Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação


g)  Mas, no meio do caminho tinha uma educadora



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g)  Mas, no meio do caminho tinha uma educadora 
 
No  decorrer  da  entrevista  com  a  educadora  E2  quando  perguntávamos 
sobre  sua  crença  na  ressignificação  da  autoimagem  dos  educandos  a  partir  das 
ações desenvolvidas pelo NEP, a mesma nos surpreendeu dizendo: 
 


157 
 
Eu  acredito  sim  porque  mudou  minha  própria  imagem,  mudou  a 
visão  que  eu  tinha  em  relação  a  mim  mesma.  Eu  imagino  os 
alunos. A gente que tá na Universidade a gente sabe que quem tá 
fora  muitas  vezes  tá  fora  porque  não  teve  oportunidade.  Mas  às 
vezes  a  pessoa  de  fora  acha  que  quem  tá  aqui  é  superior.  Não  é 
isso!  E  a  gente  tem  as  vezes  uma  imagem  parecida  com  o  aluno 
que  não  é  alfabetizado.  Uma  imagem  negativa  em  relação  a  si 
mesmo.  E  eu  imagino  que  dentro  dessas  concepções  que  são 
trabalhadas  dentro  do  NEP  o  método  freireano  os  alunos,  com 
certeza eles têm a estima deles... Claro que não é do dia pra noite. 
O  aluno  chega  todo  calminho  só  observando  e  depois  ele  já 
começa  a  falar  começa  a  lembrar  de  algumas  coisas  porque  o 
questionamento as ideias vão acontecendo e ele já vai se sentindo 
a  vontade  para  agir  pra  se  manifestar  e  eu  acho  que  esse  é  o 
diferencial né? (E2) 
 
As declarações da educadora são de grande valia pra essa dissertação, não 
só pela força das declarações em si, mas pelo  valor em significado que vão além 
do  objeto  de  pesquisa  que  ora  nos  debruçamos.  A  autoimagem  assim  é 
ressignificada  a  partir  deste  relato  em  específico  porque  tanto  a  ratificamos  do 
ponto  de  vista  de  sua  humanidade  quanto  do  ponto  de  vista  da  dialética  das 
relações com o trabalho pedagógico que se mistura e intercruza a todo o momento 
no que chamamos comumente relação professor-aluno. A fala da educadora ainda 
nos reservaria uma análise á luz da educação popular: 
 
[...]  Esse  diálogo  que  tu  tens  com  o  professor  com  o  educador-
aluno;  aluno-educador  isso  daí  é  um  diferencial  pra  qualquer 
educação,  mas  especialmente  dentro  da  educação  que  o  NEP 
trabalha. Eu percebi isso nesse período pequeno que eu participei 
da  evolução  de  alunos.  A  imagem  de  um  morador  de  periferia  de 
achar  que  ele  não  tivesse  direito,  mas  que  ele  no  fundo,  ele  sabe 
que ele pode, mas ao longo do tempo a sociedade foi construindo 
uma ideia que ele não teria esse poder de sair do casulo e dar sua 
opinião. Com a educação com certeza esse diálogo essa coisa que 
aparentemente é uma coisa simples, assim conversar saber como é 
que acontecem as coisas no dia a dia do aluno isso aí aos poucos 
vai  construindo  uma  relação  de  amizade,  segurança,  confiança  e 
esse  diálogo  junto  com  as  aulas  enfim  com  certeza  constrói  uma 
imagem melhor de si de uma pessoa com potencial. (E2) 
 
A  representação  da educadora  E2  a  partir da expressão  “sair do  casulo”  é 
algo  bem  significativo  que  retrata  essa  imagem  do  casulo  como  lugar  de  prisão, 
esconderijo de identidade que condiciona os seres humanos. A educadora também 
nos revelaria que foi aluna da EJA.   Em decorrência  das dificuldades econômicas 
que  enfrentaria  durante  o  período  da  adolescência  por  várias  vezes  teve  que 
interromper os estudos até chegar a concluir o ensino médio e prestar o vestibular. 


158 
 
Estas oscilações em sua trajetória escolar trariam algumas repercussões negativas 
em  sua  autoimagem  que  aos  poucos  estão  sendo  ressignificadas  a  partir  do 
contato com a educação popular. 
 
Apesar de estar estudando um curso de licenciatura eu não me via 
dando aula. Em nenhum momento. Ah terminou a faculdade eu vou 
fazer  sei  lá...  Pesquisar.  Eu  não  me  via  dando  aula,  fazendo  as 
coisas...  Assim,  apesar  de  que  eu  tenho  algumas  dificuldades. 
Claro  todo  mundo  tem,  mas  hoje  eu  me  vejo.  [...]  a  partir  dessas 
leituras  que  eu  tenho,  agora  de  Paulo  Freire.  Da  convivência  com 
os  alunos  de  lá  da  Guanabara,  isso  influenciou  muito.  E  eu  não 
tinha  uma  imagem  tão  boa  assim  de  mim  mesma  como  aluna.  Eu 
acho que eu estudei seis meses o ensino médio. Eu não completei 
o  ensino  médio  como  as  outras  pessoas  que  estudam  série  por 
série.  Eu  tinha  que  trabalhar.  Eu  sempre  precisei  trabalhar.  Então 
todo  o  período  que  eu  passei  fora...  Sei  lá  quanto  tempo  que  eu 
fiquei  fora.  [...]  Eu  fiz  vestibular  achando  que  eu  não  ia  passar. 
Entrei  na  faculdade  achando  que  não  ia  sair,  entendeu?  Eu  estou 
desconstruindo essa mentalidade aos poucos. É isso. (E2) 
 
Como  podemos  observar  no  último  relato,  a  autoimagem  é  o  resultado  de 
uma identidade que está atrelada a um processo histórico de dimensões variadas, 
mas  que  consubstancialmente  remete-nos  a  história  pessoal  que  em  diferentes 
momentos geram personagens articulados e produzidos por nós ao longo de nossa 
existência. (CIAMPA, 2005). 
Não nos cabe aqui enveredar por esta complexa seara que é o estudo das 
identidades  e  autoimagens  mesmo  porque  não  se  trata  de  uma  pesquisa  em 
psicologia  social,  mas,  de  alguma  forma,  as  aproximações  que  fizermos  com  o 
tema  serão  valiosas  para  que  ampliemos  nosso  campo  de  visão  sobre  as 
repercussões que a educação e o educador enquanto somatória e produto de uma 
concepção estarão diretamente e indiretamente influenciando na vida das pessoas.  
Encerramos aqui mais uma seção desta dissertação onde aprofundamos um 
pouco  mais  sobre  a  ressignificação  da  autoimagem  negativa  dos  educandos 
jovens,  adultos  e  idosos  a  partir  de  uma  mediação  pedagógica  pautada  na 
educação  popular.    Nesta  etapa  ouvimos  as  vozes  dos  educadores  do  NEP  que 
atuam  no  Grupo  da  Guanabara  como  também  a  do  Assessor  Pedagógico  que 
acompanha diretamente o trabalho. Podemos acompanhar através dos relatos dos 
educadores  as  percepções  dos  mesmos  sobre  vários  aspectos  relacionados  às 
autoimagens negativas que os educandos do Grupo vivenciam, mas também como 
os educadores estão percebendo sua ressignificação. 


159 
 
Na próxima seção ouviremos a voz dos educandos do Grupo da Guanabara 
a  partir  de  suas  histórias  de  vida  e  de  trajetória  escolar,  buscando  encontrar 
elementos  de  análise  que  nos  articulem  com  a  educação  popular  e  a  concepção 
freireana. 
 

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