Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação


  “E  caminhando  é  que  se  encontra  o  caminho”:  a  busca  pela



Baixar 14.49 Kb.
Pdf preview
Página68/113
Encontro17.05.2021
Tamanho14.49 Kb.
1   ...   64   65   66   67   68   69   70   71   ...   113
5.2.2  “E  caminhando  é  que  se  encontra  o  caminho”:  a  busca  pela 
desconstrução 
– superação – ressignificação – afirmação das autoimagens 
Após as primeiras impressões das educadoras e da assessoria pedagógica 
sobre a autoimagem buscamos nos aproximar mais das ações conhecendo melhor 
de  que  modo  as  educadoras  e  a  assessoria  pedagógica  do  NEP  trabalham 
buscando superar a autoimagem negativa dos educandos.  
Neste  sentido,  ainda  na  perspectiva  das  práticas  pedagógicas  buscamos 
analisar  se  há,  de  fato,  por  parte  das  educadoras  do  Grupo  da  Guanabara  e  da 
assessoria pedagógica do NEP um esforço real na superação e ressignificação das 
autoimagens  negativas  dos  alfabetizandos  excluídos  do  sistema  educacional. 
Quais as categorias e/ou pressupostos da educação popular são destacados como 
facilitadores ou impulsionadores dessa ressignificação?  
Iniciaremos  com  a  participação  da  assessoria  pedagógica  em  dois 
momentos.  O  primeiro  diz  respeito  a  como  o  NEP  atua  na  desconstrução  das 
representações  negativas  dos  educadores  sobre  os  analfabetos.  O  segundo 
momento  a  assessoria  se  pronuncia  sobre  a  atuação  dos  educadores  na 
viabilização da superação das autoimagens negativas dos educandos. 
 
Atua a partir do diálogo como orientação metodológica. A inovação 
não pode ser decretada 
– alguém já falou sobre isso – e a liberdade 
também  não  pode  ser  decretada.  A  liberdade  tem  que  ser 
construída.  A  autonomia  precisa  ser  construída  e  a  reconstrução 
dessa  imagem  ou  a  desconstrução  dessas  representações 
negativas  tampouco  pode  ser  uma  anulação  do  educador  pro 
educando.  Ela  precisa  ser  uma  construção.  A  desconstrução, 
portanto é um processo de construção.  Uma construção do sujeito 
do  próprio  alfabetizando.  É  claro  que  isso  não  se  dá  de  maneira 
atomizada,  ou  alheio  ao  processo  pedagógico  ela  se  dá  no 
processo  pedagógico,  mas  é  feita  pelo  sujeito  por  ele  próprio  em 
interação com os educandos. (A.P) 
 
 
O discurso do assessor inicia a partir da posição metodológica do diálogo, e 
logo  em  seguida  ratifica  sua  posição  fazendo  menção  ao  movimento  dialético  de 
desconstrução/construção  a  partir  desse  instrumento  político que é  o  diálogo.  Um 
diálogo  que  não  é  regido  por  imposição,  mas  na  democrática  relação  ética  e 


145 
 
respeitosa  em  que  a  inovação,  a  liberdade  e  a  autonomia  vão  tomando  forma  e 
lógica.  
 
O  assessor  ressalta  a  importância  do  educador  nesse  processo  de  revisão 
de  sua  própria  prática  e  ressalta  que  esta  trajetória  não  significa  a  anulação  do 
educador diante do educando, ou equiparar-se a ele como que se anulando de sua 
identidade como educador. Freire (2013) nos ajuda a pensar:
 
