Universidade federal de pelotas



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5. Pensando sobre eu


    1. Ode à Pureza

Deve, agora, haver mais retalhos. Quando a mente foi apresentada a mais um nível de consciência. Ano após ano aprendemos algo que nos surpreendia. Saíamos das salas de aula ou maravilhados com alguma descoberta, ou chorosos pela sina que a aulas começavam a acometer sobre nosso destino, ou ainda pior, desavisados e sonolentos, logo após aquele período em que o professor havia explicado algo, enquanto alguns de nós quase cochilavam.

Ser quieto e solitário em alguma época da vida pode ser sinônimo de burrice: “Olha lá o Caladinho”, “Olha lá aquele ali, sempre sozinho”. Antes deste texto, a infância perecia ter sido pura. Às vezes, pensamos ser únicos.

Quando se teve uma adolescência intelectualizada, parece fácil descobrir coisas. Analisá-las até chegar conceitualmente à sua menor forma. Mas com o início de uma “pseudo adultez”, a realidade parece tumultuada. Eram normais ideias como acreditar ser um grande ator, de sensibilidade ímpar, correras noites todas, sem sentido diante daquilo que julgavam ser natural: “Festas”. Neste caso, mais velho no meio do nada. Numa cidade que representará, na vida, tudo. Ficara fazer coisas erradas escondidas, a andar onde não se conhece e a se sentir livre, tudo isso como parte de um processo natural de amadurecimento.

Entrei neste curso com a idade de quem, cronologicamente, já devia ter saído. Senti-me a mudar meu mundo, a pensar profundamente em coisas, em teorias, em pessoas que não conheço e lugares que jamais irei. Dia 5 de outubro de 2015. Pelotas. 23h10min. Lendo o que me foi solicitado uma semana antes pelo meu professor orientador.

Poderia explicar tudo que deu errado nestes últimos dias, agora me vejo, de novo, me resolvendo horas antes de nosso encontro. Leio os textos, pouco os compreendo. Trabalhos sobre autobiografia, cartografia e outro que tratava sobre a relação professor e aluno no aprendizado. Li e acredito que assimilei um pouquinho do conteúdo apresentado. Nesta noite tudo que queria era não ser feito de retalhos. Queria fugir das citações. Quer lê-los? Vá... Leia de uma vez. E os ponha em seu devido lugar. Hoje resolvi fugir. Quero dizer não! Não às citações. De um jeito que minhas partes me façam acreditar que estou completamente junto.

Passei minha vida inteira achando que era único. Numa existência única. Escolhas únicas, falando ou pensando em coisas que só diriam respeito e teriam real significado em minha existência. Para aqueles que me conheceram. Hoje, fugindo das citações, encontro mais pedras em meu caminho. Mais entraves que me impossibilitam, nesta noite, de acreditar em minha unicidade. Palavras.

Quem fala português brasileiro deve estar me entendendo, e sua compreensão me ofende. Passei anos acreditando ser único, para começar a falar com as pessoas e estas, excluindo meus erros de português e palavras mal escritas, me compreenderam! Até agora só me vejo, originalmente, fugindo ou preguiçosamente não realizando as famosas pesquisas Qualitativas e Quantitativas. O que viria a ser uma tentativa infeliz (pensei que era só eu, mas outros pensam nisto também) de analisar os seres humanos. Infame sonho de transformar a humanidade em objeto. Com o tempo, estudos teóricos sobre a Cartografia vem a tentar reencontrar o indivíduo e o campo de estudo, de maneira mais humana:


cartografia, uma prática geográfica de acompanhamento de processos em curso que, mais do que de um traçado de percursos históricos, ocupa-se de um campo de forças no seio mesmo dos estratos. Proposta enquanto caminho errante por Deleuze e Guattari (1995), a cartografia se oferece como trilha para acessar aquilo que força a pensar, dando-se ao pesquisador, como possibilidade de acompanhamento daquilo que não se curva à representação. (...) Entre sua definição enquanto método e a recusa a qualquer pretensão de sê-lo, a cartografia apresenta-se como procedimento de pesquisa que exige do pesquisador posturas específicas. Convoca-o para um exercício cognitivo peculiar, uma vez que, estando voltado para o traçado de um campo problemático, requer uma cognição muito mais capaz de inventar o mundo. Trata-se de uma invenção que somente se torna viável pelo encontro fecundo entre pesquisador e campo pesquisa, pelo qual o material a pesquisa passa a ser produzido e não coletado, uma vez que emerge de um ponto de contato que implica um deslocamento do lugar de pesquisador como aquele que vê seu campo de pesquisa de um determinado modo e lugar em que ele se vê compelido a pensar e a ver diferentemente, no momento mesmo em que o que é visto e pensado se oferece ao seu olhar. (AMADOR e FONSECA, 2009).

