Universidade federal de pelotas


Quando “o buraco é mais embaixo”!



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4.4 Quando “o buraco é mais embaixo”!

A maneira como tentávamos nos apresentar nas aulas foi frustrante. Como nos colocarmos em relação a uma turma de pessoas maduras? Como resolvermos na aula, faltas, esquecimentos de materiais, distrações? Como apontar seus erros, criticar de modo que elas conseguissem resistir à frustração e continuar a estudar? Como dar-lhes carinho e conseguirmos criticá-las, sem perderem todo o amor próprio, combustível para continuar levando a vida e não esmorecer diante dos novos desafios propostos? Aqui, ao contrário de nossas aulas com pessoas mais novas, tínhamos mais desafios a apresentar, poderíamos propor outros exercícios e esperar um comprometimento maior do que os dos nossos alunos mais novos. Nesta turma, procuramos exigir nas aulas além de concentração e a apresentação de um diário de bordo feito por elas, que exercitassem, minimamente, a contação de histórias e a pré­-expressividade teatral. No dia que pedimos a elas trouxessem histórias para que cada uma contasse para turma, elas não o fizeram. Também esquecemos de levar livros infantis, como um plano B, na espera de que elas os levassem.

Outra parte de nossa aula propunha exercícios de expressão corporal e vocal, da qual sentimos um tônus, umas forças no movimento ainda precárias. Aqui, muitas meninas esqueciam-se de tirar anéis, relógios, pulseiras e colares, além de virem com calça de brim, o que dificultava os exercícios práticos.

Houve também muita distração. De acordo com o que sentimos nas colegas, tentávamos dar aulas físicas a elas sem tocá-las, pois imaginávamos estarmos invadindo o espaço delas, de modo que cada exercício, cada relaxamento, cada alongamento que,a nosso ver, elas podiam se esforçar um pouco mais, ir um pouco mais além do que iam, não o fizeram. Os esforços a tais exercícios foram de esforço mínimo em relação a nossas experiências enquanto alunos de teatro.

Chegamos a uma profundidade curiosa neste semestre de Estágio 2. Em se tratando de Teatro, pudemos observar, desta vez, outras dificuldades neste processo que é de disseminar e refletir sobre a arte nas salas de aula. Foram praticamente 10 alunas nas nossas 20 horas de ensino. Eram 10 mulheres no curso de Magistério, do colégio Pelotense. Havia grande diferença de idades entre elas, pessoas com conhecimentos variados, muitas com bastante experiência de vida. Na Turma 31A tínhamos mães, algumas outras jovens com namorados, poucas, ou talvez até mesmo apenas uma, era provavelmente solteira e, com o que imaginávamos, ser a idade certa para estar cursando um técnico. Grande erro. Deve ter sido resultado de nervosismo pensar de tal jeito, acreditar que temos idade para estudar. Acreditar que não aprendemos com os mais novos. Porém, aqui continua parte do dilema. É um absurdo social o professor com menos idade, dar aulas para pessoas mais velhas. Eram elas que deviam estar no nosso lugar! Com idade mais avançada, mães de família, estas senhoras compreendem muito mais do que nós sobre a obscura condição da vida que além do resultado das coisas, dialoga com o saber viver e contemplar as pequenas vitórias de cada indivíduo, na busca de transformara si próprio diante da realidade que cerca cada um de nós. Possuem uma experiência muito mais abrangente, muito mais preparada em resistir às frustrações daqueles que as cercam, mais jeito em, diante da frustração, fazer desta energia, combustível para ir além das dificuldades apresentadas. Já possuem o trejeito correto em encaminhar, a cada um, aquele exercício no qual o aluno poderá dar o melhor de si. Contamos a elas que somos apenas estudantes de Licenciatura em Teatro, que, em se tratando de maneiras a proporcionar mais calma e tempo para as pessoas absorverem o conteúdo proposto, elas provavelmente sair-se-iam muito melhor que nós, teriam mais paciência, e uma sensibilidade materna, já muito conhecida por nós, homens, porém não compreendidas pelos mesmos. Mulheres já passam a vida se desenvolvendo para cuidarem de crianças, para compreenderem o que se passa em cada um de nós. Querendo ou não, já observaram, se não todo o dia, o desabrochar de crianças, ou até mesmo descobertas de outras pessoas sobre outras coisas que as fascinam. A admiração masculina, porém é mais voltada ao fim do desafio. A mulher não, ela quer entender como alguém chegou à determinada descoberta. A mulher quer compreender o processo da coisa, o homem anseia em chegar ao fim.

