Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação



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c) Criatividade 
A  busca  pelo  novo  impulsionada  pela  inquietude  e  pelo  sentimento  de 
inventividade  das  ações  de  educadores  e  educandos  para  a  promoção  de  uma 
educação  que  liberta  e  que  promove  que  impulsione  os  sujeitos  a  romper  com  a 
“mesmice”  que  paralisam  o  cotidiano  e  o  fazer  pedagógico  está  marcadamente 
presente  nas  obras  de  Paulo  Freire  como,  da  mesma  forma  está  presente  no 
movimento de educação popular que se originou no final dos anos de 1950.  
Interessante observar na fala das educadoras, que já carregam a marca das 
leituras  freireana  os  diferentes  modos  como  a  criatividade  circula  em  seus 
entendimentos. Não somente como ato de criar, mas, vendo-a como habilidade em 
                                                 
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 O BRT à época ainda estava em fase de construção na cidade de Belém e tema recorrente nos 
telejornais.  


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conhecer  e  conhecendo,  reconhecer  nos  conhecimentos  adquiridos  seu  poder 
criador 
– porta aberta para o novo.  
 
[...]  Fazendo  um  paralelo  da  educação  popular  do  NEP  com  a 
educação  tradicional  que  nós  vivenciamos  [...]  a  gente  cai  muito 
naquela  questão  do  aluno  ser  uma  espécie  de  operário  né?  Cai 
muito naquela filosofia animalesca do aprender a aprender. [...] tem 
que  aprender  um  certo  ofício  tem  que  fazer  uma  pontuação 
suficiente    pra  poder  passar  no  vestibular.  Então  em  educação 
popular  isso  não  acontece.  Quer  dizer,  a  dona  Maria  que  gosta 
muito  de  literatura  e  sabe  fazer  poesia  tem  a  sua  habilidade 
valorizada tanto quanto o seu Antonio que consegue fazer cálculos 
matemáticos  de  cabeça  [...]  é  o  conhecimento  humanista  que 
impera.  O  conhecimento  ali  ele  é  um  bem  social.  Não  é  algo 
privado. (E1) 
 
A educadora faz um paralelo entre a educação popular e a tradicional e nos 
esclarece  como  a  dinâmica  do  capital  determina  e  condiciona  o  ato  criador  em 
decorrência de uma prestação de contas com o sistema. Enfatiza-nos a educadora 
que  o  conhecimento  é  visto  como  bem  social  e,  por  isso  a  diversidade  de  suas 
apreensões  é  partilhada  de  modo  a  promover  a  socialização  das  experiências. 
Todos aprendem e a partir daí se lançam a novas descobertas. 
De  outro  modo  a  criatividade  demanda  também  o  repensar  por  parte  dos 
educadores de sua própria prática o que implica revê-las não a partir de seu próprio 
entendimento,  mas  do  ponto  de  vista  do  aluno  e  suas  experiências.  Análise  que 
requer escuta observação, registro e ações mais coerentes com o grupo com que 
está  se  trabalhando  para  que  não  incorramos  em  não  estarmos  desafiando  os 
alunos como eles mesmos esperam e gostariam.   
Às  vezes  a  gente  planeja  alguma  coisa  e  [...]  a  gente  acaba 
trazendo  alguma  coisa  que  tá  um  pouco  abaixo  do  que  ele  pode 
produzir, do que ele pode trazer. Chega lá ele: ah eu acho que eu 
posso fazer  mais isso. 
Então às vezes: “eu já vi isso eu quero ver 
outra coisa”. [...] eu acho que isso também faz parte da criatividade 
do aluno, que traz as coisas, que sugere. Especialmente os alunos 
com mais idade [...] então eles conhecem muito, apesar de alguns 
casos não saber nem ler nem escrever. (E2) 
 
A  educadora  E2  considera  criatividade  a  crítica  feita  pelo  aluno  à  atividade 
apresentada.  Uma  crítica  positiva  e  que  requer  uma  resposta  imediata  diante  de 
uma  atividade  que  é  “lida”  pelo  educando  como  aquém  de  suas  potencialidades. 
Um  alerta  para  os  educadores  repensarem  o  nível  das  atividades  e  as 
especificidades  com  relação  ao  nível  de  conhecimento  de  cada  alfabetizando. 


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Muitas vezes, ao acharmos que porque estamos diante de jovens, adultos e idosos 
que  não  sabem  ler  e  escrever  significa  que  qualquer  atividade  será  bem  aceita  e 
não questionada.  
O  encadeamento  de  ações  geradas  a  partir  do  inacabamento  que  gera 
inquietude  que  gera  admiração  que  por  sua  vez  provoca  a  curiosidade  que 
desemboca  no  conhecimento  e  na  criticidade,  que  desperta  criatividade  que  por 
sua  vez  geram  novas  admirações  e  curiosidades  promovem  sentido  a  existência 
dos  seres  humanos  fortalece  identidades  e  elevam  o  sujeito  como  sujeito  de 
autonomia. A intervenção do educador quando orientada à luz de uma concepção 
emancipatória  como  é  a  educação  popular  faz  grande  diferença  na  vida  dos 
educandos. 
Apesar  de  esse  movimento  existir  como  estrutura  teórica  na  análise  da 
apreensão do conhecimento, na prática, pela falta de uma política educacional de 
fato  comprometida  com  a  promoção  das  pessoas,  ser  criativo  demanda  também 
oportunidade  para  que  em  sociedade  esse  artefato  traga  resultados  para  a 
promoção  do  sujeito  na  realidade  em  que  vive.  Vejamos  o  exemplo  narrado  pela 
educadora E3: 
 
