Universidade federal de pelotas


Pensando as vivências: As Experiências de Sala de Aula - Contato Inicial



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4. Pensando as vivências: As Experiências de Sala de Aula - Contato Inicial

Este texto é uma construção coletiva, com os colegas Tayla Rosa e Carlos Prado. Por ter participado de sua elaboração e pela sua importância como vivência, reproduzimos, neste trabalho, parte de nosso relatório de estágio.

Na disciplina de Estágio I da Universidade Federal de Pelotas, no curso de Teatro – Licenciatura, começamos a experiência em lecionar na Escola Estadual de Ensino Fundamental Francisco Simões, localizada na rua XV de Novembro número 263. Esta escola ocupa um casarão antigo da cidade de Pelotas, por este fato apresenta espaço físico limitado. Não possui uma sala apropriada para atividades corporais, o que não foi um obstáculo para nossas aulas, visto que elas foram organizadas para os espaços que tínhamos disponíveis. As aulas ocorreram predominantemente na sala de vídeo, mas também utilizamos a quadra, o parquinho (aos fundos da escola, onde se localizam os brinquedos de praça), o pátio e a sala de aula da turma. Nosso estágio foi desenvolvido com a turma do segundo ano, turma 21, coma professora titular que, desde o primeiro momento, mostrou-se disponível em nos auxiliar durante das aulas, que ocorreram entre os dias 14 de outubro e 04 de dezembro. A turma é formada por 21 alunos, com idade entre sete e oito anos, e inicialmente demonstraram uma resistência às aulas de teatro, que diminuiu significativamente ao longo dos encontros. O contato inicial foi bastante assustador. Durante nossas conversas pós-aula, discordávamos muito sobre os resultados almejados previamente e os alcançados. Demoramos a perceber que talvez o objetivo do estágio não fosse chegar num resultado “concreto” ou mesmo que todos os alunos alcançassem de maneira equivalente os conteúdos por nós apresentados. Essa busca por um resultado, talvez até pelo medo da avaliação vinda dos professores ou dos colegas acadêmicos, por muito tempo nos deixou aflitos e inseguros com a nossa prática na escola. Só depois de algum tempo, que acreditamos ser de mais ou menos três ou quatro encontros, foi que nós, enquanto discentes/docentes/artistas, começamos a nos perceber no espaço, começamos a dialogar um com o outro – e dialogamos sem necessariamente usar o recurso da fala – é que houve um relaxamento por nossa parte e um entendimento de que não era possível estimular igualmente as vinte e uma crianças a serem futuros atores ou profissionais do teatro. Relaxamos e percebemos que nossa prática com aquela turma poderia – e pode – gerar futuros artistas, mas para muito além disso, gerar cidadãos que, mesmo sem continuar com uma prática similar a nossa ou mesmo sem gostar do que trocamos naquele espaço, trabalharão nas mais diversas áreas e respeitarão nosso fazer artístico. Motiva-nos pensar nessa futura valorização.

É preciso acreditar nas crianças. Não se frustrar pela sua desatenção com os exercícios propostos. A criança não está de todo desatenta, acontece que ela ainda não está totalmente focada nos exercícios propostos. Às vezes, o professor acha que isso é rebeldia. A mente jovem da criança é muito elástica e dispersa. A criança não consegue explicar que tem vezes que aquilo que não é considerado “aula” para o professor também é digno atenção. É uma pequena descoberta para os nossos pequenos. Dar aula para crianças demanda muita paciência, aquela aparente distração naquela aula em que é exigida muita atenção e foco, pode ser substituída por uma pequena divagação, por uma descoberta repentina, por um rápido reflexo. Isso tudo pode ser o início da construção de algum conteúdo na consciência deste ser que ainda não compreende que, neste momento, também está estudando e que tal arroubo repentino pode delinear transformações em sua personalidade, comportamento ou, até mesmo, divergências na escolha de uma profissão. Portanto, tente não podá-la ainda. Não a deixe constrangida. Não a faça chorar. Resista. Precisamos, muitas vezes, “engolir” nossos anseios e desejos de professor, muitas vezes fiéis com nossa formação e ambiciosos com o desenvolvimento espantoso e fantástico de nossos alunos, para os deixar “ser mais crianças”, descobrir coisas sozinhas enquanto andam para beber água, depois de perguntar se poderiam fazê-lo. Parece que não,mas elas sabem que devem obedecer. Ainda não sabem que obedecem por quererem ser amadas e não obedecem, por distração. Outros poucos, teimam por sua vida já não ser nada fácil.

Resista. É uma fase delicada. Tentemos não brigar com nossos pequenos cidadãos. Alguns podem não saber por que se comportam de determinado jeito. O professor já deve suspeitar, mas ainda não podemos atribuir-lhes alguma culpa realmente sincera sobre seus atos. O fato é que querem ser admirados e não sabem que caminho seguir para serem amados. Esses caminhos podem estar cheios de uma série de estímulos, coisas que podem deixá-los surpresos, que podem moldá-los e formar fortemente seu ser, além de deixar lembranças substanciais em sua infância, na escola, no estudo, na maneira como veem as coisas. Ao mesmo tempo em que é necessário e importante aprender o que o professor está ensinando, é preciso que este respire fundo e permita que seus alunos tenham momentos raros que eles possam chamá-los de seus. Deixemos, como professores, que encontrem suas maneiras de ver o mundo. Tentemos descobrir o que gostam, tentemos, com as descobertas, complementar seus planos de ensino. Quão feliz e recompensado finalmente ficaremos, quando percebermos aquele momento em que a turma estiver atenta ao que está sendo dito. Muito mais felizes ficaremos quando conseguirmos fazer com que nossas aulas passem a ter real sentido para a vida de nossos alunos, e tanto aula quanto alunos puderem voar muito mais além do que o imaginado.




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