Universidade de lisboa faculdade de letras



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2.4 Das Relações Afetivas
 
 
As relações  afetivas  por praxe  são relegadas  para áreas de pesquisa  como  a psicologia  e  a 
sociologia  a partir  de uma  ideia  de subjetividade  e do próprio  paradigma  construído  ao longo  do 
século  XVIII  da valorização  da ciência  em detrimento  das emoções.  Se no auge  do positivismo,  a 
racionalidade  era  vista  como  a  maior  qualidade  de  um  indivíduo  e  sendo  essa  responsável  pela 
cisão  entre verdade  e narrativa,  o século  XVIII  ainda  considerava  o amor  e a amizade  como temas 
políticos  e da esfera  pública.  Para  além  disso,  é a partir  das  relações  entre  homens  e mulheres  e 
desses com seus  pares que se compreende  não somente  o tecido  social,  mas  a própria  dinâmica  de 
poder  entre  eles.   Assim,  Pedro Cardim  destaca  a centralidade  dos afetos  para  a coesão  social  e 
política  do setecentos  português  e europeu,  uma  vez  que, eles  seriam  os elementos  de construção, 
manutenção  e legitimação  de ligações  sólidas  e duradouras
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.
 
Quando se pensa em relações  afetivas,  a família  se apresenta  como a primeira  no imaginá r io 
coletivo.  Esta,  configurando-se  enquanto  um  dos principais  pilares  sociais,  é vista  como o início  e 
o fim  do desenvolvimento  individual,  uma  vez  que inicialmente  as pessoas se apresentamenqua nto 
filhas  e  filhos,  depois  como  esposas  e  maridos,construindo  uma  nova  unidade  familiar.  A 
importância  das relações  afetivas  tem  um  papel  central  na  narrativa  de Teresa Margarida  da Silva 
e Orta, sendo o casamento  o catalisador  de toda a narrativa.  Sem o intuito  de analisar  aqui  o caráter 
                                                 
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  Pedro  Cardim,  O  poder dos afectos:  ordem  amorosa e  dinâmica política no Portugal do Antigo Regime,  Tese 
(Doutoramento),  Lisboa: Universidade Nova de Lisboa, 2000,  p. 5.   


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simbólico  e político  dessas relações  nesse  primeiro  momento,  elas  serão pensadas a partir  do jogo 
de poder e das hierarquias  que essas estabelecem,  enfraquecendo  o discurso  intencional  da autora 
de apresentar,  muitas  vezes,  uma  tensão  entre  as categorias  homem  e mulher. 
 
É importante  distinguir  que  quando  se pensa em  categorias,  elas  são construídas  de forma 
muito  bidimensional,  a  partir  de  características  que  devem  ter  e  de  expectativas  a  serem 
correspondidas.  Como  visto  anteriormente,  mulher  e  homem  apresentam  especificidades  muito 
claras  e  distintas,  mas  que  quando  sobrepostas  às  próprias  personagens  da  trama,  revelam- se 
contraditórias.  Isso comprova  que ainda  que seja inegável  a existência  de um  sistema  patriarcal  o 
qual,  a partir  do século  XVIII,  preocupa-se  em  esconder  as mulheres  da elite  e encerrá-las  dentro 
de  muros  -  simbólicos  ou  não  -  no  cotidiano  ele  se  manifesta  de  formas  plurais  e  menos 
sistematizadas  do que quando  são teorizadas.  Essas  relações,  por conseguinte,  ainda  que estejam 
permeadas  pelas discussões  da Querelle des femmes e da discussão  entre natureza  e cultura,  podem 
ser apresentadas  de forma  muito  mais  brandas  e harmoniosas  do que normalmente  são colocadas.   
 
A preocupação  de Teresa  Margarida  da Silva  e Orta em  reeducar  os comportamentos  e a 
moral  frisa  a necessidade  da razão, nos homens,  e da formosura,  nas mulheres,  uma  vez  que, essas 
seriam  responsáveis  por transformar  uma  característica  em  vício  ou em  virtude.  A autora  procura 
apresentar  exemplos  positivos  e  negativos  sobre  o  mesmo  tema,  demonstrando  por  meio  do 
discurso  das  personagens  ou  de  suas  ações  os  seus  limites.  A  paixão,  por  exemplo,  ainda  que 
condenada,  na  esmagadora  maioria,  apresenta-se  enquanto  necessária  para  a sustentação  de  um 
casamento  de sucesso.  O que  se observa  é que  a razão  e a formosura  devem  interceder  a fim  de 
nortear  e limitar  os costumes  e as paixões. 
 
A  relação  familiar  ocupa  uma  centralidade  inquestionável  na  narrativa.  Tratando-se  da 
história  de uma  família  nobre  que é vendida  como  escrava, as aventuras  se resumem  a um  jogo de 
encontros  e desencontros,  de familiaridade,  de reconhecimento  e de estranheza  que  se articula m 
em diferentes  espaços com diferentes  realidades  sociopolíticas.  A família  tebana  não só é o núcleo 
da  narrativa  como  também  é  o  elo  que  mantém  todas  as  personagens  ligadas  principalme nte 
quando  estão longe  umas  das outras. 
 


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Se,  como  já  foi  abordado  anteriormente,  Delmeter  afirma  que  os  filhos  não  devem  ter 
conhecimento  do amor  de seus  pais  para  que  se  sustente  a  autoridade  e  a hierarquia  da relação, 
Hemirena  tem  uma  relação muito  próxima  tanto com o pai quanto  com a mãe, manifestando  assim, 
carinho,  ternura  e preocupação.  Essa  família  tem  como  pilares  o respeito  que  a princesa  tebana 
tinha  por seus  pais e o zelo  que os reis  tebanos  deveriam  ter para com a sua  filha.  Essa relação,  ao 
contrário  das  outras,  é  descrita  todas  as  vezes  de  forma  muito  harmoniosa  e  coesa  sem  haver 
conflito  entre  as  partes.  Mesmo  quando  se encontram  escondidos  sob as  identidades  de  Belino, 
Delmeter  e Antionor,  a dinâmica  em  nada  muda,  sendo  o primeiro  sempre  submisso  e obediente, 
a segunda  protetora  e o terceiro  um  tutor.  As outras  relações  que são mostradas,  são marcadas  por 
conflitos  sempre a partir  de uma  insubordinação  dos filhos  reféns  de suas próprias  paixões.  Assim, 
Anquísia  desobedece  ao seu  pai  ao maltratar  Hemirena  ou Ibério  ao declarar  guerra  contra  o seu 
pai  após esse negar  a busca  pela família  tebana. 
 
É curioso  ressaltar,  no  entanto,  que  embora  o casamento  seja  o motor  de  As aventuras de 



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