Universidade de lisboa faculdade de letras



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CONSIDERAÇÕES  FINAIS 
Aventuras de  Diófanes  ou  Máximas  da  virtude  e  formosura  é  uma  obra  que  reflete  os 
principais  debates e as principais  ideias  presentes  na metade  do século  XVIII.  Ainda  que possa ser 
difícil  de  a  classificar  dentro  de  um  género  literário  específico  devido  a  sua  pluralidade  tanto 
estilística  quanto  temática,  é  inegável  que  ela  se  revela  enquanto  um  importante  documento 
historiográfico  para a compreensão  da sociedade  e dos ideais  políticos  do fim  do período  joanino. 
 
                                                 
288
 Idem,  Ibidem,  p. 40.
 


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As críticas  aqui  presentes,  embora,  em  poucas  vezes  possam  ser dirigidas  à figura  do rei, 
revelam-se  enquanto  uma  reflexão  acerca da sociedade,  ou seja, de todas as partes sociais  que lhe 
dão unidade.  Assim,  à revelia  da Igreja,  todas as camadas  sociais,  em  maior  ou em  menor  nível, 
encontram  aspectos  os  quais  devam  ser  corrigidos.  Das  questões  morais,  a  autora  afirma  que  é 
latente  a correção  dos comportamentos  masculinos  e femininos,  não  no  que  concerne  à natureza 
humana,  mas  as  suas  atribuições  e funções  na  sociedade.  Isto  é  dado pela  teoria  corporativista, 
uma  vez  que,  se homens  e  mulheres  não  cumprissem  com  os seus  fins  específicos,  a sociedade 
seria  prejudicada  em sua  totalidade. 
 
Desta  forma,  os  homens  deveriam  se  colocar  enquanto  melhores  maridos  às  mulhe res 
contendo  as suas paixões  e exercendo  a razão, a qual  lhe  era oferecida  juntamente  com a educação. 
Às mulheres,  cabia  a defesa  de sua racionalidade  cuja negação  até aquele  momento  implicava  nos 
erros morais  e comportamentais  presentes  nelas,  principalmente  nas mulheres  nobres  as quais,  ao 
contrário  das do povo,  estavam  mais  suscetíveis  ao ócio  prejudicando  o corpo social.  Elas,  assim 
como  os  homens,  seriam  responsáveis  pelo  bem  comum  e  consequentemente,  deveriam  ser 
educadas  a fim  de que pudessem  exercer  a sua  função  de mãe  e esposa  de modo  a contribuir  ao 
bem  comum. 
 
O bem  comum,  no  aspecto  político-jurídico,  era  de  maior  responsabilidade  do  rei,  cuja 
função  era vista  como um  ofício.  Sendo assim,  a figura  de rei  deveria  prevalecer  em relação  ao do 
indivíduo  que  ocupava  naquele  momento  aquele  cargo;  consequentemente,  a  eternidade  real 
advinha  desta percepção,  posto  que,  o Rei  era imortal  a despeito  dos indivíduos  que  exerciam  o 
poder. A autoridade  real, desta forma,  colocava-se  acima  da temporalidadeterrena,  uma  vez  que, o 
poder havia  sido  dado por Deus, ainda  que fosse  o povo a reforçá-la  diretamente.  Esta relação,  por 
sua  vez,  é  sustentada  pelos  conceitos  de  amor  e  amizade  os  quais  são  responsáveis  pela  co-
dependência  que  existia  entre  soberano  e  súditos.  O bom  rei,  pode ser  compreendido  dentro  de 
duas  esferas  interpretativas,  a primeira  de cunho  moral  no  qual  as  virtudes  exercidas  podem  ser 
desdobradas em:  bondade, humildade,  caridade,  honra  e prudência.  A segunda,  de cunho  prático, 
concerne  às  próprias  atribuições  reais  como:  assistência  aos  pobres,  nomeação  de  cargos, 
distribuição  de  mercês,  organização  da  res  publica,  defesa  militar  do  território,  incentivo  do 


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desenvolvimento  econômico  baseado  no  comércio  e  na  agricultura  e, principalmente,  a garantia 
da ordem  e da justiça.    
 
O principal  pilar  de um  Estado  reside  em  um  conjunto  de leis  fundamentais  à organização 
material  por  meio  da cobrança  de tributos,  contanto  que  eles  não  sejam  feitos  de  uma  maneira 
abusiva.  Aventuras de Diófanes ou Máximas da virtude e formosura aborda isso  de maneira  sútil 
e pouco aticulada,  a despeito  de obras contemporâneas  a ela,  ao abordar a efetividade  de algumas 
diretrizes  políticas  não  no  seu  caráter  legal  da  juridição,  mas  no  que  diz  respeito,  a  sua 
aplicabilidade  moral.  A discussão  apresentada,  em outras  palavras,  muito  mais  do que uma  defesa 
cega  das estruturas  do estado  e da ordem,  ainda  que  sejam  fundamentais,  é o seu  aspecto  moral, 
ou seja, se os tributos  e as leis  são justas  para os súditos.
 
