Universidade federal de pelotas


Pensando sobre o belo na arte



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2. Pensando sobre o belo na arte

    1. Nem tão ao oito, nem tão ao oitenta

Há espaço para o belo no teatro hoje em dia?

Livremente, seguem as memórias sobre o tema a partir de um caderno de anotações. Sim, acreditamos que há muito espaço para o belo. O belo ainda é aquilo que os filósofos entendiam quando se estudava estética fundida com a lógica e a ética. Lembremos, portanto, de Platão, Aristóteles e Plotino. O belo, o bom, o verdadeiro, o justo e a verdade formavam a idealização de uma existência que era forjada no campo das ideias. A essência do belo seria alcançada quando a identificássemos com aquilo que, de certo modo, nos traria prazer, tendo em conta os valores morais.

Na Idade Média, surgiu a intenção de estudar a estética, independentemente de outros ramos filosóficos. Logo após ser reconhecida como teoria, esta acabou tornando-se uma ciência normativa às custas da lógica e da moral. Os valores morais alicerçados como ideais ao Homem surgiram centrados em julgamentos que enunciariam as normas do que seria o Belo. E os adjetivos mencionados enunciariam a perfeição. A estética procurou, também, ser encontrada dentro de uma espécie de metafísica do belo, buscando assim desvendar as fontes de todas as belezas que se encontrassem no campo do sensível. Esta ciência que propõe o conceito do que é belo acabou tornando-se filosofia da arte.

Percebemos que, com o passar dos anos, a busca por esta poética, este conjunto de preceitos da arte na própria ação criadora – estética - colocou-nos como seres presos a conceitos ultrapassados. Sendo assim, ao mesmo tempo em que nos colocamos à reflexão, também traçamos nosso caminho baseado nas evoluções dogmáticas da humanidade e, talvez, vítimas de nossa realidade social, do meio que nos cerca, pois, hoje, poucos chegam a conhecer o que é trabalhar com conceitos eruditos.

Será que podemos compreender aqueles pensadores que vieram antes de nós? Nestas tentativas de releitura, considerando os textos analisados nas aulas, talvez possamos esclarecer um pouco mais o pensamento de Platão em compreender o que é Belo em si. Neste sentido, como sugere Silva (1995):

em Platão, a ideia do belo é geralmente associada à ideia da realização de uma ordem onde devem reinar a medida, a proporção, a adequação e a harmonia. O Belo é a manifestação evidente (que é visível) das ideias perfeitas, e a arte é a imitação das coisas sensíveis ou dos eventos que se desenvolvem no mundo sensível; é um “reproduzir”, ou seja, imitar ou produzir novamente o que já existe. O valor supremo do belo está no mundo das ideias, portanto, está vinculado a um valor ontológico: a busca ideal da perfeição é o desenvolvimento da virtude maior. A arte, por sua vez, se expressa pela imitação (mímesis), por isso não permite chegar à verdadeira realidade, pois permanece na aparência, na imitação do objeto que está no mundo, sendo este já uma cópia, e não na ideia do objeto em si. A arte, para tornar-se uma atividade superior, deve buscar a perfeição, buscar o belo, a harmonia.

Pensar se há espaço para o belo no teatro é como ir almoçar na casa de alguém e perguntar se vão fazer o seu prato predileto. Não parece um medo de se jogar a novos gostos? E quando tratamos de teatro, não será também comodidade? Essa referência seria como uma personagem antagonista, daquelas que pretendem procurar o significado de beleza em livros empoeirados de filosofia em alguma biblioteca pública. Por mais que os filósofos clássicos e nós mesmos - alunos de teatro – compreendamos de fato o significado de tal palavra (Belo), devemos entregar quantas peças reconhecidas como belas a nossos espectadores? O certo, na criação artística, será seguir sempre as regras desde sempre propostas, isto é, fazer sempre a chamada “peça bem feita”, reconhecida como ideal de belo? No mundo contemporâneo, com tantos autores, quanto tempo ainda devemos reprimir nosso gosto pela transgressão?Ou gosto pela inovação? Pela profundidade ainda não reconhecida?

