Universidade federal de campina grande centro de humanidade



Baixar 5.07 Kb.
Pdf preview
Página9/72
Encontro23.04.2021
Tamanho5.07 Kb.
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   72
revisionismo. Crítica Marxista, São Paulo, Ed. Revan, v.1, n.19, 2004, p.27-48. 
 


21
 
Ainda  tratando-se  do  golpismo  janguista  vale  refletir  algumas  questões:  se  o 
presidente sabia que no dia 31 estava em marcha um plano de derrubá-lo do poder, não estaria 
já ele de prontidão para neutralizar Mourão Filho e suas tropas que se locomoviam de Minas 
Gerais ao Rio de Janeiro e pôr em ação seu golpe contando com o apoio de sua alta cúpula de 
legalistas militares? Se o famigerado “grupo dos 11” de Brizola  – que não era armado e era 
diminuto – estava tão articulado, onde estava ao lado de Jango para serem escudeiros de seu 
“plano maquiavélico”? A defesa de proposta de uma reforma constitucional feita por Prestes 
para viabilizar a possibilidade de uma reeleição
10
, se mostra sinal de golpismo? Toledo (2004, 
p.41)  nos  lembra  que  para  tal  proposta  se  concretizar,  antes  ela  passaria  pelo  Congresso 
Nacional  para  aprovação,  exigindo  aprovação  da  maioria  de  deputados  federais  e 
posteriormente  de  senadores;  ou  seja,  um  processo  totalmente  legal  e  dentro  dos  limites 
democráticos.  Para  tanto  lembremos  que  isto  logrou  em  êxito  décadas  depois  durante  o 
governo de Fernando Henrique Cardoso e, como bem sabemos, não se configurou como golpe 
de estado. 
Evidentemente,  não contestamos  aqui  que  setores  nacionalistas  e  de  esquerda  (UNE, 
Ligas  Camponesas,  CGT,  PCB/Prestes,  Brizola,  movimento  dos  praças  militares,  etc.)  e  o 
presidente João  Goulart  têm  suas  parcelas  de  culpa  no  agravamento  do acirramento  político 
no  momento  pré-golpe  gerando  mais  radicalização.  Em  parte,  a  esquerda  foi  incapaz  de 
construir  alianças  políticas  com  blocos  progressistas  e  não  golpistas,  além  de  ter  exagerado 
em  uma  retórica  revolucionária  e  com  palavras  de  ordem  marcadas  por  radicalismo, 
colaborando mais na unificação e mobilização da direita civil e militar que passou a  enxergá-
los mais ainda como ameaça (TOLEDO, 2004, p.43). 
É importante um adendo, como bem lembra Marcelo Badaró (2014): as propostas das 
reformas de base de Jango e ainda o apoio da esquerda na realização destas, não se caracteriza 
como  um  “projeto  de  comunização  do  país”.  A  reforma  agrária,  por  exemplo,  era  uma 
experiência histórica realizada por governo de várias partes do mundo, muitos orientados pelo 
liberalismo e/ou o conservadorismo. Da mesma forma a reforma universitária demonstrava na 
verdade uma necessidade de uma educação superior defasada mesmo se comparada aos países 
próximos da América Latina. Além do mais, o próprio PCB – grande representante político da 
esquerda  nacional  –  vinha  seguindo  as  diretrizes  levantadas  após  a  terceira-internacionalista 
em  que  considerava  a  aceitação  do  jogo  democrático  e  de  uma  aliança  com  a  burguesia 
nacional  como  uma  etapa  necessária  no  processo  de  revolução  no  país.  O  que  nos  leva, 
                                                             
10
  Obviamente  estratégica  em  prol  de  angariar  mais  tempo  para  realizar  as  reformas  de  base  ou  conseguir 
estabilizar o clima político e realizar coalizões, neste sentido. 


