Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação



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“olha,  mas  é  porque  ele  tá  doente... 
Tem  um  parente  que  viajou”.  E  aí  sempre  eles  sabem  o  que  tá 
acontecendo  uns  com  os  outros.  Então  é  uma  relação  boa.  Até 
porque  eles  são  pessoas  já  que  são  maduras  e  não  têm  aquelas 
picuinhas  que  a  gente  vê  com  adolescentes.  Por  serem  mais 
maduras  elas  conseguem  aproveitar  mais  aquele  momento 
enquanto eles estão juntos.  Como muito deles falam  é o momento 
em que eles saem daquela rotina é um momento de que eles estão 
ali  pra  não  ficar  no  ócio  da  casa  então  é  o  momento  em  que  eles 
buscam aproveitar por mais que seja uma hora, duas horas... Eles 
procuram aproveitar. (E2) 
 
Parece  que  se  torna  assim  uma  família,  de  repente.  Porque  um 
cuida  do  outro.  Um  se  preocupa  com  o  outro.  Olha  cuidado  com 
isso...  Olha  cuidado...  Então  eu  acho  isso  muito  legal.  Ninguém 
pode  dizer:  “-  Ah  cadê  minha  borracha?”  Quer  dizer  que  vem 
aquela  questão  de  um  ajudar  o  outro.  Um  colaborar  com  o  outro. 
Eles  interagem  perfeitamente  com  a  gente  com  os  professores. 
Eles  veem  a  gente  como  eles  lá  também.  Acho  legal  isso, 
interessante. (E3) 
 
As  uniões  do  grupo  caracterizadas  por  sua  cumplicidade  e  amizade 
aparecem  acompanhadas  de  relações  mais  equilibradas  do  ponto  de  vista  da 
maturidade,  componente  que  resulta  da  especificidade  que  a  modalidade  EJA 
apresenta.  A  fala  da  educador
a  E2  quanto  a  expressão  “aproveitar  o  encontro”, 
poderia  nos  revelar  que  talvez  em  outros  espaços  eles  não  tenham  o  mesmo 
reconhecimento,  ou  mesmo  as  companhias  para  que  a  escuta  sensível  e  o 
pronunciamento de sua palavra fossem garantidas. 
Destaca-se também o sentimento de solidariedade como fator que fortalece 
a cumplicidade e dá ao grupo um perfil familiar de bem querer. 


131 
 
A  afetividade,  a  confiança  no  trabalho  das  educadoras,  além  do  reforço  ao 
sentimento de solidariedade existente entre os alunos também foram mencionados, 
pelas educadoras: 
[...]  eu  vejo  as  relações  existentes  mais  harmoniosas  possíveis.  A 
gente passa a ter um laço afetivo com eles, e ver eles mais do que 
simples  alunos  né?  Simples  pessoas  que  tão  ali  buscando 
conhecimento.  Não.  A  gente,  como  eu  falei  através  da 
humanização da amorosidade a gente acaba tendo relações muito 
fortes  muito  intensas  com  eles,  estabelecendo  laços  afetivos  que 
muitas  vezes  eles  mesmos  convidam  a  gente  pra  tomar  café  pra 
almoçar pra visitar eles e isso é muito legal. (E4) 
 
Eu acho que é uma turma bem integrada. Todos interagem bem. Eu 
vejo  alguns  são  tímidos  né  chegam  tímidos.  Ai  ficam  assim,  mas 
com  o  passar  do  tempo  também  começam  a  interagir  com  os 
outros.  Um,  dá  força  pro  outro.  Tem  um  dos  alunos  que  tá  mais 
preocupado  que  o  outro  aprenda  do  que  ele  mesmo.  Diz:  “muito 
bem, você fez certo é isso aí”. Então a gente vê que tem uma boa 
interação né. E com as educadoras também. Todos interagem bem, 
perguntam  e  a  gente  vê  que  eles  têm  uma  confiança  no  nosso 
trabalho. Isso é muito bom, graças a Deus. (E5) 
 
A  humanização  e  a  amorosidade  foram  citadas  pela  educadora  E4  como 
fazendo  parte  de  um  suporte  para  que  a  afetividade  se  dê  de  forma  natural.  A 
interação  entre  os  alunos  e  as  perguntas  feitas  por  eles 
–  destacados  pela 
educadora  E5 
–  fortalecem  o  aspecto  interacional  necessário  para  que  a  ação 
pedagógica  encontre  feedback  e  se  fortaleça.  Da  mesma  forma,  a  avaliação  da 
educadora  em  relação  ao  olhar  do  educando  sobre  o  trabalho  que  está  sendo 
realizado  é  primordial  para  que  a  autoimagem  dos  educadores  também  seja 
alimentada positivamente. 
A  profunda  crença no  mundo,  nos  seres  humanos  e na  vida  acompanhada 
de  uma  ferrenha  busca  pela  coerência  entre  “teoria-prática”;  “pensamento-ação” 
que  remetesse  a  esses  e  outros  princípios  anunciados  pelo  autor  fez  com  que 
Freire  (2011a)  descortinasse  no  diálogo  o  traço  mais  profundo  de  uma  educação 
que se faz no afeto e, portanto, na amorosidade. Mas Freire (2011f) vai além e ao 
afirmar  que  “a  afetividade  não  se  acha  excluída  da  cognoscibilidade”  (138),  pois 
rompe  com  a  falsa  ideia  de  para  se  obter  sucesso  em  uma  relação  de  ensino  e 
aprendizagem  o  professor  deve  adotar  uma  postura  sisuda  e  distante  dos 
educandos.  


132 
 
Neste  ponto  Freire  (20011f)  e  Charlot  (2000)  mais  uma  vez
31
  vão  ao 
encontro  das  relações  entre  identidade  e  saber.  A  dimensão  afetiva  que  nos 
constitui  e  nos  afirma  como  pertencente  à  raça  humana  exige  que  sejamos 
reconhecidos por nós mesmos numa relação amorosa que envolve o “eu-eu” como 
também  reconhecidos  pelo 
“outro”,  expressa  nas  relações  “eu-outro”  da  qual  o 
educador não se exime:  
E que dizer, mas, sobretudo que esperar de mim, se, como professor não 
me  acho  tomado  por  este  outro  saber,  o  de  que  preciso  estar  aberto  ao 
gosto de querer bem, às vezes, á coragem de querer bem aos educandos 
e  à  própria  prática  educativa  de  que  participo.  Esta  abertura  ao  querer 
bem  não  significa,  na  verdade,  que  porque  professor  me  obrigo  a  querer 
bem  a  todos  os  alunos  de  maneira  igual.  Significa,  de  fato,  que  a 
afetividade não me assusta que não tenho medo de expressá-la. Significa 
[...]  autenticamente  selar  o  meu  compromisso  com  os  educandos  numa 
prática específica do ser humano. (2011f. p. 138). 
 
As  práticas  educativas  precisam  ser  refletidas  à  luz  dos  contextos  sociais, 
psicológicos e principalmente políticos como práticas relacionadas à especificidade 
humana,  por  isso,  precisam  estar  presentes  e  constituir  pauta  nas  formações 
(iniciais ou continuadas) de todos os educadores estejam eles ligados ao contexto 
popular ou não.  
 

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