Como ele fazia a rede para pescar. Então ele tinha uma criatividade 
que nós desconhecíamos. Ele também era um senhor muito criativo 
em relação a outras coisas que ele falava. Ele só diz assim: que ele 
não  teve  oportunidade  de  chegar  onde  ele  queria.  Até  porque  a 
gente sabe que antes era difícil mesmo. Ou você escolhia trabalhar 
ou  se  sustentar  [...]  que  geralmente  são  pessoas  que  vem  lá  do 
interior, não tem recurso nenhum não tem escola, não tem ninguém 
nem pra orientar. Muitas vezes não tem mãe nem pai. São pessoas 
órfãs que cuidam da família, dos irmãos. Então eles se entregaram 
muito  cedo  ao  trabalho.  Por  conta  disso  eles  não  chegaram  onde 
poderiam  estar.  Com  toda  certeza  ele  deveria  ser  um  artista  hoje. 
(E3) 
 
Certamente  que  o  educando  mencionado  pela  educadora  E3  poderia  ser 
qualquer  um  de  nós.  A  criatividade  ou  qualquer  outro  elemento  que  faz  parte  de 
nossa estrutura cognitiva ou se revela de modo natural como “dom” ou precisa ser 
educado, habilitado a ser. Eu não tenho habilidade manual, mas se eu me preparar 
tendo  um  bom  profissional  ao  meu  lado  para  me  ensinar  as  técnicas  que  preciso 
para  me  tornar  uma  pintora,  talvez  eu  não  me  torne  a  melhor,  mas,  com  toda 
certeza como ser humano capacitado de inteligência e sensibilidade, criatividade e 


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inventividade eu poderei dar passos que me deixariam surpresa comigo mesma me 
fazendo descobrir algo que até então me era desconhecido. 
A  falta  de  equidade  que  revela  o  problema  dos  direitos  e  da  cidadania,  da 
justiça  social  é  um problema  que  não  afeta  apenas  a  EJA.  A  educação  como um 
todo  está  recheada  de  exemplos  que  poderiam  exemplificar  como  a  falta  de 
oportunidade  em  nosso  país  em  relação  a  educação  determina  o  futuro  das 
pessoas. Estão sendo produzidas a todo o momento. Agora, enquanto escrevemos 
este texto e no momento em que você lê outras tantas desigualdades são geradas. 
Ainda  em  relação  a  criatividade,  como  estávamos  diante  de  um  roteiro 
semiestruturado,  lançamos  uma  questão  em  relação  ao  modo  como  ocorria  a 
expressão da criatividade em sala de aula.   
 
A gente deu uma oficina, coisas para o natal né?[...] eu cheguei dei 
as  orientações  e  a  educanda  com  toda  a  limitação  dela  foi  a  que 
mais aprendeu. Que mais progrediu em relação ao aprendizado [...] 
a gente percebeu isso. Poxa!, está vendo, ela pode ser confusa nas 
letras, mas tu passa um trabalho prático, ela desenvolve muito bem. 
Ela  tem  uma  inteligência  para  esses  saberes  que  eu  fiquei  assim 
beta.  Enquanto  já  outros  foram  mais  lentos  [...]  fazendo  uma 
atividade dessas vocês pode está percebendo o aprendizado que o 
aluno adquiriu. (E3) 
 
Nesta  fala  observamos  que,  apesar  do  diferencial  exercido  pela  atividade  no 
reconhecimento de outras habilidades dos alunos através do trabalho artístico, não 
percebemos  que  o  grupo  destaque  esse  aprendizado  de  forma  sistemática  como 
ponto  para  realização  de  experiências  semelhantes  criando  novas  possibilidades 
para os alunos que não só o aprendizado da leitura e da escrita. 
 
A  gente tem  que  incentivar  eles  a  ter  essa criatividade.  [...]  Muitos 
veem:  ah  é  jovem,  adulto,  idoso,  não  tem  mais  espaço  para  a 
criatividade.  Justamente  nosso  foco  é  estar  rompendo  com  esse 
pensamento. (E4) 
 
A  criatividade  eu  vejo  que  é  bem  importante.  Alguns  educandos 
mostram  pra  gente  né?  Algumas  coisas  que  sabem  fazer.  Nós  já 
tivemos  uma  aluna  que fazia  aquelas  pastas com  canudinho [...]  e 
sempre  que  a  gente  vê  que  eles  gostam  de  fazer  determinadas 
coisas  a  gente  estimula  isso  [...]  para  desenvolver  [...]  é 
fundamental  essa  criatividade  e  nós  pretendemos  ainda  procura 
desenvolver  mais isso. Trazer por exemplo no grupo pessoas que 
possam  auxiliar  mais  nesse  aspecto  porque  com  certeza  é 
importante essa criatividade deles. (E5). 
 


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Vê-se  nos  registros  das  educadoras  um  reconhecimento  da  importância  do 
estimulo  à  criatividade  não  só  como  área  de  conhecimento,  mas  também  como 
dimensão  a  ser  trabalhada  no  diálogo,  na  sensibilidade  em  ler o mundo de forma 
mais próxima a representação que seu cotidiano lhe remete.   

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