Universidade do Estado do Pará Centro de Ciências Sociais e da Educação Programa de Pós-Graduação em Educação



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Norte 
De 20 001 a 50 000 
 
Total 
 
Taxa (%) 
Branca 
59 119 
 
12,8 
Preta 
38 762 
 
24,0 
Parda 
246 313 
 
16,7 
Indígena 
21 747 
 
30,01 
Fonte: Censo Demográfico 2010 
– IBGE. 
 
O grupo de Jovens que estão na faixa etária de 15 anos ou mais representa 
um  percentual  bastante  elevado,  perfazendo  um  total  de  83,5  da  amostra 
trabalhada.  Os  índices  contrapõem  as  iniciativas  governamentais  em  favor  da 
alfabetização revelando desta forma que novas propostas devem ser pensadas e, 
sobretudo, que se avalie o que está sendo feito.  O  quadro também revela  que os 


64 
 
negros  se  destacam  com  total  de  24%  na  população  de  15  anos  ou  mais  e  os 
indígenas com 30,1 %. 
 
Ao mesmo tempo verificamos que,  na outra extremidade,  a população com 
60  anos  ou  mais,  é  apontada  pelo  Censo  2010  e  também  chama  atenção  pelo 
elevado  nível  de  analfabetismo  encontrado:  64,5  entre  os  indígenas  seguidos  por 
58,6  entre  os  pretos  e  47,8  entre  os  pardos  considerando  o  mesmo  número  de 
habitantes e região. 
 
Este quadro de exclusão envolvendo a condição do sujeito analfabeto inicia 
a  partir  do  momento  que  “o  poder  da  cultura  escrita”  se  legitima  nos  grupos 
urbanos  e  como  condição  para  ascensão  em  determinados  grupos  sociais 
(PIERRO  e GALVÃO, 2007). Portanto, de acordo com análise feita pelas  autoras: 
“o  estigma  contra  o  analfabeto  não  é  universal”.  As  imagens  e  representações 
negativas em torno do analfabeto são construídas a partir da inserção da escrita na 
sociedade  e  se  proliferam  através  dos  séculos  alimentadas  por  uma  mentalidade 
elitista e preconceituosa. As autoras enfatizam: 
 
Esse  tipo  de  representação, em suas  diversas  variações,  é  recorrente da 
mídia,  como  vimos  nos  programas  oficiais,  dos  discursos  políticos  e,  ao 
mesmo  tempo  em  que  nutre  o  preconceito,  gera  a  baixa-estima  dos  não-
alfabetizados  que,  apesar  de  viverem  dignamente,  incorporam  o  discurso 
da inferioridade a eles atribuída. Muitos alfabetizadores, ao se depararem 
pela  primeira  vez  com  uma  turma  de  adultos  não-alfabetizados,  parecem 
se  por
tar  diante  de  “tábulas  rasas”  que  precisam  do  saber  do  outro  para 
sobreviverem.  (PIERRO e GALVÃO, 2007, p. 52)    
 
 
Quando falamos em analfabetismo e exclusão, em desrespeito aos saberes 
e  negação  de  culturas,  estamos  falando  de  uma  sociedade  que,  apesar  de 
cronologicamente  estar  situada  no  século  XXI  ainda  enfrenta  problemas 
educacionais que se arrastam ao longo dos séculos pela falta de vontade de uma 
política  a  favor  dos  direitos  humanos  e  a  educação  está  entre  eles.  É  necessário 
então relermos as teorias pedagógicas e colocarmos a questão da educação como 
direito  humano  não  mais  como  pano  de  fundo  das  análises,  mas  como  noção 
primeira e elementar. 
 
A teoria pedagógica se revitaliza sempre que se encontra com os sujeitos 
da  própria  ação  educativa.  Quando  está  atenta  aos  processos  de  sua 
própria formação humana. Processos de fecundos encontros que estão se 
dando  entre  a  pedagogia  escolar  e  a  outra  infância/adolescência,  os 
outros jovens e adultos populares que ainda que tarde chegue às escolas 
públicas.  Quando  a  ação  educativa  escolar  ou  extraescolar,  de  formação 


65 
 
da infância, adolescência ou de jovens e adultos ou de educação popular 
se  esquece  deles  e  de  seus  processos,  movimentos  e  práticas  sociais, 
culturais  e  educativas  e  se  fecha  em  discussões  sobre  métodos, 
conteúdos,  tempos,  instituições,  calendários,  avaliação...  se  perde  e 
desvirtua.  Perde  suas  virtualidades  como  teoria  e  prática  emancipatória. 
(ARROYO, 2011, p. 28)
 
 
A  citação  de  Arroyo  (2011)  nos  ajuda  a  estabelecer  algumas  relações 
fundamentais  entre  teoria  e  prática  e  que  Freire  conclama  para  a  coerência. 
Destaca  a  formação  humana  e  os  movimentos  e  práticas  que  estamos  todos 
envolvidos como parte da inconclusão que nos arremessa para 
“o aprender”. Este 
movimento  natural  inerente  à  vida  humana  se  organiza  e  legitima  no  plano  dos 
direitos e que tem na Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, um de 
seus principais documentos. 
 
