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2.1.3 A leitura e suas revoluções 
 
As  mudanças  de  suporte  textual  acarretaram  alterações  na  transmissão  e  na  recepção 
do  texto  e  deram  origem  a  novos  modos  de  ler.  Como  fora  mencionado,  em  termos  de 
formato,  a  imprensa  de  Gutenberg  apenas  atribui  uma  continuação  ao  códex,  uma  vez  que 
mantém  o  princípio  das  folhas  dobradas  e  reunidas  em  caderno  por  meio  de  uma  capa 
(CAVALLO; CHARTIER, 1998). Sob tal aspecto, as revoluções da leitura se iniciaram antes 
da imprensa e se constituem em três. 
A  primeira  revolução  da  leitura  na  Idade  Moderna  tem  início  com  a  mudança  na 
função do texto escrito, entre os séculos XII e XIII, quando deixa de ser monástico – arquivo 
de  memórias  históricas,  sem  preocupação  com  a  leitura  –  para  ser  escolástico,  objeto  e 
instrumento intelectual. Nesse período, o livro podia ser usado tanto para a leitura oral quanto 
para a silenciosa, conforme o interesse do leitor. Com isso, ―a revolução da leitura precedeu 
portanto  à  do  livro,  visto  que  a  possibilidade  de  leitura  silenciosa  é,  pelo  menos  para  os 
leitores letrados, clérigos da Igreja ou notáveis leigos, muito anterior à metade do século XV‖ 
(CAVALLO;  CHARTIER,  1998,  p.  28).  Ocorria  uma  leitura  intensiva,  isto  é,  limitada  a 
poucos livros. 
A  segunda  revolução  da  leitura  corresponde  à  segunda  metade  do  século  XVIII, 
também  em  tempos  anteriores  à  industrialização  da  fabricação  do  livro.  Nesse  momento,  a 
leitura extensiva
7
 – em grande quantidade de livros – teria substituído a intensiva
 
O  leitor  ―intensivo‖  era  confrontado  a  um  corpus  limitado  e  fechado  de 
livros, lidos e relidos, memorizados e recitados, compreendidos e decorados, 
transmitidos  de  geração  em  geração.  [...]  O  leitor  ―extensivo‖,  da  Lesewut
da  ―obsessão  de ler‖,  que se  apodera  da  Alemanha  no  tempo  de  Goethe, é 
um  leitor  completamente  diferente:  consome  impressos  numerosos, 
                                                 
6
 A falta de superfície material para o texto, de certa forma, se mantém mesmo com o  tablet, pois o contato do 
leitor se dá com a tela e não com o texto propriamente. Por isso, em um dispositivo eletrônico, não há noção da 
dimensão do texto. 
7
  Como  ressalva  para  essa  revolução  da  leitura,  destacam-se  os  romances,  os  quais  provocam  nas  pessoas  o 
desejo de ler e reler o texto – resultado da identificação com os personagens e do envolvimento emotivo com a 
narrativa –, provando que a leitura intensiva coexistiu, de certo modo, com a extensiva
 


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diferentes, efêmeros; ele os lê com rapidez e avidez; submete-os a um olhar 
crítico  que  não  subtrai  mais  nenhum  domínio  à  dúvida  metódica.  Uma 
relação  com  o  escrito,  comunitária  e  respeitosa,  feita  de  reverência  e 
obediência,  daria  assim  lugar  a  uma  leitura  livre,  desenvolta,  irreverente 
(CAVALLO; CHARTIER, 1998, p. 28). 
 
A transmissão eletrônica dos textos e as maneiras de ler por ela impostas evidenciam a 
terceira  revolução  da  leitura,  a  leitura  de  navegação.  A  leitura  na  tela  traz  novidades  na 
noção de contexto, pois há uma substituição da contiguidade física dos textos – livro, jornais, 
revistas, por exemplo – em um único suporte. Também é modificada a materialidade que liga 
o  texto  ao  objeto  impresso,  transformando  todo  o  sistema  de  identificação  e  de  manejo  dos 
textos. Destaca-se a reorganização no trato da escrita que possibilita uma concomitância entre 
a  produção,  a  transmissão  e  a  leitura  de  um  mesmo  texto,  já  que  essas  funções  podem  ser 
desempenhadas por um mesmo indivíduo, caracterizando-o como autor, editor e distribuidor – 
simultaneamente.  Alteram-se,  ainda,  as  categorias  estéticas  que  caracterizam  as  obras  e  as 
noções de biblioteconomia. Coerções inquestionáveis são rompidas: o leitor pode realizar no 
texto múltiplas intervenções, como indexá-lo, copiá-lo, recompô-lo, entre outras; o texto pode 
atingir  qualquer  pessoa,  não  importa  o  lugar,  possibilitando  a  formação  de  uma  biblioteca 
universal, isto é, com todos os livros do mundo. Assim, verifica-se que: 
 
[...]  o  leitor  da  era  eletrônica  pode  construir  a  seu  modo  conjuntos  textuais 
originais  cuja  existência,  organização  e  aparência  somente  dependem  dele. 
[...] A eletrônica, que permite a comunicação dos textos a distância, anula a 
diferença,  até  agora  indelével,  entre  o  espaço  do  texto  e  o  espaço  do  leitor 
(CAVALLO; CHARTIER, 1998, 31). 
 
 
Cabe ainda ressaltar que alguns fatores como a expansão da alfabetização, o ingresso 
de novas classes leitoras (mulheres, crianças, operários) na cultura impressa e a diversificação 
na  sua  produção  fizeram  com  que  ocorresse,  no  século  XIX,  uma  grande  dispersão  dos 
modelos  de  leitura.  Assim,  o  ler  não  está  mais  sob  os  parâmetros  humanísticos
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  que 
caracterizam  o  leitor  tecnicamente  treinado  para  confrontar,  comparar  e  verificar  o  texto;  a 
leitura também não está particularizada como ensinamento e devoção religiosa. Há um modo 
de  ler  que  contrasta  entre  o  ideal  único  imposto  por  normas  escolares  e  a  diversidade  das 
práticas  próprias  de  cada  comunidade  de  leitores  e,  por  isso,  afastada  de  modelos:  ―Com  o 
século  XIX, a história da leitura entra na época  da sociologia das diferenças‖ (CAVALLO; 
CHARTIER, 1998, p. 36). 
                                                 
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 A leitura humanística refere-se àquela do caderno de lugares-comuns, baseada em um instrumento denominado 



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