Universidade federal de campina grande centro de humanidade



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uma  crítica  ao  revisionismo  contemporâneo”  que  traz  uma  coletânea  de  textos  sobre  variados  temas  sob  o 
prisma do  marxismo.  A obra traz um grande  contribuição para esta discussão e aponta  fragilidades em  muitas 
das teses defendidas pelos revisionistas da atualidade. 


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Não  há  para  o  referido  autor  sequer  uma  pretensa  igualdade  de  culpas.  A  direita,  no 
final  das  contas,  quem  conseguiu  alcançar  algum  equilíbrio  –  como  fica  evidente  no  texto 
acima com a evocação de Lacerda quase que como um paladino da democracia. 
Segundo  o  mesmo  autor  –  apoiando-se  fontes  oficiais  do  Serviço  de  Repressão  ao 
Contrabando  constadas  na  obra  do  historiador  Flávio  Tavares  (1999)  –  a  radicalidade  da 
esquerda  era  extremada,  contado  com  núcleos  fortemente  armados,  treinados  e,  inclusive, 
financiados por Cuba (2010, p.359). Para além desta declaração constada em um documento 
oficial (portanto questionável e passível de crítica documental), que outros indícios empíricos 
desta afirmação foram/são atestados? Se essa esquerda estava tão preparada para um combate 
com  armamentos,  munição,  treinamento  e  financiamento,  por  que  esta  mesma  esquerda  não 
utilizou nada disto nos primeiros momentos do golpe? Eles já não estavam de prontidão para 
darem seu próprio golpe, supostamente? E onde estavam os seus supostos apoiadores externos 
que  não  deram  sequer  uma  palavra  em  momento  tão  crucial  ou  mandaram  algum  reforço 
direto?  Onde  está  a  documentação  comprobatória  que  prove  a  existência  desses  núcleos  de 
guerrilhas  armada  antes  de  1964?  Perguntas  como  estas  podem  acabar  pondo  em  xeque, 
algumas  destas  afirmações  sobre  o  dito  perigo  iminente  da  extrema  esquerda  em  marcha 
mediante esse “golpe preventivo”. 
Esta é, quiçá, outra tese emergente dessa onda do revisionismo de 2004  defendida até 
mesmo por Leandro Konder – expoente da teoria marxista no Brasil –, que também apontava 
o  golpismo  como  algo  historicamente  manifesto  da  esquerda  brasileira  e  que  havia  sido 
justamente  nisto  que  residira  a  motivação  da  direita  em  ter  orquestrado  seu  golpe  como 
contramedida, como contra golpe (KONDER, 2004). 
Há, entretanto, nestas teorias,  um pressuposto equivocado de que o Estado é um ator 
neutro nos processos políticos, situando-se para além das disputas da sociedade.  Além disso, 
acaba-se por tomar a democracia como um modelo ideal, que atende a todos os interesses se 
todos seguirem suas regras (MATTOS, 2014). Quando na verdade o que vemos é uma disputa 
mais ou menos intensa em torno de determinados projetos com fins políticos, assim também 
como estritamente classistas em defesa de determinadas ideologias e setores sociais. 
Outro  revisionista  que  tem  trazido  interpretações  problemáticas  mais  recentemente  é 
Marco Antonio Villa. A abrangência de sua obra é geralmente de leitores não especializados, 
sendo mais recepcionada pelo grande publico não acadêmico
5
. Desde completados os 40 anos 
                                                             
5
 Apesar de ser visto de soslaio no meio acadêmico, Villa é historiador de formação, doutor em História Social 
pela  USP  e  é  professor  na  Universidade  Federal  de  São  Carlos  (São  Paulo).  Após  ter  se  aninhado  na  grande 
mídia o vemos juntando-se a rádio Jovem Pan como comentarista, à Veja (até 2016) , escrevendo para O Globo 
 


