Universidade federal de pelotas


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APÊNDICE


  1. Reticências...

É preciso deixar claro aos mal-avisados...

Que sou ator!

Quando atuo falo a verdade...

Verdade?

Quando vivo a mundanidade que meus lucros permitem, que meus serviços sustentam...

Fico fadado a dizer mentiras...

Enfim?


Já não sei quando atuo.

Mas acredito, hoje, que sei onde deveria ficar.

Mentira?

Minha vida particular, tão mundana, tão sem sentido.

Sempre no mesmo ciclo, quase sempre do mesmo jeito.

Rotina?


Tentando dar aval aos textos que recebo e decoro.

Repetir inúmeras vezes a fala daquele personagem...

Cansado?

É cansei...

Não só isso...

Quebrei!


Quebrado.

Que brado!

Tão Bravo!

In-ti-mi-da-do...

Vergonha?

Envergonhado...

Já sem cara, nem coração...

Diariamente trocado pelo ganha-pão.

Sem alma...

Já não tenho nada...

Sem talento nem tempo para querer viver a vida...

Nunca aprendi a dar as falas de minha própria vida...

De mim próprio!

Deem um pouco de mim...

Isso!

Deem um pouco de mim!



Para eu mesmo!

Deixem-me fugir!

Assim!

É... Assim... Fugindo...



Ainda no trabalho de criar meu “personagem” principal!

Que tristeza!

Só consigo criar frases sem sentido, discursos acuados, piadas autodepreciativas

(Há quem diga que este é o verdadeiro humor!)

Discussões com gosto de açúcar.

Descobri, com o tempo, que não sei nem intimidar.

E quando brigo, abro um grande sorriso, para todos verem, que só estava brincando!

... É, sou muito engraçado...!

Sou o da festa! Sou o Engraçado! "Aquele que não leva nada á sério”!

Choroso...?

Não... Espere... Deixe-me explicar!

É que às vezes a “atuação” do outro sobre o meu “ser teatral” só me convida a ter mais dúvidas.

São as famosas discussões: “Palco-Plateia”!

São as pequenas discussões: “Personagem-Personalidade”!

“São as confusas descobertas:” “Palco-Personalidade” e “Plateia-Personagem”!

É a complementaridade sóbria e bêbada daquele que só queria ganhar “uns pila” de um jeito fácil.

É preciso parar de interpretar? Fora atuação...

Quando enfim, começa uma e termina outra?

Quando e como sair da realidade e cair na ficção...

Quando dormir? Para meu outro acordar?

Meu outro?

Você... Faz parte de mim?

Volta então...

Volta meu personagem!

Minha criação...

Descobrirei um jeito de você aproveitar também a sua vida.

à frente, isto, sem ninguém perceber... Se maquie e fale estas coisas!

Quando o espetáculo terminar, vá depressa ao camarim, vista minhas roupas que irei te defender!

Puxa! Ainda bem que somos parecidos...

Fique escondido dentro de mim!

Se perguntarem algo fique calado...

Responderei dizendo que é só uma peça teatral...

Que nada disso é... (é real?)

Agora! Todos os espectadores em suas casas, outros atores ainda no camarim...

Vou em direção à bilheteria e peço meu cachê.

Sento na frente do teatro esperando os outros, conto meu dinheiro, divido por dois, um pra mim e outro pra mim mesmo.

Hoje a noite foi fraca.

Vamos ter que explorar a nós próprios.

E se...

O personagem fosse trágico?

O ator um romântico ou desavisado?

E este que conta migalhas fosse um bêbado?

Talvez devêssemos dividir o cachê por três?

Ah! Meus outros eu!

Preciso parar de interpretar!

Insegurança?

Volta atuação!

“A-tu-a-ção”

Seres misteriosos que vivem dentro de mim!

Onde estão as tuas ações?

...

Onde estão as minhas ações?



Estas só me servem para dizer que estou muito longe, ainda, de ser natural.

Quando, enfim, fui natural?

Ah! Mas é que a arte é tão bonita!

Se eu pudesse viver apenas em cima dos palcos.

Se eu pudesse voltar pra casa e fosse verdadeiro comigo mesmo.

Se os personagens fossem como figurinos, nós os tirávamos e só no outro dia de apresentação voltaríamos a vesti-los!

Mas não é assim! Eles nos perseguem (os personagens).

São forças internas de nossa individualidade, corroendo a alma e a personalidade.

Fazendo-nos, com o tempo, mudar nossa maneira de ver o mundo e comportamento.

Muito cuidado...

Essa “festa” é proibida para os muito jovens.

...


...

...


Silêncio?

Consegui?

Fugi da minha vida de fugas?

Onde estou agora?

Acordado? Escrevendo coisas num computador?

Que isso?

Isto sou eu?

E aquele nosso combinado de plateia, filmes, cachês e meus personagens?

Por favor, me levem pra casa...

Aquela que marcamos no palco como uma espécie de “conceito do teatro” com as fitas adesivas!

Venham hoje onde estou e me levem pra minha casa...

Coloquem-me em cima do Palco!

Sem problema eu não esqueci nenhuma marcação!

Abram as cortinas!

Liguem os canhões e as elipsoidais!

Já posso ver as gelatinas colorindo o palco!

Gelatinas azuis e vermelhas!

Principalmente estas.

Prestem atenção no final desta música.

Prestem muita atenção...

A “vida” já vai começar...

E este...



Quem será que é?


1Abraham Maslow (1908-1970): psicólogo norte-americano; criou a Teoria de Hierarquia de Necessidades. É considerado o pai espiritual da Psicologia Humanista.

2 Disponível em: . Acesso em: 10 nov. 2015.

3A vivência trazida com o aluno antes de uma experiência teatral. Aquilo que já vem consigo próprio, sua bagagem. O primeiro momento do fazer teatral, antes de mudá-lo, enquanto esperamos a logo mais à frente percebermos uma transformação teatral de seu exercício dramático o levar a uma reflexão pessoal do processo.

4Maresia: brisa marinha, ar de região litorânea que algumas vezes danifica aparelhos eletrônicos na praia.




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