Teresa  Margarida  da Silva  e Orta ao se referir  à república,  o faz  no sentido  mais  estrito  da 
palavra,  ou  seja,  naquilo  que  tange  a  res  publica  e, muitas  vezes,  no  seu  caráter  teleológico  das 
atribuições  reais.  Em  consequência,  a figura  do rei  e as suas  funções  não  são indissociáveis,  uma 
vez  que,  antes  de suas  características  específicas,  ele  deveria  reproduzir  e assumir  todas aquelas 
responsáveis  para  o  cumprimento  de  seu  papel  social.  Aqui,  apesar  de  muitas  vezes,  a 
historiografia  fazer  o recorte  temporal  baseado  nas  figuras  individuais  de homens  destinados  à 
regência,  ela  é apresentada  como  um  contínuo,  o qual  deve  ser sempre  melhorado  em  função  da 
harmonia  social.  O estado,  portanto,  está  em  constante  construção  e pouco  associado  a imagens 
dos  indivíduos  ainda  que  durante  a  monarquia  absolutista  haja  uma  preocupação  em  torno  da 
construção  imagética  e simbólica  da personificação  do poder real. 
 
No que  tange  as constituições  de poder  e os limites  a ele,  é claro  que  o rei  não  concentra 
todas  as  atividades  nem  governa  sozinho  tal  como  a  historiografia  pós-revoluciona  cunhou  no 
senso  comum.  Ao rei  cabe a delegação  do seu  poder a fim  de que o reino  seja o mais  bem gerido
posto  que,  ele  seria  o principal  governador  de todos os governadores.  Assim,  a historiografia  da 
Época  Moderna  já apresenta  uma  tendência  de revisitar  alguns  conceitos  políticos  os quais  eram 
amplamente  utilizados  para classificar  esses governos. 
 


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Do ponto de vista  de Aventuras de Diófanes ou Máximas da virtude e formosura, o que se 
observa  é a insistência  que Teresa Margarida  da Silva  e Orta desprende  para reforçar  a divisão  do 
poder. Essa visão  que é contemporânea  do sistema  político  da época é, portanto,  o suficiente  para 
refutar  a tese  de oitocentos  de um  monopólio  da figura  real.  Compreende-se  que  os mecanis mos 
simbólicos  de dominação  do rei  junto  com a excessiva  propaganda  de seus  feitos  levariam  a essa 
determinada  inferência,  o que, na verdade, poderia apenas indicar  essa preocupação  com a questão 
da memória.  O Estado, para a autora,  portanto,  basear-se-ia, na forte  imagem  do rei  o qual  deveria 
ser síntese  e personificação  de todo o poder político,  posto que,  para além  da natureza  divina  do 
seu poder, era a instância  mais  importante  desse corpo social. 
 
A razão,  paralelamente,  a figura  real  ocupa um  lugar  central  ao longo  de toda a narrativa. 
O claro  elogio  feito  a ela  é  reflexo  de uma  sociedade  que  começava  a se  fundamentar  na  lenta 
separação  entre  a  justiça  dos  homens  e  a  divina.  É  importante  frisar  aqui  que,  tal  como  foi 
apresentado,  essa separação é feita  apenas  de forma  prática,  posto que, o objetivo  das duas justiças 
seria  a mesma.  Assim,  a razão vem  como ferramenta  à criação  de leis  positivas  cujo único  objetivo 
é  a  administração  das  questões  do  cotidiano  de  um  determinado  lugar.  Reforçando,  assim,  a 
autonomia  e a pluralidade  de realidades. 
 
Aventuras  de  Diófanes  ou  Máximas  da  verdade  e  da  formosura  tem  pretensões  de 
construção  de modelos.  Sejam  eles  morais  ou  políticos,  em  nenhum  momento,  a autora  se desvia 
desse objetivo.  No entanto,  ainda que os modelos  sejam pretensamente  universais  e que a perfeição 
seja  única,  os  vícios  seriam  muitos  como  são  demonstrados  nos  reinos  por  onde  a  família  real 
tebana  caminha.  As exceções  a essa realidade  seriam  três:  Tebas  que  já se apresenta  enquanto  o 
reino  ideal,  Náscia  que  se  constrói  para  assim  o  ser  e  Delos  que  quando  tem  os  seus  regentes 
regressos  das  aventuras  goza  de  um  estado  de  paz  e  justiça.  Assim,  um  reino  ideal,  para  além 
dessas duas  características,  deveria  apresentar  uma  economia  balançada  com um  povo voltado  ao 
trabalho  assim  como a sua nobreza,  garantindo  a ordem  e o equilíbrio. 
 
 
 

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