Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação



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5.1.6 Avaliação da Aprendizagem 
 
Certamente há várias maneiras de se “pensar a prática”, atitude que também 
traduz  a  ação  de  avaliar.  Não  existe  um  tempo  determinado  para  esta  ação 
acontecer.  Avalia-se  antes,  durante  e  após  a  prática.  As  finalidades  para  quê  se 
avaliam  também  são  diversas  e  na  prática  pedagógica  podem  acontecer  quando 
planejamos  preparando,  organizando  e  priorizando  as  intervenções.  Quando, 
durante  a  execução  das  ações  percebemos  que  a  atividade  não  proporcionou  o 
efeito  que  esperávamos  e,  rapidamente  redimensionamos  a  atividade,  ou  quando 
após a execução do plano, retomamos o feito para refazê-lo em outra perspectiva e 
com outras intenções.  
O  fato  é  que  a  avaliação  é  essencial  para  dar  ao  educador  elementos  que 
podem  ressignificar  o  objeto  cognoscível  em  face  dos  sujeitos  cognoscentes.  
Avaliar  comporta  em  si  o  movimento  dialético  de  ação-reflexão-ação  no  encontro 
entre sujeito cognoscente e objeto cognoscível (FREIRE, 2011 d).  
                                                 
31
 Ver página 5 onde citamos os autores. 


133 
 
Avaliar  a  aprendizagem  das  pessoas  não  significa  tão  somente  avaliar  o 
plano  de  aula,  mas  lançar  o  olhar  crítico  para  além  dele  como  produto  de  todo  o 
investimento  que  é  feito  na  ação  de  planejar  e  replanejar.  É  alcançar  o  objetivo 
principal  deste  processo  o  qual  nos  debruçamos  que  é  a  aprendizagem  daqueles 
que também são objeto da ação do professor. 
 
No  caso  de  alguns  alunos  eles  conseguiram  aprender,  a 
reconhecer  as  letras,  reconhecer  palavras  repetidas  em  textos  e 
formar silabas. Poderia ter sido melhor claro, mas, o nosso período 
do encontro é um período muito curto. Quando essa pessoa sai de 
lá  ele  no  outro  dia  ele  já  vai  trabalhar  cedo.  Ele  passa  o  dia  todo 
trabalhando  ele  não  tem  aquele  retorno  pro  livro  para  tentar  ler, 
rever  o  que  ele  viu  no  dia  anterior,  como  normalmente  a  gente 
sugere que os pais façam com as criancinhas né? Com os jovens. 
Então  eu  acho  que  essa  aprendizagem  ela  foi  boa  no  sentido  de 
que  a  gente  conseguiu  levar  alguma  coisa,  mas,  essa  questão  da 
não continuidade em  casa ou mesmo pelo encontro ser num curto 
período  a  gente  não  conseguiu  atender  como  nós  gostaríamos. 
(E2). 
 
Bem  o  que  eu  avalio  nesse  momento  é  que  ela  é  lenta  por  conta 
dos  dias,  do  tempo  dos  obstáculos  que  vem  acontecendo  no 
decorrer de cada semestre [...] quando a coisa é corrida a gente vê 
o  resultado  mais  rápido.  Quando  é  lento  a  gente  vai  ver  resultado 
lento. Mas mesmo assim a gente já vê algum resultado. Eu percebo 
um resultado na turma. Em relação a muitos que entraram desde o 
começo que a gente via que estavam  com  todas as dificuldades e 
estão  avançando.  Então  eu  acredito  que  a  gente  está  precisando 
de mais dias. Não sei que maneira a gente pode estar fazendo isso, 
até porque todos nós temos nossos compromissos também. (E3) 
 
As educadoras E2 e E3 consideraram mais dois aspectos em sua avaliação 
além  do  processo  de  aquisição  da  leitura-escrita.  Tanto  avaliaram  positivamente 
quanto consideraram que houve avanço dos alunos em relação ao reconhecimento 
de  palavras  e  letras  e  sílabas;  também  consideraram  o  pouco  tempo  de  atuação 
dos  educadores  e  a  falta  de  atividades  complementares  como  fatores  que  estão 
comprometendo o alcance de uma aprendizagem mais satisfatória.  
 