 
Professores  e  alunos  são  diferentes.  Como  tais,  não  são  iguais.  Mas,  se 
do  ponto  de  vista  da  ideologia  autoritária,  de  esquerda  ou  de  direita,  a 
diferença  se  faz  antagônica,  de  tal  forma  que  cabe  ao  professor  guiar, 
dirigir,  dizer  sua  palavra  sem  ouvir  a  do  aluno,  ensinar,  sem  saber-se 
aprendendo ao ensinar, do ponto de vista de uma formação democrática a 
diferença  persiste,  mas  se  torna  conciliável.  A  opção  democrática  nem 
nega  a  autoridade  singular  do  professor  sem  a  qual  a  liberdade  do 
educando  pode  perder-se  nem  tampouco  recusa  a  liberdade  substantiva 
do aluno que, para crescer precisa tanto de limites quanto de espaço para, 
experimentando  os  próprios  limites,  internalizá-los  como  princípios  éticos. 
A questão fundamental nas relações entre  professores e alunos não está 
no respeito gerado no medo, mas no respeito constituindo-se no exercício 
do direito de ser diferente. (p. 245) 
 
Nas palavras do autor a diferença aparece como direito e se dá mediatizada 
pelo  respeito,  atitudes  reveladas  tanto  pela  assessoria  do  NEP  quanto  pelas 
educadoras. 
Encontrar  pontos  de  articulação  entre  a  educação  popular  e  a  autoimagem 
vão ao encontro de nosso objeto de pesquisa e se fazem, mais uma vez reiterando 
a categoria diálogo no processo de ressignificação das autoimagens: 
 
Ainda com relação à atuação do NEP na desconstrução de representações 
negativas dos educadores para com analfabetos o assessor comenta:
 
Então  o  NEP  atua  valorizando  o  sujeito  pra  que  ele  se  sinta 
fortalecido  e  capaz  de  construir  outra  representação  de  si  ou,  de 
desconstruir  essas  representações  negativas  e  como  o  nosso 
trabalho  ele  é  um  trabalho  pedagógico  os  elementos  que 
possibilitam  essa  desconstrução  tem  que  se  fazer  presentes  ao 
longo do trabalho. Então por exemplo, um planejamento a partir do 
qual as vozes dos sujeitos sejam consideradas é um planejamento 
que  possibilita  essa  desconstrução  das  representações.  Um 
processo  avaliativo  que  possibilite  ao  sujeito  reconhecer  os  seus 
avanços  e  que  ele  se  sinta  partícipe  desse  processo  avaliativo 
também  facilita  essa  desconstrução  e  uma  metodologia  ativa  uma 
metodologia  dialogada  um  trabalho  que  precisa  ser  prazeroso 
também,  que  precisa  ser  alegre.  Paulo  Freire  dizia  que  a 
rigorosidade  metódica  não  se  acha  excluída  da  alegria  da 
felicidade.  Então  um  trabalho  pedagógico  que  facilita  essa 
desconstrução  das  representações  negativas  deve  ser  esse 
trabalho  que  incentiva  a  participação  e  que  acolhe  o  belo  e  que 
acolhe as experiências prazerosas. (A.P) 


146 
 
 
A fala do assessor retrata que a fundamentação do trabalho pedagógico que 
vem  sendo  exercido  pelo  NEP  também  colabora  e  atua  de  forma  preponderante 
para  que  os  educadores  participem  das  ações  do  Núcleo  de  modo  que  o  seu 
processo  de  desconstrução/construção  das  representações  negativadas  em 
relação  ao  analfabeto  sejam  paulatinamente  substituídos  em  concomitância  com 
sua  atuação  junto  ao  grupo  e  a  percepção  do  sujeito  alfabetizando  que  vão  se 
dando  a  partir  das  intervenções  coletivas  que  educadores  e  educandos  vão 
desenvolvendo no diálogo, na avaliação participativa e com a própria presença dos 
educandos no processo de convivência com o trabalho. 
O Assessor Pedagógico faz referencia a atuação  das educadoras do Grupo 
da Guanabara no processo de ressignificação das autoimagens negativas:
 