22
 
outrossim,  à  questão  da  forte  antipropaganda  anticomunista  que  taxava  qualquer  projeto  de 
teor  mais  progressista  como  projeto  socialista  com  intuito  de  provocar  medo  nos  leitores 
durante este período – tendo êxito principalmente com as classes médias. 
Portanto, preferimos entender o regime ditatorial como um só, que passou por diversas 
fases  que  se  iniciam  no  próprio  golpe  de  Estado,  e  não  com  o  AI-5,  mas  que  neste  ato 
adicional atingiu o ápice do processo de implementação da ditadura. Assim como não acabou 
em 1979, pois a revogação do AI-5 esteve acompanhada de uma série de expedientes legais 
para  manter  o  as  prerrogativas  ditatoriais  do  poder  militar  –  como  a  Lei  de  Segurança 
Nacional que ainda vigorava (MELO, 2009). 
Para  além  destas  interpretações  oriundas  do  revisionismo  que  tratamos  rapidamente 
até  aqui–  e  as  problematizamos  –,  há  também  novos  estudos  e  revisões,  com  novas  fontes, 
novas  abordagens  e  que  nos  ajudaram  nesta  pesquisa.  É  notável  assim  uma  reascensão  de 
vários  estudos  pautados  em  uma  história  social  de  base  marxista  a  partir  de  teses  clássicas 
produzidas  entre  os  anos  1960  e  1980  e  têm  se  tornado  efervescentes  na  conjuntura  atual, 
assim como relevantes para as discussões da historiografia atual.  
Para  isso,  faremos  rápida  menção  a  alguns  autores  que  colaboraram  com  a  temática 
sob  o  prisma  do  materialismo  histórico  e  acresceram  com  vasto  conteúdo  sobre  a  ditadura 
militar  no  Brasil  e,  por  conseguinte,  servindo  de  arcabouço  para  esta  pesquisa  em  alguns 
momentos
11

Em ordem temática – iniciando-se pelo momento de pré-golpe até o fim da ditadura no 
processo de transição – talvez devêssemos começar pela menção à René Armand Dreifuss em 
seu  livro-tese  “1964:  A  conquista  do  Estado”,  tendo  como  referencial  teórico  as  leituras  do 
materialista  italiano  Antônio  Gramsci  e  que,  como  bem  pontua  Luciano  Mendonça  de  Lima 
(2016,  p.92-93),  chega  algumas  conclusões  basilares  em  sua  obra,  dentre  as  quais 
destacaríamos por etapas: a transformação do capitalismo brasileiro pós 2ª Guerra, cada vez 
mais  em  consonância  com  as  diretrizes  político-econômicas  hegemonizadas  pelos  EUA;  a 
expansão de um setor da burguesia industrial local associada ao grande capital transnacional a 
partir  do  governo  JK;  uma  crise  de  hegemonia  que  resultara  em  choques  entre  classes 
burguesas e classes populares; o setor transnacional e associado realizando ampla campanha 
política  ideológica  utilizando-se  de  antipropaganda  de  natureza  política  e  ideológica  contra 
movimentos populares e o presidente João Goulart através da grande imprensa e da figura de 
                                                             
11
  Evidentemente,  de  forma  pontual,  citamos  trabalhos  de  autores  de  outras  vertentes  historiográficas  e  que 
também  deram  igualmente  suas  contribuições  para  esta  história  da  ditadura  com  alguma  interpretação  e 
principalmente com fontes e informações que os mesmo tiveram acesso. 


23
 
destaque  de  dois  órgãos,  o  IPES  e  o  IBAD;  e,  por  fim,  a  infiltração  inicial  de  grandes 
membros  destes  órgãos  nos  aparatos  governamentais  do  então  instaurado  regime militar  em 
prol  de  uma  política  econômica  de  favorecimento  tanto  ao  capital  nacional  como 
transnacional, se gestando no Brasil então uma ditadura empresarial-militar. 
Seguindo  boa  parte  deste  escopo  interpretativo  de  matriz  marxista  temos  também 
autores como: Dênis de Moraes e seu estudo sobre as esquerdas no golpe de 1964 (inclusive, 
sua obra de mesmo título é posfaciada pelo próprio Dreifuss)
12
; Maria Helena Moreira Alves 
em  seu  estudo  sobre  a  ditadura,  escrito  ainda  nos  últimos  momentos  da  mesma
13
;  Fabiano 
Godinho  Faria  em  seu  estudo  sobre  o  golpe  e  as  tensões  do  período  Jango  assim  como  a 
organização e militância do PCB à época
14
; a socióloga Maria José de Resende que se dedica 
ao período da ditadura por inteiro e sobretudo dá atenção especial ao chamado momento de 
transição
15
;  José  Paulo  Netto,  que  apesar  de  ser  de  Serviço  Social,  escreveu  um  bom  livro 
síntese  sobre  história  da  ditadura
16
;  João  Quartim  de  Moraes,  que  além  de  ter  feito  um 
clássico  estudo  das  esquerdas  militares,  também  escreveu  outros  textos  sobre  o  golpe  e  a 
natureza  de  classe  do  Estado  Militar
17
;  Gilberto  Calil  em  seus  textos  sobre  a  atuação  do 
integralismo em articulação golpista e de apoio ao golpe, assim como também seu texto sobre 
o  revisionismo  (tendo  em  foco  a  obra  de  Elio  Gaspari)
18
;  sobre  a  política  econômica,  o 
“milagre”  e  a  economia  durante  o  período  de  transição  em  um  contexto  mais  geral 
destacaríamos  Adriano  Codato,  Nilson  Araújo  de  Sousa,  Carlos  Giannazi  e  os  economistas 
Luiz  Carlos  Delorme  Prado  e  Fábio  Sá  Earp
19
  –  embora  alguns  dos  citados  anteriormente 
                                                             
