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Diófanes ou náximas da formosura não tem nenhuma  pretensão  em ser colocado  como um  tratado 
ou  um  livro  de  filosofia  ou  de  história  como  tantos  outros  da  época.  Este  fator  faz  com  que  as 
comparações  com  os  seus  contemporâneos  devam  ser  realizadas  com  muito  cuidado 
principalmente  no  que  tange  aos  escritos  posteriores  à  primeira  edição.  Feitas  essas  ressalvas 
metodológicas,  pode-se, enfim,  analisar  as máximas  políticas  de Teresa Margarida  da Silva  e Orta. 
 
Uma  das  peculiaridades  do  século  XVIII,  embora  não  seja  a  única,  é  o  seu  caráter  de 
transição  entre  uma  velha  ordem  a qual  já começava  a ser rechaçada  e a popularização  de novos 
ideais  teóricos  os quais  ainda  não haviam  sido postos, completamente,  em prática.  Se, por um  lado, 
a  Europa  vivenciava  uma  efervescência  de escritos  e  publicações,  de  novas  teorias  e  de  longos 
debates  acerca  da  existência  humana  e  de  suas  relações,  por  outro  começava  a  forjar 
cientificamente  as  diferenças  entre  um  "igual"  e  um  "outro".  É  desse  movimento  constante  de 
expansão  das fronteiras  de ideias  e da delimitação  e proteção  das fronteiras  físicas  que se insere  a 


88 
 
presente  obra.  Levando-se  em  consideração  as  particularidades  portuguesas  nesse  período, 
algumas  compartilhadas  também  com  Espanha  e Itália,  é preciso  compreender  os embates  entre  a 
tradição  cristã  e  o  desejo  pela  modernização  do país.  Assim,  ainda  que,  ela  não  apresente  uma 
crítica  contundente  à política  burocratizada  do  Portugal  setecentista  nem  ainda  trace  um  debate 
entre  os  limites  da  interferência  da  Igreja  católica  nos  assunstos  do  reino,  como  já  aparece  em 
obras publicadas  a posteriori, ela revela  nuances  dos costumes  e de uma sociedade  que se constitui, 
muitas  vezes,  à  revelia  das  políticas  institucionais.  Estas,  por  sua  vez,  procuram  forjar  novas 
práticas,  comportamentos  e morais  que, não necessariamente,  seguiam  apenas os dogmas  cristãos, 
mas  que  se  responsabilizavam  pela  normatização  de  uma  nova  cultura  a  qual  vinha  sendo 
construída  desde  o século  XVI.  Manifestada  pela  figura  do cortesão  e pelo  espaço  da corte, esta 
cultura  visava  a construção  de uma  nobreza,  não apenas no seu sentido  personalista,  mas,  também, 
em  um  ethos o qual  deveria  ser seguido  por todos os cavaleiros,  inclusive  pelo  rei
166
.  É de dentro 
desse círculo  que Teresa  Margarida  da Silva  e Orta escreve  e tece suas  críticas  aos seus  pares.      
 
Resultado  de  um  choque  entre  nova  e  velha  ordem,  o  século  XVIII  tem  a  partir  de  sua 
segunda  metade  a grande  viragem  epistemológica  e cultural.  No entanto,  ainda  que  Aventuras de 
Diófanes  ou máximas da virtude e formosura seja  datado da metade,  é evidente  os traços  dessas 
transformações  do universo  de  expectativas  que  acarretarão  em  rupturas  e conflitos  políticos  ao 
longo  do século  seguinte.  Consequentemente,  conclui-se  que  a obra e Teresa  Margarida  da Silva 
e Orta é reflexo  de seu  próprio  tempo  negando  a sedutora  inclinação  a considerá-la  desligada  de 
sua  temporalidade  e reforça-se  o caráter  reformista  ao invés  de revolucionário  ou  transformador 
tanto  da obra quanto  da autora.  Assim,  para Orta, as práticas  e os comportamentos  deveriam  ser 
reformados  sem  que  a estrutura  também  o fosse,  porque  como  será  argumentado  futuramente,  a 
estrutura  estaria  corrompida  pelos vícios  dos indivíduos  e, não que ela fosse  falha.   
 
Essas  denúncias  da  autora,  no  entanto,  não  eram  posições  únicas  nem  partiam  de  um 
descontentamento  individual,  mas  eram  reflexo  de  um  determinado  grupo  de  indivíduos  que 
criticavam  aberta ou veladamente  as políticas  de D. João V e os comportamentos  da sociedade  de 
corte que o cercava.  É mister  ressaltar  que essas mesmas  pessoas, as quais  criticavam  esse sistema, 
faziam  parte  dele,  característica  que  justifica  a  posição  de  defesa  da  manutenção  da hierarquia 
                                                 
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 José Esteves Pereira.  Percursos de História das Ideias. Lisboa:  Imprensa Nacional-Casa  da Moeda, 2004,  p. 74.
 


