Universidade federal da bahia faculdade de medicina da bahia



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Baiana magra é feinha, baiana magra é feia (risos). Eu reclamo assim: eu 

sou gorda para meu marido, quando eu tiro a roupa aquele negócio, mas eu 

gorda para o meu trabalho? Eu me acho o máximo. Há 13 anos eu era um 

palitinho, vestia as roupas, ficava tudo balançando em mim, e agora não, eu 

to chique, eu me acho um máximo (Baiana Joana). 

 

 

Este corpo obeso para a vida social não é satisfatório, pois quando não 



estão em seus pontos de trabalho, o referencial de corpo referido por estas 

trabalhadoras é o padrão de beleza divulgado pela mídia: corpos magros, 




 

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esculpidos e belos. “Eu queria perder uns quilinhos” (Baiana Helena). 



Adicionado a isso, este corpo obeso é sempre relacionado com a estética que 

apresenta a baiana de acarajé, mas não como um corpo doente que pode ser 

adquirir outras enfermidades.

  “


Porque tem pessoas que é gorda demais por 

doença né? E tem aquelas pessoas gordinhas, cheinhas, que é uma gorda 

cheinha, mas a saúde tá inteira (Baiana Helena). 

 

 



Eu sou uma pessoa que eu gosto de tudo de mim, eu não sinto complexo 

de nada, eu não me acho feia de nada, tudo para mim está confortável, eu 

to achando agora que eu estou com uma barriguinha, estou caminhando 

todos os dias pela manha e fechando a boca, só tenho colesterol alto. 

Baiana Maria 

 

 



 

Segundo Gonçalves (2004), estas mulheres podem achar a sua 

corpulência “normal”, por exemplo, pelo fato de que algumas doenças 

atualmente associadas à obesidade pela Medicina como hipertensão arterial, 

diabetes, colesterol elevado e muitas outras, não apresentarem sintomas nas 

fases iniciais, o que pode tornar mais difícil a busca pelo tratamento, pois não 

sente a doença (dor, por exemplo). Este fato pode ser agravado quando se 

sabe que existe por detrás de todo o processo de trabalho um ritual de 

oferenda. Neste sentido, agradar o orixá pode trazer uma sensação de prazer e 

satisfação, mascarando todo processo de dor e sofrimento que pode gerar este 

tipo de trabalho. 

No candomblé, os corpos mais aceitos são os volumosos, corpulentos, 

por existir uma relação destes com os rituais desta religião. Estes corpos 

significam saúde e beleza. Neste sentido, um freqüentador desta religião não 

deve realizar nenhum tipo de dieta, ou regime, pois quem determina as formas 

anatômicas do seu corpo é o “Santo que faz sua cabeça”, ou seja, o Orixá” e 

isso é determinado desde o seu nascimento.  

Nas narrativas percebe-se uma relação com as formas do corpo e o 

Candomblé.  “Vou logo dizer, numa roda de samba, quando tá todo mundo 

vestido, as gordinhas ressaem mais até. Porque a roupa combina mais, cai 

melhor a roupa” (Baiana Helena). 

Neste sentido, o conhecimento do corpo, das percepções sensoriais, 

para o Candomblé é um aspecto importante para a inicialização, e à 



 

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possibilidade de dançar no rito público desta religião (Barbara, 2002). A 



gestualidade e a dança podem ser entendidas como uma linguagem ou como 

uma outra possibilidade da palavra, pois é o corpo que fala ao grupo social 

(Leite, 1996). 

O corpo volumoso da baiana e os movimentos de suas mãos e braços 

se apresentam de forma inerente ao trabalho, não mais como um instrumento 

apenas para a execução das tarefas. A movimentação do seu corpo na batida 

da massa e fritura dos acarajés remete a um ritual presente nas festas de 

Terreiro que é a dança dos Orixás. Com o corpo movimentando de forma 

cadenciada, ombros levemente arqueados, seus braços seguram forte a colher 

de pau, como quem segurasse o chicote de Iansã. Seus braços levantam e 

abaixam a colher na massa, em um movimento circular de fora para dentro

como quem puxasse o alimento para si. Ao formar o bolinho com a colher e 

colocá-los em pequenas quantidades nos tachos para fritar, as baianas 

realizam mais um movimento, agora, lateralizado. Com os braços arqueados, 

na altura dos ombros, estas mulheres afastam e aproximam seus membros do 

corpo em um movimento típico da dança africana.  

Um momento de naturalização das relações com o sagrado ao colocar a 

panela no meio de suas pernas estas mulheres estabelecem um elo com a 

fertilidade representada por cada bolinho retirado do seu ventre. Assim com 

sua mãe Iansã.  

Este ritual se encerra na venda do acarajé para o cliente, sempre aberto 

ou furado, nunca fechado, com o intuito de impedir que o utilizem de forma 

prejudicial à baiana, uma vez que a sacralização com o divino deve ocorrer da 

mãe para a filha. É o sagrado e o profano que se encontram no universo do 

acarajé. 

 

 





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