Mas o que é entregar-se a algo de que gosta muito?Preferimos esperar sempre pela mesma coisa, ou gostaríamos de variar? Será que, reconhecendo o belo de maneira concreta, ainda podemos nos surpreender? Ou a busca por uma nova leitura de Beleza é um agravante diante de nossa impossibilidade de ver a mesma coisa de maneira nova? Será que na nossa tentativa de ver as coisas sempre como deveriam continuar a ser, falhamos por procurar inovar? Ou não conseguimos chegar mais ao que sempre deveria ser reconhecido como o mesmo?

Quando queremos o que já conhecemos estamos promovendo o exercício de felicitarmo-nos com o conhecido. Reconhecer seu valor. Quando procuramos o que ainda não conhecemos, em um primeiro momento vemo-nos surpresos, mas, logo após, aceitamos. Podemos ter orgulhoso de nossa ousadia e passamos a aumentar nosso campo de experiência, percebemos novos matizes em nossos sentidos. Resta-nos observar se, de fato, somos merecedores deste ou se este novo não agride o limiar de harmonia do meio em que vivemos ou daquilo que já foi criado por nós. Há espaço para o belo, assim como há espaço para desvendarmos outras qualidades de tudo aquilo que criamos e que acreditamos ser útil para a relação com o meio em que é apresentado.

A relatividade de, no teatro, querermos ver as mesmas coisas faz com que desejemos vê-las de modo diferente, surgindo, assim, diferenciadas poéticas, narrativas e outras descobertas cênicas que são criadas ao ar da familiaridade. Não é comodidade apreciarmos peças organizadas poeticamente de maneira familiar. Peças, quando bem escritas, suscitam aos que assistem teatro, frequentemente, o prazer em ver uma boa história.Aqueles que assistem tentam buscar a essência daqueles que fazem teatro e tentam, mais ainda, acertar à medida que ambos saem tocados pelas descobertas, pelos desenlaces da obra. Comodidade pode haver quando tentamos expor novas indagações, novas narrativas, quando não estamos ainda cônscios das partes que a compõem e nos perdemos na condução do que o espectador sente ou deveria sentir ao fim do espetáculo, não reconhecemos ou não refletimos sobre aquilo que já é apresentado a nós como bom.

A discordância com aqueles que procuram a importância e o significado do que é belo em livros empoeirados está na crença de que o belo pode ser transformado, ser visto com outros olhos. Este, talvez, seja o desafio eterno das gerações que ditam determinada época. Aí estaria uma das chaves da importância do belo e por que precisamos vê-lo em cena. É urgente que emane uma diversidade de formas ou pontos de vista, mesmo que continuemos a tentar respeitar a verdade que já nos foi apresentada pelos mais diversos estudiosos, cientistas, filósofos de nossa época, além daqueles que vieram antes de nós.

Se for antagônica, é porque devemos tentar incrustar em nossas mentes a importância do belo e seu significado para nós e o universo acadêmico, sendo que tais opiniões podem divergir umas das outras. Muito importante crermos em nossa opinião e entendermos os que vieram antes de nós, tanto no senso comum quanto no campo das ideias. Há de chegar o dia em que alcançaremos o caminho onde nos encontremos comungando da mesma ideia, reconhecendo diferenças e vendo beleza em cada espetáculo.

Sem dúvidas, devemos o devido respeito aos tradicionais estudiosos e filósofos, que muito contribuíram para o desenvolvimento da sociedade e que hoje são reconhecidos como grandes pilares de nossa evolução. Devemos atenção em tentarmos nunca esquecê-los e sempre tentarmos administrar uma maneira de criar espetáculos que obedeçam às regras e formatos já estipulados,e de sempre pensarmos muito bem quando quisermos reinventar o teatro e a maneira como ele deve ser feito. Com toda a qualidade de nosso ensino e professores, mesmo antes de formados, já tivemos muitas peças tidas como belas para aqueles que assistem teatro. Precisamos mostrar, também, aos que vieram depois de nós, as ideias de Artes Cênicas e seus espetáculos sob a perspectiva daqueles estudiosos que nos antecederam. Porque imitar também é aprender, se for acompanhado de reflexão consciente.