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do golpe (em 2004), Villa já causava grande burburinho com textos e publicações sobre suas 
polêmicas leituras acerca do regime, assim como os momentos que precedem o golpe. Mais 
recentemente,  completados  os  50  anos  do  golpe  ele  volta  com  mais  força  ainda  através  da 
publicação, desta vez, de um livro  sobre  a ditadura  intitulado “Ditadura à  brasileira – 1964-
1985:  a  democracia  golpeada  à  esquerda  e  à  direita”.  Neste  livro  do  historiador  vemos 
compilada  boa  parte  destas  teses  do  revisionismo  pós  2004,  entretanto  com  boas  doses  de 
exagero e radicalismo em sua abordagem.  Primeiramente o autor abole o recorte de 21 anos 
de ditadura, afirmando que  
O regime militar brasileiro não foi uma ditadura de 21 anos. Não é possível chamar 
de ditadura o período de 1964-1968 (até o AI-5), com toda a movimentação político-
cultural que havia no país. Muito menos os anos de 1979-1985, com a aprovação da 
Lei  da  Anistia  e  as  eleições  diretas  para  os  governos  estaduais  em  1982.  (VILLA, 
2014, p.09) 
Desconsiderar o momento que precede o AI-5, assim como o período Figueiredo com 
todas suas séries de violações aos direitos civis, humanos e políticos de vários cidadãos  que 
aconteceram entre 1964 e 1968 ou entre 1979-1985, beira quase o absurdo em tempos em que 
já  se  produziu tanto  sobre  o  período e  tantos  documentos.  Atitudes  como  está  chegam  a  ser 
desrespeitosas  com  milhares  de  vidas  que  foram  atingidas  pelo  arbítrio  e  truculência  do 
regime e acabam por gerar uma amenização que faz tabula rasa
6
 perante tantas calamidades, 
todas  devidamente  documentadas  e  comprovadas  no  seio  historiográfico.  Nenhuma  destas 
justificativas apresentadas pelo autor anula a existência da violência de Estado praticada em 
ambos os momentos – e sobre o período Figueiredo, em particular é que trataremos com mais 
detalhes  neste  trabalho.  Mais  sentido  talvez  fizesse  pensar  tal  recorte  na  direção  de  um 
alargamento. Alexandra Barahona Brito
7
 (2013) já indica que a transição à Nova República – 
e por tabela o fim da Ditadura – não aconteceu do dia para a noite. Os efeitos de um regime 
que  teria  durado  21  anos  sob  direção  da  caserna  perdurariam  com  visibilidade  até  1989. 
Todavia,  o  mais  sensato  em  termos  historiográficos  seria  pelo  menos  conservar  esta 
periodicidade (1964-1985) e não reduzi-la. 
                                                                                                                                                                                              
 
na  coluna  opinião  atualmente,  tendo  participações  correntes  no  Jornal  Cultura,  além  de  manter  o  seu  blog 
pessoal,  angariando  bastante  popularidade  para  além  dos  muros  das  universidades  –  o  que  particularmente  se 
torna mais preocupante ainda. Sendo assim, não podemos simplesmente o descartar  do hall de historiadores que 
contribuíram de uma forma ou de outra para a historiografia da ditadura militar e que, sem dúvidas, impactou de 
alguma forma com seus escritos sobre o tema em debate.  
6
 Como diz TOLEDO, 2004, p.35. 
7
 A autoria traz um recorte que se inicia em 1964 e vai até 1989. 


