Universidade federal de pelotas


Pensando sobre relações no Teatro- Discursos atraentes



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3. Pensando sobre relações no Teatro- Discursos atraentes


    1. Um pouco de Maslow1

De tantas leituras durante o Curso, foi inspirador o estudo humanista de Maslow, sobre a "Teoria das Necessidades”, pregando que para o individuo progredir psicologicamente como se é esperado há de se concentrar nas necessidades inferiores, resolvendo estas questões, o indivíduo ascenderá às necessidades mais complexas e, assim, poderá estar mais perto de uma verdadeira autorrealização.

Este estudo, ao lado da visão psicológica, vai ao encontro de um grande teórico do processo educacional na pedagogia do teatro que diz: "Nada a ensinar, nada a aprender, deixar crescer as próprias raízes." Este teórico, Franz Cizek, educador vienense, apontado e considerado o pai da Arte infantil, organizou aulas onde as crianças tinham liberdade para criar (WILSON, 1990, p. 56). Falou isto depois que avistou crianças fazendo desenhos em um muro.

O que vai ao encontro desta defesa é: “O estudo da arte para aqueles que antes de serem avaliados, são pegos por esta surpresa e, portanto praticam a arte antes mesmo de as conhecerem enquanto parte cultural da civilização”. A paixão deve surgir antes de um comprometimento intelectual, antes de uma consciência racional sobre as artes em geral, antes de um ponto de vista articulado com os estudiosos de arte de épocas passadas.

O vislumbrado, aqui, é um trabalho de significação de obras que vão muito mais ao encontro do princípio da arte em nossos corações, em nossas mentes, que seria esteticamente conhecido como o Dadaísmo. A arte em seu começo não precisa ter algum sentido necessariamente, mas há de esperá-lo sem desejar pelo seu significado no futuro, de nossa arte com o passar dos tempos. Portanto, sim, é necessário que antes mesmo de darmos significado àquela arte aparentemente sem sentido, que haja este momento em que é produzida sem mesmo compreendê-la, que o significado de nossa arte venha com o passar dos tempos.

Que sejamos levados a uma desordem "aparentemente organizada" para que colhamos a síntese, a origem geradora de nossas primeiras sensações artísticas. Precisaremos propor o começo de tais sensações, devemos chegar à base do processo artístico que é realizar exercícios variados que irão compor sensações que serão vistas como o princípio pessoal das significações da arte em cada um de nós, em cada um de nossos alunos.

Dentro desta desordem inicial, há o principio da constituição artística significante à experiência do artista. E, no futuro, ponte entre um ser a outro. Aqui, percebemos uma forte relação com Viola Spolin (2005; 2006; 2010) e com Grotowski (1971). Pois até o momento, podemos notar nesses autores o princípio essencial ao desenvolvimento do que há de vir a ser arte em relação aos indivíduos que obtém alguma relação com as obras. Há, em Viola Spolin, a importância do jogo para assim suscitar e desenvolver habilidades que futuramente serão utilizadas no palco. Com Grotowski,podemos compartilhar a visão em criar uma espécie de ator santo que, dominando seu corpo, prazerosamente realiza seu ofício.

Os exercícios de jogos teatrais ainda não são diretamente relacionados com o fazer teatral e sim com o principio que antecede o mesmo: as obras que acabam surgindo através de tais experiências e compõem o trabalho de cada ser. Lembrando Grotowski (1971), por uma atitude relacionada ao desenvolvimento individual de cada ser, a cada personalidade artística, que seria o exercício de uma "Santidade", o caminhar deste na arte que o cerca e ao material bruto, empírico e subjetivo que o compõem, que estaria fortemente relacionado com o desejo libidinal de amar, desejar e realizar o caminho que nos levará a um fim inesperado. Que valorizemos, também, os exercícios baseados no cuidado do nosso organismo de modo a não desgastá-lo. É preciso, após este encontro relativamente impensado, criado pelo próprio desejo do indivíduo em criar arte, que seja sentida a liberdade deste e de suas experiências artísticas. Liberdade que ainda é convidada ao exercitar uma espécie de pré-expressividade, das quais são lembradas com forte significação relativa às primeiras experiências pessoais deste autor, como a máscara neutra e a antropologia teatral. Através destes exercícios, nos são apresentadas formas que constituem de maneira prazerosa e comprometida a exposição da pré-expressividade de nosso "aventureiro artístico". O princípio do grande desafio que é de tornar-se artista cênico e ir tomando consciência ou sendo apresentado a ideias que promovam qualidade de trabalho.

