Universidade federal da bahia faculdade de medicina da bahia


II - “Sinto muitas dores nos braços e na coluna”: o sofrimento gerado



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II - “Sinto muitas dores nos braços e na coluna”: o sofrimento gerado 

pelo processo de trabalho da baiana 

 

As condições de trabalho das baianas proporcionam as mesmas uma 

espécie de fadiga crônica decorrente do processo de trabalho desgastante. 

Casos graves e prolongados de fadiga são atualmente caracterizados como um 

quadro sindrômico, a síndrome de burnout (burn out = queimar por completo), 

quando há esgotamento físico e mental intenso ligado à vida profissional, com 

perda de interesse pela atividade, que surge principalmente nas profissões que 

trabalham em contato direto com pessoas em prestação de serviço, como 

conseqüência desse contato diário no seu trabalho (FREUDENBERGER, 

1974).


1

 Este é um bom tema para pesquisa, pois, embora o trabalho da baiana 

seja artesanal, ela vive pressionada a se manter permanentemente neste 

processo fatigante. 

                                                            

1

 Um dado curioso: o estudante Juliano Moreira, em sua tese inaugural de 1891, já caracterizava a fadiga 



crônica ocupacional e a relacionava com a gravidade e precocidade da sífilis (MOREIRA, 1991, p.75). 


 

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São dois espaços de trabalho da baiana, a cozinha e o ponto de venda 



dos quitutes. Em ambos, diversos fatores podem contribuir para um processo 

de adoecimento desta trabalhadora.   

No trabalho da cozinha, as baianas passam em média sete horas, em 

pé, preparando os quitutes. Dentre as atividades estão o pré-preparo dos 

alimentos e a preparação dos acompanhamentos como vatapá e caruru, e de 

outros quitutes do tabuleiro, como as cocadas e os doces.  

 

 

Sinto muito as pernas porque a gente fica em pé o dia todo, é difícil a gente 



sentar, só na hora de almoçar mesmo, ai senta um pouquinho, almoça. Na 

hora de cortar a salada, a gente senta também meia hora e mais ou menos, 

mas o que dói mais são os braços e as pernas (Baiana Ana). 

 

 



Por outro lado, no ponto, estas mulheres ficam nove horas sentadas, 

fritando, vendendo e despachando os produtos, totalizando 16 horas de 

trabalho. “Ficar sentada por muito tempo. Sinto dores na coluna” (Baiana 

Joana). 


 

Por ser um trabalho centrado na baiana, estas mulheres sentem o peso 

das atividades realizadas em seu corpo, em forma de cansaço, dores e 

doenças. Das atividades mais desgastantes em todo o processo de trabalho, o 

ato de lavar o feijão e bater a massa do acarajé foi apresentado de forma mais 

relevante para as baianas“... tem um rapaz que lava o feijão porque nós em 



casa temos uma quantidade grande de feijão, a coluna não agüenta (risos)” 

(Baiana Isadora)  

Isto proporciona às mesmas um desgaste que se agrava, uma vez que

esta profissão não apresenta regulamentação específica no Brasil em relação a 

sua saúde e segurança no trabalho, em que as doenças e os acidentes 

gerados pela atividade laboral ou os acidentes ocupacionais passam 

despercebidas pela Previdência Social. Eis um exemplo de acidente de 

trabalho: 

 

Ontem fui comer acarajé, mas a baiana não estava no ponto. Disseram que 



ela está internada há 15 dias porque o tacho cheio de dendê quente virou 

em cima dela (Anotações do Diário de Campo).  

 

 

 




 

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O fazer-acarajé associado ao uso de equipamentos, muitas vezes 



improvisados, pelas baianas pode resultar em situações adversas, 

ocasionando em adaptações nocivas do corpo ao trabalho. Atividades 

exaustivas, prejudiciais a saúde, constituindo riscos para Lesões por Esforço

 

Repetitivo / Distúrbios Osteo-musculares Relacionadas ao Trabalho (LER/ 



DORT). 

As narrativas demonstram que muitas destas mulheres já apresentam 

enfermidades relacionadas ao trabalho, uma vez que a exposição às atividades 

que geram movimentos repetitivos acontece desde a infância, quando já 

iniciam algumas atividades. “Toda a baiana tem [lesões]. No começo eu não 

tinha, mas agora vai chegando aos quarenta, vai começando a aparecer 

tendinite, busite [sic], LER, por causa da movimentação repetitiva” (Baiana 

Isadora). 

Em outros estudos realizados com trabalhadores artesanais também foi 

identificada a presença de movimentos que possibilitem o aparecimento de 

doenças relacionadas ao trabalho, principalmente, as LER/DORT. Pena (2008), 

ao estudar as marisqueiras, tipo de trabalho artesanal com extração de 

mariscos, da Ilha de Maré, Salvador-Bahia, identificou nove casos de 

LER/DORT entre as mesmas. Silva et al. (2006), estudando rendeiras, em uma 

comunidade em Fortaleza-Ceará, identificou a presença de esforços repetitivos 

entre estas trabalhadoras, porém nenhum caso da doença foi diagnosticado a 

época.  

Estas e outras questões relacionadas a saúde da baiana se agrava 

quando as mesmas priorizam o trabalho e os afazeres em detrimento de 

prevenção da saúde, como a ida a um serviço de saúde, “você fica escrava de 



si própria” (Baiana Solange). Além disso, justificam que não apresentam plano 

de saúde e esperar pelo Sistema Único de Saúde (SUS) demandariam muito 

tempo. Além disso, a ida a um serviço público não garante o atendimento 

adequado. Em estudo com mulheres obesas, Silva (1995) constatou que os 

profissionais de saúde apresentam limitações para o atendimento à estas 

mulheres, uma vez que este profissional tem dificuldade de enxergar a mulher 

fora do seu papel de mãe. Devido ao fato da maioria das mulheres brasileiras 

e, neste caso, as baianas acumularem várias funções (mãe, trabalhadora, dona 

de casa) como forma inerente para a sua sobrevivência, demanda um 



 

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atendimento que percebesse estes múltiplos espaços ocupados pela mulher 



hoje.  

Em 2003, o Ministério da Saúde lança a Política Nacional de 

Humanização da Atenção e Gestão do SUS, conhecido como HumanizaSUS 

que apresenta como um dos conceitos de humanização do SUS: “Luta por um 

SUS mais humano, porque construído com a participação de todos e 

comprometido com a qualidade dos seus serviços e com a saúde integral para 

todos e qualquer um.” Apesar deste avanço no serviço público, isto não atinge  

a  baiana,  pois a mesma  não prioriza a sua saúde, porque o seu trabalho é a 

sua principal fonte de renda, e este tempo para a realização das atividades é 

sagrado. 

Ademais da exigência do seu trabalho e a escravização no tempo, as 

baianas utilizam de manobras para evitar a dor proveniente do processo de 

trabalho: “As vezes eu uso doutorzinho (para as dores no corpo), as vezes eu 



faço massagem. No outro dia alivia, e pronto” (Baiana Ana). 

Neste sentido, é de extrema importância um olhar atento das políticas 

públicas para esta categoria profissional, no que tange os possíveis danos 

causados pelo processo de trabalho. Porém, além deste fator, existem outros 

que também proporcionam possíveis causadores de enfermidade, como o 

cheiro do dendê. 

 

 



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