Em relação ao tempo de atuação é necessário que tomemos três aspectos 
na  fala  das  educadoras:  o  tempo  real  de  intervenção,  o  tempo  que  envolve  as 
necessidades  e  características  do  processo  de  alfabetização  de  jovens,  adultos  e 
idosos  e,  a  logística  em  torno  da  ação  do  grupo.  Obviamente  que  encontraremos 
algumas limitações em relação ao transporte, não podemos esquecer que a escola 
onde  acontecem  os  encontros  é  em  Ananindeua 
–  município  vizinho  à  capital  e 
numa região de difícil acesso. Os responsáveis pelo transporte e pelo lanche que é 


134 
 
servido no final de cada aula não são do NEP e sim de uma instituição parceira que 
mantém o trabalho.  
Outro  complicador  diz  respeito  a  disponibilidade  de  educadores  para  cobrir 
os cinco dias da semana. Será que o NEP disponibilizaria desse contingente? E se 
houvesse as pessoas disponibilizariam de um tempo para isso? E como será que 
lidariam  com  a  diversidade  de  educadores  no  direcionamento  das  práticas? 
Considerando  que  deveriam  manter  um  diálogo  muito  afinado  em  relação  ao 
planejamento e toda a complexa trama que o envolve.  
A educadora E2 também avalia a não continuidade das atividades em casa 
como  um fator  complicador para a boa  aprendizagem  dos  educandos.  Ao mesmo 
tempo, reconhece que os educandos, desenvolvem durante o dia outras atividades. 
Não percebemos na fala da educadora nenhum indicativo de sugestão em relação 
a  esse  aspecto,  nem  se  o  grupo  tem  se  articulado  neste  sentido.  Novamente 
avaliamos que seria necessário um tempo maior de avaliação do grupo durante a 
ação  do  planejamento  para  que  pudessem  considerar  esse  e  outros  aspectos  de 
forma  mais  pontual,  ou  seja,  analisando-o  de  forma  crítica  e  buscando  caminhos 
para resolvê-lo. 
As educadoras avaliam de forma positiva a aprendizagem dos educandos. 
 
[...]  nosso  trabalho  tem  surtido  muito  efeito  no  que  se  trata  da 
aprendizagem  deles.  Eles  têm  tido  uma  evolução  muito  grande.  A 
gente avaliando o primeiro dia que eles chegam muitas vezes sem 
saber  ler,  sem  saber  escrever,  sem  interagir,  sem  falar,  sem  se 
comunicar e de repente a gente vê uma mudança muito grande ao 
longo disso. Eles já passam a se sentir seguros, um quer ajudar o 
outro então eu vejo a aprendizagem deles tá se dando de maneira 
muito satisfatória. (E4). 
 
Eu avalio positivamente. Eu vejo que eles estão crescendo mesmo. 
Aprendendo dentro daquilo que é proposto pra eles e tem mostrado 
algum  desenvolvimento  em  vários  aspectos,  não  só  aspectos  com 
as  próprias  letras,  mas  em  aspectos  da  interação  entre  eles, 
aspectos  da  criatividade,  do  entusiasmo.  Isso  tudo  a  gente  avalia 
como  coisa  positiva  né?  E  com  certeza,  nosso  objetivo  de 
alfabetizá-lo, toda essa trajetória tem sido boa. Tem sido crescente 
pra nós. (E5) 
 
As educadoras E4 e E5 ressaltam aspectos positivos ligados à subjetividade
mas  que  acabam  objetivamente  aflorando  nas  relações  humanas  do  grupo. 
Aspectos  como  a  interação,  comunicação,  solidariedade,  criatividade,  entusiasmo 
são  alguns  citados.  A  educadora  E4  cita  a  palavra  “segurança”  dando-nos  um 


135 
 
indicativo  que  para  que  a  aprendizagem  possa  acontecer  é  necessário  que 
possamos  nos  sentir  seguros  no  ambiente  alfabetizador  para  arriscar,  para 
envolvermo-nos em aprendizagens significativas. 
Além  disso,  é  necessário  que  todos  nós  educadores  ao  avaliarmos  o 
processo  educativo  que  necessariamente  precisa  estar  ligado  as  relações  com  a 
aprendizagem estejamos também buscando amadurecer epistemologicamente em 
direção  aos  aspectos  objetivos  e  subjetivos,  visíveis  e  invisíveis  que  envolvem  a 
ação  pedagógica  e  mais  que  isso,  as  ações  pedagógicas  com  jovens,  adultos  e 
idosos. Neste sentido, a educadora E1 pondera: 
 
