de  intercambiar  experiências 
(BENJAMIN, p.198, 1985).   
 
 
De acordo com o autor, a morte da narrativa teria início com o período moderno, onde 
a  poesia  épica  cedeu  seu  espaço  para  o  romance,  já  em  uma  configuração  de  mundo 
individualista. O indivíduo não tem mais uma relação com a tradição oral, logo, segrega-se, fica 
isolado sem  falar sobre  preocupações  ou dar conselhos.  Ligado  ao livro, com  a invenção da 
imprensa, o indivíduo não se utiliza mais de gestos nem incorpora as experiências dos ouvintes 
como faria o narrador (BENJAMIN, 1985).    
 
Outra forma de comunicação mais ameaçadora contribuiu para o declínio da narrativa e 
para uma crise no próprio romance: a informação. Ela é produto da consolidação da burguesia 
que se utiliza da imprensa como um dos seus principais instrumentos. A informação possui um 
caráter efêmero, os acontecimentos têm que ter uma proximidade temporal e são rapidamente 
descartados dando lugar a novos (BENJAMIN, 1985).   


52 
 
 
 
 
A extinção da narração estaria vinculada às mudanças ocorridas na sociedade, à chegada 
da modernidade em oposição ao tradicional. A short-story, uma espécie de redução de narrativa, 
seria uma forma de comprovar a crítica de Benjamin à fugacidade do mundo atual, onde não 
existe mais experiência, já que os indivíduos tendem a se distanciar cada vez mais. Além de se 
distanciar, eles não reagiriam aos estímulos e ritmo acelerado da vida moderna, é o que Simmel 
(1987)  chama  de  caráter  blasé  ao  fazer  referência  à  metrópole  (SIMMEL,  1987).  Mas  a 
narrativa estaria realmente se extinguindo? 
 
No  MUF,  o  ato  de  narrar  está  vivo,  tanto  no  circuito  de  graffiti,  que  materializa  as 
histórias  e  memórias  produzidas  na/pela  comunidade,  como  nas  diversas  falas  de  seus 
fundadores,  diretores,  mediadores  culturais,  artistas,  moradores,  visitantes  e  me  incluo  aqui 
também, enquanto pesquisadora. São diversas as vozes presentes. Somos todos narradores desta 
história.  
 
Muito  do  trabalho  do  museu  se  baseia  em  entrevistas  feitas  com  moradores  das 
comunidades,  em  especial,  os  mais  idosos.  Ao  serem  entrevistados,  estes  narraram  suas 
histórias,  tradições  e  experiências  de  vida  ou  até  mesmo  experiências  de  outras  pessoas  que 
haviam sido  contadas para eles anteriormente, afinal, “A experiência que passa de pessoa a 
pessoa  é  a  fonte  a  que  recorrem  todos  os  narradores”  (BENJAMIN,  1985,  p.198).  De  certa 
forma, a preocupação com o resgate de narrativas é um recurso moderno, justamente pelo risco 
de desaparecimento/perda e devido a isto, são criados meios e suportes de memória. 
 
O Museu de Favela oferece visitações ao Circuito Casas-Tela
22
 e a outros acervos que 
são guiadas pelos mediadores culturais, moradores da comunidade, que fazem a mediação entre 
o visitante e a cultura local. Ao realizar o circuito com os visitantes, o mediador narra todas as 
histórias. Deste modo, o mediador passa também a ser um narrador de sua história, já que os 
conteúdos de memórias retratam as favelas Pavão, Pavãozinho e Cantagalo, locais de moradia 
dos mediadores.  
 
