Universidade federal de campina grande centro de humanidade


Campina Grande (1930 – 1950)



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Campina Grande (1930 – 1950). Tese de doutorado. João Pessoa: UFPB, 2007.  
SOUSA, Fábio Gutenberg R.B. de. Cartografias e imagens da cidade: Campina Grande (1920 – 1945). Tese 
de doutorado. Campinas: UNICAMP, 2001.  
SOUZA,  Antônio  Clarindo  B.  de.  Lazeres  permitidos,  prazeres  proibidos:  sociedade,  cultura  e  lazer  em 
Campina Grande (1945 – 1965). Tese de doutorado. Recife: UFPE, 2002.  
CAVALCANTI,  Silêde  Leila  O.  Mulheres  modernas,  mulheres  tuteladas.  Mestrado  em  História.  Recife: 
UFPE, 2000.   
 


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para  localizar  de  forma  mais  precisa  e  com  a  devida  acentuação  os  acontecimentos  e 
documentos  que  sedimentam  a  escrita.  Para  isso  se  faz  importante  em  alguns  momentos  a 
redução  de escala  para  os  âmbitos  locais  no  sentido  de  podermos  distinguir  elementos  mais 
íntimos nos meandros do tear da história, procurando compreender como diversos processos e 
acontecimentos  se  enquadram  em  meio  ao  conjunto  do tecido  histórico.  É  neste  sentido  que 
lançaremos um novo olhar para essa temática ao tentar observar como o chamado período de 
“reabertura à  democracia”  ou “redemocratização”  do  Estado  brasileiro  –  com  João  Baptista 
Figueiredo  (1979  –  1985)  –  ocorreu  em  âmbito  local  na  cidade  de  Campina  Grande  (PB)  e 
como esse processo se refletiu na sociedade campinense.
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Para tanto recorreremos ao auxílio de várias fontes documentais que nos ajudarão com 
a obtenção de respostas  e soluções  para as perguntas a serem indagadas neste trabalho, pois 
são as fontes que guiam o fazer historiográfico, fomentam os questionamentos e dão o norte 
de nosso métier. Portanto é preciso a perícia, o conhecimento e a técnica no trato com estas 
documentações  para  não  transformar,  como  sugere  LeGoff  (1994),  em  algo  incólume  e 
absoluta  prova  histórica,  portador  de  uma  Verdade  intransponível,  mas  sim  como  algo 
passível de ser analisado de forma crítica e criteriosa. 
Graças à inserção de novos tipos de fontes e a ampliação do arcabouço documental no 
campo da História promovida pelos Annales pudemos trazer cada vez mais detalhes, observar 
acontecimentos  de  ângulos  mais  diversificados  e  enriquecer  os  trabalhos  acadêmicos  lhes 
atribuindo mais qualidade (BURKE, 1992). Com essa transformação e inovação que atingiu 
todo o ramo historiográfico global, no contexto brasileiro contemporâneo isso tem caminhado 
ao lado do avanço da democratização e ampliação dos mecanismos de cidadania e que por sua 
vez propicia “a releitura dos acontecimentos referentes à ditadura militar, com identificação 
de  novas  fontes  que  minam  a  sustentação  da  história  oficial”  (FERREIRA,  2014,  p.149). 
Além  disso,  é  dever  da  História  superar  o  longo  tempo  que  se  passou  sem  debater  certas 
questões  sobre  esse  período  e  o  tempo  que  certas  fontes  documentais  permaneceram 
eclipsadas com o objetivo principal de tentar buscar: “reparação, o fornecimento da verdade e 
construção da memória, a regularização da justiça e restabelecimento da igualdade perante a 
                                                             
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  Este  é,  sobretudo,  o  ponto  central  do  ineditismo  deste  trabalho  se  comparado  com  os  demais  citados 
anteriormente que tratam da História local (seja da Paraíba ou da cidade de Campina Grande em específico). Até 
então nenhum historiador se deteve a estudar a cidade de Campina Grande durante o período Figueiredo (1979-
1985)  no  intento  de  tentar  identificar  as  contradições  dentro  de  seu  governo  de  reabertura  e  como  se 
manifestaram  aqui  os  efeitos  de  suas  medidas  e  demonstrar  como  a  sociedade  política  exalava  opressão  e 
truculência.  Os  devidos  objetivos  e  fins  desta  obra  ainda  serão  mais  bem  esmiuçados  no  decorrer  desta 
introdução. 