Este nosso começo, ainda inconsistente, e ainda muito inconsciente do artista aliado a sua força de vontade e disponibilidade, convida para que no futuro seja aos poucos encontrado um princípio racional que nos aproxime, nós, artistas, e nossas experiências, com as de nossos colegas. Começaremos, portanto, a encontrar maneiras de nos explicarmos, de nos compreendermos, entre nós, com as discussões que nos foram apresentadas em variadas aulas nas quais éramos observados por nossos professores. É preciso que sejamos, enquanto alunos, convidados a ser desafiados, neste processo que é de nos encontrarmos na arte, neste processo de autoconhecimento, desvelamento.

O começo encontra-se de maneira tal que devemos ter muita paciência, ainda constituídos de muita pureza e ingenuidade, o que faz com que o professor deva criar com seus alunos um amor incondicional, de modo a ampará-los emocionalmente em seu desenvolvimento, de modo a ensinar-lhes a ser humildes, perseverantes e, aos poucos, harmonizando-os prática e intelectualmente em suas conquistas no ramo do teatro. Portanto, o começo encontra-se ainda nesta pureza e ingenuidade iniciais, o amadurecimento provém deste amor incondicional diante do aluno que está a descobrir-se em seu processo, e que será, de tempos em tempos, convidado a conhecer-se mais profundamente diante das técnicas do teatro, será convidado a compreender as teorias existentes, e quando já estiver mais preparada a consciência do seu próprio processo, de sua própria singularidade na arte, surgirá aliada à sua experiência enquanto ser, sua identidade artística.

Observemos o que seria, de maneira mais clara, a "teoria das necessidades de Maslow".

Para Papalia e Olds (2000, p. 78):

A perspectiva humanista desenvolveu-se nas décadas de 50 e 60 em resposta ao que alguns psicólogos identificaram como crenças negativas sobre a natureza humana subjacentes às teorias psicanalíticas e behavioristas. Os psicólogos Humanistas enfatizam o potencial para o desenvolvimento positivo e saudável; características negativas, dizem eles, são resultados de danos infligidos ao indivíduo em desenvolvimento. Diferente dos teóricos de traços (que veem a personalidade como formada no início da idade adulta) ou dos teóricos de crises normativas (que veem as mudanças em função da idade) ou do modelo de regulação por eventos (que veem as pessoas como reatores aos eventos), os psicólogos humanistas enfatizam a capacidade das pessoas, independentemente de idade ou circunstâncias, de assumirem o controle de suas vidas e promoverem seu próprio desenvolvimento por meio das capacidades exclusivamente humanas de escolha, criatividade e autorrealização.
Neste momento, o que é questionado na teoria humanista em relação à pedagogia do ensino no teatro, é que devemos abdicar, nós professores, de observações que denigram, menosprezem, envergonhem, ou que coloquem o aluno à margem de seu próprio desenvolvimento. É necessário que nós, professores, resistamos a comportamentos não aceitos nas variadas fases de desenvolvimento dos alunos e que busquemos sempre tentar mostrá-los suas pequenas vitórias na construção do conhecimento e de suas visões de mundo, construções positivas de suas identidades enquanto estudantes da arte.

Aqui, aproximarmo-nos um pouco mais do humanista Abraham Maslow, que identificou a famosa hierarquia de necessidades. Essa hierarquia de necessidade é uma ordenação das necessidades que motivam o comportamento humano:


Segundo Maslow, somente depois de terem satisfeito as necessidades mais básicas é que as pessoas podem se esforçar para satisfazer necessidades mais elevadas. A necessidade mais básica é a sobrevivência fisiológica. Pessoas famintas correm grandes riscos para conseguir comida; somente depois de obtê-la é que poderão concentrar-se no nível seguinte de necessidades, aquelas referentes à proteção pessoal. Estas necessidades, por sua vez, devem ser significativamente satisfeitas para que as pessoas possam buscar amor e aceitação, estima e realização e finalmente autorrealização, a plena realização do potencial. (PAPALIA e OLDS, 2000, p.408)

Diz Maslow ainda (apud PAPALIA e OLDS, 2000, p.408):


As pessoas autorrealizadas, tem aguda percepção da realidade, aceitam a si mesmas e aos outros e apreciam a natureza. Elas são espontâneas, altamente criativas e autodirigidas, elas são boas na resolução de problemas. Elas se identificam com os outros e estabelecem relacionamentos satisfatórios e produtivos com outras pessoas, mas tem também certo distanciamento, um desejo de privacidade. Eles tem um forte senso de valores e uma estrutura de caráter não autoritária. Elas respondem à experiência com apreciação renovada e rica emoção, e muitos tem o que Maslow chamou de experiências máximas. Diz-se que apenas cerca de uma pessoa em cem atinge este ideal sublime. Ninguém jamais chega a ser completamente autorrealizado. A pessoa saudável esta sempre ascendendo a níveis mais satisfatórios.

