Universidade federal de campina grande centro de humanidade



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INTRODUÇÃO 
Com os 50 anos do golpe militar completados recentemente – em 2014 – e os 30 anos 
que marcam seu fim – em 2015 –, muitas questões, novas e antigas, voltaram à efervescência 
dos debates. Eventos têm ocorrido Brasil afora, livros têm sido escritos, revisões sobre o tema 
a partir dos mais variados pontos de vista têm sido feitas
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, novos dados e documentações têm 
sido  revelados,  além  da  própria  renovação  constante  do  arcabouço  teórico-metodológico  da 
historiografia,  que  vem  nos  permitindo  novas  leituras  e  olhares  para  fontes  até  então 
inexploradas ou obscurecidas. 
É possível dizermos que há uma gama relativamente grande de trabalhos acadêmicos 
produzidos  sobre  o  tema  em  questão  sob  diversas  abordagens  e  pontos  de  vistas.  As 
produções  sobre  esta  temática  vão  desde  análises  da  conjuntura  econômica  dos  governos 
militares,  passando  por  olhares  voltados  para  a  produção  e  manifestação  cultural  da  época; 
das medidas e relações políticas e partidárias; dos conflitos sociais e participação  de setores 
da  sociedade  civil,  tanto  na  resistência  como  na  coadunação  com  o  projeto  militar;  das 
práticas  de  violência  e  opressão  policial  tanto  nas cidades  quanto  nos  campos;  do papel  dos 
órgãos midiáticos durante o regime etc.. Há uma série de abordagens feitas por diversas áreas 
de  saber,  como  a  Sociologia,  Direito,  Economia,  História,  Jornalismo,  Ciências  Políticas, 
dentre outras áreas das ciências humanas. A nós, obviamente, competirá falarmos a partir do 
nosso lugar de ofício, a História. 
A historiografia brasileira só veio começar a  abordar de forma mais visível nos anos 
1990,  já  após  o  fim  da  ditadura
2
.  Com  estas  novas  obras,  além  das  já  existentes,  temos  um 
ampliado leque de possibilidades de análise deste período quando levamos em conta o grande 
número de fontes, além de enriquecimento teórico e as próprias questões do tempo presente 
                                                             
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  Mais  adiante,  esmiuçaremos  mais  detalhadamente  essas  questões  sobre  nomenclaturas  utilizadas,  teorias 
adotadas e posições tomadas por vários autores e por nós nesta pesquisa. 
 
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  O  fato  de  muitos  destes  estudos  só  terem  sido  empreendidos  após  o  fim  da  ditadura,  estão  relacionados 
justamente à quase impossibilidade de se trabalhar e muito menos publicar  obras ligadas à ditadura (a não que 
ser que fosse de caráter apologético, evidentemente). Além do caráter censurador, havia a grande dificuldade de 
acesso  a  fontes,  mas  ainda  assim  destacaram-se  por  suas  pesquisas  nomes  como  Moniz  Bandeira  e  Jacob 
Gorender. As poucas pesquisas existentes ainda na Ditadura aconteciam muitas vezes no exterior por professores 
que saiam para fazer doutorado fora. Todavia, se faz importante ressaltar a existência de trabalhos de excelência 
produzidos ao calor do momento por não brasileiros ainda durante a ditadura.  Já em 1981, por exemplo, temos 
uma  obra  reverenciada  até  os  dias  atuais  por  sua  profundidade,  qualidade  e  variedade  documental.  A  referida 
obra  é  o  livro  “1964:  a  conquista  do  Estado.  Ação  política,  poder  e  golpe  de  classe”  resultado  da  tese  de 
doutorado  do  cientista  político  e  historiador  uruguaio  René  Armand  Dreifuss  na  Universidade  de  Glasgow, 
Escócia (produzida entre 1976 e 1980). Outra obra também produzida ainda no início da Ditadura é o livro do 
brazilianista  estadunidense  Thomas  Skidmore  intitulado  “Brasil:  de  Getúlio  a  Castelo  Branco  (1930  –  1964)” 
publicado ainda em 1967. 