Dentro do que temos observado até agora, uma coisa chama atenção: uma constante mania de querer ter resultados rápidos diante de nossas aulas. Grande armadilha para nós, estudantes, provavelmente futuros professores. Nas aulas tivemos que, a cada dia, reaprendermos tanto aquilo que solicitávamos para elas, quanto como poderíamos fazer com que elas tivessem vontade de realizar os exercícios. Novamente, retrabalhávamos tudo. Entrávamos na eterna discussão de termos que apresentar coisas que acreditávamos serem importantes, e corrermos atrás também do que elas procuravam e queriam exercitar. As aulas não nos pareceram difíceis. Elas realizavam o que era proposto. Tentamos mostrar a elas onde podiam procurar esclarecer dúvidas a mais, que algumas já tinham antes de fazer aulas de teatro. Diante do tempo proposto era preciso que fossemos rápidos, porém quando ganhávamos tempo, procurávamos sanar algumas questões que surgiam na turma. Às vezes se distraíam, ocorrências que se mostravam que fazer teatro no Brasil ainda é um exercício de pioneiros da educação. Ainda somos analfabetos teatrais (a meu ver), ainda não aprendemos a assistir teatro, fazer teatro. Ainda na escola, que deveria ser um lugar onde somos apresentados ao conhecimento, onde fazemos conhecimento, onde mudamos as coisas, lá, ainda estamos no começo. Ainda somos poucos “os felizardos”, mas muitos “os coitados” que brigam por mais reflexão e apoio ao significado do teatro em nossa vida estudantil. Tinham ataques de riso, nada tão agravante hoje, em que estamos refletindo sobre alguns acontecimentos. No dia em que ocorriam, o sentimento era de frustração e com um pouco de raiva.

Tivemos alguns momentos, enquanto professores, que optamos mais por conversas com elas do que mostrar lhes alguma técnica ou exercício teatral. Era preciso nos acalmar, percebermos o que acontecia com a turma, esperarmos elas processarem algumas coisas, silenciarem um pouco o processo, para reavaliarmos tudo que constituía a experiência teatral. Precisávamos, também, saber e trabalhar com mais coisas que isso, precisávamos que, sinceramente, elas estivessem gostando e mostrassem isto a nós. Para novamente nos reconstruirmos como grupo que, em processo de descoberta, se encontrava aberto a conduzir cada uma delas ao processo de autodescoberta no teatro.

Era preciso ir um pouco mais além: eram mulheres que estudavam, trabalhavam, cuidavam de filhos, gerenciavam a casa em que moram. Víamos às vezes em seu semblante a marca do cansaço. Muitas também tinham problemas variados de saúde. Dissemos a algumas delas que ninguém era obrigado a fazer se não quisesse, mas era importante trazer atestado médico. Cobramos isto só num dia. Ainda não compreendíamos, e ainda não compreendemos, como lidar com quem não quer fazer a aula, com quem não pode fazer a aula. Entre ensinar uma técnica, brigar por sua aparente falta de vontade, ou refletirmos um pouco sobre o que acontecia entre elas, optamos por apostar no poder da conversa, um tempo para elas conscientizarem a experiência. Um dos nossos professores do curso, Adriano Moraes de Oliveira, nos dizia que “o teatro é como um frango assado: ninguém o come inteiro, é preciso corta-­lo em partes”. Foi isso que fizemos. Era preciso compreender que precisávamos ser mais analíticos e dar mais espaço para elas “digerirem” a aula.