Acerca da hierarquização de necessidades e sua relação com as vivências humanas, segue:


Num primeiro momento, a hierarquia de necessidades de Maslow parece ser baseada na experiência humana, mas elas nem sempre são verdadeiras. A história esta repleta de casos de sacrifício próprio, nos quais as pessoas abrem mão do que necessitam para sobreviver para que outra pessoa (um ente querido ou mesmo um estranho) possa viver. (PAPALIA e OLDS, 2000, p.408)

E, no que tange às contribuições e limitações das teorias humanistas, Papalia e Olds (2000, p.408) comentam:


Maslow e outros autores humanistas oferecem modelos otimistas de desenvolvimento que geram esperanças. As teorias humanistas tiveram contribuição valiosa ao promover abordagens, tanto da educação de crianças quanto de auto- aperfeiçoamento de adultos, que respeitam as peculiaridades do indivíduo. Suas limitações enquanto teorias científicas estão muito relacionadas com sua subjetividade; seus conceitos não são claramente definidos e assim são de difícil utilização como fase para a pesquisa. Além disso, a abordagem humanista não se refere claramente ao processo de desenvolvimento. Seus proponentes geralmente fazem uma ampla distinção somente entre infância e idade adulta e não identificam padrões comuns em períodos particulares durante o ciclo de vida.

Abaixo, a pirâmide de Maslow:


Figura 1 – A pirâmide de Maslow

Fonte: Pirâmide das Necessidades de Maslow, 20152.

De acordo com a hierarquia das necessidades, seu terceiro grau diz respeito às relações sociais, incluídos, desta forma, os relacionamentos íntimos.
Aqui entramos no início das discussões que se referem ao terceiro grau de necessidades de Maslow, que seria a necessidade de pertencer e de amar, que seria afiliar-se aos outros, ser aceito e pertencer. O interessante de tais graus é de fazermos também pequenas relações com as fases de desenvolvimento dos seres humanos, a fase das necessidades fisiológicas como fome, sede, sexo, descanso e assim por diante, tem grande relação com as fases sexuais de Freud, aqui a criança se desenvolve até os cinco anos através das experiências que ela tem com o corpo. Logo após entramos na fase da latência, fase esta em que os comportamentos psicossexuais são trocados pela experiência em atividades coordenadas pelos professores. (apud SCHULTZ e SCHULTZ. p. 208, 212).

E logo após, entramos na grande discussão apresentada anteriormente que são as fases em que nos identificamos entre nossos colegas, que tem grande força na adolescência, porém é relevante dizer que, segundo Erikson (apud SCHULTZ e SCHULTZ. p. 208-212), a verdadeira época em que as relações íntimas são, de fato, muito importantes refere-se ao início da idade adulta, que ocorre perto dos vinte anos. Nesta idade, o que antes poderia ser visto como errado, que seria este processo de identificar-se com os outros e aprender a conviver, cuidando-os e resolvendo ou opinando sobre impressões e necessidades, nesta época,os usos de mecanismos de defesas para significar tais relações não parecem errados.

Mas então qual seria a fase certa de ascendermos na pedagogia do ensino teatral? Quando, cientificamente falando, é a fase em que as pessoas finalmente se preocupam umas com as outras e começam a se abrir? Seria no começo da idade adulta?

É nesta idade que os relacionamentos íntimos e o exercício de mantê-los serão cruciais ao adulto jovem, ou seja, o que exigir teatralmente, portanto a uma criança que aos sete anos aprende a escrever, que lá pelos dezesseis escreve suas primeiras resenhas e, inseguro, pouco sabe de si, mas que muito ainda se procura no outro, e que somente em torno dos trinta anos entenderá o mistério das relações interpessoais, compreendendo a si ao outro e às suas diferenças? O que ensinar sobre o teatro para jovens de vinte anos que entram em um curso de licenciatura em teatro e só começarão a compreender o mistério das relações de maneira harmônica com trinta anos, ou por volta desta idade?

