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O impacto do drama musical wagneriano na música ocidental



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O impacto do drama musical wagneriano na música ocidental

Além dos aspectos harmônicos, outros fatores influenciaram no estabelecimento do 

acorde tristão como símbolo de superação da teoria tonal. Prova disso é o fato deste mesmo 

acorde ter sido utilizado inúmeras vezes em períodos anteriores, por diversos compositores, a 




exemplo de Beethoven na sua sonata para piano solo opus 31, sem que este acorde estivesse 

se estabelecido de forma tão revolucionária quanto na ópera Tristão e Isolda.



5

A  ópera  Tristão   e   Isolda  se   situa   no   conjunto   de   obras   conhecido   como   dramas 

musicais. Representa uma fase madura das composições operísticas de Wagner. Ela baseia-se 

num tema épico antigo e foi concebida como uma peça revolucionária em vários aspectos. A 

concepção geral da peça por si só já era inovadora. Ela se propunha a um entrelaçamento 

entre música e cena poucas vezes visto na história da música – Wagner chamava isso de 

“ações   musicais   visualizadas”.   O   compositor   conseguia   este   entrelaçamento   se 

responsabilizando não só pela composição musical, mas também pela escrita do texto da 

ópera. Apesar do valor dado à encenação, a música tinha predominância e, desta forma, o 

acorde tristão se destaca pois faz parte do tema principal que Wagner utiliza como leitmotiv, o 

motivo condutor que perpassa toda a ópera e se constitui num outro aspecto inovador do 

conjunto wagneriano. Outros compositores já haviam se utilizado de um motivo condutor, 

como por exemplo Berlioz com a técnica da ideia fixa, no entanto o tratamento motívico 

desenvolvido por Wagner era diferente.

Além   de   compositor,   Wagner   também   era   escritor,   tendo   sido   considerado   um 

intelectual influente no cenário artístico romântico. Se envolveu em temas políticos, às vezes 

controversos, como os ideais anti-semitas. Fato é que os seus escritos teóricos, filosóficos e 

políticos acabaram por transformá-lo em um ícone revolucionário. Na esteira desta posição 

ocupada  por ele o acorde tristão  se situa como um dos  legados  desta revolução. Talvez 

também   por   conta   disto   este   acorde   não   tenha   se   consagrado   de   tal   forma   com   outros 

compositores e tenha virado com Wagner um símbolo de superação ou subversão da teoria 

tonal.


5 Nesta peça citada, Beethoven utiliza o acorde de maneira realçada, até 4 vezes seguidas, sem contudo se firmar 

como um ícone subversivo da teoria tonal.




Wagner acreditava que através da arte era possível transformar a sociedade. Incutindo 

na ópera seus ideais estéticos, filosóficos e políticos ele pretendia estabelecer o que ele chama 

de “obra de arte do futuro”, mais um fato que o aponta como um músico revolucionário:

“No momento esta obra de arte não pode ser criada, mas apenas preparada, através de um 

processo de revolução, de destruição e quebra de tudo que valha a pena ser destruído e 

quebrado. É isto que cabe a nós e somente então pessoas totalmente diferentes de nós 

serão os verdadeiros artistas criativos” (WAGNER, Richard. Carta a Theodor Uhlig, 27 de 

dezembro de 1849).

Muitos desses ideais foram estabelecidos na obra literária  Oper  und  Drama, tendo 

como ponto de culminância o estabelecimento do que ficou conhecido como “religião da 

arte”.   Vale   aqui   ressaltar   que   a   idealização   e   criação   de   um   espaço   para   a   encenação 

operística jamais visto na história da música foi um outro fator de sublevação do símbolo 

representado por Wagner. Bayreuth foi um local criado especialmente para a encenação de 

grandes dramas musicais – para tal contava com uma estrutura totalmente voltada para este 

fim,   como   jamais   houve   em   períodos   anteriores.   Consistia   num   amplo   teatro,   capaz   de 

receber centenas de espectadores bem como um grande corpo de artistas. A orquestra podia 

ficar totalmente escondida num fosso grande e adequado para este fim. Com a crescente 

popularização e influência das óperas de Wagner, Bayreuth passou a ser uma espécie de 

“Meca” do wagnerianismo. A influência de Wagner no mundo europeu era tão forte que os 

seus escritos estéticos, musicais, filosóficos e políticos acabaram por realmente criar um dos 

seus sonhos: uma espécie de religião da arte cujo centro era Bayreuth.

No   entanto   a   postura   artística   revolucionária   de   Wagner   não   gerou   somente   a 

conquista de prosélitos. Durante a sua vida ele foi bastante combatido artisticamente, fato 

corroborado pelas inúmeras polêmicas que viveu tanto no mundo artístico quanto na vida 

pessoal. No seu pensamento as tradições e tendências divergentes do século que viria surgir 

(XX), se misturam ou se contradizem frontalmente. Embora se rebelasse constantemente 




contra sua época, ele a representava mais completamente que qualquer outro indivíduo. A sua 

“religião da arte”, tendo o acorde tristão e inúmeras outras inovações representava este ideal 

revolucionário:

“Pode-se dizer que a partir do momento em que a religião se torna artificial, cabe a arte 

salvaguardar o núcleo da religião, tanto mais por que as imagens míticas que a religião 

quer que sejam aceitas como verdades são apreendidas na arte pelo seu valor simbólico; e, 

através de representação ideal daqueles símbolos, a arte revela a profunda verdade que se 

ocultava dentro deles […]. O artista [...] franca e abertamente faz com que sua obra seja 

conhecida como sua própria invenção” (WAGNER, Richard. Religion und Kunst, 1880).

Além   de   influenciar   gerações   futuras,   o   acorde   tristão   e   sua   forma   particular   de 

tratamento já influenciava compositores contemporâneos a Wagner. Claude Debussy, no La 

Près Midi d’un Faune utiliza o acorde tristão numa abordagem muito próxima a de Wagner e 

não por coincidência. O solo de flauta inicial desta peça também é considerado como um dos 

símbolos de superação da teoria tonal e abertura das portas da modernidade musical.

Em seus escritos Wagner parecia vaticinar o papel que a sua música teria nas gerações 

futuras. O acorde tristão foi um dos elementos desta revolução que permitiu a abertura dos 

caminhos por onde depois passariam Debussy, Schoenberg,  Alban  Berg, Stravinsky, dentre 

outros,   utilizando   técnicas   que   já   não   obedeciam   mais   aos   ditames   da   teoria   tonal, 

desenvolvendo linhas ditas atonais, como o dodecafonismo, passando pelo jazz até chegar à 

música aleatória e inúmeras vertentes do século XX.


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