12
 Cf. MORAES, Denis de. A esquerda e o golpe de 64. 3ª Ed. – São Paulo: Expressão Popular, 2011. 
13
 Cf. ALVES, Maria Helena Moreira. Estado e oposição no Brasil (1964-1984). Petrópolis: Vozes, 1984. 
14
  Cf.  FARIA,  Fabiano  Godinho.  Os  militares  e  a  crise  de  1964:  crise  orgânica  e  golpe  de  classe.  Curitiba: 
Editora Prismas, 2014. 
15
 REZENDE, Maria  José de. A ditadura  militar  no Brasil:  repressão e pretensão de  legitimidade:  1964-1984). 
Londrina: EDUEL, 2013. 
16
 Cf. NETTO, José Paulo. Pequena História da Ditadura Brasileira (1964-1985). São Paulo: Cortez, 2015. 
17
 Cf. MORAES, João Quartim. A natureza de classe do estado brasileiro In: PINHEIRO, Milton (org.). Ditadura 
o que resta da transição. São Paulo: Boitempo, 2014. 
MORAES, João Quartim. O colapso da resistência militar ao golpe de 64. In: TOLEDO, Caio Navarro de (org.). 
Visões críticas do golpe: democracia e reformas no populismo. Campinas: EDUNICAMP, 1997. 
18
  CALIL,  Gilberto  Grassi.  Integralismo  e  hegemonia  burguesa:  a  intervenção  do  PRP  na  política  brasileira 
(1945-1965). Cascavel: EDUNIOESTE, 2010. 
CALIL,  Gilberto  Grassi.  O  revisionismo  sobre  a  ditadura  brasileira:  a  obra  de  Elio  Gaspari.  In:  Segle  XX. 
Revista catalana d’història nº07. Cataluña, 2014, p. 99-126. 
19
 Cf. CODATO, Adriano. Intelectuais de Estado e a gestão da política econômica no regime ditatorial brasileiro. 
In: PINHEIRO, Milton (org.). Ditadura o que resta da transição. São Paulo: Boitempo, 2014. 
SOUZA, Nilson Araújo de. A economia da ditadura e da transição. In: PINHEIRO, Milton (org.). Ditadura o que 
resta da transição. São Paulo: Boitempo, 2014. 
GIANNAZI,  Carlos.  A  doutrina  de  Segurança  Nacional  e  o  “Milagre  Econômico”  (1969-1973).  São  Paulo: 
Cortez, 2013. 
 