Vejo  que  os  educadores  têm  buscado  desenvolver  um  trabalho 
nesta  perspectiva,  ou  seja,  que  valorize  a  humanidade  contida  em 
cada educando, incentivando-o a crescer e a reinventar sua vida e 
sua  história.  No  entanto,  considero  que  a  superação  das 
autoimagens negativas dos educandos exige bem mais do que um 
trabalho  educativo  como  o  que  o  NEP  desenvolve.  Essa 
representação  negativa  de  si  próprio  que  muitos  educandos 
carregam  decorre  da  negação  de  suas  vidas,  de  seus  direitos,  de 
seus conhecimentos, negação que é promovida historicamente por 
um  modelo  de  sociedade  capitalista,  racista,  eurocêntrico, 
colonialista,  sexista.  Portanto,  superar  essas  representações 
negativas exigiria também a superação deste modelo excludente de 
sociedade,  o  que  um  trabalho  pedagógico,  por  si  só,  não  é  capaz 
de  fazer,  como  já  nos  alertava  Freire.  O  que  pode  ser  feito,  neste 
contexto, é atuar nas fissuras deixadas pelo sistema, nas brechas, 
nos  interstícios.  É  exatamente  isso  que  fazem  os  educadores  do 
NEP:  alargar  fissuras,  o  que  significa  promover  a  dignidade 
daqueles  que  tiveram  suas  existências  negadas,  valorizar  os 
conhecimentos  daqueles  que  passaram  suas  vidas  inteiras  sendo 
vistos como incapazes, impulsionar a tomada de decisão daqueles 
que foram imobilizados e amordaçados. (A.P) 
 
 
Sem dúvida,  as  iniciativas  em  prol  de  um  trabalho  pautado  no  pensamento 
freireano  e  na  educação  popular  exige  da  assessoria  pedagógica,  coordenação 
geral e de todos os educadores do NEP um esforço sistemático que envolve não só 
o  ato  de  planejar,  mas,  todos  os  investimentos  já  citados  pela  A.P  dos  quais 
destacamos  a  formação  permanente.  Sem  um  ostensivo  acompanhamento  das 
atividades,  bem  como  a  efetiva  aproximação  entre  os  membros  do  NEP  num 
diálogo democrático e a participação dos educadores como sujeitos de sua prática 


147 
 
em ações que resultam também em produções escritas, não seria possível termos 
o Núcleo como referência da atuação de ações populares na Amazônia Paraense. 
O  Assessor  Pedagógico  nos  chama  atenção  de  maneira  incisiva  para  os 
outros  modos  de  exclusão  que  concorrem  em  concomitância  com  a  expulsão  do 
sistema educacional vivido pelos educandos e, impostos pela sociedade capitalista 
e  que  tornam  a  superação/ressignificação  de  sua  autoimagem  um  fator  mais 
complexo e de tensões “macro” considerando a estrutura excludente da sociedade 
capitalista. Porém, sua fala também vem advertida de uma esperança pautada na 
concepção  freireana  e  se  respalda  na  relação  amorosa  que  o  educador  deve 
manter com os educandos e com sua própria atuação como educador. Entretanto, 
Freire (2012) nos adverte. 
 
 
 
É  preciso,  contudo  que  esse  amor  seja,  na  verdade  um  “amor  armado”, 
um amor brigão de quem se afirma no direito ou no dever de ter o direito 
de lutar de denunciar, de anunciar. É essa forma de amar indispensável ao 
educador ou educadora progressista e que precisa ser aprendida e vivida 
por nós. (p. 134). 
 
