Universidade federal de pelotas



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5.3 Um pouco mais sobre mim

Preciso ter mais paciência e humildade.

Ainda serei pego contra mim mesmo.

Serei guilhotinado por meu próprio orgulho.

Farei a cena tão bem, que preferirei, um dia, que quem a assista venha me dizer acreditar que ela realmente tenha ocorrido.

Será meu doce declínio a convite de uma necessidade honesta, querer fielmente viver tal ocorrido com a mais profunda verdade.

É preciso querer não pensar, esquecer-se de querer, é preciso se recriar.

Negarei, um dia, defender meu personagem fascista? Seus ideais? Serei mal falado diante dos críticos por estar a não mergulhar profundamente sob esta tal realidade? Aquela que me desafia? Que chamo de trabalho?

Fraquejado e indeciso, sairei do teatro ou da cena porta à fora, desejando não estar mais lá, choramingando com as roupas do personagem e esquecendo minha bolsa, carteira, celular?

Quererei nunca ter estudado teatro. Toda vez que me apresentar a desconhecidos deverei dizer que o que faço é apenas reproduzir uma cena, dentro de um personagem e uma situação, que mesmo sendo criado por mim próprio não corresponde ao que sou e vejo a mim próprio como pessoa.

Fraquejado e indeciso quererei que o malandro não fume, não beba e não cobre dinheiro das mulheres de vida fácil. Quererei que meu personagem só, não pese tanto quanto a mim próprio, pois nunca me imaginei indo ficar meses em um SPA na tentativa de perder peso para elaborar melhor este outro criado por mim.

Quando estiver, eu, caro artista, sozinho...

Pegar-me-ei e me entregarei à melancolia ao pensar sob a gravidade das cenas, à tristeza e à aparente inutilidade de meu ofício.

Quando estiver, eu, caro artista, sozinho...

Pegar-me-ei a dar os textos dos outros, a beber e fumar escondido, a chorar sozinho, a me confundir entre os verdadeiros malandros, me confundirei a não me ver envolvido amorosamente com as verdadeiras putas, estas que tirando de mim meu dinheiro, se entregarão aos verdadeiros malandros. Proclamarei minha interpretação santificada a tudo que acredito que conheço e verdadeiramente não conheço, e que mesmo assim me derruba, ao refletir sobre esta tal realidade aquosa, diluída e não menos potente do que vivendo, não me deixa conhecer, ou não, ou nunca me apresentarão.

Eu! Um doce e santo malandro e/ou malandra.

Pois como dizia aquele mago de filme para crianças, naquela escola que profundamente escondo meu desejo de querer nela estudar: “Porque as coisas ocorrem apenas em minha mente não quer dizer que não aconteçam verdadeiramente.” Vereis todos, os meus todos, os outros, que agora também são meus, adormecidos no grande terror que a arte convida a todo estudante conhecer. As dores dos seres e do mundo.

Não é o fim, é o início de uma série de experiências, tanto teóricas, quanto práticas, me colocando novas discussões onde me oportunizam refletir e fomentar ideias cada vez mais íntimas e comprometidas sobre o fazer teatral. Minha pequena colcha de retalhos, ainda mal estruturada propositadamente na tentativa de dar movimento à criação e pensar do artista em seu dia-a-dia. Ainda dependente de pontos de vistas de outros, em algumas citações, ainda inseguramente reticente, diante de como os conteúdos são desvelados em minha mente, neste curto período que hoje chamo de vida. Pouco calejado de um trabalho, esforço e entrega mais autoral, mais intrínseco a mim próprio, pouco experiente em estar atento a si. Ainda inebriado diante deste começo de processo, e pensar que tenta acompanhar o fim lógico de um final de curso superior. Ainda ligado ao processo racional que provém da análise e do vislumbre de meus alunos de estágio, buscando antes de tudo mergulhar junto à profundidade dos seres que sou! Cada um deles. Conhecer a mim e aos outros “eu”. Aprendendo a sentir a mim enquanto pessoa e artista. Esforçando-me a entregar-me diante de minha própria visão de mundo, neste exercitar teatral que aos poucos vão me permitindo escolher e seguir meus próprios caminhos. Que aos poucos vão me dando a responsabilidade diante de meu comprometimento com meus primeiros passos neste ramo cultural e científico da humanidade.