Hoje, é possível compreender que aqueles que estudam teatro possam, talvez, começar a entender o verdadeiro princípio das relações, mas que em quanto outros que se esmeraram em outros conteúdos, o quão importante não serão as aulas de teatro para alçarem verdadeiros voos ao especularem sobre os anseios dos seres humanos? Enxergarem nos amigos os dramas que constituem os personagens de obras clássicas que alimentam o nosso imaginário.

É neste começo da fase adulta que começamos culturalmente a construir nosso olhar para o que há fora de nós. Aqui é quando somos convidados a um novo desafio, que é o de tentarmos construir socialmente nossas opiniões e mantê-las em relação às outras pessoas. É aqui que os outros passam a fazer parte de nossas experiências como indivíduos com opiniões que muitas vezes poderão divergir das nossas e teremos de ter maturidade para respeitá-las.

Notamos, aqui, o surgimento de duas discussões: por quais experiências passamos desde o início de nossas vidas, a criarmo-nos e esperar por aqueles que virão nos completar nos desafios que se apresentam em nossas vidas? Como resistir a tais experiências que constituirão parte do significado de nossas existências em nosso aparato psicológico, reconstruindo a nossa identidade enquanto seres sociais?

A relação teatral típica é muito mais complexa que isso? Aqui, geralmente no fazer teatral mais esperado, fazemos parte de um grupo de pessoas, interpretando, explicando papéis, personagens teatrais, fictícios, que não são nós, expostos a uma plateia, essa história que por nós é contada não é nossa realidade. Porém, mesmo que neguemos, interfere nas experiências de vida dos atores. No teatro, além de estarmos trabalhando, interpretando personagens, também estamos aprendendo sobre situações diversas, muitas das quais não vivenciamos. Na cena, há a vida de um indivíduo, há o desafio, a tensão deste que o move cena após cena. O ator encena meses, esquece a si para dar vida a este outro que o domina e que ore-ensina a rever até mesmo a própria vida íntima com outros olhos.

Qual será a melhor idade para apresentar este desafio para alguém? Essa eterna discussão do artista, entre o que ele é como indivíduo e o que, ou como, consegue explicar através de seus personagens, sobre a vida que existe em cada um de nós, o que ele aprende de cada personagem construído por ele, tanto de si como dos outros? Como observarmos este convite ao fantástico que é a possibilidade dos atores aprendendo a aguentarem as discussões dentro de si? Criando ou revivendo personalidades que nem sempre mantêm harmonia em seu íntimo? Como suportar discussões, inseguranças, destes que são criados ou convidados a ser revividos?

Para os que ainda não conseguem se criar: que quando amparados por outros mais experientes, escalem rumo a experiências e revelações que só nos são clarificadas quando entramos de acordo com o que há de mais profundo no exercício de forjar e apresentar ao público discussões que se apresentam no íntimo de todo indivíduo. Que possamos tocar a todos. E que encontremos e forjemos a nossa identidade de artista cênico.

Por aqui, já vamos, aos poucos, tornando-nos vários em nossa discussão sobre o fazer teatral: "O indivíduo", "o aluno", "o colega", "o artista que elabora a si e a seu trabalho", "o colega apresentando opiniões a outro", "o amigo apresentando desafios a percorrer, como meio de dar ao outro coragem para seguir seu próprio caminho", "o cúmplice, quando desfrutamos juntos de uma experiência e de uma maneira ou outra a resolvemos juntos". Essas são partes de nós que se desenvolvem quando nos vemos como artistas em um grupo. Partes de nós que começam a surgir diante de nossas incursões no modo de significar a nós próprios e reconhecer diferenças nos seres que, aos poucos, vão fazendo parte de nós, mas que não nos identificamos intimamente.

Com o tempo, com os processos que se apresentam a nós, aprenderemos a desfrutar com mais significado as variadas experiências, descobriremos nossas diferenças e nos autorrealizaremos, tanto intelectualmente quanto socialmente. Há também as criações, os personagens realizados pelo artista, que vão fazendo parte de nossas experiências, das lições que aprendemos nas épocas em que os constituímos, as lembranças, lições que ainda podemos aprender quando nos lembramos delas, com tudo isto vemos surgir a essência do artista e como este aprende a gerenciar a complexa lista de exemplos de vida e seres que vão aos poucos constituindo nossa comunidade social, diante do que vamos aos poucos tornando, a cada novo desafio, o que representamos e o que nos constitui enquanto estudantes da vida humana.