É interessante perceber  os  discursos  de diferentes mediadores,  uma vez que cada um 
chama atenção para um detalhe que sente maior identificação. Deste modo, a visita nunca é a 
mesma, o “mediador-narrador” incorpora em seus discursos registros de memórias que sejam 
ligados  a sua origem.  Evidencia-se  assim  o fato  do Museu de Favela ser  um  museu vivo.  A 
narrativa muda de acordo com o narrador e com as suas experiências. Benjamin nos diz que “O 
narrador retira da experiência o que ele conta: sua própria experiência ou a relatada pelos outros. 
                                                           
22
 Ver Figura 9. 


53 
 
 
 
E incorpora as coisas narradas à experiência dos seus ouvintes” (BENJAMIN, 1985, p. 201). 
Na mesma medida, acrescenta que “se imprime na narrativa a marca do narrador, como a mão 
do oleiro na argila do vaso (BENJAMIN, 1985, p. 205). É importante notar também que toda 
narrativa  do  passado  implica  uma  seleção,  a  memória  total  é  impossível.  Desta  forma,  a 
memória é seletiva (JELIN, 2002). Diante disto, o que é apresentado ao visitante é o olhar e a 
perspectiva do narrador. 
 
O processo de mediação, além do uso da voz, inclui a gestualidade que é imprescindível 
a um narrador,  
 
Pois  a  narração,  em  seu  aspecto  mais  sensível,  não  é  de  modo  algum  o  produto 
exclusivo da voz. Na verdadeira narração, a mão intervém decisivamente, com seus 
gestos,  aprendidos  na  experiência  do  trabalho,  que  sustentam  de  cem  maneiras  o 
fluxo do que é dito. (BENJAMIN, 1985, p.221) 
 
Os  moradores  também  participam  muitas  vezes  das  visitas  e  contam  as  histórias  aos 
visitantes juntamente com os mediadores, fazem também o uso dos gestos. Os visitantes, uma 
vez que estiveram no MUF, também têm a possibilidade de narrar as histórias ali ouvidas fora 
do território museal, já que contar histórias é a arte de contá-las de novo (BENJAMIN, 1985). 
E assim também o fazem os pesquisadores.  
 
 A  narração  estaria  vinculada  à  experiência,  que  aqui  não  se  restringe  ao  indivíduo 
isolado, mas à interação, ao compartilhar experiências. A experiência de se criar um novo tipo 
de  museu  proporciona  novas  narrativas,  a  experiência  da  mediação  proporciona  outras,  a 
experiência  da  confecção  dos  acervos  pelos  artistas,  outras  e  assim  há  uma  infinidade  de 
experiências que ocorrem neste museu territorial. Há uma troca de experiências entre as pessoas 
nestes  diversos  processos.    O  ouvinte  do  mediador  cultural,  por  exemplo,  muitas  vezes  fala 
coisas  que  são  incorporadas  pelo  “mediador-narrador”  em  seus  discursos  futuros.  Há  a 
expectativa  em  relação  ao  processo  de  transmissão,  do  fluxo  das  experiências  narradas.  Os 
visitantes  também  podem  figurar  como  narradores  destas  histórias  após  realizar  a  visita, 
principalmente aqueles que esquecem de si mesmos e gravam mais profundamente o que estão 
ouvindo, adquirindo o dom de narrá-las (BENJAMIN, 1985). 
 
Diante disto, serão apresentados agora alguns dos narradores do MUF. Primeiramente, 
retorna-se  aqui  ao  ano  de  2008,  ano  em  que  foi  fundado  o  museu.  Como  visto  no  primeiro 
capítulo, foram 16 sócios-fundadores, com trajetórias marcadas por experiências de resistência, 
que se uniram em prol da valorização da memória coletiva e desenvolvimento comunitário. 


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O primeiro personagem  desta história a ser apresentado é Carlos Ezquivel  Gomes  da 
Silva, mais conhecido como Acme. Morador de Pavão-Pavãozinho, é ativista e autodidata de 
arte urbana, um dos pioneiros do graffiti carioca, sendo o primeiro a expor em uma galeria de 
arte no Rio de Janeiro (Haus Arte Contemporânea). Sua inspiração versa sobre o cotidiano do 
Pavão-Pavãozinho e Cantagalo, memória comunitária e conjuntura social e política na qual está 
inserido. É sócio fundador e foi Presidente da 1ª diretoria do Museu de Favela (2008-2011). 
Criador do Circuito Casas-Tela  e compositor dos versos inspirados  em  literatura de cordel
23
 