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lei  e  a  reforma  das  instituições  perpetradoras  de  violações  contra  os  direitos  humanos” 
(ABRÃO, 2012, p.59 apud FERREIRA, 2014, p. 149). 
Assim  sendo,  podemos  elencar  o  papel  da  memória  e,  por  conseguinte,  da  memória 
transmitida  oralmente  e  de  sua  relação  com  a  História  enquanto  possível  documento, 
passando-se  a  perceber  o  quão  vital  poderiam  ser  estes  relatos  para  a  escrita  da  história. 
Todavia,  Halbwachs  já  muito  antes,  em  nome  da  Sociologia,  já  nos  falava  do  quanto  a 
memória coletiva depende do poder social do grupo que a detém, passando assim a se tornar 
passível  de  manipulação,  alteração  ou  até  mesmo  ocultação  (HALBWACHS,  2004).  E  foi 
justamente  a  partir  disso  que  muitos  historiadores  se  sentiram  mobilizados  a  reconhecer  a 
subjetividade, as distorções dos depoimentos e a falta de veracidade, não como um meio de 
desqualificar estes relatos, mas sim de tratar tudo isso como fonte adicional para o espectro da 
pesquisa (FERREIRA, 2002, p.221).  
A abordagem da ditadura vista enquanto algo ainda “inacabado” se dá pelo fato de que 
esta  página  da  nossa  história  ainda  está  longe  de  se  encerrar;  vários  novos  documentos  são 
descobertos com o tempo (e muitos ainda estão por se tornarem públicos), novas pessoas são 
entrevistadas sobre suas vivências e participações durante o período, isto sem falar de pessoas 
desaparecidas ou mortas que não tiveram seus paradeiros esclarecidos ou seus algozes sequer 
julgados graças à Lei de Anistia de 1979. 
Surgindo durante os anos 1950 após a invenção do gravador de áudio surge mais uma 
valiosa  fonte  histórica  –  o  relato  oral  de  memória  –  e  só  na  década  de  1970  que  vem  ser 
introduzido no Brasil e através do trabalho  do CPDOC, tendo sido criada apenas em 1994 a 
Associação Brasileira de História Oral. 
Segundo  a  historiadora  Sônia  Maria  de  Freitas  (2006,  p.18)  a  História  Oral  consiste 
em  “um  método  de  pesquisa  que  utiliza  a  técnica  da  entrevista  e  outros  procedimentos 
articulados entre si, no registro de narrativa da experiência humana”. Os registros orais serão 
para  nós  uma  fonte,  um  documento,  o  qual  iremos  lançar  perguntas  e  fazermos  as  devidas 
análises para a pesquisa e por isso não devemos encarar os relatos como sendo o passado em 
si (ALBERTI, 2005, p.29). 
Podemos,  de  acordo  com  Sônia  (2006,  p.  19-23),  dividir  a  História  Oral  em  três 
diferentes gêneros
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: tradição oral, história de vida e história temática. 
 
A “tradição oral” é todo o testemunho transmitido verbalmente de uma geração 
para outra, mas que, todavia, não é algo presente apenas em sociedades tribais e/ou iletradas – 
                                                             
47
 Já a Verena Alberti divide em apenas dois tipos: a história de vida e a história temática. 


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como  alguns  podem  vir  a  pensar  –,  essa  tradição  está  tanto  em  sociedades  urbanas  quanto 
rurais;  é  tudo  aquilo  que  uma  sociedade  considera  importante  e  que  deve  ser  transmitido 
(IBIDEM,  p.  19-20).  Como  exemplo,  podemos  citar  as  cantigas  de  roda,  a  culinária, 
brincadeiras e histórias infantis. 
 
A  “história  de  vida”  pode  ser considerada  uma espécie  de  autobiografia  feita 
pelo  indivíduo  e  sobre  o  próprio  indivíduo  em  que  lhe  é  dada  liberdade  para  falar  de  suas 
vivências experiências e sua história (IBIDEM, p.21). Costuma ser bastante longa pelo caráter 
livre e sem eixo central com uma temática focada como veremos a seguir. 
 