24
 
tratem bem de quesitos econômicos também, como é o caso de Maria Helena Moreira Alves –
;  Mariana  Joffily  sobre  o  DOI-SP  e  a  Operação  Bandeirantes
20
;  Vanessa  Mattos  e  sua 
dissertação  sobre  os  esquadrões  da  morte
21
;  Alexandre  Tavares  do  Nascimento  Lira  em  sua 
tese  trabalha  ditadura  e  educação  de  forma  detalhada
22
;  sobre  os  combates  travados  entre  a 
ditadura e a resistência armada se faz importante Jacob Gorender em sua obra Combate nas 
Trevas
23
; Ricardo Antunes e seu clássico livro “A rebeldia do trabalho” sobre as organizações 
sindicais  e  greves  organizadas  durante  a  ditadura  (sobretudo  após  meados  da  década  de 
1970)
24
; sobre o período da transição o qual trabalhamos, além dos demais textos citados que 
abarcam  os  21  anos  de  ditadura,  há  ainda  ótimos  textos  de  Anderson  Deo,  David  Maciel  e 
Alexandra Barahona sobre o processo e seus meandros
25
.  
E é neste contexto descrito que se enquadra a presente pesquisa. Partimos, portanto, de 
questões  e  premissas  oriundas  dessa  História  Crítica  em  que  elevamos  o  sentido  de  classe 
como  essencial  para  compreender  os  processos  históricos  que  envolvem  o  tema  da  ditadura 
militar,  destacando  perguntas  como:  de  que  forma  estas  classes  interagiam,  disputavam  e 
reivindicavam posições? Quais classes foram mais beneficiadas? Quais foram mais atingidas? 
E  quais  se  opuseram  e  resistiram?  A  partir  destas  premissas  que  dão  o  sentido  de  classe  ao 
                                                                                                                                                                                              
 
PRADO,  Luiz  Carlos  Delorme  &  EARP,  Fábio  Sá.  O  “milagre”  brasileiro:  crescimento  acelerado,  integração 
internacional  e concentração de renda (1967-1973). In:  FERREIRA, Jorge e DELGADO, Luciana de  Almeida 
Neves (orgs.). O Brasil Republicano: tempo da ditadura. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2010. 
20
 JOFFILY, Mariana. No centro da engrenagem: os interrogatórios na operação Bandeirantes e no DOI de São 
Paulo (1969-1975). São Paulo, EDUSP, 2013. 
21
 MATTOS, Vanessa. O Estado contra o povo: a atuação dos esquadrões da morte em São Paulo (1968-1972). 
Dissertação de mestrado em História. São Pão: PUC, 2011. 
22
  Cf.  LIRA,  Alexandre  Tavares  do  Nascimento.  A  legislação  na  educação  durante  a  ditadura  militar  (1964-
1985): um espaço de disputas. Tese de doutorado em História. Niterói: UFF, 2010. 
Apesar de não estar inserido nessa vertente de origem marxista valer a pena conferir o livro de Rodrigo Patto Sá 
sobre  as  universidades  no  contexto  da  ditadura.  Cf.  MOTTA,  Rodrigo  Patto  Sá.  As  universidade  e  o  regime 
militar. Rio de Janeiro: Zahar, 2014. 
23
 Cf. GORENDER, Jacob. Combate nas Trevas: as esquerdas brasileiras  – das ilusões perdidas à luta armada. 
São Paulo: Ática, 1987. 
Vale  também  conferir  o  clássico  “Brasil  nunca  mais”  que  trata  tanto  dos  métodos  de  tortura  e  crueldades 
cometidas  pelos  militares,  às  organizações  de  esquerda:  Cf.  ARNS,  Dom  Paulo  Evaristo.  Brasil  Nunca  Mais. 
Petrópolis: Vozes, 1985. 
24
 Cf. ANTUNES, Ricardo. A rebeldia do trabalho. Campinas: EDUNICAMP, 1988. 
25
Cf.  MACIEL,  David.  A  argamassa  da  ordem:  da  ditadura  militar  à  nova  república  (1974-1985).  São  Paulo: 
Xamã, 2004. 
MACIEL, David. A Aliança Democrática e a transição política no Brasil. In: PINHEIRO, Milton (org.). Ditadura 
o que resta da transição. São Paulo: Boitempo, 2014. 
DEO,  Anderson.  Uma  transição  à  long  terme:  institucionalização  da  autocracia  burguesa  no  Brasil.  In: 
PINHEIRO, Milton (org.). Ditadura o que resta da transição. São Paulo: Boitempo, 2014. 
BRITO, Alexandra Barahona de. “Justiça transicional” em câmera lenta: o caso do Brasil. IN: PINTO, Antônio 
Costa & MARTINHO, Francisco Carlos Palomanes. O passado que não passa: a sombra das ditaduras na Europa 
do sul e América latina. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2013. 


