Universidade federal de pelotas



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4.6 CAPS: Organismo social?

Este item refere-se às vivências no CAPS.

Foi realizada a prática da disciplina de Estágio III no CAPS (Centro de Atenção Psicossocial) Castelo, localizado na Rua Lobo da Costa, 1959. O lugar é amplo, com boa estrutura, boa iluminação, sala arejada o que para nós era ótimo para o que pensamos propor a eles. Sua aparência sugere a de um grande retângulo, dividido em salas que são: um saguão ou sala de espera, banheiros feminino e masculino, sala de artes, sala de educação física, sala de costura, sala de enfermagem, sala de reuniões, sala de atendimento, sala de reunião interna e sala dos médicos. Descobrimos que, anteriormente, no lugar do CAPS havia uma escola de enfermagem. O lugar que foi apresentado foi a sala de Educação Física. A turma com quem trabalhamos recebia o nome de “Descontraídos”. Foi considerada por nós como uma turma tranquila e participativa. O número de usuários nesta turma era de 21 (pela chamada), porém 19 eram aqueles que frequentavam com mais assiduidade. A média de idade das pessoas que frequentavam era algo entre 30 e 60 anos. Na sala que trabalhamos tinha uma variedade de coisas! Rádio, colchonetes, bambolês, mesa, papel, bolas e livros. Era um bom lugar para nossos exercícios. Havia também um pátio muito bonito.

Tentamos, com isso, expressar o sentimento nas primeiras aulas que observamos no CAPS, na turma “Descontraídos”. “Organismo Social”, porque falar deles assim? Tivemos o privilégio de observar pessoas agradavelmente conversando entre si. Tivemos a impressão de que eles haviam passado a vida inteira juntos. O que nos fez ficar com uma alegria melancólica. Uma alegria acompanhada de forte tristeza. Todos eram muito amáveis uns com os outros. Não deve ser mentira eles se conhecerem antes mesmo de se encontrarem. Mesmo que eles vivam longe um dos outros, em empresas e empregos diferentes, estamos sempre, de uma forma ou outra, exercendo nossos papéis de maneira a possibilitar bem estar uns aos outros.

Existiram momentos que tivemos vontade de chorar. Sensação de que naquelas poucas horas semanais tínhamos de resolver as coisas que ocorriam na sala de aula e que não prevíamos. Forte sentimento de responsabilidade. Nova responsabilidade. Engatinhávamos no conceito do que havia de ser, se tornar professor de teatro. Sempre no início das aulas nossa orientadora do CAPS, senhora responsável pela turma “Descontraídos”, falava das coisas que eles teriam na semana ou mês. Eles tinham uma espécie de agenda: festas dos aniversariantes, ida ao cinema,etc. Era uma turma cheia de particularidades. Cada indivíduo se tornou inesquecível, mesmo com a dificuldade de decorar seus nomes, sentíamo-nos, a cada dia, como grandes professores da vida, como grandes vencedores de suas próprias fraquezas, aprendemos muito com cada um deles.

Muitas pessoas dizem, diante de certas vivências: “Deus quis assim!”, “Se passaste por tamanha dificuldade é porque precisavas vivenciar isto”, “O que não te mata te deixa mais forte.”. Pudemos ver força em cada um deles, além de fantástica aceitação das nossas aulas de teatro. Ficamos emocionados e felizes. Neste estágio, não sofremos pela diferença de idades. Não nos sentimos como indivíduos que não poderia acrescentar em nada nas suas experiências de vida. Eles nos fizeram acreditar que éramos mais uma peça deste imenso organismo, onde cada um de nós é um reagente diante de todos os problemas que, graças a nós todos, se resolvem para um bem-estar maior e coletivo.

Fica marcante este processo que nos convida a, pouco a pouco, irmos cada vez mais, despertando diante das nossas agruras e as de nossos colegas de vida, de existência. A começarmos a agir sobre nosso sofrimento. A lutarmos diante de nossas frustrações. Todos nós merecemos ser serenos! Calmos e corajosos! Que todos aqueles que passaram por nós possam, com mais alegria, consciência e serenidade não desistir de si próprios. Mesmo que suas atribuições sejam imensas e sacrificantes, que nunca esqueçam deste momento no CAPS! Quinta-feira, a partir das 13h30min. Sempre haverá alguém lá, destinado a pensar no bem estar de nossos usuários. Sempre encontraremos um tempo, para que se possa pensar além de nós próprios. Sempre haverá lugar para termos boas conversas. Sempre haverá a esperança de nos encontrarmos cada vez melhores. Cada vez mais re-exercitando o convívio com nossos colegas de existência.

