Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação


 O que diferencia o trabalho do Grupo da Guanabara e o vivido na



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6.2.3.4 O que diferencia o trabalho do Grupo da Guanabara e o vivido na 
infância: percepções e diferenças. 
 
Carolina  e  Olga  não  tiveram  experiências  com  a  escola  na  infância.  Os 
paralelos que fizeram dizem respeito às experiências que tiveram já na fase adulta 
quando  Carolina  participou  das  aulas  ministradas  por  uma  professora  no  próprio 
bairro da Guanabara. Olga, como adulta frequentou o MOBRAL poucos meses em 
uma sede no bairro do Jurunas.   
 
Não.  É  a  mesma  coisa.  Não  tem  diferença  nenhuma.  Ela  também 
era  muito  boa  né?  Prestativa,  agradável.  Sabia  conversar  com  a 
gente e a gente com ela. Ela se tratava com a gente e a gente com 
ela... Parece assim que nós tudo era uma família que estava ali né? 
(CAROLINA). 
 
Não.  Eu  não  notei  assim  diferença.  Tudo  igual.  Assim  como 
trataram a gente bem no Imperial, assim também eu fui tratada bem 
na Pedreirinha com vocês. (OLGA). 
 
 
 
O tratamento acolhedor foi a forma que as duas educandas encontraram para 
apresentar as experiências como similares.  A falta de detalhamento nas narrativas 
nos impede de ter outros elementos para análise. 
De forma contrária, Sergio já nos apresenta um outro contexto: 
A  diferença  é  o  seguinte.  Era  muito  mais  detalhado,  por  quê? 
Porque a fase que eu saí de lá era aquela fase de ponto. Como se 
diz  ponto  parágrafo,  ponto  agudo...  Não  tem  esse  negócio?Então, 
eu  saí  de  lá  nessa  fase,  Eu  estava  começando  fazer  isso  para 
depois  me  aprofundar  no  estudo  mais.  Saber  a  palavra  que  eu 
coloco  lá  e  saber  as  letras  e  os  pontos  que  eu  tenho  que  colocar 
numa  escrita,  no  caso,  numa  carta,  ou  então  no  que  eu  vou 
escrever.  Se  eu  devo  colocar  um  ponto  aqui  ou  não.  Se  eu  devo 
colocar  aquela  letra  aqui  ou  não.  As  regras  tudinho...  Lá  eu  estou 
aprendendo a gente fica mais é dialogando. A gente escreve, mas 
pouco. Eu fazendo esse tipo de conversa eu estou desenvolvendo 
um  pouco  e  estou  pensando  na  minha  desenvoltura  na  minha 
leitura  estou  pensando naquilo  que  eu  vou  na frente  a  estudar  em 
outro colégio. (SERGIO) 
 
Sergio inicia nos falando sobre o modelo tradicional de escola que vivenciou 
nos anos 1980 quando pela primeira vez frequentou uma instituição escolar. Expõe 
que  antes  de  abandonar  os  estudos  estava  estudando  o  uso  dos  acentos. 
Classifica  como  detalhada  a  maneira  como  a  professora  colocava  as  regras  do 
português.  Em  seguida  expõe  sobre  o  modelo  da  Guanabara,  dizendo  que  está 


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aprendendo, mas, se escreve pouco e que o diálogo é a atividade mais usual, logo 
após finaliza dizendo o que está desenvolvendo na Guanabara servirá para quando 
ele for para outra escola (instituição formal). 
É  importante  observar  na fala  do  Sérgio,  e que  pode  se  converter  em  uma 
sugestão para os educadores do Grupo, na necessidade de equilibrar o tempo do 
diálogo e o tempo do desenvolvimento da leitura e da escrita. 
Em conversa com os alunos, vez por outra os educadores fazem o destaque 
sobre  as  características  do  Grupo.  É  um  grupo  de  extensão  que  trabalha  apenas 
duas  vezes  por  semana,  e  não  está  amparado  em  bases  legais  de  registros  no 
MEC,  ou  seja,  efetivamente  não  se  certifica,  porque  não  se  tem  um  certificado 
oficialmente  válido  na  rede  nacional  ou  municipal  de  ensino  para  promover  os 
educandos a outras etapas da EJA.  
Explicamos,  portanto,  que  o  Grupo  de  Educação  Popular  da  Guanabara 
constitui uma fase preparatória para que os alunos possam ter esse contato inicial 
ou  em  fase  de  pós  alfabetização  para  que  em  seguida,  sentindo-se  mais 
fortalecidos, possam ir em busca de uma classe de EJA em uma escola municipal, 
para prosseguir seus estudos. 
Na  fala  de  Vera  a  consciência  de  que  momentos  históricos  vividos  em 
circunstâncias  diferentes  e  em  etapas  evolutivas  distintas:  infância  e  idade  adulta 
ocasionam  percepções  diferenciadas,  e,  por  conseguinte,  também  níveis  de 
envolvimento diferentes. Em seguida fala dos modos como o ensino é tratado pelo 
Grupo da Guanabara: interação, respeito, confiança, incentivo, paciência e faz um 
paralelo  com  a  escola  do  passado.  Para  isso  utiliza  dois  substantivos  sinônimos 
para se referir ao ensino da escola: rígido e drástico.  
 