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Para  além  desta  conturbada  datação,  o  historiador  também  aponta  para  o  intento 
golpista  tanto  da  direita  quanto  da  esquerda.  Seguindo  esta linha  de  raciocínio  o  autor  parte 
para as especulações imaginárias apontando a existência  de 8 grupos armados da esquerda já 
desde 1962 e organizados com recursos provindos de Cuba (VILLA, 2014, p.28-29), todavia 
Villa não traz fonte alguma, registro ou prova documental para comprovar a existência destes 
grupos. Além disto, o autor desconsidera completamente a participação do governo dos EUA 
na  maquinação  do  golpe,  jogando  no  lixo  toda  a  tese  elaborada  por  Dreifuss  em  uma  mera 
nota de rodapé das seguintes três linhas: “No conjunto dos acontecimentos a participação do 
governo americano foi desprezível, diversamente do que reza a lenda. Os atores políticos se 
moveram pela dinâmica interna e não como  ‘marionetes do imperialismo’” (IBIDEM, p.38). 
Como se a tese central de Dreifuss tivesse se limitado à resumir o complexo movimento do 
golpe a mero ventriloquismo ianque. 
Nesta  esteira  de  revisões  historiográficas,  temos  também  obras  do  historiador  Daniel 
Aarão Reis Filho. Algumas das teorias deste historiador entram em sintonia com a de outros 
citados  até  aqui,  como  o  fim  da  ditadura  em  1979  –  defendida  por  Marco  Antonio  Villa  –, 
quando,  segundo  Reis  Filho  (2014,  p.15-16)  “deixou  de  existir  o  estado  de  exceção,  com  a 
revogação  dos  Atos  Institucionais,  e  foi aprovada  a  Lei  da  Anistia,  ensejando  o  retorno  dos 
exilados”.  Além  disso,  apesar  de  não  desconsiderar  o  período  Castello  Branco  –  como  faz 
Villa  –  o  autor,  caracteriza  o  período  por  eufemismos,  referindo-se  inclusive  aos  anos  que 
precedem  o  AI-5  como  “ditadura  envergonhada”  (REIS  FILHO,  2014,  p.15)  (termo  criado 
pelo  jornalista  Elio  Gaspari  e  que  possui  suas  pertinências  como  veremos  adiante).  Assim 
como  os  demais  autores  acima,  Aarão  também  acredita  no  perigo  iminente  da  esquerda  em 
que  “antes  de  1964  o  Brasil  viveu  uma  ameaça  revolucionária,  uma  ameaça  que  chamo 
reformista-revolucionária.  Foi  um  processo  que  mobilização  de  massas  aqui  no  Brasil  até 
então inédito na república brasileira que ameaçava os fundamentos da ordem” (JOFFILY & 
SCHLATTER, 2011, p. 247). 
Segundo  esses  tipos  de  leitura,  de  acordo  com  Luciano  Mendonça  de  Lima  (2016, 
p.95), a responsabilidade não mais é imputada aos legítimos golpistas, mas “a culpabilização 
de todos, esquerda e direita, dominantes e dominados, espécie de versão tupiniquim da teoria 
dos  dois  demônios”.  Isso  acaba  por  descaracterizar a imagem  de  uma  ditadura  baseada  pelo 
extremo uso coercitivo dando vazão à imagem de “um regime legitimado socialmente e com 
ares de consagração popular” (IBIDEM, p.95). 
Seguindo  nesta  mesma  leitura  trazida  por  Mendonça  podemos  apontar  para  outro 
problema  de  conceituação  feito  não  só  por  Daniel  Aarão,  mas  boa  parte  dos  atuais 


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historiadores  do  revisionismo  em  apontar  a  natureza  do  regime  como  civil-militar.  Ao  se 
afastar da ideia de um sentido de classe, estes autores acabam apontando para a ideia de um 
consenso social em que o peso do apoio da sociedade é fundamental para “para a sustentação 
de  um  regime  político,  ou  para  o  enfraquecimento  de  uma  eventual  luta  contra  o  mesmo” 
(REIS FILHO, 2010, p.182). Para corroborar com essa tese, Reis Filho (IBIDEM, p. 174) traz 
3  exemplos  que  ele  julga  expressivos  para  demonstrar  “apoios  extensos  e  consistentes”:  as 
Marchas da Família com Deus pela Liberdade, antes do golpe, e as Marchas da Vitória, logo 
após  o  golpe,  mobilizando  milhões  de  cidadãos;  os  altos  indicies  de  popularidade  do 
presidente  Garrastazu  Médici  (aferida  por  uma  pesquisa  do  IBOPE,  que  indicava  82%  de 
aprovação  no  início  dos  anos  1970);  e,  por  último,  as  “expressivas  votações  obtidas  pela 
Arena”. 
Como  bem  nos  lembra  Marcelo  Badaró  (2014)  em  suas  considerações  acerca  destas 
teses  sustentadas  por  Aarão  Reis  Filho,  apesar  das  demonstrações  de  apoio  oriundas  das 
marchas  supracitadas,  é  importante  identificar  os  setores  que  se  viam  representados  nestes 
movimentos e pelo regime em si (e nas suas distintas etapas), sem incorrer em generalização. 
Referente  ao  segundo  ponto  há  de  se  levar  em  consideração  que,  apesar  de  servirem  como 
medidores  em  certa  medida,  dados  como  índices  de  popularidade  podem  ser  sonegados  ou 
que, em um período conhecido por ser o mais ríspido do regime, algumas pessoas poderiam se 
sentir  completamente inseguras  de  responder  a  um estranho  que  a  perguntasse  na  rua  se  ela 
apoiava  ou  achava  o  atual  governo  Médici  um  bom  governo  –  muitos  diriam  que  sim  por 
medo.
8
  Por  fim,  a  questão  das  “expressivas  votações”  obtidas  pela  Arena  é  de  difícil 
compreensão,  afinal,  o  partido  é  derrotado  com  frequência,  além  de  nunca  ter  conseguido 
“(com exceção de uma pequena margem  – 50,5%  - favorável nas eleições proporcionais de 
1966) ultrapassar o percentual de votantes na oposição somado ao de votos nulos e  brancos” 
(MATTOS, 2014) e, a partir de 1974, ser ultrapassado pelo MDB em vários pleitos, sobretudo 
nas eleições de 1978. 
Utilizamo-nos  de  alguns  trechos  citados  do  quinto  e  último  livro  da  coleção  sobre 
ditadura militar de Elio Gaspari. A riqueza de detalhes e a gama repleta de documentos que o 
jornalista teve acesso e trouxe a sua obra são reconhecidamente louváveis e têm suas devidas 
importâncias; para nós são as informações e fontes que muitas vezes  são trazidas pelo autor 
que  nos  importa  e  as  utilizamos  para  os  fins  deste  trabalho.  Todavia,  com  relação  às 
                                                             
