Universidade de lisboa faculdade de letras



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2.6 Do Género
 
 
Deixado  o género  à revelia  em  muitas  análises  de  Aventuras de Diófanes ou máximas de 
virtude  e  formosura,  o  mesmo  aparece  como  um  dos  principais  fios  condutores  do 
desenvolvimento  do romance.  Pode-se afirmar  que Teresa Margarida  tinha  como objetivo  a escrita 
de uma  série  de recomendações  que perpassariam  todas as esferas  de uma  sociedade  que sob o seu 
olhar,  precisaria  ser reformada.  As máximas  apresentadas  poder-se-iam considerar  quase como um 


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tratado pedagógico.  A correção das práticas  viciosas  se daria  pelo estabelecimento  de modelos  que 
deveriam  ser amplamente  seguidos,  modelos  que se construiriam  sob as ideias  das luzes  e basear-
se-iam  na razão e na ciência.   
 
Ciente  das discussões  de seu tempo, destina-se  uma grande  parte da obra ao comportamento 
feminino  que  seria  tão  importante  quanto  o  governo  de  um  bom  rei.  Dessa  forma,  a  questão 
feminina  e a política  são contrapostas  ao longo  de toda a narrativa  com  o intuito  da construção  de 
um  reino  justo  e com bons súditos. 
 
Essas novas  ideias  apresentadas  pela autora,  ainda  que não possam  ser consideradas  em sua 
totalidade  enquanto  progressistas,  transgressoras  e  revolucionárias,  apresentam,  de  fato,  uma 
mudança  em  relação a percepção da mulher  na sociedade.  Primeiramente  pelo fato do alto número 
de  publicações  ainda  no  século  XVIII,  sugerindo  uma  circulação  considerável  para  a  época. 
Segundamente  por  ser  uma  obra  publicada  por  uma  mulher  em  um  período  em  que  muito  se 
procurava  limitar,  cercear e condicionar  o começo  da participação  feminina  no espaço público.  E, 
por fim,  pelas ideias  trabalhadas  e defendidas  em  todo o romance. 
 
Não se pode, no entanto,  negar  o paradoxo  presente  nas ideias  de Teresa Margarida.  Como 
já  foi  mencionado  anteriormente,  essa  característica  não  era  exclusiva  da  autora,  mas  estava 
presente  nas  ideias  de  todo  o  período.  Em  sua  condição  enquanto  mulher,  se  por  um  lado  ela 
pregava  o decoro e a submissão,  por outro,  há o forte  questionamento  da condição  feminina.  Ao 
defender  a  educação,  propôs  a existência  de  uma  alternativa  à  função  ornamental  da  mulher  na 
sociedade,  defendendo  que pode ser educadora  e, até mesmo,  governante,  uma  vez  que, dotada de 
razão e educada nos mesmos  preceitos  dos homens,  em nada deixaria  a desejar. Obviamente,  cabe 
a ressalva  de que esse modelo  por ela  construído,  como  fora  frisado  ao longo  do capítulo,  limitar -
se-ia à nobreza,  posto que  lhe  caberia  estabelecer  os comportamentos  a serem  imitados.  A mulher 
nobre  deveria  ser  educada  aos moldes  das novas  ideias  a fim  de  participar  ativamente  da corte, 
mas,  por outro  lado, deveria  preservar  as virtudes  que garantiriam  a sua formosura.  Estabelecer  o 
equilíbrio  entre  os opostos, seria,  então o grande  desafio. 
 


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A solução  se apresenta  na figura  de Hemirena-Belino.  Ainda  que ela  não  seja uma  síntese 
das qualidades  de homens  e mulheres  nem  um  ser andrógino,  é no seu percurso  enquanto  homem 
e  na  preservação  das  suas  qualidades  femininas  que  é  recompensada  no  final  do  romance.  Já 
aprendidas  as virtudes  das mulheres,  deveria  exercitar  as masculinas  para que o seu disfarce  fosse 
bem-sucedido  e assim  o fez.  Assim,  o seu  destino  só seria  cumprido  após  tantos  anos  devido  ao 
equilíbrio  alcançado  entre  coragem  e  decoro,  força  e  delicadeza,  formosura  e  virtude.  Desta 
personagem,  pode-se perceber  que  o género  se manifesta,  muitas  vezes,  como  um  lugar  de ação 
no qual  as características  já estão pré-definidas  e os atores  as incorporam  exercendo  assim,  o seu 
papel  de acordo com  as necessidades  e expectativas  de dado momento.  Tal  percepção  teorizada 
por Judith  Butler,  vê  o género  enquanto  uma  performace
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  a qual,  por um  lado,  possibilita  uma 
infinidade  de venir a être, mas que por outro, reinforça  os limites  e engessa  as categorias  de homem 
e  mulher.  Esta  contradição,  cristaliza-se,  então,  na  figura  de  Belino  cujo  quem  exemplif ica 
exatamente  a liberdade  e o aprisionamento  da própria  delimitação  de género:  se enquanto  Belino 
ele  poder  performar  uma  masculinadade  alternativa,  enquanto  Hemirena  está  circunscrita  pelas 
expectativas  sociais  que cabem  a ela enquanto  mulher  pertencente  à nobreza. 
 
Aventuras de Diófanes ou máximas da virtude e formosura, nesse  panorama,  revela-se  um 
importante  documento  para  a  leitura  das  transformações  do  imaginário  ocorridas  ao  longo  do 
século  XVIII.  Propõe  a  discussão  de  género  enquanto  um  assunto  político  ao  atrelar  o 
comportamento  do  homem  e  da  mulher  ao  papel  desempenhado  na  constituição  dessa  nova 
sociedade  vislumbrada  pela  autora  e por seu círculo  social.  Se ao homem  cabia  uma  participação 
maior  dentro  de casa ao exercer  o seu papel  enquanto  marido  e pai,  a mulher  deveria  ser educada 
para além  do prazer  masculino,  como  era pregado  até então.  Exacerba-se  a necessidade,  segundo 
a autora, da reforma  dos súditos  e dos governantes  para a construção  de uma  nova  república  a qual 
só poderá ser erguida  por homens  e mulheres  que compartilhassem  desses mesmo  ideais  modernos.
 



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