A  diferença  é  que  na  minha  infância  eu  não  tinha  o  compromisso 
que  eu  tenho  hoje  com  o  aprendizado,  com  interesse,  a 
responsabilidade. E o que representa hoje é o ensino. Como vocês 
ensinam  como  vocês  educam  o  modo  de  vocês  educar,  interagir 
com  a  gente  entendeu?  De  passar  aquele  respeito  àquela 
confiança  para  gente,  aquele  como  é  que  se  diz...  Incentivo  pra 
gente.  O  modo  de  vocês  explicarem  as  coisas  que  a  gente  não 
entende. De ter aquela paciência de explicar tudo para gente, e no 
passado não era assim, era assim um pouquinho mais rígido, mais 
drástico. (VERA) 
 
Mais  uma  vez  Vera  demonstra  sensatez  em  suas  colocações  e  uma 
consciência muito forte em relação as suas experiências no Grupo da Guanabara.  


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As  falas  que  se  seguem,  revelam  uma  opção  pela  educação  do  presente 
muito  em  razão  das  experiências  estarem  em  um  tempo  muito  distante  e  os 
educandos  não  mais  se  identificarem.    Outra  razão  se  encontra  nos  modelos 
vivenciados estarem arraigados em raízes tradicionais onde a indiferença ao aluno 
e suas especificidades era marcante. 
 
Eu acho que assim é melhor. Eu gosto de aula assim que eles não 
coisam muito né? Tem colégio por aí que eles passam muito dever 
que às vezes a pessoa não sabe, então eu acho que esses assim 
de  aula  que  vocês  dão  acho  que  é  bom,  porque  eles  explicam  as 
palavras  vai  ensinando  direitinho  as  vogais  as  consoantes.  Vai 
ensinando palavra por palavra. Vocês têm paciência de ensinar. Às 
vezes  tem  professora  aí  que  não  tem  essa  paciência.  Escreve  ai 
não explica as palavras o que é para fazer. Se é para fazer aquele 
risco.  Não  explicam  ara  gente.  Acho  que  tudo  isso  confunde  a 
gente.  A gente não sabe se tem que separar deixar uma listra se é 
para fazer direto. A gente fica confusa. (LUCIANA) 
 
Lá onde eu ficava as professoras às vezes na hora da merenda eu 
ficava  mais  um  pouco  e  aí  as  professoras...  Bora  Sara,  bora...  Eu 
queria  fazer  as  coisas  às  professoras  apressavam.  [...]  Era  mais 
ginástica  do  que  estudo.  De  tarde  que  era  ginástica  mesmo.  Era 
coisa  difícil  assim  e  tinha  que  correr  na  doca.  De  noite  que  nós 
chegava a casa. (SARA). 
 
Luciana  e  Sara,  aluna  com  deficiência  intelectual  retratam  de  modo  similar 
como  a  escola  tradicional  age  de  forma  indiferente  ignorando  os  educandos  que 
não possuem o mesmo ritmo de aprendizagem ou o mesmo ritmo na realização de 
tarefas, numa demonstração de falta de respeito às individualidades. 
 
Aqui  está  mais  avançado  que  era  lá,  mas,  lá  a  gente  aprendeu. 
Começa a desemburrar, aprendeu e aqui a gente já vai partir para 
melhor. (ODILON) 
 
Eu acho que essa agora pra mim é melhor. Porque da infância eu 
não aprendi nada bem dizer, porque eu nem me lembro, e essa da 
agora  não.  Agora  do  pouquinho  que  eu  estou  aprendendo,  mas 
pelo  menos  eu  estou  me  alembrando,  está  ficando  guardado  na 
cabeça. (MOACIR) 
 
Odilon usa o termo “desemburrar”
42
,  para dar significado a fase da infância 
em que não sabendo nada,  aprendeu, mas deposita no hoje  a esperança que vai 
                                                 
42
Palavra que certamente faz parte de um contexto histórico vivido pelo educando, característico do 
Brasil de 1944, ano em que Odilon nasceu, mas certamente palavra que se encontra pelos Brasis à 
fora e, ainda em uso. Palavra grotesca que parte do princípio de que todos nós somos burros 
– não 
sabemos  nada 
–  e,  por  conseguinte  precisaremos  em  algum  momento  da  vida  desemburrar,  que 
segundo o dicionário significa “dar cultura; instrução a; polir; civilizar. Teríamos então que retornar a 


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dar  movimento  a  uma  nova  fase.  Moacir  também  usa  o  tempo  como  parâmetro 
para optar pela fase atual haja vista que da infância, nada se lembra. Hoje não só 
está aprendendo como se lembra do que aprendeu. 
Rubens ao ser perguntado sobre a diferença vivida por ele na escola durante 
o  turno  da  tarde  e,  em  concomitância,  nas  duas  vezes  por  semana  em  que 
participava  com  o  Grupo  da  Guanabara  teve  dificuldades  em  identificar  as 
diferenças.  Começamos a instigá-lo até que detectou alguns pontos em relação à 
disposição das carteiras e à forma de trabalho docente: 
À  tarde  era  fileira  assim,  a  professora  só  passava  o  dever  no 
quadro,  explicava  e  mandava  a  gente  fazer.  À  noite  a  gente  fazia 
uma roda, conversava e tinha atividade. (RUBENS). 
 