Os últimos dias foram cada vez melhores no quesito participação em aula. Apesar de muitas delas terem ficado com muitas faltas em nossas aulas, de terem esquecido coisas que pedíamos a elas, do início do estágio até os últimos dias pudemos ver grandes mudanças no comportamento delas, espero que não tenham mudado apenas por que estávamos as observando, que o prazer que elas demonstraram a nós possa ser o amor pelos exercícios teatrais e comprometimento com o fazer teatral perdurando em toda a existência de nossas queridas alunas. As aulas foram muito boas. Procuramos deixá-las livres ainda de um processo que exigisse um fim, que as convidasse a exporem-se enquanto artistas a um público. Queríamos mostrar a elas o que seria o início, ou muitas vezes o que vem antes de um espetáculo teatral, antes da construção de um personagem, que seria a educação de um ator antes de seu processo criativo. O organismo, instrumento de trabalho de um ator: neutro. Aqui há um parágrafo, encontrado em uma das nossas cartilhas de teatro que diz algo que me chamou atenção:
Spolin, tomando por base os jogos de regras, cria um sistema de exercícios para o treinamento do teatro, com o objetivo inicial de libertar a atuação de crianças e amadores de comportamentos rígidos e mecânicos em cena. Este sistema de atuação, calcado em jogos de improvisação, tem o intuito de estimular o participante a construir um conhecimento próprio acerca da linguagem teatral, através de um método em que o indivíduo, junto com o grupo, aprende a partir da experimentação cênica e da análise crítica do que foi realizado. Os participantes do processo, assim, elaboram coletivamente conceitos acerca das suas atuações e da sua compreensão da linguagem teatral. (DESGRANGES, 2006, p. 110).

Foi muito o que sentimos nas aulas que demos a elas. Cada uma, através dos exercícios propostos, foi ao mesmo tempo se descobrindo, se libertando das suas próprias amarras, e se deixando, pelo menos neste momento, não se criticar diante do que descobria de si mesma, de suas variadas possibilidades. É como se, neste início elas não precisassem acertar em algo mesmo antes delas conhecerem a si próprias em seus primeiros “passos teatrais”. Daí a importância dos jogos teatrais que antecedem a interpretação, que promovem o “estado de jogo” e não uma busca em caracterizar uma forma antes mesmo de reconhecer seu próprio corpo em neutralidade. A partir da consciência da neutralidade, faz-se encontrar novas buscas que nos levem à construção de personagens a estados variados.

Sentimos um grande crescimento destas nossas alunas/colegas. No início elas não se sentiam muito aptas a fazer teatro. Porém aproximando-nos do final, diríamos graças a esta atenção à pré-expressividade, já começávamos a ser surpreendidos com os resultados que elas nos apresentavam. Se fizemos algo por elas, foi isto, as deixamos livres e em estado de jogo, antes da construção de qualquer conceito destinado à interpretação conseguimos deixá-las em estado de jogo, as fizemos exercitarem o artista que há em cada uma delas antes de dar formas que pudessem nos remeter à expressividade, sem antes elas terem descoberto seu estado bruto, de atrizes em harmonia, preparadas agora para começarem a alçar seus voos em suas próximas procuras em relação ao teatro.

Agora conseguindo gostar mais de si, ousando um pouco mais e desenvolvendo mais a força de vontade de cada uma delas, com o intuito de exercitar práticas mais e mais desafiadoras em relação ao fazer teatral. Estarão aí, se descobrindo e se desenvolvendo cada vez mais nesta busca que antes de tudo tem que vir do coração delas, do quanto elas querem de desafios e estudos de teatro em suas vidas, do quanto a arte mexe com elas e o que elas ainda querem aprender com a arte, sobre seus próprios limites, e com este grande sentimento de transcendência que as artes nos possibilitam. Conseguimos, nesta classe, plantarmos a semente do teatro em cada uma delas.

Saímos satisfeitos por, mesmo com tão poucas aulas, vermos elas nos últimos encontros se responsabilizando um pouco mais com as propostas sugeridas por nós. Que no futuro, exercitando mais e mais a responsabilidade de trilhar seus próprios caminhos, aceitando os desafios que surgirão, não temam em progredir, em desafiar a si próprias. A na comodidade lutarem por incomodar-se, e que na busca de mais conhecimentos e experiências sobre o teatro possam sóbrias agradecer as mágicas transformações destas reflexões sobre o teatro e de como este mudará as suas vidas.




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