Na  “história  temática”  –  a  qual  utilizaremos  –  a  entrevista  é  guiada,  como  o 
nome  sugere,  por  um  tema central.  Geralmente  sobre  uma  experiência  ou  fase  especifica  da 
vida de um sujeito – neste caso, sobre determinada vivência no período da Ditadura. Ela tem 
mais  uma  característica  de  depoimento  por  não  abranger  necessariamente  a  totalidade  da 
existência do informante (IBIDEM, p. 21). 
Sobre  as  entrevistas  há  algumas  ressalvas  a  se  fazer.  Primeiro:  trabalhar  com  relatos 
orais  de  memória  não  é  uma  questão  orientada  por  critérios  quantitativos,  mas  sim 
qualitativos  (ALBERTI,  2005,  p.31).  Assim  sendo  não  adianta  sair  entrevistando  várias 
pessoas de forma aleatória, provocando – inclusive  – uma saturação na pesquisa com vários 
depoimentos  repetidos  ou  muito  semelhantes  um  ao  outro;  esse  é  um  trabalho  criterioso  e 
exige atenção nas escolhas das pessoas, contando com aqueles que realmente tem algo útil a 
relatar depoimentos significativos para sua pesquisa. Segundo: sempre leve em conta que seu 
entrevistado  pode  estar  falando  algo  que  não  corresponde  necessariamente  a  um  certo 
acontecimento  e  isso  pode  se  dar  por  vários  motivos  que  vão  desde  falha  da  memória  ou 
omissão por motivos pessoais (gerados por possíveis traumas). 
Diante do que já foi exposto, podemos constatar que se faz indispensável esse resgate 
da memória, seja coletivo ou individual, de sujeitos que viveram o período em questão. Para 
isso iremos nos valer de relatos orais de memória através da análise de depoimentos cedidos à 
Comissão  da  Verdade,  da  Memória  e  da  Justiça  das  entidades  da  UFCG,  contemplando 
diversas falas de pessoas que foram direta ou indiretamente afetadas pelo regime em Campina 
Grande à época ou desempenharam algum papel em algum cargo público. 
Todavia, os relatos orais de memória não serão suficientes para sanar nossas dúvidas e 
os  objetivos  de  nossa  pesquisa.  Para  confrontar  e/ou  corroborar  com  algumas  fontes  orais, 
iremos também contar com fontes impressas. 
Na “2ª Geração dos Annales”, Fernand Braudel (2005) já nos alerta a importância das 
crônicas e jornais, responsáveis por noticiar tanto grandes acontecimentos que estão na ordem 


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do  dia  como  os  medíocres  acidentes  da  vida  ordinária  –  se  comparados  aos  ditos  grandes 
acontecimentos  históricos  –  e  permitindo  fazermos  leituras  acerca  de  um  cotidiano,  seja  na 
esfera do político, do social, do cultural, do institucional, do religioso ou do literário. Aqui os 
jornais  assumem  uma  das  mais  comuns  fontes  de  acesso  a  informações  desse  período  em 
vários aspectos, assim como ela representa ao mesmo tempo as ausências de informações.  
Contudo, os noticiários jornalísticos, como as demais fontes, não falam por si nem se 
instituem enquanto verdade, a produção de qualquer jornal, ou até mesmo de qualquer outro 
veículo  de  comunicação,  está  intimamente  ligada  com  as  conjunturas  política,  econômica, 
social  e  cultural  em  que  estão  inseridos  em  articulações  com  o  tempo  e  o  espaço  no  qual  a 
fonte  se  insere  (LUCA,  2010),  sendo  assim  passiveis  de  interpretações  e  questionamentos, 
pois  muitas  vezes  incorrem  no  risco  de  apresentarem  opiniões  particulares  com  tendências 
ideológicas  definidas  em  um  campo  circunscrito,  ilustrando  interesses  próprios  ou  de  uma 
instituição,  sem  falar  também  no  fato  de  que  o  “não  dito”  pode  ser  passível,  também,  de 
interpretação  –  principalmente  em  um  estudo  como  este  que  leva  em  conta  o  caráter 
censurador exercido pelo Estado militar. O próprio Gramsci (1978, p.179) já nos alerta para o 
caráter  ideológico  dos  jornais  quando  afirma  que  para  manter  a  fidelidade  de  leitores  e 
assinantes de determinados setores da sociedade, é preciso moldar ideologicamente aquilo que 
é  produzido  para  ser  impresso  a  fim  de  satisfazer  determinadas  necessidades  intelectuais  e 
políticas.  É  assim  importante  analisar  a  imprensa  enquanto  meio  de  comunicação  apenas 
como  mero  dispositivo  de  “informação”  e  “mensagens”  –  e  não  como  meio  de  produção, 
sobretudo  –  sem  identificar  estes  lastros  ideológicos  pode  resultar  em  graves  penalidades 
dentro  de  uma  perspectiva  materialista  histórica  (WILLIAMS,  2011,  p.70).  Segundo 
Raymond  Williams  (2011,  p.83)  “o  que  está  ‘sendo  visto’  no  que  parece  ser  uma  forma 
natural é em parte, ou em grande parte, o que ‘é feito para ser visto’”. 
É  importante  sempre  atentarmos  a  uma  primeira  questão:  “qual  o  posicionamento 
político daquele jornal?”.  Com quem se alinhava o projeto político editorial de tais jornais? 
Com o governo militar? Que setores da sociedade? Com a plutocracia? Industriários? De que 
forma isto influenciava suas matérias e sua relação com o Estado de exceção? Por outro lado 
também  havia  a  chamada  “imprensa  alternativa”  com  jornais  geralmente  clandestinos
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  que 
eram  impressos  em  gráficas  de  porão,  em  casas  em  estúdios  pequenos  e  improvisados  que 
geralmente eram ligados a grupos de resistência ou partidos. Estes eram  avessos ao regime e 
geralmente circulavam clandestinamente. 
                                                             