Simples: “Leia meu trabalho e diga que vim de Bagé”... de Ribeirão Preto... da Inglaterra... da Holanda... Cada vez mais desencontros nas tentativas de nos tornarmos comuns em algum lugar do globo, e talvez até originais para os que ainda estão desavisados. Perfeita Ironia. Outros dirão sobre nossos trabalhos: sejam originais! Sejam criativos! Por que não falam isso no nosso primeiro dia de aula? Hoje. Eu, que só penso e tento me enquadrar, que ponho em xeque minha possibilidade de voar, com aqueles que vieram antes de mim e que leram, mais ou menos, o mesmo e até mais que eu, surgindo em minha vida para me indicar os “famosos retalhos conceituais”, para eu copiar suas máximas e me sentir agregado e “único”, ou para livremente encontrá-los em minhas pesquisas, para acabar me vendo em um pequeno e determinado setor da sociedade, “iluminado”. Escrevo deprimido e com desprezo (talvez seja inveja de escrever de uma forma que ainda não domino), porém de modo a todos compreenderem as palavras e talvez os sentimentos que aqui se encontram. Talvez o texto como um todo esteja mal escrito. Para aqueles que conhecem as regras textuais brasileiras. Bom. Não melhor do que tentar tornar comum todo meu repúdio temeroso e rotineiro de todas as formas sociais, que maquiam tudo, que me leve a ser igual aos outros na vida, dizendo a cada um de nós frases e adjetivos que já conheço, para que possa dormir e acreditar que minha vida, textos e pensamentos serão uma revolução nas mentes daqueles que hão de surgir depois de mim. Ou simplesmente significativas a este bolo de informações, que lemos diariamente em nossas vidas. Há de ser na menor das hipóteses... Diferente?

Como no texto de Hossein (2009) – penso acrescentar a minha reflexão, alguns teóricos que ela apresenta e que me tocaram diante das coincidências que tive neste processo de reflexão. Neste processo de busca de identidade e compreensão sobre as experiências da vida, hoje venho a acreditar em Ciampa (apud HOSSEIN, 2009) que construindo um olhar sobre a construção da identidade afirma que a identidade é como metamorfose, como movimento. A identidade é um processo que se verifica durante toda a vida da pessoa. Fiquei muito feliz com tal afirmação. Espero que o mau humor que invadiu minha mente nesta noite, seja apenas passageiro, como as conclusões que tentei chegar neste texto.

Percebo outra conceitualização que me deixou muito feliz, refere-se à memória. A memória aqui nos permite retrabalhá-la, a vê-la como memória individual, não obstante imbricada às relações vivenciadas – sociais e culturais – e por elas informada – significada - resignificada, desde que o sujeito, ao rememorar fatos e situações, lhes imprima significação singular (BOSI e THOMPSON apud HOSSEIN, 2009). E ao final deste ímpeto de inspiração acabei por encontrar o conceito de narrativa que sem perceber fui ensaiando com meu orientador enquanto entre a ansiedade e a produção de meu trabalho este me encaminhava rumo a me acolher e me propor novos desafios. Segundo Jovchelovitch e Bauer (apud HOSSEIN, 2009) é por meio da narrativa que as pessoas lembram o que aconteceu, colocam a experiência em uma sequência, encontram possíveis implicações para isso e jogam com a cadeia de acontecimentos que constroem a vida individual e social. Que eu possa, a partir destes pequenos pontos de vista, remodelar-me enquanto eterno ser em metamorfose, de modo a reencontrar-me em meu passado o resignificando, comungar minhas experiências a partir dos fatos e sua historicidade que marcaram minha vida como ser humano. E que cada vez mais o procedimento científico em transformação possa voltar a fazer as pazes com a humanidade.


Também podemos pensar a narrativa como meio de ampliar a consciência em relação a vínculos e práticas sociais, pois ela possibilita uma forma de (re) pensar essas relações, o que pode redirecionar a compreensão do mundo. Isto, porque, como nos ensina Alarcão (2001), a narrativa traz em seu bojo um processo interpretativo, que permite uma releitura do vivenciado e experimentado, resultando em uma tecedura entre o que foi e o que está sendo. (HOSSEIN, 2009).




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