8
 Além do mais vale ressaltar que o IBOPE (Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística) – o qual Daniel 
Aarão Reis  Filho utiliza como  fonte  –  já  foi alvo de diversas  investigações e  CPIs  no decorrer da história por 
acusações de diversas fraudes, o que diminui mais ainda a credibilidade dos dados. 


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perspectivas  defendidas  em  sua  obra  geral  sobre  o  tema,  possuímos  nossas  divergências. 
Desde a maneira que Gaspari trata com eufemismo o período pré-AI-5 como “envergonhada” 
ou  ao  último  governo  do  regime  como  “ditadura acabada”;  a  culpabilização  da esquerda  no 
golpe de 1964; a forma elogiosa que trata da transição feita pelo alto, assim como das figuras 
de Golbery Silva e Couto e Ernesto Geisel (CALIL, 2014, p.125-126). 
Como em alguns casos são observáveis, além da falta de comprovações empíricas ou 
factuais, as interpretações que muitos destes autores oferecem possuem fragilidades. “A rigor, 
são ideias falaciosas que passam a ter significados políticos e ideológicos claros e precisos no 
debate  historiográfico; a  rigor,  endossam  uma  visão  conservadora  e  reacionária  do  golpe  de 
1964.”  (TOLEDO,  2004,  p.36).  Algumas  dessas  suposições  podem  ser  prontamente 
problematizadas e postas em xeque.
9
 
A primeira consideração seria justamente à incógnita, mesmo após mais de 50 anos do 
golpe,  em  torno  desse  projeto  golpista  da  esquerda  ou  do  presidente  João  Goulart.  Nem 
mesmo  após  a  apreensão  de  vários  arquivos  de  organizações  de  esquerda  ou  do  presidente 
Jango  nos  primeiros  instantes  do  golpe  pôde-se  constatar  documento  algum  que  constasse 
sequer com um esboço de projeto para tomada de poder ou de realização de um golpe, fosse 
por meios políticos ou revolucionários. Uma questão chave que Toledo (2004, p.37) nos traz 
sobre a ameaça de Goulart é: 
Em  outubro  de  1963,  pressionado  pela  alta  hierarquia  militar,  Goulart  solicitou  ao 
Congresso a aprovação de um decreto que impunha ao país estado de sítio. A grave “comoção 
interna”  –  que  justificava  o  pedido  –  se  referia  a  uma  insultuosa  e  agressiva  entrevista  de 
Carlos  Lacerda  a  um  jornal  norte-americano  onde  pregou  abertamente  o  golpe  de  Estado  e 
atacou  os  ministros  militares.  Referia-se  também  às  frequentes  greves  operárias  e  atos  de 
insubordinação  dos  subalternos  das  Forças  Armadas.  Direita  e  esquerda,  desconfiando  das 
intenções  de  Goulart,  negaram  apoio  à  proposta.  Duas  observações:  Goulart,  valendo-se  de 
dispositivo  constitucional,  que  previa  a  decretação  da  medida  de  força,  enviou  a  proposta  à 
aprovação do Congresso. Não tendo sido bem-sucedido, voltou atrás, retirando o pedido. Um 
chefe  de  Estado,  determinado  a  dar  um  golpe  –  e  apoiado  pelos  comandantes  militares  –, 
aceitaria passivamente a negativa do Congresso sem reagir de forma enérgica? 
                                                             
9
  Em  um  ainda  atual  e  bastante  relevante  artigo  de  2004,  em  ocasião  dos  40  anos  do  golpe,  Caio  Navarro  de 
Toledo  levanta  inúmeras  questões  para  confrontar  essas  teorias  revisionistas  que  esboçamos  aqui  e  outras 
tratadas  em  seu  texto.  Cf.  TOLEDO,  Caio  Navarro  de.  1964:  Golpismo  e  democracia.  As  falácias  do 



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