25
 
golpe  de  1964  e  a  ditadura  –  como  bem  observa  Marcelo  Badaró  Mattos  (2015)  –  iremos 
proceder estes estudos. 
Por  considerarmos  o  papel  decisivo  das  classes  nos  processos  históricos,  logo 
abolimos categorias generalizantes que consideramos não dar conta da complexidade que as 
permeia no objeto em questão. Portanto, consideramos termos como “civil-militar” e o uso de 
“esquerda(s)”  e  “direita(s)”  para  analisar  facções  políticas  como  muito  limitantes  e 
abrangentes,  dando  vazão,  inclusive,  para  ambiguidades  e  interpretações.  Ao  apresentar  a 
ditadura  como  resultado  de  um  “consenso”  da  sociedade  civil  brasileira  denota  um  trato 
homogeneizante  que  exclui  exatamente  os  vários  outros  extratos  sociais  que  se  opuseram  e 
fizeram frente ao regime de exceção. Outras categorias como “povo” e “sociedade” também 
incorrem  no  risco  de  não  dar  a  devida  importância  à  ação  protagonizada  por  empresários, 
trabalhadores, setores intermediários, saindo de cena, assim, as classes sociais e seus conflitos 
(MATTOS, 2015). Para tentarmos responder aos questionamentos levantados pela pesquisa, é 
imprescindível atentarmos para as relações de força presentes na sociedade campinense e suas 
classes e para tanto não trataremos a sociedade ou as classes que a habitam nem como parte 
de  uma  mera  estrutura  superficial  que  serve  a  uma  base  econômica  homogeneizante,  sem 
destacar  o  singular  e  o  diverso  que  habitam  esse  “todo”.  A  classe  não  pode  ser  vista  assim 
como  uma  “‘estrutura’,  nem  mesmo  como  uma  “categoria”,  mas  como  algo  que  ocorre 
efetivamente (e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas” (THOMPSON, 
1997,  p.09).  É  importante  observarmos  como  certos  indivíduos  ou  grupos  vieram  a  ocupar 
determinados  papeis  sociais  e  como  montaram  suas  estruturas  de  poder  através  de  uma 
organização social específica (IBIDEM, p.11). 
Tomamos  assim  o  golpe  de  1964  como  um  movimento  orquestrado  por  uma  elite 
orgânica  empresarial  em  articulação  com  os  militares  da  alta  cúpula  das  forças  armadas  e 
cooperação  dos  EUA,  como  bem  expôs  Dreiffus  (1981),  através  das  articulações  entre 
governo  estadunidense,  as  campanhas  e  ações  políticas  do  complexo  IPES/IBAD  junto  à 
movimentação  de  generais  e  seus  subalternos  na  conquista  de  apoio  de  setores  da  classe 
média  e  do  clero.  Da  mesma  forma,  não  tomamos  os  21  anos  de  ditadura  como  um  regime 
civil-militar.  Apesar  do  consentimento  desta  elite  empresarial  por  serem  os  beneficiários 
diretos durante o período, acreditamos que o termo pode acabar por generalizar ao dizer que a 
sociedade civil (passando uma ideia de um todo) como apoiadora do regime, considerar isto, a 
nosso ver, seria deixar de lado a maioria esmagadora das vezes em que o partido da oposição, 
o MDB, venceu o partido da caserna, a ARENA; seria esquecer-se da militância antirregime 


26
 
de  tantos  trabalhadores,  religiosos,  estudantes  e  demais  classes  em  vários  momentos  no 
decorrer dos 21 anos. 
 
Claro  que  os  militares  não  agiram  em  total  ordem  e  de  forma  uníssona.  Na 
verdade  havia  uma  heterogeneidade  de  intenções  agindo  simultaneamente.  Enquanto,  por 
exemplo,  o  I  Exército  estava  totalmente  disposto  à  execução  do  golpe  (que  inclusive  foi 
afoitamente desencadeado pelo gen. Mourão Filho a partir de Juiz de Fora, Minas Gerais); o 
III Exército, no Sul, era fiel a Brizola e de quebra à  Jango; o  II Exército ainda pairava uma 
nebulosa de indecisão que deixava a incógnita sobre o general Amaury Kruel estar do lado de 
Jango  (seu  amigo  pessoal)  ou  se  aliar  à  dita  “revolução”  sob  a  prerrogativa  de  que  o 
presidente deixasse de lado a linha das reformas de base.
26
 