Nosso estágio no CAPS foi um sonho. Provavelmente, foi também o mais cansativo, visto que,frequentemente, realizávamos os exercícios com os alunos, pois haviam muitas faltas. As conversas com eles eram muito boas, porém tínhamos que administrar de modo a não ficarmos o encontro inteiro conversando, assim não conseguiríamos observar o efeito mágico do teatro em suas vidas. Uma das coisas que percebemos em nós mesmos era grande ansiedade. Às vezes, conversando,tínhamos que descobrir uma maneira de terminar a conversa para partirmos para os exercícios teatrais, será que não é grosseria? Falta de preparo? Sofremos muito calados quando tentávamos descobrir a maneira correta de parar de conversar para exercitar teatro. Cada vez mais, esperamos a turma ir se encaminhando para o fazer teatral, o desejo de que todos se levantem e comecem a se concentrar. Cada vez era uma tentativa de não empurrar teatro “goela abaixo”, e percebemos o teatro como um “pré-texto”3. Fazer teatro é um pré-texto para formarmos cidadãos melhores. Assim como a conversa surge no grupo, um determinado momento chegará a hora do teatro e logo após uma reflexão consciente das partes lúdicas e expressivas que dividimos juntos. A aproximação com a turma foi rápida e intensa, em muito pouco tempo ficamos fortemente familiarizados uns com os outros.

Até o presente momento ficou o desejo de continuar a ter mais períodos de troca com os usuários do CAPS. O que demonstra que ficou um grande apego e carinho pelo grupo. Não podemos imaginar, ainda, o quanto o grupo também cresce com o fim dos encontros e exercícios. Assim como nos dizem que há uma época em que os pais não deveriam fazer tudo pela criança, sem que ela aprenda a esperar, talvez seja correto que nossos usuários aprendam a sentir nossa falta no final das 40 horas, de maneira que os responsáveis possam ver quão significativa é esta falta, esta transformação em suas vidas. Essa despedida talvez tenha sido a mais dolorosa. Foram-se 40 horas. E qual é o caminho que temos que trilhar no fim destas horas? Fomos alertados que eles se apegam rapidamente aos “facilitadores” do CAPS. E agora seria melhor renegociarmos ou justamente declarar o fim de um processo? O que seria melhor pra eles? O que seria melhor pra todos nós? É preciso mais “estofo”. É preciso mais consciência. É preciso aprender a sair da nossa zona de conforto. Ainda estamos na idade de tatear as sensações e nos defender destas, é preciso aprender a desconfiar de nossas certezas, analisá-las, precisamos “engolir” muitas verdades ainda, que nosso orgulho nos deixe, humildemente, agregá-las ao nosso ser. O quanto estamos dispostos a ouvir verdades e suportá-las para mudar nossas realidades, apaziguar o sofrimento alheio? Fazê-los criadores de si próprios? Acho que desta vez chegamos mais próximos de gerar diferentes oportunidades para cada um se realizar ludicamente através do teatro. Talvez seja importante este fim: “Trabalhamos com vocês 40 horas, este era nosso combinado, se quiserem mais teatro há outros lugares na cidade que vocês poderão conhecer”. Obedecer ao combinado! Justo agora que conseguimos nos reavaliar enquanto futuros professores de teatro? Justo agora que aparentemente estávamos acertando mais do que das outras vezes? É preciso tempo...

A conclusão é: “Quero doce! Quero o que já estava dando certo. Quero o que já conheço! Afasta-te, doce tentação!”. É preciso vê-los quererem mais. Talvez, seja preciso que eles procurem sobre! Ou apenas esqueçam-se. Tudo isso, aparentemente, me parece bom. Seria interessante vê-los assistindo às suas primeiras peças de teatro, vê-los se aventurando em suas primeiras oficinas de teatro. Foi de suma importância, como fomentador da arte, a oportunidade de ter visto tanta gente talentosa, que nunca havia visto teatro, cheia de prazer, em realizar aqueles exercícios que, com muito carinho, apresentamos a eles. Concluímos este texto com a dualidade que sentimentos também nos trazem. Se ficamos tristes por termos chegado ao fim de nossas 40 horas de estágio, ficaremos muito mais felizes encontrando estas pessoas tomando suas escolhas pessoais na procura de ir cada vez mais profundamente, reavaliando-se como indivíduos com forte potencial artístico.






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