que narram o roteiro. Acme é curador do acervo e também realizou seu processo de restauração 
que será abordado no quinto capítulo. 
Rita  de  Cássia  Santos  Pinto,  moradora  do  Cantagalo,  é  jornalista,  radialista  e  líder 
comunitária atuante. É também guia profissional de turismo e atua como mediadora cultural do 
Circuito  Casas-Tela  e  DJ.  Rita  já  participou  e  coordenou  diversos  projetos  no  âmbito 
comunitário, é consultora do MUF no Programa Pontos de Memória, curadora de memórias de 
exposições. Trabalha principalmente entrevistando moradores para não deixar que as histórias 
da  comunidade  se  percam.  Seu  trabalho  é  muito  rico  e  também  muito  difícil,  pois  lida  com 
“memórias sofridas”.  
Antônia Ferreira Soares, moradora de Pavãozinho, é biblioteconomista e pós-graduada 
em  Administração  Pública.  Foi  datilógrafa/assessora  da  Secretaria  de  Estado  de  Trabalho  e 
Renda (SETRAB). Desde 1983 está envolvida com trabalho comunitário, foi secretária por dois 
mandatos  e  vice-presidente  por  um  mandato,  tendo  assumido  por  quase  um  ano  o  cargo  de 
Presidente  da  Associação  de  Moradores  do  Pavão-Pavãozinho.  Já  fez  diversos  trabalhos 
voluntários em ambulatórios, escolas e igreja e participou de cursos na Ação Comunitária do 
Brasil  e  seminários  diversos  com  temas  afins.  É  idealizadora  e  responsável  pelo  Grupo  de 
Artesãos de Pavão-Pavãozinho e também tem um projeto denominado “Chá no Jardim”, onde 
ocorrem encontros de senhoras. 
Morador  do  Cantagalo,  Sidney  Silva,  mais  conhecido  como  Sidney  Tartaruga,  é 
Professor  Graduado  e  Contramestre  de  Capoeira  pela  Associação  Capoeira  Liberdade. 
Terapeuta de Medicina Oriental, fundador-presidente da ONG Corpo Movimento, coordenador 
do Projeto Liberdade e produtor cultural. Sidney é filho de renomado sambista e compositor da 
velha guarda do samba de morro, Joel Silva, que teve músicas gravadas por Bezerra da Silva. 
Já  participou  de  peças,  frequentou  diversos  cursos  de  áreas  distintas,  participou  de  vários 
                                                           
23
 A expressão “cordel” passou a ser utilizada no MUF de modo genérico para designar os escritos das Casas-Tela. 
Neste sentido, mesmo consciente de que a literatura de cordel tem um formato específico, utilizo aqui a expressão 
como é utilizada pelo museu. 


55 
 
 
 
congressos e eventos internacionais de capoeira e ministrou aulas em projetos e comunidades. 
Também atua como mediador cultural do MUF. 
Kátia Afonso Loureiro não é moradora das favelas, mas entrou para o MUF através do 
convite dos demais sócio fundadores. Como já abordado, foi ela quem sugeriu aos moradores 
a ideia da criação de um museu de território. Kátia é engenheira-arquiteta pela Universidade 
Federal de Minas Gerais, especialista em Planejamento e Uso do Solo Urbano (UFPE/UFS) e 
mestre em Ciência e Tecnologia Ambiental (UNIVALI/Santa Catarina).  Ex-empresária, atuou 
por  trinta  anos  como  urbanista  em  desenvolvimento  de  territórios,  o  que  a  fez  acumular 
experiência em gestão participativa, gerenciamento de projetos e planejamento estratégico. A 
dedicação  ao  MUF  foi  integralmente  voluntária.  Aconselhava  de  forma  estratégica  o  grupo 
dirigente do museu, através  orientação do desenvolvimento institucional e administrativo da 
ONG.  Elaborou  projetos  para  captar  recursos  a  partir  das  ideias  de  seus  colegas  da  favela  e 
apoiou  o  amadurecimento  do  grupo  como  equipe  e  como  gestores.  Kátia  se  desvinculou  do 
museu  no  ano  de  2014,  mas  sua  importância  para  o  desenvolvimento  da  instituição  é 
amplamente reconhecida. 
Marcia  Cristina  de  Souza  e  Silva,  moradora  do  Cantagalo,  é  engenheira  eletricista, 
formada pela Universidade Veiga de Almeida, com pós-graduação em Engenharia de Produção 
e MBA em Gestão Empresarial, pela Universidade Cândido Mendes. Seu primeiro contato com 
o  social  foi  quando  participou  como  voluntária  nas  colônias  de  férias  que  aconteciam  no 
“Brizolão”
24
, antes mesmo dele ser chamado de “Brizolão” e ser o CIEP. Atuou em diversas 
ações do MUF. 
 
Moradora do Pavão, Marli Melo participou das primeiras atividades na Associação de 
Moradores do Pavão/Pavãozinho quando ainda criança, junto com os primeiros associados. Foi 
diretora social da Associação de Moradores e neste período implantou o primeiro projeto social 
na  comunidade,  denominado  Vida  Nova,  nas  áreas  de  esporte,  saúde,  educação  e  meio 
ambiente. Já participou de diversos cursos, em variadas temáticas. É ainda artesã, pintora de 
Arte Naïf 
25
 e compositora de corinhos evangélicos
26
.   
 
Cássia Oliveira é professora de música e ativista social no Cantagalo desde 1999. Foi 
morar na comunidade em 2006 devido ao encantamento com o talento das crianças do morro. 
                                                           
24
 Os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs) são popularmente apelidados de “Brizolões”. 
 
25
 Arte primitiva feita por pintores autodidatas. 
 
26
 Cânticos de cunho evengelístico caracterizados por uma estrutura melódica simples e intuitiva com conteúdo 
emocionalista. 


56 
 
 
 
Criou  o  Projeto  Harmonicanto  Música  e  Cidadania,  na  comunidade  do  Cantagalo  e  oferece 
aulas de musicalização infantil, flauta-doce, teclado, violão, canto-coral, percussão e outros de 
arte-artesanato,  tudo  de  forma  voluntária.  Doações,  venda  de  trufas  e  artesanato  ajudam  na 
manutenção desse trabalho. Formou o Conjunto Harmonicanto, produto do Projeto com vinte 
integrantes de cinco a dezessete anos, que tocam instrumentos e harmonizam a quatro vozes 
clássicos da MPB.  
 
Jonathan Rodrigues é morador de Cantagalo e artista circense. Frequentou a Escola de 
Teatro Tá na Rua e a Escola Nacional de Circo. Já participou de vários projetos do AfroReggae 
e de espetáculos de circo, com destaque para a abertura do Circo Imperial da China.  
 
Paulo  Rodrigues  Martins,  morador  do  Pavãozinho,  é  fotógrafo  formado  pelo  Serviço 
Nacional de Aprendizagem Comercial (SENAC). Teve uma participação importante na escolha 
dos nomes das ruas de Pavão-Pavãozinho no segundo governo Brizola. Colaborou nos trabalhos 
da Associação de Moradores de Pavão-Pavãozinho, durante a gestão de Sebastião Teodoro. Na 
década de 80, foi o idealizador do grupo jovem que era oriundo de alunos da Escola Municipal 
São Pedro do Pavãozinho e que organizava na comunidade as festas comemorativas, e criador 
do Jornal Comunitário Trio Pavão Pavãozinho. Na década de 90, teve participação nas rádios 
comunitárias.  Já  deu  aula  de  futebol  para  grupos  de  meninos  e  meninas  e  tem  uma  longa 
trajetória de trabalhos comunitários. 
 
Valdete  Viana  dos  Santos,  moradora  do  Pavão,  é  bacharel  em  Letras  pela  Faculdade 
Notre Dame e possui cursos em diversas áreas, sendo alguns exemplos, curso de mediações de 
conflitos  e  de  museologia.  É  líder  atuante  na  comunidade  e  participou  da  diretoria  da 
Associação de Moradores do Pavão/Pavãozinho e foi coordenadora do Programa Vida Nova. 
Possui experiência como codificadora (Empresa Brasileira de Turismo - EMBRATUR), caixa 
e tesoureira (Banco Mercantil e Industrial do Paraná S/A - BAMERINDUS e Hong Kong and 



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