Todavia,  é  importante  ressaltarmos  que,  se  no  movimento  do  golpe  foi  essencial  à 
cooperação de grandes setores da burguesia brasileira e o apoio de parte da classe média aos 
militares – ilustrado, por exemplo, na Marcha da Família com Deus pela Liberdade em 19 de 
março – desencadeando o movimento iniciado no dia 1 de abril, no decorrer dos 21 anos de 
ditadura,  os militares  foram  provando  o contrário.  Boa  parte  da  classe  média  –  inicialmente 
apoiadora do golpe – é caçada e intimidada
27
 e núcleos da elite burguesa empresarial crentes 
em  tomar  posse  da  máquina  estatal  que  acabam  ficando  de  fora  dos  grandes  cargos 
administrativos do Estado. Passado o governo do general Castelo Branco, os militares foram 
tomando  paulatinamente  as  rédeas  da  administração  além  de  ir  cada  vez  mais  caindo  no 
desagrado  dos  demais  civis
28
.  Apesar  de  a  plutocracia  brasileira  ter  perdido  parte  do  lugar 
inicialmente  concebido,  foi  um  dos  setores  mais  amparados  e  protegidos  em  detrimento  do 
descaso  social  que  os  demais  brasileiros  viviam,  em  um  surto  de  crescente  desigualdade 
social, má distribuição de renda e sua concentração galopante. 
 
Para  além  dos  autores  e  obra  citados  anteriormente  que  direcionaram  seus 
olhares  de  forma  mais  macroanalítica  –  tomando  o  Brasil  como  recorte  de  análise  –,  temos 
também os autores que buscaram observar as particularidades intrínsecas à redução de escala. 
Na  Paraíba  alguns  historiadores  têm  se  detido  a  estudar  o  período  antecedente  ao golpe  e  a 
ditadura  em  seus  21  anos  ou  momentos  específicos  desta  época.  Temos  os  textos  Luciano 
Mendonça e Roberta Gerciane sobre os arquivos militares da cidade de Campina Grande e os 
                                                             
26
 Em ordem de correspondência: I Exercito (com sede no Rio de Janeiro ), II Exército (com sede em São Paulo), 
III Exército (com sede no Rio Grande do Sul) , IV Exército (com sede em Pernambuco). 
27
 Até chegar ao ponto de migrarem para a oposição e lutarem contra a ditadura nas diversas frentes de embate 
(cultural, política, armada, etc). 
28
 Como veremos no decorrer da pesquisa, vários grupos que apoiaram o golpe no princípio, no decorrer foram 
mudando de posição em maior ou menor grau. 


27
 
documentos  da  ditadura
29
  assim  como  o  texto  de  Lúcia  de  Fátima  Guerra  sobre  essa 
documentação  no  estado  da  Paraíba
30
;  Maria  do  Socorro  Rangel  nos  retrata  a  questão  das 
Ligas Camponesas da Paraíba e suas lutas nos anos anteriores ao golpe
31
; Monique Cittadino 
em  seu  texto  sobre  os  impactos  do  golpe  no  estado  e  a  ruptura  do  populismo  godinista
32

Dmitri  da  Silva  Bichara,  com  sua  dissertação  sobre  a  ARENA  até  1969
33
;  Thiago  Trindade 
Marques  trata,  em  sua  dissertação,  da  política  desenvolvimentista  da  ditadura  e  sua 
incorporação no projeto político campinense entre os anos de 1963 e 1969
34
; Wertevan Silva 
Fernandes  trata  das  relações  clientelistas  na  Paraíba  durante  o  Regime  Militar
35
;  Luciana 
Estevam e sua dissertação sobre o esquadrão da morte Mão Branca, assim como meu trabalho 
monográfico e um artigo de Carlos Magno dos Santos Souto sobre o mesmo esquadrão e que 
culminará,  em  breve,  em  sua  tese  de  doutorado  em  andamento  na  UFPE
36
;  ainda  temos 
Josenildo Marques da Silva em sua dissertação sobre o período do governo de Wilson Braga 
na  Paraíba  (1982-1986)
37
;  temos  também  o  livro  da  tese  de  doutorado  de  Damião  de  Lima 
sobre a ditadura e o fim do sonho regional desenvolvimentista para Campina Grande
38
; temos 
uma  série  de  textos  produzidos  por  Paulo  Giovani  desde  o  momento  do  golpe,  mas 
                                                             
29
 Cf. LIMA, Luciano Mendonça de & ARAÚJO, Roberta Gerciane Viana de. Arquivos militares e a pesquisa 



Compartilhe com seus amigos:
1   ...   5   6   7   8   9   10   11   12   ...   72


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal