Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação



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6.2.3.1 O início  
 
No relato de Moacir a esperança em seu processo de aprendizagem está 
viva e atuante. Observemos que ele não quer admitir que tivesse muitas chances. 
Reserva-
se a uma humilde opinião: “pouca chance” mas, em seguida admiti estar 
aprendendo  um  pouquinho.  A  presença  da  esposa  o  incentivando  a  estudar 
também merece destaque na medida em que o educando da EJA precisa de apoio 
para se sentir mais fortalecido. 
A  mulher  disse:  tu  podia  estar  estudando! 
–  Se  eu  tivesse 
estudando assistindo aula junto com ela né? Eu acho que eu estava 
bem adiantado. Porque ela estudou pouco, mas ela já aprendeu um 
pouquinho.  Que  ela  era  igual  eu.    Mas  depois  que  o  pessoal 
andaram por aqui convidando a gente para participar dessa aula ai 
eu  me  interessei  né?  Ai  eu  fui  meter  aquilo  na  minha  cabeça  deu 
experimentar.  Ver  como  era.  Se  eu  ainda  tinha  alguma  chance  de 
aprender. Pouca chance mas eu acho que eu estou aprendendo um 
pouquinho sim. Eu estou bem interessado. (MOACIR). 
 
 
A  esposa,  também  aluna  da  EJA,  no  momento  está  parada,  em  virtude  de 
estar prestando assistência à mãe que se encontra adoentada. Moacir permanece 
com  a  voz  firme  e  se  mantem  bastanteà  vontade  para  dar  sua  opinião  sobre  o 
trabalho realizado e dá sugestões. 
Estou gostando sim. A experiência para mim está sendo boa. Está 
sendo  legal.  Tudo  concordam  que  a  gente  faz.  Lá  é  por  parceria. 
Tudo  concorda  um  com  o  outro,  aquilo  que  nós  conversa  lá. 
Apenas  para  mim  duas  vezes  na  semana  é  pouco.  Era  legal  se 
fosse  uma  aula  sim  de  toda  noite,  a  semana  toda.  Mas  está  bom 
porque pelo menos eu participo da aula lá, participo da minha igreja 
que agora eu sou evangélico. (MOACIR). 
 
 
 
O  aspecto democrático e de valorização às atitudes dos educandos aparece 
na  voz  de  Moacir  com  a  afirmação:  “tudo  concordam  que  a  gente  faz,  lá  é  por 
parceria”.  O  aumento  na  frequência  dos  dias  trabalhados,  já  destacado  pela 
educadora  E3,  em  seção  anterior,  aqui  é  reforçado  com  a  fala  de  Moacir.  O 
educando  faz  questão  de  reforçar  sua  inserção  social  através  da  participação  na 
Guanabara e também no grupo da igreja. 
 
Em  outro  momento,  durante  entrevista  feita  a  educanda  Catarina  a  filha  se 
aproximou para fazer perguntas em relação ao horário das aulas e a possibilidade 
dos encontros serem durante o dia ou à tarde. A filha de Catarina ponderou: 


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Porque tinha que verificar que para idade deles é muito mais viável, 
à  noite  é  muito  complicado,  ainda  mais  que  as  iluminações  muito 
precárias,  rua  cheia  de  buraco.  Motorista  não  respeita  ninguém. 
(FILHA DE CATARINA) 
 
 
Paulo e Sérgio destacam em sua fala motivações que encontram no outro 
a razão de ser de estar no Grupo Guanabara: 
Porque  é  o  seguinte,  eu  sou  um  semianalfabeto,  ela  analfabeta, 
então já fui me meter na escola para ver se levava ela, para ver se 
ela aceitava pelo menos assinar o nome dela. Ela. A minha filha, foi 
isso.  Isso  que  me  fez  eu  me  meter  lá  na  escola.  Para  elas 
frequentarem, para dar incentivo. (PAULO) 
 
As  pessoas  passaram  aqui  e  deixaram  o  papelzinho.  Aí  esse 
colega  meu  o  seu  Moacir  eu  considero  ele  como  um  irmão.  Ele 
ainda não sabe ler e escrever. Eu fui mais para essa aula para ver 
se eu melhorava essa coisa dele, não foi tanto a minha. Porque se 
ele tem o conhecimento de leitura o tanto que eu tenho [...] eu sou 
uma  pessoa  muito  grata.  Porque  ele  é  muito  meu  amigo.  Ele 
precisa  muito.  Toda  pessoa  que  é  analfabeta  que  não  sabe  pegar 
um  ônibus  eu  acho  que  é  uma  coisa  muito  atrasada  para  gente. 
(SERGIO). 
 