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que  demandam  questões.  Com  a  utilização  de  vários  tipos  combinados  de  fontes  e  a 
ampliação do arcabouço documental no campo da História no decorrer do século XX com as 
gerações  dos  Annales  pudemos  detectar  cada  vez  mais  detalhes  que  até  então  passavam 
despercebidos,  observar  acontecimentos  de  ângulos  mais  diversificados  e  enriquecer  os 
trabalhos acadêmicos lhes atribuindo mais qualidade. Com essa transformação e inovação que 
atingiu  todo  o  ramo  historiográfico  global,  no  contexto  brasileiro  contemporâneo  isso  tem 
caminhado ao lado do avanço da democratização e ampliação dos mecanismos de cidadania e 
que  por  sua  vez  propicia  “a  releitura  dos  acontecimentos  referentes  à  ditadura  militar,  com 
identificação de novas fontes que minam a sustentação da história oficial” (FERREIRA, 2014, 
p.149).  Além  disso,  é  dever  da  História  superar  o  longo  tempo  que  se  passou  sem  debater 
certas  questões  sobre  esse  período  e  o  tempo  que  certas  fontes  documentais  permaneceram 
eclipsadas com o objetivo principal de tentar buscar: “reparação, o fornecimento da verdade e 
construção da memória, a regularização da justiça e restabelecimento da igualdade perante a 
lei  e  a  reforma  das  instituições  perpetradoras  de  violações  contra  os  direitos  humanos” 
(ABRÃO, 2012, p.59 apud FERREIRA, 2014, p. 149). 
. Carlos Fico (FICO, 2004, p.40-41) nos trás um mapeamento realizado pelo Grupo de 
Estudos sobre Ditadura Militar da UFRJ que nos diz que  
[...]  entre  1971  e  2000  foram  produzidas  214  teses  de  doutorado  e  dissertações  de 
mestrado sobre a  história da ditadura  militar, 205 delas  no Brasil e as restantes  no 
exterior.  O  crescimento  paulatino  do  número  de estudos  sobre  a  temática  é  visível 
cotejando-se a produção de teses e dissertações em alguns quinquênios: no período 
1971-1975  foram  defendidos  apenas  dois  trabalhos;  entre  1986  e  1990  as  defesas 
chegaram  a  47;  no  final  do  período,  entre  1996  e  2000,  registraram-se  74  teses  e 
dissertações. Os principais focos de interesse foram os movimentos sociais urbanos 
(27 trabalhos), os temas da arte e da cultura (também com 27 trabalhos), a economia 
(25)  e  os  assuntos  relacionados  à  esquerda  e  à  oposição  em  geral  (20  teses  e 
dissertações).  Em  seguida  vêm  a  imprensa  (15),  a  censura  (13),  a  crônica  dos 
diversos governos (11), o movimento estudantil (8) e o estudo do próprio golpe (6), 
entre outros temas.  
Sem sombra de dúvidas podemos dizer que estes estudos se multiplicaram após 2004 – 
período  em  que  foi  realizado  este  levantamento.  Algumas  destas  produções  têm  assumido 
uma das vertentes do revisionismo ao tentar reavaliar e reler os acontecimentos ocorridos no 
decorrer  dos  21  anos  de  ditadura.  Algumas  destas  interpretações  muitas  vezes  acabam  por 


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amenizar os impactos reais que a ditadura proporcionou (quando não negando muitos deles)
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Por  ser  uma  memória  ainda  recente  na  sociedade  brasileira,  há  ainda  um  confronto  destas 
memórias,  e  a escrita  do  historiador  encontra-se  muitas  vezes  em  meio  a  este  turbilhão. Em 
primeiro  nível  esses  embates  são  atravessados  por  lutas  por  uma  hegemonia  na 
contemporaneidade e com projeções futuras no que Koselleck (2006) chama de horizontes de 
expectativa.
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Desde pelo menos o final dos anos 1980 e início dos 1990, vem sendo produzida uma 
literatura  revisionista  sobre  o  golpe  de  1964,  cujo  marco  inicial  é  o  trabalho  de  Argelina 
Figueiredo,  Democracia  ou  reformas?  (1993),  “em  que  a  autora  defende  a  ideia  de  que  a 
radicalização  política  da  esquerda  inviabilizou  a  combinação  daquela  democracia  com 
reformas  sociais,  opondo  ‘democracia’  a  ‘reformas’”  (MELO,  2009,  p.09).    Essa  mesma 
perspectiva teórica e interpretativa vem sendo seguida por historiadores como Jorge Ferreira e 
Daniel  Aarão,  que  explicam  o  golpe  em  decorrência  da  falta  de  apego  pela  democracia  por 
parte de todo o espectro político, da direita à esquerda. Tais teses ganharam força quando dos 
debates  acadêmicos  em  torno  dos  quarenta  anos  do  golpe,  onde  tais  ideias  tiveram  grande 
repercussão na imprensa. 
Para  Jorge  Ferreira  (2010),  torna-se  evidente  uma  culpabilização  da  esquerda  para  o 
momento  do  golpe,  onde  estes  não  conseguiam  manter  dialogo  político  por  seu  demasiado 
radicalismo e pela atuação revolucionária de Brizola e por lideranças sindicais, camponesas, 
estudantis,  dos  subalternos  das  Forças  Armadas,  grupos  marxista-leninistas,  políticos 
nacionalistas,  assim  como  a  direita  latifundiária  e  tradicional  udenista  (TAVARES,  2004, 
p.35). Segundo o autor, o clima de tensão política da esquerda x direita só fomentava o clima 
de antidemocracia que culminara no golpe: 
A radicalização política, por sua vez, fragilizava ainda mais o governo. Em setembro, 
Leonel  Brizola,  falando  em  nome  das  esquerdas,  defendeu  o  fechamento  do  Congresso 
Nacional  e  pediu  que  o  Exército  restaurasse  os  poderes  presidenciais  de  Goulart.  Lacerda, 
mais uma vez, denunciou o perigo de golpe comunista prestes a acontecer. (2010, p.358) 
                                                             
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 Com  isto não estamos querendo dizer que todo e qualquer ato de revisar um tema e  lança novos olhares é,  
priori, algo ruim e problemático. Não se trata de demonizar todos os que revisam o  tema, mas de apontar certo 
estrato deste bloco na historiografia que têm cometido equívocos que julgamos de caráter grave. O ato de revisar 
um  tema  é  algo  saudável  e  frutífero  à  medida  que  se  descobrem  novas  fontes,  novos  métodos  e  teorias  que 
possam corroborar com a pesquisa histórica. 
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 No sentido desta discussão temos o livro organizado por Demian Melo intitulado “A miséria da historiografia: 



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