“A  Educação  de  Jovens  e  Adultos  é  melhor  percebida  quando  a  situamos 
hoje como Educação Popular” (FREIRE, 2007, p. 29). Ampliadas as visões de ser 
humano  e  de mundo em  uma  perspectiva  relacional  e de  integração  com  a  ética, 
com a inclusão e a efetivação dos direitos a EJA não poderá mais ter uma proposta 
diferente ou que esteja desassociada da perspectiva da educação popular. 
Quando a educação popular trabalha e traz à tona as memórias dos jovens, 
adultos e idosos, suas realidades e potencializa seu pensar e sua opinião. Quando 
abre o círculo de debate para que o aluno expresse seu pensamento, obviamente 
está  trabalhando  sua  autoimagem  ajudando,  mesmo  de  forma  não  intencional,  a 
reconstruí-la.  A perspectiva humanizadora que perpassa pela noção do direito de 
todos  e  da  escuta,  da  credibilidade  ao  que  o  aluno  já  sabe  e  vivencia  ajuda  a 
redimensionar a perspectiva da identidade e da autoimagem dos sujeitos. 
 
Ao  mesmo  tempo,  entretanto,  que  passeamos  pelo  histórico  da  EJA,  pelas 
conquistas  legais  e  nos  deparamos  com  contradições  existentes  nas  leis,  o 
contexto  social  real  em  que  nós,  seres  humanos,  estamos  envolvidos,  continua 
gerando  opressão  e  fazendo  com  que  as  tentativas  de  mudança  em  relação  ao 
acesso a escola e ao modo como cada sujeito analfabeto ou semianalfabeto se vê 
continue  reiterando  que  não  há  saída  para  mudanças  e  novas  construções  de 
futuro.  Esta  situação  de  “mesmice”  denominada  por  Ciampa  (2005)  para 
representar  a  manutenção  de  uma  identidade  é  bem  definida  pelo  autor  que 
esclarece  que  mesmo  involuntariamente  somos  levados  a  ser  os  mesmos.  
Vejamos o que nos diz: 


66 
 
Outros  são  levados  a  essa  situação  involuntariamente,  quando,  seu 
desenvolvimento  é  de  alguma  forma  prejudicado,  barrado,  impedido;  na 
nossa  sociedade,  encontramos  milhões  de  exemplos  de  pessoas 
submetidas  a  condições  socioeconômicas  desumanas;  às  vezes,  mesmo 
com  condições  favoráveis,  milhares,  talvez  milhões  de  pessoas    são 
impedidas  de  se  transformar,  são  forçadas  a  se  reproduzir  como  réplicas 
de  si,  involuntariamente,  a  fim  de  preservar  interesses  estabelecidos, 
situações  convenientes,  interesses  e  conveniências  que  são,  se 
radicalmente  analisados,  interesses  e  conveniências  do  capital  (e  não  do 
ser  humano  que  assim  permanece    um  ator  preso  à  mesmice  imposta). 
(CIAMPA, 2005, p. 171). 
 
Durante  as  entrevistas  quando  de  modo  mais  próximo,  conhecemos  as 
histórias  de  vida  dos  educandos  fomos  tendo  a  real  noção  de  como  identidade  e 
autoimagem  vão  sendo  construídas  de  modo  desajustado  principalmente  se 
considerarmos  que  as  histórias  de  negação  da  cidadania  iniciam  na  infância  de 
cada  um  dos  sujeitos.    Fomos  percebendo  como  a  mesmice  imposta  vai 
sedimentando  e  congelando  o  ser  humano  e  o  levando  a  ir  de  encontro  a  sua 
própria natureza metamórfica. (CIAMPA, 2005). 
É preciso que pensemos de forma mais ampla e isso requer um arcabouço 
teórico que nos dê suporte para que alcancemos a profundidade e amplitude a qual 
nos  remetemos.  Portanto,  pensar  dessa  forma,  significa  trazer  para  a  discussão 
pedagógica  o  olhar  de  outras  ciências  como  a  psicologia,  a  sociologia,  a 
antropologia, que remontam a própria constituição humana da qual a educação até 
hoje  levando  em  consideração  algumas  concepções  educacionais  ainda  vigentes, 
desconsidera.  É  refletir  sobre  o  caráter  totalizador  que  envolve  o  estudo  sobre 
seres humanos, e o qual a EJA não está isenta.  
 
Na  próxima  seção  falaremos  sobre  o  Núcleo  de  Educação  Popular  Paulo 
Freire 
– NEP lócus de nossa atuação como educadora popular e que com outros 
educadores partilhamos práticas de esperança materializadas em ações mediadas 
pelo diálogo humanizador que nos ajuda a repensar intervenções 
– metodologias – 
e concepções 
– de vida e de educação.  
 
 

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