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social  e  do  status quo.  Vale  lembrar,  também,  que  durante  o  período  de  publicação  do  livro, 
Portugal  se encontrava  sob a dupla  censura,  régia  e clerical,  que  dificultava  a materialização  das 
opiniões  contrárias  à  ordem.  Alguns  estudiosos,  consequentemente,  defendem  que  o  tempo  de 
espera  entre  as aprovações  das censuras  e a publicação  do livro  que  aconteceria,  somente  após a 
morte  do rei  e a ascensão  de D. José I, teria  sido  intencional.
 
A  relevância  desses  dois  aspectos  contextuais  é  dada  para  compreender  os  limites  do 
documento  enquanto  fonte  historiográfica.  Sendo a diferença  entre “verdade”  e “mentira”  tão cara 
à contemporaneidade  e, principalmente,  à história  política,  são poucos os trabalhos  historiográf icos 
que  elegem  obras ficcionais  anteriores  ao século  XX enquanto  documento  primário.  Acredita-se, 
no  entanto,  que  Aventuras  de  Diófanes  ou  Máximas  da  virtude  e  formosura  pode  ser 
compreendido,  dentro  de  sua  multiplicidade  de  género  textual,  enquanto  um  tratado  político, 
principalmente,  no  que  concerne  os  livros  II,  VI  e  VII.  Os  outros  livros  que  se  destinam  ao 
comportamento  moral  da sociedade,  muitas  vezes,  não são compreendidos  no seu  aspecto político 
quando,  na  verdade,  como  já  foi  expressado  no  capítulo  anterior,  são  construídos  por  Teresa 
Margarida  da Silva  e Orta  enquanto  tal.  Percebe-se, portanto,  que  moral,  política  e justiça  eram 
aspectos  indissociáveis  entre  si  e  que  se  influenciavam  no  quotidiano  português.  Ainda  que 
consensualmente,  a  historiografia    periodize  ao  longo  dos  setecentos  a  construção  da  opinião 
pública  e da separação da esfera  pública  da esfera  privada,  Portugal  ainda  se encontra  ao largo  de 
toda essa discussão,  revalidando  os laços e dinâmicas  sociais  pautadas  no universo  de expectativas 
medievais
167
.  Assim,  vale  ressaltar  que se hoje se tem  o monopólio  da visão  estoica  de que não há 
espaço para a emoção  na política,  o século  XVIII  ainda  estava  permeado  por rituais  e mecanis mo 
extremamente  personalistas.  Daí  depreende-se  a  necessidade  da  correção  dos  hábitos  para  que 
esses se tornem  os mais  racionais  possíveis,  ou seja,  os mais  justos
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  e, consequentemente,  o bem 
comum  seja atingido.     
 
É  preciso,  portanto,  compreender  o  vocabulário  político  usado  pela  autora  e  as  suas 
implicações  ao longo  da obra. Conceitos  como  justiça,  liberdade,  amizade,  felicidade,  rei,  rainha 
e nobreza  devem  ser historizados  e compreendidos  dentro de suas definições  específicas.  Para além 
                                                 
167
 Sérgio Buarque De Holanda,  Raízes do Brasil. São Paulo:  Editora Companhia  das Letras, 2013,  pp.36 ss. 
 
168
 António Manuel Hespanha, A política perdida. Curitiba:  Juruá Editora,  2010,  pp. 66 ss.
 


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disso,  os espaços e a circulação  ocupados  pelas personagens  têm  um  papel  central  na narrativa,  no 
sentido  em  que é neles  e partir  deles  que as máximas  são feitas.  Assim,  tendo  esses tópicos  como 
ponto  de  partida,  procurar-se-á  esboçar  o  debate  acerca  do  ideário  social  e  político  da  autora. 
Destas  múltiplas  possibilidades  de  exercício  do  poder  e  da  própria  vida  política,  tem-se  que  a 
monarquia  não se construía  de forma  única  e fixa,  mas  sim,  enquanto  reflexo  das relações  entre  os 
atores  políticos  inseridos  em  um  determinado  contexto  espacial.  É  desse  movimento  que  Teresa 
Margarida  da Silva  e Orta se vale  para a sua discussão  até à construção  utópica  de um  reino  utópico  
dado no último  capítulo.  Se, por um  lado, as personagens  têm  como objetivo  a conservação  de suas 
qualidades  morais,  os  espaços  estão  em  constante  formação  e  reformulação  nessa  constante 
procura  pela  justiça  e pelo  bem-comum  de seus  habitantes.       
 



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