...

Às vezes diante da profundidade de minhas experiências, é preciso me desentender... Reavaliar-me... Às vezes, pelo amor de Deus... Direi que sou só um artista... Isso não é real? Isso não há de ser real?



Às vezes quero pedir licença e dizer que: “meu mundo interior só basta a si próprio...”.

Esquecerei ou não quererei que assistindo minhas cenas, não me sinta, tocados pelo desempenho do artista, não quererei que, por segundos, não me confunda todo entre o que é arte e realidade?

Às vezes, não vou querer não acreditar, pois, tenho prazer naquilo que realizarei nas cenas?

Às vezes não chorarei escondido e não vou também me defender dizendo que sou apenas um artista?

Os trabalhos não hão de me derrubar e não rezarei sozinho clamando para não realizar tais cenas? E mesmo assim a contragosto irei lá as realizar?

Não haverá vezes que me pegarei sozinho tendo que me acalmar e dizer: “Isso não é real”.

Não me surpreenderei a, em cena, ofender meus colegas de trabalho e logo depois ficar necessitado de pedir a eles desculpas e a enchê-los com grandes demonstrações de afeto?

E nessa grande bagunça emocional que é interpretar um personagem e viver uma vida normal ficarei tentado a me explicar... Sou apenas um ator e isto é o que chamo de trabalho.

Conseguirei, a cada dia, me tornar mais responsável de meu trabalho ou ainda irei me agarrar às experiências daqueles que admiro?

Quando me pegar a balbuciar ora opiniões de uns, ora de outros, serei humilde o suficiente para lembrar-me de seus nomes? Suas derrotas e vitórias?

Aqui, nestes poucos minutos, estou apenas a problematizar, mais um pouco, o dia-a-dia da vida de um eterno estudante de Artes Cênicas, um futuro Licenciado em Teatro. Um grande desabafo sobre impressões, vivências, mais do que alguma certeza no que há de mais instigante e obscuro no fazer teatro ou até o que é considerado inaceitável neste caminho a se trilhar por indivíduos que se colocam a pensar e a refletir sobre suas mais variadas experiências.

A minha certeza é que o que há de mais instigante no estudo do teatro seja ouvir o encontro deste caminho em minhas vidas, as decisões trilhadas por mim, de modo a compreender a importância da arte e seu valor em minha vida, o meu comprometimento sobre as escolhas tomadas.

Penso em tudo o que sacrifico para poder experienciar o fazer teatral, tudo que ganhei fazendo teatro e toda nossa sensação de pertencimento a um grupo que me deixa pequenino em relação à vida, simplesmente encontros que não teria se não fizesse teatro.

Que possa, com o passar dos anos, me dedicando a este ofício, cada vez mais, relativizar e me tornar mais sábio, seguro diante de minhas experiências teatrais e possa inspirar aqueles que me cercam. Que antes de procurar resultados, que eu procure também boas relações em meu ambiente de trabalho, que fique cada vez mais consciente dos esforços forjados na procura de suscitar novos embates, novas lutas, diante das grandes interrogações do ser humano diante do significado de sua existência.

Que eu abrace com muito amor e coragem os desafios que, enquanto artista, assumi comigo com o intuito de sempre reavaliar-me como ser mundano,fantástico e ideal.