 
Quando  perguntado  sobre  se  a  professora  do  turno  da  tarde  conversava 
com  os  educandos  Rubens  timidamente  balança  a  cabeça  num  movimento  de 
negação. 
 
As análises realizadas entre a escola do passado e a experiência no Grupo 
da Guanabara nos fazem refletir sobreo que o Grupo já caminhou e o quanto falta 
caminhar. Sobre um modelo que apesar das críticas e a despeito de uma ou outra 
estratégia que ainda seja positiva, continua atual e exercendo a função que sempre 
exerceu.  Devemos  respeitar  o  lugar  da  onde  cada  educando  se  pronuncia  lugar 
que  é  histórico,  social,  ideológico,  político,  enfim,  mas,  sabemos  que  se  Rubens 
não for incentivado à leitura, se a escola não lhe abrir espaço para discutir, opinar, 
criar, suas posições diante da vida e das decisões que irá ter que tomar não terá a 
autonomia necessária e que exprimam sua liberdade, seu jeito, suas preferências.  
 
Durante esta seção tivemos a oportunidade de dialogar com os educandos e 
sentir nos discursos o poder da autoimagem no desenho da história de cada um. O 
peso  de  identidades  que  carregam  na  negação,  na  culpa,  no  abandono,  no 
descaso,  no  isolamento  autoimagens  negativas,  mas,  que  sabemos,  não  condiz 
com a vocação natural a qual estamos vinculados.  
Em outros momentos as vozes se pronunciaram mais otimistas em relação a 
participação  e  aos  sentimentos  vivenciados  no  Grupo  da  Guanabara.  Reflexo  da 
proposta metodológica de educação popular que norteia as ações do Grupo. 
                                                                                                                                                      
tudo o que já foi aqui exposto para ratificar ou quem sabe criar um novo objeto de pesquisa com as 
palavras que geram autoimagens negativas. Esta com certeza seria uma delas. 


208 
 
As  dificuldades  em  continuar  participando  do  Grupo  foram  manifestas  por 
alguns  que  lastimaram  ter  de  deixar  de  frequentar  às  aulas  devido  a  problemas 
ligados a infraestrutura do bairro da Guanabara, como falta de iluminação pública, 
pavimentação e segurança pública.  
Outro  fator  atrelado  ao  não  acesso  dos  alunos  à  educação  escolar  foi  a 
constituição do núcleo familiar que se deu muito cedo na vida dos educandos.  
A  participação  de  alunos  especiais  ou  que  apresentaram  déficit  de 
aprendizagem também foi observado com as educandas Luciana e Sara. 
A  inclusão  do  aluno  Rubens  como  sujeito  da  pesquisa  nos  remete  sobre  o 
quanto a escola ainda continua reproduzindo o modelo tradicional de educação que 
não estabelece  conexões  com  uma pedagogia  mais  crítica  e humana,  e o  quanto 
os professores, de modo geral, ainda tem dificuldades em pensar a sua prática de 
maneira  autônoma  e  que  promova  autonomia  para  aqueles  com  quem  vão 
compartilhar conhecimentos.  
A procedência dos alunos de regiões interioranas, inclusive de outro estado, 
nos remeteu para uma análise sobre a falta de políticas pública nas zonas ligadas 
ao campo, da mesma forma como ocorre nas regiões ribeirinhas. Podemos avaliar 
criticamente como a ausência de políticas voltadas para os direitos dos cidadãos é 
determinante  para  sua  expulsão  da  escola,  além  de  acarretar  uma  série  de 
problemas sociais. 
Os  educandos  chegam,  como  jovens,  adultos  e  idosos  na  EJA  com  suas 
autoimagens  negativadas,  muitas  vezes  envolvidos  com  drogas,  participação  em 
pequenos delitos e que precisam da educação escolar para assegurar sua inclusão 
na  sociedade  e,  inclusive,  para  promover  uma  mudança  em  sua  autoimagem.  O 
incentivo  à  pesquisa  na  EJA  é,  portanto,  fundamental  para  que  pesquisadores  e 
universidades  possam  dialogar  com  a  sociedade  e  o  poder  público  de  modo  a 
tentar encontrar possíveis soluções para essas demandas. 
 
 
 
 

Catálogo: ppged -> wp-content -> uploads -> dissertacoes


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