Aos poucos, em cada experiência teatral, relacionaremos nossas escolhas com as de nossos personagens, desenvolveremos amizades íntimas e aprenderemos a ficar mais atentos a nós próprios e aos outros. Dentro de toda essa complexidade descobriremos a intimidade, conforme Rosentluth e Steil (apud PAPALIA e OLDS, 2000, p.408): "A intimidade é uma experiência íntima, afetuosa e comunicativa" que pode incluir contato sexual ou não. Aqui encontramos o que há de mais valioso, sincero e comprometedor. O elemento importante da intimidade é a autorrevelação, segundo Collins e Muller (apud PAPALIA e OLDS, 2000, p.408) "revelar informações importantes sobre si mesmo a outra pessoa":
As pessoas tendem a gostar de quem confia nelas. Também não é de surpreender que as pessoas tendem a confiar mais em alguém de quem gostem, e uma confidência feita fortalece o vínculo. Aqui talvez se dê a grande complexidade de toda a relação humana. Quando encontramos intimidade, amor e compromisso. Estamos evidenciando um processo já conhecido sobre os alunos do comportamento humano que aqui será apresentado por mim como os padrões do amor.

Como, depois de tanto trabalho e análise, ainda temos que nos desafiar e resistir, muitas vezes, a este encontro tão comprometedor chamado intimidade? Como, depois de todas essas discussões, conseguiremos separar a afeição de um desempenho bem feito? Isto é possível? Posso dizer que um aluno é um grande artista, mesmo que ninguém goste dele? Ou que ele não tenha amigos? Esse indivíduo conseguirá desenvolver-se plenamente em seu trabalho? A apresentar este livro que diz que pessoas com vínculos fortes vivem melhor, será possível que aquele que não possui vínculos consiga exercer seu trabalho com tanta excelência quanto aquele que vive rodeado de amigos ou de variadas experiências sociais?

Diante dessas perguntas, é importante salientar o processo das artes cênicas muito ligadas com o religioso. Antigamente, na Grécia e em tempos mais arcaicos, realizávamos o teatro ou a interpretação de papéis para que tivéssemos sucesso nas colheitas, para que chovesse. Um pouco mais próximos de nós, as tragédias gregas eram também apresentadas para suscitar o perdão no coração daqueles que a assistiam, sobre a história contada, para o indivíduo que a assistisse pudesse reavaliar a si e a seus pensamentos diante das tragédias apresentadas. Então, como não perdoar aqueles que se diferenciam na nossa sociedade por ter vidas mais atípicas que as nossas? Não devemos também perdoá-los por terem comportamentos mais diferentes quando relacionados com o grande número de indivíduos de uma mesma sociedade e nação que procuram agir de maneira parecida?

Bem vindo, portanto, à idade do comprometimento, aqui já não há escapatória, somos vistos como adultos e temos a responsabilidade de nos comprometermos com a angústia e dúvida daqueles que surgirão depois de nós. É o início de uma fase da vida onde o outro passa a representar o futuro de nossa nação e/ou da humanidade. Que seja muito mais aos nossos futuros alunos do que o início de suas carreiras, que o teatro possa trazer a cada um deles uma grande reflexão sobre as vidas que irão se desenvolver com o passar dos anos. Que seja o início desta grande e delicada experiência que nos coloca à frente como artesãos do âmago da alma de nossa juventude. Que nossa futura sociedade possa com muito cuidado e carinho delinear os grandes pensamentos e comportamentos da espécie humana, dos mais vis aos mais idealizados. Que perdoemos ações que não são bem vistas pela nossa sociedade, que encontremos tempo para recuperarmos nossos jovens perdidos. Que a construção de nossos novos tempos seja baseada na reflexão e na apresentação de uma grande miríade de valores, identificações e buscas por vínculos verdadeiros, de modo que nossa geração possa silenciar e suportar esse difícil caminho que será apresentado aos nossos jovens para se tornarem indivíduos. Que consigamos ouvi-los, que possamos criá-los livres de preconceito, que saibam tanto quanto nós: “Tudo há razão de ser, que estejam preparados e que não lhes falte inspiração para que quando solicitados possam se encontrar a um passo da autorrealização”. Que eles sejam para nós não só nosso futuro, mas também, nossa razão de existir.






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