Que eu pense muito antes de falar mal daqueles artistas ou daquelas experiências que problematizam e chocam meu viver. Que eu possa reverenciar também o que é novo e tente nunca esquecer que também já fui um iniciante, que eu tente sempre discutir, sem nunca esquecer aquilo que me parece digno de ser infundado. Pois existe sempre algo realizado por mim mesmo, ser humano, que pode ser descoberto de maneira nova e que outras lembranças possam ser dignas de esquecimento.

Que tente sempre me colocar aberto também à discussão e à reavaliação dos valores que minha vida me apresenta.

Coloco-me a pensar teatro. Justamente por me ligar à sua discussão relativa. Viver a vida através de um ofício que exercita a representação de outro criado por mim próprio, “que não é de fato eu” (pelo menos era o que me diziam), mas me convida a, vivendo-o, refletir sobre o eu próprio.

A revolução de uma cena, ou o crescimento de um ser que se debate na busca por querer progredir, aprender teatro e, por que não, por alguns que querem deixar de ensaiar? Improvisar mais, discutir o íntimo e o público de maneira cada vez mais sutil, incoerente àqueles que o assistem ou acreditam o conhecer. Por que teatro também é partida, fim, estranhamento.

Querer aprender teatro, querer amar teatro, sair do teatro, talvez esquecer um pouco daquele personagem, lembrar um pouco de si e se ver como o antagonista daquilo que criaste? Ou sofrer por ver muito de si daquilo que forjaste e tenta mostrar aos outros seres, apenas fruto de meu trabalho enquanto artista cênico. Elaborar as diferenças entre o “eu”, o outro “meu colega”, aquele “meu personagem” e aquilo “o estranho que invade o corpo de meu colega de trabalho”. Separar-me para conseguir acertar, hora em cena, hora nos ensaios, hora depois dos ensaios, hora quando o trabalho me convida a amar e admirar meus colegas, ou quando brigamos e deliramos nunca mais precisar nos vermos novamente. Até que, com o passar do tempo, só nos reste o vazio. Vazio de nosso oficio, vazio de nosso trabalho, vazio de nossos amigos de trabalho, vazio nas festas, vazio até naqueles amigos de infância que sempre nos perguntam: ”Continuas a fingir que é outro, ganhas ainda pouco para viver, para quê?”, “Eu que tenho apenas uma vida já a acho cansativa, você que vive de criar outras não hão de lhe cansar?”. Mas nunca sair do caminho. Seguir trilhando para onde nossa loucura nos leva.

Vejo-me hoje em um dia muito especial, pode ser que me torne um professor de artes cênicas apaixonado por pessoas, louco por grupos. Vejo-me como professor, pois pretendo respirar junto com meus alunos. Quero secretamente os parabenizar a cada novo esforço em se colocarem dispostos ao exercício teatral. Quero estar lá em seus primeiros desafios, ainda os convidar a não ficarem preocupados em acertar. Quero vê-los vencerem a si próprios, quero que leiam ou ouçam as críticas de seus trabalhos com silêncio e maturidade, porém que também não as levem muito a sério.Quero que pelas suas conquistas sempre ganhem a oportunidade de seguir adiante neste grande caos que é amar e aprender a fazer teatro.

Encanta-me o nervosismo, me encanta o que ainda não consegue ser realizado, muito mais me importa o que já foi realizado, posso estragá-lo com a aura de excesso de confiança. Aquilo que consigo fazer, o faço às vezes tão bem que até posso esquecer que o faço, podendo destruir uma cena inteira com a falta de atenção diante do desafio que é viver durante anos a mesma cena com o frescor daquilo que deve ser novidade. Já as dificuldades me provam que: ainda não sei de tudo, que ainda há muito a ser pensado, exercitado e compreendido. Às vezes ganho muito mais com as dificuldades do que com o que já faço bem. Minhas dificuldades me sensibilizam muito mais que minhas habilidades. Colocando-me fragilizado diante de minhas dificuldades, elas, com o tempo, vão me guiando de modo a chegar à compreensão, talvez no mínimo mais abrangente, com o passar dos tempos.







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