 
[...] acima de tudo a gente tem que ter  paciência e ter consciência 
de que eles também têm os limites né? Que são fatores já que não 
cabe  a  educação.  A  educação  é  um  instrumento  muito  importante 
pra  transformação  social  sim,  mas  também  sozinha,  ela  não  é 
suficiente  né?  Existem  outros  fatores  econômicos,  familiares 
também  que  nós  não  podemos  intervir,  mas  dentro  do  que  diz 
respeito  aos  primeiros  passos  que  a  educação  deve  e  pode,  dar 
que  é  a  questão  do  desejo,  da  conscientização  a  gente  está 
conseguindo,  porque  hoje,  mesmo  com  as  dificuldades  que  eles 
têm, mesmo com o processo lento de educação mas eles têm essa 
consciência de que eles precisam, podem e devem aprender, o que 
é fundamental. (E1

 
 
Dois  aspectos  são  importantes  analisarmos  na  fala  da  educadora  E1.  A 
educadora  considera  o  desejo  e  a  conscientização  como  fatores  fundamentais 
– 
chamados de “primeiros passos” – do processo educacional de mudança do qual a 
educação emancipatória se insere e suscita. Considera também que outros fatores 
estão imbricados no momento que avaliamos os educandos: fatores econômicos e 
familiares.  Observemos  que  estas  questões  complexas  as  quais  nos  deparamos 
não são privilégio, em nosso país da educação de jovens e adultos. 
 
Fatores  econômicos  e  familiares  são  limites  impostos  que  fazem  parte  do 
contexto social e que não podem paralisar o educador no sentido de fazê-lo pensar 
que “a vida é assim mesmo e não há nada que possamos fazer nesse sentido”. 
A  educação  como  ato  político  não  pode  desconsiderar  as  complexas 
relações  sociais  e  outros  fatores  inerentes  à  educação  ao  longo  da  vida,  como  a 
situação econômica e cultural dos educandos. Em nosso caso, envolve um esforço 
dos  educadores  do  Grupo  da  Guanabara  em  conhecer  as  características  da  EJA 


136 
 
não só a nível nacional, mas, especificamente a nível local. Características que irão 
implicar  no  modo  de  vida  dos  que  vivem  na  região  Amazônica,  mas  também 
considerar  os  aspectos  migratórios  que  trouxeram  estes  sujeitos  para  o  nosso 
contexto
32
.  Não  esquecendo  que  o  Grupo  já  atua  no  reconhecimento  desses 
sujeitos quando trabalha a pesquisa socioantropológica
33
.  
O  despertar  da  consciência  revelada  no  “desejo  em  aprender”  do  qual  a 
educadora  E1  se  refere  já  se  traduz  em  consciência  de  si  e  do  mundo  e  revela 
ainda  o  poder  da  comunicação  entre  os  sujeitos  articulada  no  diálogo  no  ato 
educativo.  Interessante  que  associemos  essas  três  categorias freireanas:  diálogo-
comunicação-conscientização para enriquecer o debate e ratificar a coerência com 
que Freire em seus estudos entrelaça sua concepção sobre educação.  
 
A  interação  dialógica  para  ser  comunicativa  precisa  que  haja  compreensão 
dos significados é relação intercomunicativa entre sujeitos. : 
 
É então indispensável ao ato comunicativo, para que este seja eficiente, o 
acordo  entre  os  sujeitos,  reciprocamente  comunicantes.  Isto  é,  a 
expressão verbal de um dos sujeitos tem que ser percebida dentro de um 
quadro significativo comum ao outro sujeito. A educação é comunicação é 
diálogo,  na  medida  em  que  não  é  a  transferência  de  saber,  mas  um 
encontro  de  sujeitos  interlocutores  que  buscam  a  significação  dos 
significados. (FREIRE, 1983, p. 67) 
 
 
É  na  busca  da  significação  dos  significados  que  o  papel  do  educador 
assume,  mais  uma  vez,  na  concepção  freireana  papel  preponderante.  Na  medida 
em  que  o  educador  problematiza  os  conteúdos  escolhidos  coletivamente  na 
relação  dialógicos  educador-educando,  problematiza  a  realidade  sociocultural  e 
histórica dos educandos, e, ao mesmo tempo se deixa problematizar por eles, cria 
os elos para que o processo de libertação das consciências aconteça de modo que 
a  aula  seja  um  encontro  prazeroso  entre  pensamento-linguagem-contexto  ou 

Catálogo: ppged -> wp-content -> uploads -> dissertacoes


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