A assessoria do NEP também se  posicionou sobre alguns indicadores que, 
de  acordo  com  a  mesma,  colaboram  para  a  ressignificação  da  autoimagem  dos 
alfabetizandos. 
O  pensamento  de  Paulo  Freire  ele  é  profundamente  humanista, 
porque ele valoriza o ser humano e valoriza as  potencialidades do 
ser  humano, sobretudo. Esse pensamento quando ele serve como 
inspiração  às  práticas  educativas  e  práticas  alfabetizadoras  ele 
acaba por fazer com que esse sujeito ele valorize sua trajetória de 
vida e valorize seus conhecimentos também. Tem esse traço que é 
o  traço  fundamental  do  pensamento  de  Paulo  Freire  que  é  não 
apenas  a  valorização  da  pessoa  numa  dimensão  ética,  mas  a 
valorização das experiências de vida e dos conhecimentos desses 
sujeitos.  Então  eu  vejo  que  quando  os  alfabetizandos  que  não 
tiveram  uma  experiência  de  escolarização  ou  que  tiveram  uma 
experiência  de  escolarização  prejudicada  ou  inferiorizada  quando 
esses  mesmos  sujeitos  estão  numa  turma  de  educação  popular 
baseado  nessas  características  eu  vejo  que  há  uma  grande 
possibilidade  dessa  autoimagem  ela  se  reconstruir  no  sentido  da 
valorização  não  só  da  pessoa 
–  do  alfabetizando  –  mas  também 
das  suas  experiências  de  vida  da  sua  trajetória  e  dos  seus 
conhecimentos.  Então  assim,  pra  resumir  eu  vejo  que  é  o 
humanismo presente no pensamento de Freire e a valorização das 
experiências e dos conhecimentos quer dizer, essa característica é 
que  faz  com  que  essas  práticas  Freireanas  de  educação  popular 
possibilitem  a  estes  sujeitos  a  reconstrução  de  sua  autoimagem 
numa perspectiva de valorização. (A.P) 
 


148 
 
O  assessor  nos  reporta  aos  fundamentos  da  educação  freireana  que,  em 
movimento permanente na história construiu-se e continua se refazendo com base 
na  educação  popular.  Citou  a  humanização  como  o  traço  freireano  que  melhor 
caracteriza  a  valorização  do  ser  humano  como  ser  no  mundo  e  também  a 
valorização de suas experiências e conhecimentos que o coloca em relação com o 
mundo.  Comenta  ainda  que  essa  fundamentação  que  é  a  base  do  pensamento 
freireano  e  popular  ao  encontrar  alfabetizandos  que  tem  o  estigma  da  exclusão 
como  parte  de  sua  trajetória  de  vida  tem  grande  possibilidades  em  reconstruir  a 
autoimagem dos sujeitos na direção de sua afirmação. 
Não podemos, no entanto, nos dar por satisfeitos com a afirmação de que a 
educação  popular  dará  aos  educadores  um  selo  de  garantia  assegurando  uma 
alfabetização que vá ao encontro de uma ação que liberta consciências e promove 
a afirmação dos sujeitos.  Do  contrário,  deveremos nos manter como “um ser que 
tendo  por  vocação a  humanização,  se  confronta  [...]  com  o  incessante desafio da 
desumanização, como distorção daquela vocação.” (FREIRE, 2007, p. 21). 
Queremos  deixar  claro  que  deveremos  estar  como  educadores  cada  vez 
mais vigilantes, em nossa opção como progressistas e manter a coerência entre os 
pressupostos  teóricos  que  defendemos  e  a  prática  que  exercemos,  o  que  Freire 
(2007) chamou de obstáculos à prática educativa. 
Para  que  melhor  conciliemos  as  falas  das  educadoras  a  respeito  do 
processo  de  superação/ressignificação  das  autoimagens  negativas  elegemos 
algumas  categorias  freireanas,  a  saber:  a)  diálogo;  b)  todos  são  aprendentes;  c
conscientização;  d)  reflexão  sobre  a  prática;  e)  autonomia;  f)  a  denúncia  da 
opressão  e  o  anúncio  da  transformação;  g)  mas  no  meio  do  caminho  tinha  uma 
educadora. 
 

Catálogo: ppged -> wp-content -> uploads -> dissertacoes


Compartilhe com seus amigos:
1   ...   64   65   66   67   68   69   70   71   ...   113


©historiapt.info 2019
enviar mensagem

    Página principal