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  A  exemplo  disso  podemos  citar  o  Voz  Operária,  O  Movimento,  Pasquim,  Opinião,  Em  Tempo,  Versus, 
Mulherio, Lampião da Esquina, entre outros vários. 


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Nesse caso, recorremos aos dois maiores veículos do jornalismo impresso de Campina 
Grande entre os anos de 1979 e 1985: O Diário da Borborema e o Jornal da Paraíba e também 
outros jornais da grande imprensa nacional (Jornal do Brasil, O Globo, Estado de São Paulo, 
entre outros). Além dos textos publicados, há outra coisa bastante importante de se observar 
nos jornais da época: sua iconografia. Nisso chamamos atenção para fotografias e charges. 
Muitas vezes os jornais se valiam das charges como um artifício de crítica sub-reptícia 
justamente pelo tom satírico e quase imperceptível do  mesmo e que algumas vezes passaram 
despercebidas  pela  censura.  As  charges  podem  ser  vistas  assim  como  forma  discreta  de 
resistência, crítica e oposição à ditadura militar em que  
[...]  a  compreensão  da  imagem,  da  charge  como  documento,  fragmento  de  uma 
realidade histórico-social, desconstruída através da análise do discurso iconológico, 
elucida importantes embates histórico-sociais. Permite compreender o alcance dessa 
forma de expressão junto ao social e ao mesmo tempo perceber o “perigo” temido e 
observado pelos censores do regime. (GOMES & SILVA, 2011, p.1192) 
Mas  se  por  um  lado  a  charge  tinha  esse  caráter  crítico  e  denunciativo,  por  outro  ela 
poderia  servir  para  afirmar  estereótipos  e/ou  afirmações  ideológicas  dos  grupos  dominantes 
que os controla. 
Quanto à leitura de uma mensagem fotográfica, é essencial considerar tal fonte como 
totalmente  provida  de  intenção,  seja  por  parte  do  fotógrafo  ou  de  quem  o  encomendou  tal 
fotografia, negando “aquelas perspectivas que a tomam como ‘mero veículo de informações’, 
transmissor imparcial e neutro dos acontecimentos, nível isolado de realidade político-social 
na qual se insere” (CEPELATO & PRADO, 1980, p. 19).
 
Para  Roland  Barthes,  uma  imagem  fotográfica  contém  uma  mensagem  e  por 
consequência,  uma  sociologia  na  medida  em  que,  “trata-se  de  estudar  grupos  humanos,  de 
lhes definir motivações, atitudes, e de tentar ligar o comportamento deles à sociedade total de 
que fazem parte” (BARTHES, 1978, p.303). Deste modo, entendemos que a fotografia porta 
em si, além de uma estética, uma ideologia partilhada (ou não) pela cultura que a acessa. A 
partir  desta  concepção  que  entrelaça  os  emissores  (editores)  e  os  receptores  (leitores)  das 
fotografias, poderemos pensar as formas com as quais as fotografias eram dispostas, como os 
textos  estavam  articulados  em  discursos  e  mais:  como  isso  era  recepcionado  pelos  leitores. 
Por  isso,  a  mensagem  fotográfica  em  sua  essência  contém  uma  conotação  importante  de 
verossimilhança  “constituído  quer  por  uma  simbólica  universal,  quer  por  uma  retórica  de 
época,  numa  palavra,  por  uma  reserva  de  estereótipos  (esquemas,  cores,  grafismos,  gestos, 
expressões, grupos de elementos)” (BARTHES, 1978, p.305). Ou seja, a conotação presente 

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