 
Paulo  e  Sergio  admitem  ter  ingressado  no  Grupo  da  Guanabara  por 
solidariedade  ao  outro.  No  casode  Paulo  (esposa  e  filha)  e  no  caso  de  Sergio  (o 
amigo).  Do  ponto  de  vista  humano  uma  atitude  louvável  e  que  deve  ser 
amplamente  divulgada  e  reconhecida  pelo  grupo  como  um  todo.    Ao  pensar  no 
outro  participando  do Grupo,  acabou  por  ser  também  uma  motivação  para  si. Por 
isso, a necessidade de se manter a motivação da solidariedade para fazer com que 
Paulo  (hoje  já  não  mais  fazendo  parte  do  grupo)  e  Sergio  sintam-se  fortalecidos 
para continuar. 
 
A busca do “ser mais” implica também a busca do “ser mais” do outro, o que 
constitui o processo de humanização. Busco ser mais, na minha própria existência, 
mas existo em relação com o outro.  
Para  Freire  (2011f,  p.  42),  “a  assunção  de  nós  mesmos  não  significa  a 
exclusão dos outros. É a "outredade" do "não-eu" ou do "tu", que me faz assumir a 
radicalidade de meu eu
”. 
 
Neste sentido, a educação é um processo de conquista permanente. Com os 
outros do Grupo da Guanabara Sérgio vai identificando suas próprias expectativas 
como  educando,  o  seu  potencial  como  ser  humano  e  como  produtor  de 
conhecimento.  


197 
 
 
 Outras  declarações  manifestam  os  motivos  que  fizeram  o  primeiro  passo 
acontecer: 
Veio  um  rapaz  aqui  falar  né?  Ai  eu  me  animei  e  fui.  [...]  Ah  eu 
gostei. Adorei. Adorei mesmo. (CATARINA) 
 
Eu passei  lá  e  vi  a dona Catarina.  Ai  ela disse  assim:  “Luciana tá 
tendo aula aqui porque tu não vem se matricular?” Ai eu fui. Eu me 
sentia  tão  bem  que  eu  até  brincava  lá  contava  minhas  piadas. 
Descontraía. (LUCIANA). 
 
A minha filha trouxe de lá um convite. Ai ela insistiu para eu ir: “Vai 
pai”.  Ai  eu  fui.  Eu  quero  aprender  então  estou  feliz.  Pegando 
conhecimento.  Conhecimento  que  eu  não  tinha.  Para  mim  é  uma 
grande coisa. (ODILON). 
 
O  professor  na  época  estava  indo  nas  casas  né?  Inscrevendo  o 
pessoal que nunca estudaram para estudar. Foi que eles passaram 
lá em casa, por ali por aquela redondeza. É aí acompanhei o Paulo 
a Sara e o Rubens. Eu gostei. Eu gostava de ir ali. (OLGA) 
 
 
 
Os educandos manifestaram-se de diferentes formas para confirmar estarem 
apreciando  o  trabalho  desenvolvido  na  turma  da  Guanabara.  Odilon  ressalta  a 
legitimação do conhecimento que é veiculado pela escola e declara que está tendo 
acesso  ao  conhecimento:  “conhecimento  que  eu  não  tinha”.  No  mesmo  relato 
ressalta-se também o aspecto familiar intervindo na opção de Odilon em se decidir 
por  participar  do  Grupo.  Na  maioria  das  falas  há  satisfação  em  participarem  das 
aulas no Grupo. 
 
Observamos que juntamente com o convite para participar das aulas, alguns 
educandos receberam imediato apoio da família como o caso de Moacir e Odilon. 
Os  demais,  excetuando-se  Rubens  que  estudar  regularmente  em  escola  da  rede 
municipal, não observaram nenhum comentário do gênero. 
 
 

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