Compreendemos que nos dias atuais existe uma grande variedade de pensamentos e teorias sobre o belo e a importância deste que devem ser postas em questão. Refletimos sobre essa variabilidade, pois que nos atiça, desafia-nos a tentar compreender alguns dogmas ou algumas partes que compõem a arte de maneira diferente. Esta maneira de ver deve ser apresentada de forma pensada ao que nossa civilização já conquistou nos diálogos sobre o fazer teatral. São as nossas vitórias, nossos diálogos comungando com a diversidade que é ser humano. E relação aos pensamentos dos filósofos, a dúvida é: quanto ainda temos que estudar e entender para emitirmos nossas conceituações e opiniões sobre o que é ser verdadeiro. Encontramo-nos na grande angústia que muitas vezes separa grupos de pessoas: estamos preparados para absorver o mundo distante do que devemos aprender a conceber?Tememos pela desordem que pode ser constituída quando pretendemos tentar dar outros sentidos à verdade. Será isso possível? Existem outras verdades? Fugirmos de nossas conquistas? Verdades intelectuais nos aproximam do progresso ou da perdição?

Talvez haja muito mais que espaço para o belo no teatro. Que vejamos o belo no teatro toda vez que houver uma dramaturgia bem elaborada, de preferência que demonstre estar comprometida com uma poética. Quando respeita, principalmente, o esforço feito pelos pensadores de fazer existirem as variadas poéticas atuais. Estes “tratados” que alguns intelectuais criaram para observar uma forma que antecede a elaboração de um texto dramatúrgico, podendo assim apresentar o que seria considerado bom e belo. Pensemos na expressão “peça bem feita”, esta poderia ser considerada um ideal de belo no teatro. Precisamos estar atentos de todas as maneiras para poder observar o que constitui uma boa peça, isto quando tentamos buscar a erudição e quando tentamos elaborar uma opinião pessoal. Buscamos a observação minuciosa para captarmos o que há de comum entre espetáculo belo e outro, por mais diferentes que todos os espetáculos sejam sempre há de haver pontos em comum.

Transgressão deve existir no processo de elaboração de peças dramáticas, da construção de teatro, quando conseguimos construir uma plateia inteligente, que compreenda as nuances da elaboração de um espetáculo. Vejamos o quão interessante será quando conseguirmos mudar o conceito de belo através de um olhar mais atento ao que idealizamos e construímos intelectualmente como belo no passar dos séculos. De imensa satisfação será quando conseguimos apresentar uma ideia com qualidade diferente do que já observamos e que esta nos toque tanto quanto já nos tocou em outros exercícios, espetáculos e variados tipos de trabalhos. Isto deve ser usado, muitas vezes, como válvula de escape, quando não nos vemos pressionados a compreender e executar verdadeiramente um espetáculo, quando facilmente encontramos saída imitando aquilo que já existe. Devemos sempre tentar o desafio nos momentos em que libertamos nossa mente e, através da reflexão, observação e análise, principalmente, que consigamos construir uma nova concepção de belo. E que nos façamos ser ouvidos, tanto o quanto já foram ouvidos os grandes intelectuais de nossa civilização. Há espaço para o belo que já conhecemos, tentemos encontrar o belo que ainda não conhecemos. Não podemos, também, oprimir por muito tempo o nosso desejo íntimo de sermos reconhecidos por nossa visão de mundo, educada e voltada para a coletividade, promovendo, assim, a diferenciação entre aquilo que já é considerado erudito e aquilo que, com o tempo, vai adquirindo sua forma particular, até chegar a se tornar teoria relevante ao desenvolvimento da consciência.






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